sábado, 31 de outubro de 2015

O céu encarnado…



Abraço a tarde no instante em que o sol lavra o céu de encarnado, a lua já se pressente sobre a campina; e entre mim e o horizonte há uma desgarrada ao toque insistente do olhar.
No Alentejo, a terra rasa estende os horizontes e permite-nos espreitar o sol a espreguiçar-se antes de adormecer.
O céu encarnado...
O céu tomou o tom de barro da terra dos meus passos; e sentindo o cheiro dessa mesma terra e com os pés sem pudores beijando a planície, sou eu quem tomou o céu, por ti, no azul perfeito do amor que nos reveste os dias.
Fecho os meus braços escondendo a tarde como quem te abraça.
E deixo-me ficar contigo.
A planície, a lua e o tu… o céu onde não cabem bruxas ou santos, o céu que não se apaga nunca. Nem ao anoitecer.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

A casa das coisas de sonhar...

Sim, é verdade que guardo em mim cada mais pequeno detalhe que me ofereces, todos na casa das coisas de sonhar.

Guardo-os para mim como segredos, que o divino posto em palavras ditas ou escritas, morre às mãos da mais mundana e humana condição.

Assim, aquilo que de ti transparece na denúncia do olhar e também às vezes de algum verso que escrevo, aquilo que para a gente parece muito mas que é tão pouco do tanto que guardo, são frutos doces das muito breves distracções da alma enquanto se entretém a brincar com a lua no espaço do infinito a que acedem os poetas...

Quando sonham.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Ser rei...


Não é rei quem se abriga do céu passando a noite num palácio, mas sim aquele que até dentro de si abre espaço para melhor sentir o céu.

Enquanto deixo Lisboa, a noite vai caindo sobre a estrada à minha frente, mas com a lua a não permitir que o breu se instale.

O luar é definitivamente um tanto de luz e de dia que permanece.

Penso no meu almoço e nos dias de liberdade da minha amiga, rezo o terço, escuto Pedro Barroso no Spotify, saboreio contigo um Pastel de Belém e um chá por via do desejo...

O Homem é uma fórmula única mais ou menos secreta com muito daquilo que não cabe em Tabelas Periódicas.

Chego ao hotel depois de atravessar a mata, instalo-me e vou jantar.

À esquerda da mesa aonde me sento em frente a uma jarra de margaridas há um painel que evoca Os Lusíadas e o canto sexto: "A deusa que nos ceos a governava".

É Vénus, a deusa romana do amor.

Releio as palavras todas que me deste, revisito os beijos e as tardes em que penduramos a prudência para sermos nós e maiores num eterno abraço.

O amor dos deuses...

Tenho o céu cá dentro.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

O aroma doce e quente do chocolate…


Destapamos cada instante no misto de ousadia e curiosidade que nos impõe a alma, e vamos aos poucos temperando os dias com o aroma doce e quente do chocolate...
Tudo, por sobre os beijos que sabem a morangos maduros lavados com a água mais límpida da mais fresca das fontes.
O sol incendeia de mel a corola das flores chamando até si as abelhas lá para as bandas da primavera; e os lírios juram fidelidade ao campo resplandecentes no seu fato de gala de corte fino, obra de um divino alfaiate.
Cantam cigarras e pássaros perfumando os caminhos…
Tudo isto vi num dia chuvoso de Outono, sentado ao teu lado e em frente a um chá de camomila numa esquina de Lisboa.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

O vento...



O vento que parte os troncos das árvores do pomar, é o mesmo vento que mói o trigo no moinho e faz a farinha, precursora do pão.
O vento que nos leva o perfume, é o mesmo que um traz um novo aroma que tomou da giesta, das rosas ou do alecrim.
O vento que seca a roupa no estendal que pusemos na varanda, é aquele mesmo vento que faz chover.
É o mesmo vento que brinca com as nuvens por cima das rotinas e das coisas banais, e com elas desenha as histórias perfeitas para acompanhar quem nunca se cansa de olhar o céu.
O vento...
Como os nossos dias.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

O tempo tem ondas e ventos…



Com a folha de um velho jornal dobrado nos lugares e nas medidas certas, construo um barco que faço navegar pelas horas em que espero por ti.
O tempo tem ondas e ventos…
À proa ponho um cravo num tom rosado, enfeito com bandeiras coloridas e soltas todo o corpo da proa à ré, e vou notando que o sol e o tempo, queimam e apagam letra a letra, as histórias impressas na face das notícias que já não são destes dias.
Sobre o espaço em branco surgem agora os detalhes todos de um tempo novo, letras, o nosso tempo, a minha espera…
Tu chegarás um dia, a sorrir com o olhar por me veres aqui, trazendo nos braços infinitas folhas amarrotadas de jornais, recados que fui escrevendo de liberdade enquanto esperava por ti
Os teus braços carregando as carícias todas que me revestem os desejos.

