quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

“Aguenta, aguenta!”


Caro Dr. Fernando Ulrich, sou há muitos anos cliente do seu banco, e por isso um contribuinte activo através de juros, taxas e afins, para o lucro de 250 milhões que a instituição a que preside conseguiu em 2012.
Felicito-o pelo facto de o senhor ser das muito poucas pessoas que neste país se pode orgulhar de ter crescido em termos financeiros no ano que passou, ano marcado por inúmeras falências de empresas de maior ou menor dimensão, e por um consequente e desmesurado aumento do desemprego que atirou muitos milhares de Portugueses para patamares bem abaixo dos limiares da pobreza.
Tem portanto toda a legitimidade para estar feliz nas suas conferências de imprensa.
Porém, permita-me que lhe faça algumas sugestões para que as possa usar, se assim entender, na pose e no discurso.
Aprenda o que é o pudor e aplique-o activamente, evitando assim talvez, essa ridícula soberba de quem fala da riqueza que alcançou e reconhece por legítima a austeridade aplicada aos outros. O “Estado-Colchão” que lhe sustentou o bem-estar e que o privilegia acima de tudo, tem por molas os cidadãos do seu país, esmagados diariamente pelo seu peso e dos seus parceiros e concorrentes, por via de uma carga fiscal de dimensões pornográficas.
Depois, quando afirma que "se os gregos aguentam uma queda do PIB (Produto Interno Bruto) de 25% os portugueses não aguentariam porquê? Somo todos iguais, ou não?", ficava-lhe bem não ser mentiroso. Somos todos iguais? Eu sou igual a si? Só se for aos olhos de Deus. E mesmo assim…
Para além disso, escolha melhores exemplos para nos animar. As comparações com a Grécia não estão muito na moda.
"Se você andar aí na rua e infelizmente encontramos pessoas que são sem-abrigo, isso não lhe pode acontecer a si ou a mim porquê? Isso também nos pode acontecer".
A nós? Senhor doutor, mais uma vez, seja verdadeiro. O senhor sabe que pelo rumo que as coisas levam, é mais provável que me aconteça a mim do que a si. Certo?
E não acha também que lhe ficava bem um pouco de “compromisso social”. Esse assumir da mendicidade como uma natural consequência da vida, é para quê? Tem medo que se lhe acabem os pobrezinhos? É para poder brilhar ao anunciar que oferece 5€ a uma instituição de solidariedade social por cada conta aberta no seu banco?
E a memória? Que jeito lhe daria nem que fosse só um pouco. Desses que não têm casa, quantos as entregaram a si depois de terem sido iludidos pela facilidade publicitada pelo seu banco no acesso ao crédito e depois de por falta de emprego, terem deixado de lhe pagar os juros que alimentam os seus lucros?
"E se aquelas pessoas que nós vemos ali na rua, naquela situação e sofrer tanto aguentam porque é que nós não aguentamos? Parece-me uma coisa absolutamente evidente".
Estou a ver.
O senhor, confortavelmente sentado à mesa e acompanhado pelo Poder, por momentos desvia o olhar do seu bife do lombo, olha pela montra do restaurante de luxo, através da qual vê um sem abrigo na rua, que por acaso ainda respira e se tem em pé, e inspira-se para emitir esta pérola que nos deixa a todos felicíssimos, e sobretudo que expressa o seu carácter de verdadeiro imbecil e mal formado.
Ainda cabe muita gente nas arcadas do Terreiro do Paço. Podemos ir todos para lá. Não acha?
E depois vira-se novamente para o bife do lombo. Muito mais descansado, é claro, pois mesmo que muitos milhares vão para a rua, os “gajos desenrascam-se”. O senhor até oferece 5€ por cada conta aberta…
Para terminar, sugiro-lhe que comece a ir mais vezes ao cinema, se ainda for a tempo de apanhar alguma sala aberta e livre da falência, é que nestas ocasiões citar apenas o Tomás Taveira e o seu “aguenta, aguenta” popularizado num filme caseiro, não me parece coisa digna para um banqueiro, mesmo sabendo que a situação, ainda que em sentido figurado, se aproxima muito da do dito filme, sendo o senhor, é claro, o protagonista.

