sábado, 19 de novembro de 2016

Tanta vida, a minha voz…



A memória veste-me uns calções curtos do tecido castanho que sobrou de um fato do meu pai, e senta-me num banco redondo de madeira encostado à parede por detrás do balcão. A sala rectangular tem livros arrumados nas estantes das suas quatro paredes, e tem duas portas abertas para a rua que arde por bênção da cal e do sol com que o verão beija o Alentejo…
Vila Viçosa. Eu terei talvez uns seis anos, e os livros que vou lendo devagar são as portas para onde se pode de facto espreitar.
Aquela luz lá fora que nos encandeia e que nos empurra para dentro e para o aconchego da alma…
Deixo a memória escorregar depois até à tarde de Dezembro de um ano qualquer da década de oitenta do século que já passou. Cheguei ontem de Lisboa no Expresso que chegou ao Rossio, e vim passar o Natal nas férias da Faculdade. O descanso das Químicas na mesma sala; e eu não me esqueci do lugar de cada uma das “portas”.
Sugiro presentes, faço embrulhos, trocos… e quando não há clientes encosto-me à parte lateral do balção do lado direito de quem entra, virando costa à Banda Desenhada do Asterix e do Michel Vaillant , deixando que a conversa flua e voe para onde se vai espraiando a vida.
Não há palavras proibidas nos instantes em que aprendemos a liberdade, e por entre cravos encarnados ou de qualquer outra cor, o olhar doce de quem nos ama é o espelho onde sempre nos vemos bem e confortáveis na identidade que não trai a essência de que somos feitos.
Tão pouca gente me olhou ou olha assim.
E num dia de Outono, quando os medronhos do Castelo já sorriam maduros e o sol do Alentejo nos enganava disfarçando a geada, a saudade sobrepôs-se às palavras, subitamente, e sem tempo sequer para um beijo fugaz.
Uma partida sem medo, porque só teme a morte quem sente não ter a vida em dia.  
A minha querida amiga Joana Ruivo faria hoje 100 anos e eu contínuo sem saber quanto lhe devo do melhor que existe em mim.
Tanta vida, a minha voz…
Às vezes nos dias de me reinventar, encosto-me por instantes na lateral de um velho balcão de madeira, baralho-me propositadamente na idade e deixo-me ir pelo seu olhar doce, para qualquer lado mas sempre por mim e pela liberdade.
Que nunca nada daquilo que é meu possa ficar por fazer.

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