domingo, 25 de outubro de 2015

Enquanto “Roma” parece arder


O mundo não se divide em esquerda e direita, norte e sul, este ou oeste; o mundo… somos todos nós, os seres que nele habitamos, humanos ou não; e aquilo que o faz crescer e o engrandece, é a fé e a convicção com que seguimos os nossos valores e ideais no máximo respeito por todos aqueles que os têm diferentes de nós.
A liberdade é a maior festa, e a tolerância a maior virtude e a regra do “jogo”.
Para que não me alcunhem de um Nero alucinado a tocar a lira de poemas de amor enquanto “Roma” arde, sinto-me quase na obrigação de escrever este texto, por entre uma profusão de palavras “obscenas”, números e memórias do “Youtube” com que toda a gente parece andar a “lutar” arduamente nas redes sociais, virtuais ou não.
Tudo serve como arma de arremesso contra os “diferentes”; e a política que teve sempre como objectivo a conquista do poder é hoje definitivamente um “Jogo da Glória” ao sabor dos dados e por entre o vazio da ideologia.
Onde é que estão e para que é que contam os ideais para um individuo que votou PS, PCP ou BE, por convicção, e agora e sem saber sequer as cedências que estão a ser feitas de parte a parte, defende cegamente o acordo que não conhece?
Da mesma forma, que peso têm os ideais de direita da PàF nos memorandos que se abrem a todos o itens que na campanha eleitoral serviram para arrasar o programa do PS?
A democracia assenta na expressão do voto, e aqui apetece-me recordar que um “democrata” que na noite das eleições e quando conhecidos os resultados, afirma estar de luto, é alguém que despreza a decisão dos demais e que tem de resolver urgentemente o seu conceito de democracia.
Um Presidente da República ou qualquer outro cidadão, não pode em circunstância alguma excluir votos ou gente do jogo democrático. O voto de Cavaco Silva vale tanto como o voto da Catarina Martins ou de qualquer cidadão. Sendo o primeiro magistrado da nação a fazer esta discriminação e exclusão, é emasiado grave.
A maioria de esquerda que se vislumbra no Parlamento e que já elegeu o novo Presidente tem tanta legitimidade para condicionar a vida e as decisões do país, quanto o presidente de decidir dar posse ou não a um determinado governo. O Presidente foi eleito por uma maioria absoluta de votos expressos na sua pessoa e nas suas ideias, para agir por si, e não como intérprete do que se passa no Parlamento. É bom lembrar à esquerda que no Estado Novo e após a “bomba” Delgado, é que a Assembleia Nacional elegia o Presidente.
E a democracia é tudo isto sem que o Homem de direita seja “Fascista” ou o de esquerda seja um artífice de um qualquer Gulag ou um adepto da Coreia do Norte.
O respeito entra sempre neste jogo.
Eu considero que o dia mais importante para a minha geração foi o 25 de Abril de 1974, e a liberdade então conquistada por entre a poesia de uns cravos vermelhos de raiva e querer, é uma “rapariga” um pouco mais nova que eu, mas que eu vi e vejo crescer com o orgulho que se tem com os amigos que nunca nos deixam.
Não ofendam mais esta minha irmã que já tem quarenta e nove anos, que brincou em criança com “Mocas” ou “Muralhas de Aço”, mas que hoje é uma senhora respeitada e que deve dar-se ao respeito.
Quem pensa não precisa que as agremiações partidárias ou outras pejadas de “boys” falem por si, e entre nós e qualquer atitude há sempre um país e muita gente que sofre.
O Presidente teve toda a legitimidade para nomear Passos Coelho como Primeiro-Ministro e a Assembleia da República tem toda a legitimidade para o rejeitar.
Depois…
Que reine o bom senso por entre as “legitimidades” de cada agente político e que se dê rapidamente a voz ao povo para legitimar tudo aquilo que existe hoje em jogo e que não foi sufragado por não existir em cima da mesa antes de 4 de Outubro.
Desculpem o desabafo numa manhã de chuva, chamem-me todos os nomes que entenderem por justos, classifiquem-me como quiserem.
Eu continuarei a ser um cidadão que respeita o Estado Social e as pessoas por tudo aquilo que penso e comprovadamente pelo desconto de mais de 50% do meu salário mensal, continuarei a beneficiar da isenção de nunca ter sido nomeado politicamente para lugar algum, continuarei a pensar pela minha cabeça, a não desprezar ou discriminar ninguém por nada e até pela política, a ser um adepto da liberdade, da diversidade, do meu país…
E a escrever poemas de amor todas as manhãs seguindo o coração na expressão de um amor que é só meu e não cumpre regras, pelo menos as mais conhecidas.
Tenho dito.
Um abraço e bom domingo. 

sábado, 24 de outubro de 2015

A solidão, a inevitável pátria dos poetas...