No tempo do TV RURAL


Levantávamo-nos da cama depois do toque do despertador a que o nosso pai nunca se esquecia de dar corda na noite anterior, abandonando os lençóis cheirosos, invariavelmente brancos, lavados pelas mães nas águas correntes dos ribeiros ou então nos tanques de cimento que tínhamos em casa, com OMO, PRESTO, SABÃO CLARIM ou JUÁ, este último com a vantagem de nos oferecer brindes que poderiam ser Réguas Mágicas ou copos de vidro.
A higiene matinal era feita com a ajuda da PASTA MEDICINAL COUTO e dos sabonetes FENO DE PORTUGAL ou LUX, antes do pequeno-almoço que tinha sempre o leite comprado na véspera na casa do primo João, que criava e cheirava a vacas, em recipientes de alumínio que nós nos encarregávamos de amassar enquanto vazios, fazendo-os bater contra os joelhos. Leite que para nós era acompanhado com TODDY, ou COLA-CAO no caso de alguém ter ido recentemente a Badajoz, e para os nossos pais, com BRASA, TOFINA ou MOKAMBO. Comíamos pão quente comprado na padaria mais próxima e que era transportado em bolsas de pano, com PLANTA, FLORA, marmelada e geleias caseiras feitas pelas mães e avós, e muito de vez em quando, TULICREME.
Íamos para a escola a pé acompanhados pelos colegas que chamávamos pelo caminho e aí aprendíamos sentados em carteiras de madeira, dois a dois, escrevendo em cadernos e sebentas, com lápis VIARCO e canetas de tinta permanente. Os professores escreviam no quadro negro com giz branco.
Todos os dias almoçávamos em casa com os nossos pais, sopa, carne ou peixe e fruta. Bebíamos essencialmente água mas às vezes havia LARANJINA C, SUMOL ou BB (Bem Boa), e em Vila Viçosa tínhamos as laranjadas, gasosas e pirolitos CALIPOLENSE, ou então, os BOTAS que eram produzidos no Redondo. De vez quando também bebíamos LA CASERA, comprada em Espanha e da qual guardávamos as garrafas de vidro com uma típica tampa de metal e borracha, para no verão conservar água fresca no frigorifico.
Sobremesa, ao almoço ou ao jantar, só havia em dias especiais, e para além dos doces caseiros de marca Alentejo, sempre tínhamos à mão os pudins com diferentes sabores da BOCA DOCE ou os pudins de caramelo da MANDARIN.
Depois do almoço, as mães lavavam a louça com SUPER POP ou SONASOL, pondo a brilhar os pratos da Fábrica de Louças de Sacavém ou os pratos PIREX, brancos ou coloridos, que também tínhamos conseguido fazer passar na fronteira do Caia.
Depois das aulas da tarde vínhamos lanchar a casa. No tempo frio voltávamos a beber leite e comíamos pão, à semelhança do pequeno-almoço. À falta de algum acompanhamento para o pão, também se improvisava e acompanhava-se o mesmo margarina ou banha, polvilhadas de açúcar. No verão substituía-se muitas vezes o leite por um refresco DAWA ou uma bebida resultante da diluição do XAROPE DE GROSELHA.
Se tínhamos alguma moeda comprávamos cromos de colecção, e havia alguns que até traziam rebuçados, ou então, alguma guloseima que poderia ser uma PASTILHA ELÁSTICA PIRATA, uma BOMBOCA ou CHOCOLATES REGINA dos quais os mais famosos eram as tabletes, as sombrinhas e o COMA COM PÃO. Estes chocolates eram muitas vezes obtidos através da sorte jogada num furo feito em cartão de onde saía uma bola colorida que indicava a natureza do prémio.
Havia rebuçados e amêndoas para vender à unidade, e era por eles, e também por uns chupas de caramelo que faziam e vendiam na Sopa dos Pobres, à Rua das Pedras, que muitas vezes trocávamos os nossos tostões.
No verão comprávamos gelados da RAJÁ que ofereciam bonecos do Carrossel Mágico, e por vezes traíamos os doces comprando pevides, tremoços, amendoins ou pacotes de batata frita PÁLA-PÁLA ou D’ORO. Recordo-me também de haver tabernas que nos vendiam avulso e às meias dúzias, gingas em pacotes de papel.
Depois dos trabalhos de casa que fazíamos sozinhos e sem a ajuda dos pais, se tínhamos algum tempo para brincar, as condições meteorológicas determinavam se íamos para a rua brincar com os amigos ou se permanecíamos em casa de volta do JOGO DA GLÓRIA, do MIKADO ou do MONOPÓLIO.
Reuníamo-nos depois em família para jantar e passar o serão.
Os nossos pais fumavam PROVISÓRIOS, DEFINITIVOS, KENTUCKY, PORTO, PARIS, RITZ, NEGRITAS ou os resistentes SG’s e PORTUGUÊS SUAVE. 
Liam-se jornais como O SÉCULO e também os que saiam pela tarde e traziam as notícias da manhã. Era o caso de A CAPITAL ou o DIÁRIO DE LISBOA. No campo das revistas lia-se a FLAMA, a PLATEIA, a MODAS E BORDADOS, a ELAS – DONAS DE CASA, e em minha casa, casa de costureira, os figurinos que traziam os moldes em papel. A BURDA, por exemplo.
Nunca nos deitávamos sem antes ouvir o Boletim Meteorológico e os Meninos Rabinos da Família Pituxa. Só em dias de festa e muito especiais ficávamos na sala até ao final da emissão da RTP, vendo a bandeira e escutando o hino nacional.
31 de Janeiro de 2013. Ao tomar um café pela manhã, escutei que vão reinventar o TV RURAL. Fez-se um click e saltaram as memórias desse tempo em que o Engenheiro Sousa Veloso nos acompanhava durante os almoços de sábado.
Que volte o TV RURAL devidamente renovado, que nunca se nos morram as memórias de um tempo em que fomos crianças felizes, mas que o mundo siga e avance, que disso muito precisamos.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Viagem a Ítaca


