terça-feira, 29 de novembro de 2016

Ter mãe é não envelhecer...


A nossa será sempre a linguagem perfeita dos silêncios onde as palavras não restringem o amor, oferecendo-lhe dimensão.

O nosso amor é a própria vida e jamais se deixará dizer, imune às métricas e a todos os humanos detalhes.

E o que teria um fruto para contar à árvore que o sonhou e de onde a primavera o faz nascer?

Quase nada.

Nós lemo-nos nos gestos, intuímo-nos no respirar, no riso… Sabemo-nos de cor, e o teu olhar desenha-me um banco de ervas na vizinhança de uma fonte de águas frescas. Sentamo-nos por ali, eu no teu colo, enquanto as tuas mãos baralham o tempo e calam todos os medos e os meus cansaços.

Eu sei que contigo aqui tão perto, os dias jamais deixarão de ter flores penduradas pelas esquinas de todos os segundos.

Ter mãe é não envelhecer.

Mãe, um beijo de parabéns.

domingo, 27 de novembro de 2016

É quando os sonhos entram…



No final dos anos trinta do Século XX, a distância entre Vila Viçosa e Lisboa tinha a enorme dimensão de seis horas de comboio e de um Tejo sem pontes que obrigava a navegar. Era o tempo das cartas, e a distância tornava-se cruelmente inultrapassável para quem não sabia escrever.

O meu avô Joaquim falava de um irmão mais velho, de nome Francisco, que partira cedo para a capital e de quem souberam muito pouco: o nome das três filhas, alguns outros detalhes da sua curta história; e a data da sua partida, muito tempo depois de ter ocorrido e sem que conseguissem sequer vir ao seu funeral.

Ontem na sessão de apresentação de "A noite em que os sonhos não entraram", a Marisa, que é utente e funcionária na Associação de Paralisia Cerebral de Lisboa, juntou o apelido Caeiro e Vila Viçosa, lembrou-se de um bisavô de nome Francisco e veio falar connosco. A minha mãe lembrava-se do nome de uma das suas primas, Maria Carolina, a avó da Marisa.

As palavras dão corpo aos sonhos e os sonhos descobrem as pontas perdidas das histórias de todos nós, atando-as de seguida no cumprir de um doce sentido.

Às vezes não sei porque escrevo assim tanto, e outras vezes torna-se tão fácil perceber porquê.

É como se as letras fossem flores que enfeitam os degraus do tempo.

E a noite é afinal uma ilusão que os poetas desmontam facilmente transformando a lua num sol de raios infinitos e empurrando as nuvens que se intrometam entre si e a vontade.

É quando os sonhos entram...

Um abraço especial a todos os que fizeram com que este livro fosse possível e que ontem vestiram de sorrisos uma tarde de chuva.

Muito obrigado.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Na ponte sobre a auto-estrada…


Na ponte sobre a auto-estrada, um homem segura a bicicleta enquanto olha para longe, para o sítio de onde eu venho. O sol alinhou-se momentaneamente com os raios da roda traseira e ganhou o estatuto de uma imensa laranja com gomos de luz.

Eu passo em direcção ao sul, rápido, e este instante intercepciona a minha pressa com a tarde estirada e lenta de um "velho" a quem pouco mais resta do que o horizonte para se entreter.

Cabe tudo no mesmo segundo.

Talvez o homem regresse agora do campo e traga diospiros maduros no cesto de verga que vislumbrei atado à parte traseira do veículo que usa como uma imensa bengala que desliza sobre as pontes e as veredas.

Se o verão não tivesse acabado, jamais os nossos passos se revestiriam de ouro neste caminhar sob os plátanos que Novembro vai despindo lentamente.

Eu juro que um dia porei a pressa no bolso e olharei contigo todos os horizontes que o ocaso pinta de vermelho por sobre o plúmbeo tom das nuvens na premonição de chuva.

Os dois como um "velho" solitário numa ponte da auto-estrada, algures por aí, enquanto os frutos do Outono se espreguiçam ao sol.

Tudo se ajeita num mesmo instante e não existe um fim que não seja simultaneamente um começo...

Basta que a vida se cruze com a liberdade que a reinventa e a seduz, por entre as palavras de amor que ousamos ir inventando, como gomos doces de uma laranja nascida em contra-luz.