Na solidão, a inevitável pátria dos poetas, os versos que teço são palavras rebeldes em forma de braços, aqueles fortes que eu desejo me envolvam nas noites mais frias de um Outono que será longo.
É mérito dos poetas desenharem na alma a vida com que sonham, vivendo-a na discreta intimidade e no mais secreto silêncio; essa vida tantas vezes sem nada daquilo que deles se espreita à face dos dias banais.
Na minha solidão desenhei um sonho, uns braços iguais aos que me ofereces nas tardes singulares de passeio, e construí cidades com ruas e sem fronteiras, com um porto, barcos, com casas de portadas largas...
Na minha solidão, corto às vezes a rota previsível de todas as noites e paro às esquinas que ousei sonhar para viver contigo, nos teus braços que serão sempre os meus versos... e sou afinal tão pouco do tanto que todos pensam que de mim se vê.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Um velho marinheiro e o Duende na Ilha dos Poetas



Um velho pirata, marinheiro cúmplice dos cabos e promontórios, de todas as esquinas secretas ou mais ou menos discretas dos sete mares, navegava um dia ao sabor do vento, quando lhe apareceu lá ao fundo e mais ou menos envolto pelas nuvens, a montanha acendida por um enorme vulcão.
Será o fim do mundo?
Acelerou a embarcação e chegou cansado a uma praia deserta mas de areia fina temperada de muitas conchas.
Procurou uma fonte onde bebeu água, acendeu uma fogueira, retirou do barco uma mochila e uma esteira, e já se preparava para dormir quando ouviu passos. Primeiro ao longe, depois mais perto, passos pequenos, mas de gente por certo.
Eis então que de repente, por mérito da fogueira e do seu clarão, viu surgir um ser pequeno e a sorrir que lhe disse de pronto:
- Não te assustes velho marinheiro, eu sou um Duende, um dos muitos que há por aqui pela Ilha dos Poetas.
Eu levantei-me para lhe estender a mão, mas ele estendeu-a primeiro, e depois do cumprimento sentámo-nos por ali os dois a conversar.
- Sabes meu querido Duende, talvez eu vá ficar por aqui uns tempos a descansar. Estou velho e algo acabado.
- Velho não estás, talvez estejas só um pouco cansado…
- Sim.
- Então chegaste ao lugar certo. Amanhã subimos os dois por um caminho secreto e mostro-te uma casa a meia montanha, algures entre o mar e o fogo.
E concluiu.
- Vais gostar de lá morar. Não te esqueças que há sempre uma ilha que espera por nós quando nos sentimos a naufragar.
Foi então que no dia seguinte e à hora devidamente combinada o Duende apareceu e mostrou o caminho ao velho que subiu até à casa de madeira mais bonita que ele alguma vez tinha visto.
E pelo caminho ainda lhe disse mais ou menos isto:
- Ali naquele teu recanto feliz chegará também em breve quem te faça sentir a alma e o coração como que em paixão imersos, uma fonte de palavras e dos mais doces versos.
Ao chegar, o velho instalou-se logo por lá, abriu as janelas, cozinhou um almoço, e depois sentou-se na soleira a ver ao longe o mar, e a escrever.
As palavras sobre um papel amarrotado, que alguém um dia poderá ler, são as memórias de um velho pirata a descansar.
O irrequieto Duende todos os dias aparece com o seu irmão na velha casa de madeira, tomam um chá a meio da brincadeira, e ficam por ali às vezes a ouvir as velhas histórias e as lendas que guarda em si aquele velho que nunca se cansou de navegar.

O meu sobrinho João faz hoje dez anos, o que significa que há uma década me ofereceu este privilégio de ser tio, bênção reforçada pouco depois com a chegada do Luís.
Desculpar-me-ão pelo facto de eu dizer que são os dois meninos mais bonitos do mundo, mágicos e duendes inspiradores na vida de uma “velho” pirata de barbas já brancas, um eterno apaixonado que gosta de escrever a olhar o mar.
Um velho… eu, claro; quem mais haveria de ser?

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

O silêncio é a casa onde habitam todas as palavras…



O silêncio é a casa onde habitam todas as palavras; tantas palavras, que não há jeito e tempo para lhes dar corpo de letras e um toque pessoal de caligrafia.
Eu tenho guardadas aquelas que tomei do silêncio dos beijos todos que me deste, e com elas e pelos dias fora, fui construindo uma fortaleza com varanda e guarita sobre o mar.
É lá que vivo numa casa de portas e janelas debruadas de encarnado, e é lá que me sento a vigiar o horizonte, pedindo sempre ao sol que faça despontar um dia que te traga com ele, como as gaivotas trazem a sua liberdade inscrita no voo que perfuma todos os céus.
Com saudade, no pranto do amor que tem a métrica e a fé de uma prece.
E às vezes tu chegas ao fim da tarde montado numa hora qualquer para juntos podermos ver chegar a noite.
Instala-se o silêncio que é cúmplice da lua...
O silêncio somos nós com infinitas palavras de amor.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Quando o corpo é apenas um pequeníssimo detalhe da imensa fome de liberdade