Quando em Agosto de 2007 aportei na ilha Grega de Ítaca, o Juan Blas não se tinha esquecido do CD em que Luis LLach canta a viagem para essa ilha de todos os sonhos de Ulisses, e a saída do ferryboat ao som da voz e das palavras do cantautor Catalão, teve tudo o que têm os momentos perfeitos, aqueles em que é irresistível pensar:
- Ganhei à vida.
Hoje pela manhã e enquanto escrevia uma mensagem de parabéns para a minha querida amiga Ana Cravo, para todos nós, a Tina, recordei-me desse momento e fui à procura das palavras de Llach, ousando uma tradução do Catalão para o Português:

Quando saíres para a viagem a Ítaca,
ora para que o caminho se te faça largo,
cheio de aventuras e experiências (…).
Mantém sempre no coração a ideia de Ítaca.
Tens de chegar pois é esse o teu destino,
mas jamais forces ou tentes encurtar a travessia.
É preferível que dure muitos anos
e que sejas velho quando aportes à Ilha,
rico de tudo o que haverás ganho pelo caminho,
sem esperares jamais que ela te acrescente riqueza.
Ítaca deu-te a inesquecível viagem,
e sem Ítaca, jamais haverias partido”.
Tina, acho que era de Ítaca, da Ítaca de cada um, que falávamos quando partilhávamos sonhos ao entardecer e no regresso da Escola, atravessando o Terreiro do Paço da nossa Vila Viçosa, inspirados pelo mágico pôr-do-sol que apreciávamos sempre por detrás da majestosa nogueira que ainda hoje existe entre as Chagas e o Palácio.
A nogueira que sempre nos fez hesitar entre o gostar mais dela com folhas ou despida, quando no inverno nos ofertava generosamente a perfeição dos seus troncos.
Nunca tememos o avançar com, ou rumo aos sonhos.
Quando com quinze anos resolvemos fazer um trabalho de Economia, escrevendo-o a branco sobre folhas de cartolina de cor negra e ficando com uma bolha nos dedos pela força com que tínhamos de carregar o lápis de cor que afiávamos de cinco em cinco minutos, já sabíamos que nunca iríamos desistir do que nos impusesse a vontade e o querer, mesmo que estivesse inerente uma forte componente de diferença e o pagamento de uma elevadíssima factura.
Em primeiro, sempre, a fidelidade a nós mesmos.
E a todo o custo, que contra tudo, pode a nossa força.
Hoje estamos pejados de cabelos brancos e já são 47, os anos desta nossa viagem que queremos e merecemos, seja longa.
Agora, já não fazemos torradas utilizando o fundo da frigideira para nos alimentarmos nos lanches em que riamos tanto que acordávamos o bebé da tua vizinha de baixo, já não inventamos histórias malucas para irritar o professor de Português obcecado por perfumes e pela Morgadinha dos Canaviais, já não comemos pedaços de papel, já não armadilhamos o percurso dos professores mais irritantes… Mas continuamos em ritmo veloz de encontro ao que queremos ser, algures no território dos sonhos mais profundos.
Tina, parabéns.
É muito bom navegar tendo-te sempre à vista, nesta cumplicidade de buscar o destino, sabendo que a riqueza se constrói dia-a-dia e em todos os momentos, mesmo que por mais simples, de um longo caminho. 