sábado, 19 de novembro de 2016

Tanta vida, a minha voz…



A memória veste-me uns calções curtos do tecido castanho que sobrou de um fato do meu pai, e senta-me num banco redondo de madeira encostado à parede por detrás do balcão. A sala rectangular tem livros arrumados nas estantes das suas quatro paredes, e tem duas portas abertas para a rua que arde por bênção da cal e do sol com que o verão beija o Alentejo…
Vila Viçosa. Eu terei talvez uns seis anos, e os livros que vou lendo devagar são as portas para onde se pode de facto espreitar.
Aquela luz lá fora que nos encandeia e que nos empurra para dentro e para o aconchego da alma…
Deixo a memória escorregar depois até à tarde de Dezembro de um ano qualquer da década de oitenta do século que já passou. Cheguei ontem de Lisboa no Expresso que chegou ao Rossio, e vim passar o Natal nas férias da Faculdade. O descanso das Químicas na mesma sala; e eu não me esqueci do lugar de cada uma das “portas”.
Sugiro presentes, faço embrulhos, trocos… e quando não há clientes encosto-me à parte lateral do balção do lado direito de quem entra, virando costa à Banda Desenhada do Asterix e do Michel Vaillant , deixando que a conversa flua e voe para onde se vai espraiando a vida.
Não há palavras proibidas nos instantes em que aprendemos a liberdade, e por entre cravos encarnados ou de qualquer outra cor, o olhar doce de quem nos ama é o espelho onde sempre nos vemos bem e confortáveis na identidade que não trai a essência de que somos feitos.
Tão pouca gente me olhou ou olha assim.
E num dia de Outono, quando os medronhos do Castelo já sorriam maduros e o sol do Alentejo nos enganava disfarçando a geada, a saudade sobrepôs-se às palavras, subitamente, e sem tempo sequer para um beijo fugaz.
Uma partida sem medo, porque só teme a morte quem sente não ter a vida em dia.  
A minha querida amiga Joana Ruivo faria hoje 100 anos e eu contínuo sem saber quanto lhe devo do melhor que existe em mim.
Tanta vida, a minha voz…
Às vezes nos dias de me reinventar, encosto-me por instantes na lateral de um velho balcão de madeira, baralho-me propositadamente na idade e deixo-me ir pelo seu olhar doce, para qualquer lado mas sempre por mim e pela liberdade.
Que nunca nada daquilo que é meu possa ficar por fazer.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

O mar só é distância para quem não se dispõe a navegar...



O mar só é distância para quem não se dispõe a navegar.
Por entre a brisa fresca das manhãs de Novembro, destituímos o medo e a mágoa, e tomámos pela vontade, os nossos corpos, que voltaram assim a ser nossos.
Marinheiros da liberdade. O gesto que ora nos reveste os braços tem mais de nós do que o reflexo dos rostos sobre as águas em espelho de um franco tom de azul. E se o mar terá sempre a coerência salgada de uma lágrima lusitana, quem disse que ela não cruzou o sorriso imenso que da nossa fé emana?
Enquanto navegamos, não sabermos sequer se o horizonte carregará ou não as ilhas que nos possam acudir à prece de um naufrágio. Quem ama nunca sente as dores do caminho, e sente que cada milha que se avança já tem tanto de chegar.
Por maior e impossível que nos digam ser o mar. 

sábado, 12 de novembro de 2016

Aproveitando a ousadia que mora nas madrugadas…



Aproveitando a ousadia que mora nas madrugadas, eu pintarei um dia inteiro de azul e sairei depois a voar contigo.
Sobre os montes, o preconceito, os medos e sobre o tempo, essas horas que os beijos estreitam e a saudade dilata.
Haverá laranjas a espreguiçarem-se maduras, romãs a explodirem grenás no verde matizado do Outono, o voo atento do melro ainda moço na encosta que mira ao sul.
A história de um Homem é a memória dos seus beijos num voo assim tranquilo sobre o tempo como Redford e Streep sobre a savana em brasa.
Talvez nos lembremos mais dos beijos que não terminámos do que dos outros que chegaram aos lábios e fizeram entorpecer as palavras.
Num dia assim tingido de um intenso céu voltemos à casa onde os beijos adormeceram e esperam que os resgatemos desse ser tão só uma intenção.
Talvez o melro já tenha descoberto o tom rubro da romã...
Nunca chegaremos tarde quando se trata de acertar a nossa história. Para isso vem carregada de ousadia cada manhã.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Somos eternos cúmplices e irmãos de todas as flores de entre Abril e Maio…