Todos os dias escrevo por aqui aquilo que me apraz, as palavras decalcadas do que me pede e dita a alma, sem restrições de qualquer espécie e no usufruto de um dos valores que mais prezo: a liberdade.
A minha liberdade que é exactamente igual àquela que reconheço a toda a gente, incluindo todos os que estão nos antípodas daquilo que eu sou ou de tudo aquilo que eu penso. Porque a liberdade é universal, não é património de esquerda ou de direita, e qualquer território exclusivo e limitado que se lhe crie, qualquer privilégio que se lhe dê ou se lhe retire, mata-a inteira por via da sua essência.
A liberdade morre assim, e sempre, às mãos dos poderosos “Senhores do Monopólio” que compram ruas, as avenidas mais caras, a Companhia da Electricidade, as Estações… e se sentem depois com poder para mandar os outros para a prisão em nome de uma qualquer “Caixa da Comunidade”.
Destes e de todos aqueles que por receberem “dois contos” de cada vez que passam na Casa de Partida, fingem não ver, assobiando para o lado e bem para longe.
Nós não queremos, não é cómodo, mas às vezes é necessário vir para a rua gritar, e é necessário usar a escuridão destas noites que nos oferecem, para que consigamos sonhar juntos, as madrugadas, os dias em que o sol nasce e já nos encontra aos pulos nas ruas a celebrar a liberdade.
Tendo embora a consciência de que a minha voz tem o peso de um grão de areia numa imensa praia, não posso deixar de dizer aqui que apoio a luta de Luaty Beirão, em greve de fome em Angola há mais de um mês.
É dele que falo e da minha… da nossa liberdade.
Resistiremos como flores azuis por entre as cores de qualquer Outono.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

É o povo todo, e a glória… a liberdade


Embarcar em Lisboa num avião baptizado com o nome de Luís Vaz de Camões, adormecer passados pouquíssimos minutos, ainda algures sobre o Tejo e a Ponte Vasco da Gama; mune a alma de qualquer um, e não só dos poetas, do sacro dedo inspirador das Tágides, as ninfas do rio de Lisboa, e o sonho sai na forma de uma Odisseia em rima como no poema de Homero:

Saímos da Barra tomando os ventos
Velas como braços beijando o mundo
O querer de heróis aceso de alentos
O sonho de um rei, Dom João Segundo
A glória tem alicerce nos tormentos
Maior quando o sofrer é mais profundo
E esta dor em nau que busca a claridade
É o povo todo, e a glória… a liberdade

A minha incursão pela lírica.
Acordo ainda a tempo de ver o avião a rasgar as nuvens fazendo despontar da água as terras do Nordeste da ilha de São Miguel.
Os picos ladeiam as crateras onde a lava descansa sob o silêncio das lagoas, e há caminhos de basalto bordejados de flores.
Depois, aterro já bem desperto como no canto décimo do épico de Camões: a ilha dos amores.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

E nós reinando sobre o tempo... a caminhar



Declaro-te herói de todas as minhas tardes, coroado imperador sentado no trono que o meu desejo vai aos poucos esculpindo no tempo.
E essas tardes em que o sol escreve versos nas nuvens tingidas de chuva, são irmãs do mar que varre de espuma a areia da praia, terreiro de uma nova face oferecido aos nossos passos para o inédito desenhar de uma história feliz.
Ao longe o farol e o porto de abrigo...
E nós reinando sobre o tempo... a caminhar.

domingo, 18 de outubro de 2015

A dolência das gaivotas no feitiço do fim da tarde



A chuva parou a tempo do sol espreitar muito antes de rumar a ocidente, e no areal despido que a duna e os cardos abrigam, há centenas de gaivotas que se alinham numa estranha e inédita formatura; como um imenso castelo com asas que rumará daí a pouco até ao descanso em lugar seguro.
A dolência denuncia o feitiço do fim da tarde...
Ali sentado num velho banco de madeira e olhando-as de longe, eu sou como elas um romeiro que roga ao sol a bênção de uma noite, a casa onde os sonhos e os desejos suplantam tudo aquilo que se vê e palpa à face mais humana dos dias.
E depois voo para ti alinhando-me entre palavras.

sábado, 17 de outubro de 2015

Altar de cal, ao sul, a nossa casa...



No Alentejo as estradas são rectas que rumam ao céu, caminhos fiéis ao sol de nascente a poente, sem o pecado de quaisquer sombras.
Somos nós com as palavras, e as fontes que correm soltas num delírio de água fresca, que desenhamos as esquinas onde nos sentamos para descansar...
E se calha a vida tingir-se da sorte de uma paixão, entre aquilo imenso que se sente e o sol tão perto que sempre nos abraça, sentimos que o nosso longo caminhar já tem desde logo e afinal, tanto mas tanto do que tem o céu.
Por isso cantamos:

Saí e dei-te alegres os meus passos
No chão do trigo, louro pão, em brasa
Até ao céu perfeito dos teus abraços
Altar de cal, ao sul, a nossa casa.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Se ao menos eu andasse com castanhas nos bolsos