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Ser estrela e chamar a sorte


Quão vacina altamente eficaz, este post tem o assumido intuito profiláctico de me proteger no futuro contra as abomináveis mensagens que anunciam a sorte e a fortuna através da multiplicação e reenvio dessas mesmas mensagens.
Há alguns anos em Vila Viçosa, recordo-me que a metodologia envolvia a colocação de cartas anónimas nas nossas caixas de correio, e não sei porquê, missivas muitas vezes acompanhadas por uma moeda de um escudo. É claro que a moeda patrocinava a compra de uma pastilha elástica e a carta acabava invariavelmente no lixo.
Com as novas tecnologias, as contas de e-mail e os telemóveis via SMS’s, passaram a ser verdadeiros lança mísseis ao serviço destes intrépidos crentes na sorte fácil. No caso dos telemóveis, penso que sempre com o natural regozijo das operadoras.
Hoje, após uma e hora e meia para percorrer na minha viatura os 15km que me separavam do centro de Lisboa, no exacto momento em que regressava à superfície após o estacionamento nas profundezas do Campo Mártires da Pátria e estando já na companhia da estátua do Dr. Sousa Martins, o telemóvel soou anunciando a chegada da seguinte mensagem, enviada por um número que eu não consegui identificar pois não constava dos meus contactos:
“Quando tu nasceste caíram gotas de água do Céu, mas não era chuva, era Deus "chorando" por ter "perdido" a mais bela das estrelas...Tu! Jesus ama-te muito... Envie esta mensagem para 10 pessoas incluindo eu. Tens 5 minutos a partir do momento que leres e logo terás uma óptima notícia”.
Eu sei que o lugar até está envolto em misticismo, mas por favor, vir alguém falar-me de sorte…
A disposição não estava definitivamente virada para o tratamento habitual: Apagar.
Fui mais além e resolvi responder ao emissor:
“Meu amigo/a de quem não sei o nome, nasci em Julho ao meio-dia e com um tórrido calor alentejano, pelo que peço desculpa, mas a mensagem jamais me poderá ser dirigida.
Para além disso, se mandou para mim e mais nove, logo lhe digo que esta falta de exclusividade não é grande reconhecimento para a minha pessoa. Afinal qual de nós os 10 é a mais bela estrela?
Recuso-me a enviar a mensagem para quem quer que seja pois por desconhecimento das condições meteorológicas no dia do nascimento das pessoas em causa, corria o risco de como você, ser identificado como um/a grande mentiroso/a.
Jesus ama-me muito. Eu sei. E a melhor forma de retribuir esse amor é não fazer da sorte um acaso, mas construí-la, muito pela fé, mas sobretudo por obras e pelo melhor que tento ser. Nos próximos 5 minutos e em todos os minutos que a vida me oferecer.
E o que mais lhe desejo a si, é que seja feliz.
Um beijo ou um abraço, conforme aplicável”.
E depois, fiquei roído de curiosidade para ver se havia reacção.
A resposta chegou de facto, de uma pessoa que eu estimo muito e há muito, e que justificou a atitude pela amizade com que também me brinda.
Tudo sanado e com a vantagem de que ele jamais me voltará a chamar estrela, sempre, e especialmente em dias de pouca sorte.