A poesia não se rende e por isso o nosso sonho persistirá sobre todas as manhãs de Outono, mesmo as mais sombrias.
Quando acreditámos que os muros ruíam e as suas pedras desgastadas morreriam envoltas pela erva de milénios, quando estreitámos o mar na agonia das fronteiras, quando esquecemos os detalhes e nos demos as mãos… cumpríamo-nos pelo compromisso com a liberdade que a alma nos “impunha”.
Fomos cúmplices e irmãos de todas as flores de entre Abril e Maio.
Mas, distraídos, esquecemo-nos que o tempo desenha circunferências moldando a História, e que breve chegaríamos a este dia em que as pedras saltam para novos muros, os Homens morrem afogados na areia fria das novas fronteiras, e até Deus ganha novamente uma perspectiva bélica de cruzadas sem fim e outros “santos ofícios”.
Foram os políticos que desceram até ao circo e se misturaram com os “palhaços”, ajudados por nós que os camuflámos por via da crença e da ideologia.
Inventámos desculpas para os desonestos, idolatrámos os medíocres, tolerámos muito facilmente os imbecis e os incompetentes… demasiado e até ao ponto em que todos são igualmente maus.
Valham-nos então e sempre a poesia e a fé.
Corramos descalços sentindo o toque da terra e das ervas molhadas, de encontro aos beijos que quisermos dar; calemos as pedras que nos devolvem aos guetos onde o superficial divide e mata a mais doce essência da alma, o amor.
Os nossos corpos nasceram para lutar descansando mais tarde nos abraços.
O nosso canto tem raízes de primavera e tom de cravo, de liberdade.
Vivamos e apaixonemo-nos, sabendo que viver é não deixar que alguém um dia nos desmanche o sonho… por mais que nos pareçam sombrias as manhãs de Novembro.

domingo, 6 de novembro de 2016

E a tanta vida que se espreita de ao pé de ti faz-me sentir imortal…



A nossa casa de primeiro andar tinha na sala um móvel onde os vidros tilintavam sempre que passávamos. Recordo-me bem.
Mas nem a estridência desse som me acordava quando ao regressares do cinema me pegavas ao colo transportando-me da tua para a minha cama.
A mãe adormecera-nos depois de rezarmos ao Menino Jesus, enquanto tu estarias de volta da velha máquina de projectar que funcionava bem quando se alinhavam dois pedaços de carvão com a forma de um lápis.
Nas noites simples nessa casa da Rua de Três, em Vila Viçosa, os teus braços deixavam espreitar para o amor a que consigo ser fiel quando sou maior. O amor que transporta em si a força de um castelo de onde se conquista o universo; heróis armados pela vontade, às cavalitas, como num imenso beijo, e com o riso em vez de espada.
Aprendi contigo que o tempo só permite cumprir os sonhos se os nossos passos lhe lembrarem todos os dias qual o sítio para onde queremos ir.
Desfrutámos tantas vezes da agonia dos impossíveis sob o perfume da liberdade; e construímos juntos os papagaios de papel que depois pusemos a voar.
Na mesa da cozinha ficava sempre um bolo em forma de pato que compravas na Pastelaria Azul no regresso do cinema e que eu comia na manhã seguinte ao pequeno-almoço.
O amor mora sempre nas coisas mais simples.
Parabéns pai.
Que bom ter-te aqui para ainda hoje continuarmos a brincar e a ver quem tem mais cócegas.
Continuo a ser um dos teus dois gaiatos, e a tanta vida que se espreita de ao pé de ti faz-me sentir imortal.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

“Alentejanados”



Quando a minha avó Francisca ceifava trigo de sol a sol e a minha mãe, com dez anos e depois de terminar a instrução primária, lhe preparava e levava o almoço ao campo, sobrava-lhe o domingo para ir até ao ribeiro lavar a roupa. Mas quando chegava o inverno e as mãos adormeciam na geada agreste que envolvia as azeitonas que apanhava desde madrugada, sei que poucas vezes deixava de roubar tempo ao descanso para ir rezar na novena da Senhora da Conceição.
A minha avó, que viu o mar pela primeira vez na Nazaré quando íamos a caminho de Fátima, e quando eu, adolescente, já tinha um histórico de banhos na praia, será sempre um dos meus maiores exemplos de fé e de honestidade.
Ali em vila Viçosa, num profundo e doce Alentejo.
A fé é a alma toda e a religião será sempre uma casa de Deus com muitos traços da responsabilidade dos Homens, esses mesmos Homens que definem regras e colocam a moral por cima da honestidade que põe à superfície da pele e na cor dos gestos, o tom da alma e da fé que a perfuma.
E o trabalho é a expressão da fé dos pobres que se fazem heróis e próximos de Deus na genuflexão sobre as pedras frias dos ribeiros ou nas Ave Marias quando a geada que envolve os frutos substitui as pérolas envoltas em ouro dos terços dos poderosos.
O novo Bispo de Beja afirmou hoje que Portugal está “cada vez mais “alentejanado’” em termos de fé cristã, com religiosidade pouco evangelizada, prática dominical muito reduzida e vida moral desvalorizada.
Se fosse mais atento talvez pudesse ver para lá do óbvio e sentir e palpar as expressões da fé do seu “povo de Deus”, que estão onde deveriam estar, muito para lá das janelas das sacristias onde a moral é tantas vezes um exercício de retórica utilizado como pano opaco de veludo sobre a desonestidade e o “pecado”.
Talvez lhe fizesse bem ser mais “alentejanado” e sair do palácio onde habita e descer do púlpito de onde prega para aprender com a simplicidade dos demais.
O Alentejo é um canto da alma nascido das raízes da fé, Senhor Dom João Marcos.