O táxi tarda e eu vou entretendo o olhar com as cores do Outono que brilham à minha frente.
A casa atrás de mim tem algo de Brideshead, e por momentos eu sou um Charles Ryder / Jeremy Irons revisitando o passado, o dele que influenciou o meu, e acabo a assobiar a música fantástica do genérico da série de televisão.
Atraído pela música, há um esquilo que desenha linhas curvas como ondas sobre o relvado e que se aproxima de mim na esperança de que eu tenha alguma comida para lhe dar para lá do assobio.
Porque é que eu não ando com castanhas nos bolsos...
Brinco com ele um instante junto a uma árvore que me assalta o pensamento com um dos meus sonhos: ter uma casa entre os troncos de uma árvore grande…
Para lá dormir contigo numa noite estrelada, e quiçá escrever uma história que fale de um esquilo assim rebelde como este; que até pode achar-me muito simpático, mas assim, sem nada para roer, despede-se e vai-se embora.
Fico eu e a árvore numa manhã fria que gela as mãos.
Ainda se eu tivesse uma castanha no bolso, assada e quente como as que vendem no Rossio.
O táxi chega e eu despeço-me da árvore.
O meu taxista tem trinta anos, nasceu na Turquia, tem símbolos do Islão na viatura, e um aparelho auditivo que lhe denuncia uma elevada surdez. Percebo que lê os meus lábios no retrovisor para melhor me entender.
Conversamos todo o caminho e no final e enquanto me entrega o recibo, surpreende-me:
- Tenho a certeza de que o seu futuro será feliz.
Agradeço e estendo-lhe a mão.
A mão afinal só aparentemente vazia; porque entre a liberdade de Brideshead, os sonhos de um esquilo e de uma casa na árvore, a tolerância e o afecto...
As nossas mãos vão ganhando o calor e o poder de milhões de castanhas.
Ao ritmo da nossa história e a denunciar a ambição de sermos felizes.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

“Um rei pode fazer um passeio pelos intestinos de um mendigo”


Quando Hamlet conversa com o Rei diz-lhe a determinada altura:
- "Pode pescar-se com um verme que se tenha alimentado de um rei, e comer o peixe que se alimentou desse verme."
E perante a pergunta do rei:
- "O que queres dizer com isso?"
Hamlet responde:
- "Nada; apenas mostrar-vos como um rei pode fazer um passeio pelos intestinos de um mendigo."
Estar em Inglaterra é conviver de perto com as memórias de William Shakespeare; e lembrei-me desta que é uma das minhas passagens preferidas do Hamlet, a propósito das notícias que vão chegando de Portugal.
Há vermes, peixes, mendigos e soberanos, pescadores, “mendigos com o rei na barriga”…
Autoproclamados, reais, mais ou menos reais, inventados...
Todos em passeio pelos intestinos uns dos outros, e esquecendo-se que o resultado de semelhantes “caminhadas” é sempre o mesmo e já parece sina de um povo.
Se ao menos todos nos lembrássemos que entre nós e o poder, naquele espaço onde transversalmente todos tentam com cambalhotas captar a atenção do público em espectáculos degradantes, há um país e muita gente?
E eu disse e reforço, TODOS.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Inglaterra, uma tarde de Outubro



Sentei-me num dos cantos da lareira de onde melhor se espreita o crepitar da lenha. 
Com um bloco assente nos joelhos, escrevo-te como se estivesses aqui comigo à conversa; e o cheiro da madeira quando arde, tempera as palavras de um muito informal e profano incenso.
Já anoiteceu, faz frio, e na gente que sai da igreja após rezar as vésperas, é possível ver gorros de lã.
Vejo-os pela janela enquanto sinto que tu és a minha fé.
O campo que é verde e banquete para as ovelhas que pastam tranquilamente, já se apagou rendido ao ocaso tão precoce.
Mas o mesmo Outono que o fez assim deixou generoso um tapete de folhas com tons entre o vermelho e o castanho, adornos vulneráveis ao vento mas que cobrem os meus passos enquanto caminho.
Vou só, sentindo o aproximar de cada candeeiro pela dimensão da minha sombra... e das sombras vou tirando imagens que um dia poderão ser palavras.
As folhas do Outono conhecem a intimidade dos meus passos, sabem bem para quem caminho.
Faz frio...
Mas com a fé, o incenso, a lenha e o amor que nos entrelaça os passos eu teci uma manta, fi-la como que de retalhos das muitas palavras que te escrevi.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

E a lua conhece-nos bem melhor que o sol...

Cruzo a noite temperada de chuva que parece querer resistir estoicamente ao romper da madrugada.

A música que me tempera o caminho rasga o asfalto da cidade e leva-me para uma estrada de centeio onde os pés descalços beijam a Terra com uma incansável paixão.

E penso em ti...

Tomando das mãos o cheiro semeado pelos beijos das tuas na tarde perfeita que o teu olhar incendeia de paz e prazer nas recônditas galerias da gruta sob os pés do poeta que tão bem nos conhece em tudo e nos segredos.

De noite, só os gatos são todos iguais, pardos; os Homens, são traçados pela sua própria vontade em tudo aquilo que o pensamento denuncia enquanto a cidade se espreguiça e a noite resiste. 

Somos nós entre os segredos, e a lua sabe tudo de nós, conhece-nos muito melhor que o sol.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Haja alguém que me explique...



Haja alguém que me explique porque é que o Bruno de Carvalho, que acha que o Benfica só é bicampeão por pagar refeições aos árbitros, para cumprir a ambição de ver o seu Sporting campeão, recrutou o treinador do rival por valores milionários em vez de comprar a pronto a Churrasqueira do Campo Grande?
Haja ainda alguém que me explique porque é que sendo o PS um partido de esquerda, o seu líder em 2009, José Sócrates, ao ganhar as eleições com uma maioria relativa de 97 deputados não se uniu ao Bloco de Esquerda (16 deputados) e à CDU (15 deputados) para chegar a uma maioria absolutíssima de 128 deputados, e em vez disso escolheu o PSD como parceiro na aprovação dos Orçamentos de Estado e na aprovação dos sucessivos PEC’s até ao tão famoso IV?
Um agradecimento antecipado pelos devidos esclarecimentos.

O meu coração tem janelas rasgadas...



O meu coração tem janelas rasgadas e cheias de luz, à beira das quais nos sentamos num poial caiado, os dois a inventarmos e a oferecer-lhes horizontes.
Entre a paz infinita que nestes instantes se sente no peito, e que o sangue leva a todos os mais recônditos espaços e segredos guardados em mim, fluem palavras e todas as cores, mesmo aquelas que os sentidos guardam só para si; que aquilo que contigo avista o coração, não se alcança com um simples olhar ou qualquer outro humano detalhe.
Voamos pelo infinito numa nave que inventámos só para nós, astronautas num sonho e acenando à lua de passagem, sem nunca deixarmos de perseguir o sol.
Tudo desde as janelas, do coração...
E a paz que se sente é a festa de voarmos juntos num infinito tingido de estrelas que afinal nunca será longe ou impossível; assim de mãos dadas, o universo somos nós.

domingo, 11 de outubro de 2015

Joaquim: mais vale ser Furacão num fim-de-semana do que “Mosca Morta” toda a vida



Uma pessoa passa a semana a ouvir dizer que o Furacão Joaquim chegará a Portugal no fim-de-semana e cria legítimas expectativas, acabando depois por se aperceber que esse fenómeno atmosférico seu homónimo já desceu dois níveis na hierarquia das tormentas: primeiro foi despromovido a Tempestade Tropical e agora não passa de uma Depressão Extratropical.
Ora se nos fixarmos no facto dos furacões (Huracan era o Deus das Tempestades para os Maias) serem sistemas de baixa-pressão com origem nas regiões tropicais e que são os responsáveis pelo transporte do calor para as latitudes mais altas, devo dizer que esta tormenta desfalecida e em agonia já não merece o destaque mediático que lhe foi dado, e envergonha os Joaquins.
O Joaquim Agostinho foi um furacão das bicicletas, o Quim Barreiros faz uns fenomenais “sprints” de acordeão, o meu avô Joaquim fazia a melhor açorda que eu alguma vez comi…
E até eu, e perdoem-me a imodéstia, criado nas calmas baixas pressões alentejanas arrasto comigo o calor de infinitas palavras que, e qual furacão, levo a paixão até às latitudes mais geladas e aos corações mais empedernidos.
O meu segredo?
Só uma pessoa o conhece e eu não o revelo, mas Depressão Extratropical ou “Mosca Morta” é que nunca serei. 

sábado, 10 de outubro de 2015

A eternidade...



Quando eu morrer tomarei dos poetas a companhia e a cumplicidade das asas, rodopiarei em voo feliz sobre o Castelo e a Fonte da Praça, e beijarei as ruas de Vila Viçosa trazendo comigo a paz infinita que respiram por entre o alvo esplendor da cal com o seu rodapé de muitas cores.
Depois…
Rumarei a Lisboa passando pelo meu sobreiro favorito e dando-lhe um abraço, imediatamente antes de me sentar contigo num dos degraus de pedra que do Terreiro do Paço descem para o rio.
Ficaremos por ali eternamente na margem direita do Tejo cumprindo o destino de um beijo que jamais terá fim… no céu.
Porque se o céu existe para lá da morte, ele nunca poderá ser outro que não este que a vida e a Terra um dia nos ensinaram.  

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Já está quase



Quem é que no instante de subir a uma montanha se fixa no pó que se lhe vai colando aos pés, e não no horizonte que se abre metro a metro e se inscreve eterno na lembrança?
As montanhas “cresceram” para melhor e mais de perto podermos ter o céu, e quase todo o difícil do caminho se apaga na festa do instante de chegar.
O pó, as dores, as tentações de voltar atrás…
Tudo se esquece por entre a poesia de um momento que poderá ter aroma de urze ou de carqueja.
Às vezes no caminho cruzamo-nos com alguém que nos diz:
- Ainda falta tanto… não sei se irás lá chegar.
Mas os amigos dir-nos-ão sempre:
- Já está quase.
E até são capazes de nos deixarem com uma música para que o “Spotify” nos dê alento, tal qual água e repouso na subida.
Hoje tive de dizer o “está quase” a uma amiga que sobe, lembrando-lhe que os dias guardam horizontes mágicos que esperam por ela.
E porque a vida é uma rede infinita onde o detalhe de dar ou de receber se diluem na essência e nos benefícios daquilo que flui, deixei-lhe uma música que um amigo me enviou com o rótulo de “esta dá-me esperança”.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

As mil janelas que abres em mim



Às vezes paro para pensar e procurar qual o lugar onde tu guardas os mil poemas que me ofereces nas tardes que passamos juntos; e no circuito perfeito entre o olhar e um abraço, aqueles beliscos na mão ou um beijo que sabe a tudo e vida… não encontro nada.
Também revolvo a margem direita do Tejo, as ruas de Lisboa e as calçadas desenhadas por onde passamos, a Rua do Alecrim, os miradouros, os eléctricos, as Bolas de Berlim, os dois copos de sidra e… nada.
Vou às histórias que me contas, às nossas histórias… em vão.
E então quando de frente para a lua regresso a casa sozinho e começo a sentir as palavras que se libertam por entre a saudade e o perfume que me colaste à pele, entendo finalmente que sou eu a casa onde moram todas essas palavras, e elas sempre estiverem aqui à tua espera.
Estiveram à espera que as vestisses de açúcar e as soltasses pelas mil janelas que de mim abres para o melhor que tem o universo.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Gosto muito da luz ténue dos fins de tarde de Outono…



Gosto muito da luz ténue dos fins de tarde de Outono, quando a brisa fresca se desinibe, se liberta, e a casa se agradece como refúgio.
Deixo-me estar ao ritmo lento do entardecer e enquanto a penumbra dá o braço ao silêncio para juntos deixarem que anoiteça.
O silêncio é o espaço generoso e completo para todas as palavras que queremos escrever ou dizer, a penumbra devolve-nos o olhar para nós mesmos; e nestas tardes há tanto de verdade e de mim em tudo o que registo no meu "velho" caderno.
Hoje perfumei a casa com o aroma doce de umas gamboas grandes e amarelas que descasquei e pus a cozer numa pequena panela.
Sinto o cheiro que veste os vapores que se libertam agitando a tampa...
E eu continuo a escrever e ainda a resistir a acender o candeeiro.
Vejo-te tão nítido por entre o tudo que há em mim, que não quero que nem por um só segundo algo me distraia e eu possa deixar de te ver.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Todos os poetas cultivam flores



Todos os poetas cultivam flores, palavras como rosas que libertam nas tardes da cidade por entre o voo das pombas do Rossio.
Eu, com o braço direito na tua cintura e descendo o Chiado como quem se beija inteiro, levo comigo, perfeitos, os inéditos aromas dessas pétalas que o teu amor fez despontar.
É Outubro, o vento veloz rouba a água das fontes dando um brilho à calçada onde as pombas repousam atentas.
Depois, uma criança corre de repente e desassossega as asas que irrompem pelo céu, e nota-se um intenso cheiro a flores por entre este incansável redesenhar do céu.
Rosas?
O teu olhar vai ditando palavras de amor com que enfeitamos o nosso beijo enquanto caminha.
Não, são prosas!

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Mua mua


Soa estridente a campainha da porta e um gato com ar Japonês chega ao patamar da escada antes de mim.
Estanca o seu passo, põe um certo ar de mistério e fica por ali curioso a ver o que isto dá… quem é que vem lá?
Eu poupo-me a descer os degraus de pedra e puxo a longa corda que abre o trinco.
- Ainda bem que vieste
- Mua mua
Que é como quem se beija.
O gato mia a pedir que lhe sacies a vontade de uma festa e rebola-se entre as tuas mãos.
Depois entramos para a sala e sentamo-nos os três, nós e o gato, enquanto entre umas sangrias e um Gin tónico me mostras um relógio que canta, uma televisão que dança flamenco e até uma Bimby que vai ao supermercado e consegue comprar aquilo que de mais estranho por lá existe.
Gudgets… e gargalhadas; sopa, grelhados e “abafadinho de castanhas”.
A idade dilui-se sempre na voz de mel, as fronteiras calam-se num estranho falar do Português com salero…
Tu acabas por me contar uma história, eu conto-te a minha história e ficamos inevitavelmente os dois a chorar entre poemas de amor.
Depois, e porque já é tarde, vai cada um para o seu quarto e o gato prefere sempre ficar contigo.
Já deu a meia-noite.
- Mua mua.
- Até amanhã.
E cada um na sua janela acaba sempre a mandar beijos pela lua.

O meu amigo Carlos Lanão (Titin) cumpre hoje o seu aniversário e eu dedico-lhe esta pequena brincadeira tecida de palavras. A corda de abrir a porta existe na casa dos meus pais em Vila Viçosa e ele já se deliciou com ela, o gato existe na casa dele, o “abafadinho de castanhas” é obra do Ângelo, e o resto foi inventado pondo espaços e passos nas palavras que tantas vezes trocamos nas mensagens escritas em que acabamos sempre os dois a falar dos nossos amores.
Carlos, um beijo de parabéns, e por favor não te vás embora. A amizade é como a corda lá de casa e só abre a porta, nunca a fecha.

domingo, 4 de outubro de 2015

Não há sequer um pequeno recanto de mim que não more contigo



O teu amor semeou em mim casas altas como castelos, refúgios, ou tão-só degraus coloridos que são bênção para quem busca o céu.
As janelas estenderam o horizonte que o olhar beija nas manhãs claras de Outono, e o impossível é hoje um lugar aqui tão meu e tão perto.
Solto suspiros pelas chaminés, como fumo, e o céu acode-me nesses instantes trazendo o calor de um abraço acendido pela vontade e um infinito desejo.
Casas altas de cidades sem fim, o céu, e tu que chegas todos os dias ao fim da tarde para a festa das palavras, para contarmos as histórias que nos entrelaçam pelos dias fora.
O teu amor semeou em mim casas altas…
E não há sequer um pequeno recanto de mim que não more contigo.

sábado, 3 de outubro de 2015

Os poetas também gritam golos...

Trovejou durante toda a madrugada e eu só voltei a adormecer depois da chuva ter caído copiosamente sobre a rua do meu hotel aqui em Barcelona.

Ainda li e escrevi um pouco, espreitei à janela, mas depois não resisti mais e o sono venceu.

Disto falava com um colega ao pequeno-almoço, entre um pão com tomate e presunto, e as saudades do nosso café, que é sempre melhor; saltando depois a conversa para a escrita, para os amigos, os jantares e para o futebol.

O Julian, que é adepto do Werder Bremen, gostou do livro NÓS, ficou encantando com as fotos do Ângelo e pediu-me a tradução para inglês do poema mais romântico para que o possa partilhar com a mulher.

 Prometi fazê-lo.

E a determinada altura comentou:

- Eu que pensava que os poetas só ouviam música clássica, frequentavam livrarias e não iam ao futebol...

Expliquei-lhe que os poetas são seres muito atentos que saboreiam a vida sem menosprezar nada do que ela encerra, os poetas decalcam palavras sobre a própria vida e sobre os dias, e sim... nós os poetas também gritamos os golos por entre a magia de uma festa de milhões de amigos.

O Olimpo é afinal a casa onde vivemos sem menosprezar nenhuma das divisões.

Sorriu e mostrou-me então uma foto com a mulher e a filha de um ano, uma mensagem que tinha recebido esta manhã.

Comentou:

- Então isto é poesia?

Concordei com ele mas disse-lhe que há detalhes de amor onde as palavras não entram por serem demasiado mundanas perante os sentimentos.

Sorriu.

Ficámos assim pela foto e continuámos a falar da poesia que Ronaldo guarda nos pés.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Eu irei votar no próximo domingo...



Eu irei votar no próximo domingo, e aquilo que me move é o meu país; nunca será por mim que ele deixará de ter um futuro.
Com mais ou menos entusiasmo fiz a minha opção de voto entre as muitas que se me apresentaram, com a consciência de quem nunca deixou de cumprir com os seus deveres de cidadania, com a isenção de quem nunca ganhou um cêntimo por via de quaisquer nomeações de âmbito político…
Eu vou votar, e a minha opção também não é influenciada por militância ou simpatia partidária; sou um homem de causas muito mais do que de agremiações ou corporativismos, e por isso ela assenta essencialmente em quem eu acredito que neste momento possa ser motor dessas causas que me movem e que tantas vezes vou partilhando por aqui.
Porque o meu voto é um detalhe muito sério desta relação entre mim e o meu país, recuso-me a entrar no “Reality Show” de campanhas em que a Teresa Guilherme é substituída pelo Correio da Manhã ou pelos posts no Facebook; as nomeações e as chamadas de valor acrescentado das expulsões têm a face de sondagens diárias; a “espontaneidade” é patrocinada; e os confessionários da má-língua se fazem em jantares e almoços de carne assada ou arruadas patrocinadas por excursões das Juntas de Freguesia…
Não gosto dos gritos, gosto das ideias; não gosto de quem quer vencer por demérito dos demais, mais que por méritos seus.
Tudo isso pesou na escolha e tudo isso estará no silêncio da cabine no instante em que eu votar por Portugal.
Depois… logo verei se os meus concidadãos pensaram e agiram como eu; caso contrário, respeita-se a sua escolha e seguimos todos para a Segunda-feira de uma nova semana, porque é isso a essência e o doce da democracia.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Ao som das liras

No horizonte e muito para lá da montanha, Olimpo informal e circunstancial, os deuses espreguiçam-se com o sol no primeiro alvorecer de Outubro.

Soam as liras, a poesia das palavras ditas ou cantadas, há palmas em tom de festa, o riso, as gargalhadas... que a música, muito mais do que aquilo que se escuta, é tudo aquilo que se sente; é uma paz por entre a sinfonia de todos os sentidos.

Não passará Outubro sem que nos demos beijos a bordo das castanhas assadas no barro onde estala o sal, o fruto que descascamos um para o outro enquanto passeamos. E o vinho novo espreitará para fazer connosco a festa.

Não passará Outubro que sem a tarde nos traga as brisas frias que pedem incessantes abraços fazendo a vontade ao desejo que nos impele um para o outro.

E os deuses, sentados à beira das fontes nos Olimpos informais de todos os dias sorrirão para nós, tal como o sol...

Ao som das liras.

A música e Outubro.