domingo, 27 de janeiro de 2013

A Batalha da Mealhada


Circulando hoje pela auto-estrada A1, entrei na Área de Serviço da Mealhada quando seriam umas 15 horas, e tive a percepção de ter chegado a um território em guerra, tal a profusão de polícia e veículos de pirilampo azul que ali se encontravam na zona do restaurante.
Confesso que estacionei a medo pois não tenho vocação de mártir e mesmo que um dia o possa vir a ser, que na génese desse martírio haja uma causa mais nobre do que apenas e só a ingestão de uma empada de leitão.
Maldizendo o hábito e o gosto de conduzir em silêncio e apenas com os pensamentos em on, desconhecendo por esse facto a ocorrência de um qualquer golpe de Estado ou revolução, decidi abordar um dos polícias tentando um registo que não me fizesse parecer em demasia com o Raul Solnado no seu inquirir acerca do Domicilio da Guerra:
- Muito boa tarde. É seguro deixar o carro estacionado neste sítio.
A resposta pronta elucidou-me logo sobre o motivo de semelhante aparato:
- O “xô” não tem qualquer problema. Estamos à espera da claque do Vitória de Guimarães mas temos a indicação de que os autocarros ainda vêm longe.
Subo os degraus de acesso ao restaurante em passo acelerado e paro para levantar dinheiro junto a uma caixa multibanco que também está rodeada de polícias.
De pistolas à mostra e bastões pendurados do cinto, conversam animadamente sobre música e ouço-os citar vários grupos Portugueses:
- Era dos Sitiados.
- Não. É de outro que não me lembro…
Olho-os, vejo-os ao melhor estilo Village People em versão renovada, e pergunto-me se não estarei envolvido em alguma cena de apanhados, tal o ridículo provocado pela diferença entre o aparato e a descontracção policial.
Saiem as notas da máquina e sai da casa de banho uma senhora de aspecto frágil e cabelo cor de cenoura. Um dos polícias não resiste e dirige-se a ela:
- A menina desculpe mas agora canta onde?
- Nos Amor Electro, responde simpaticamente a cantora, pondo fim à charada do animado grupo de fardados de azul.
Segurança, claques e bandas?
O festival estaria montado mas eu acelerei para sair dali para fora, após ter comido a empada de leitão, que nem pude saborear de jeito.
Detesto claques de futebol, e não me acusem de sectarismo pois tanto detesto as do meu clube como as dos clubes rivais. Considero-as formas camufladas de manter vivas, organizações com fins perversos que vão muito para além do apoio ao desporto.
Quem paga este aparato policial?
Desconfio que seja o Orçamento de Estado pela via do Ministério da Administração Interna e acredito que se estes sistemas estão montados para as claques de todos os clubes da primeira divisão, a verba total no final do ano, deva ser bastante avultada.
Avultada e demasiado perversa, num país com carências básicas que não tem dinheiro para suportar o transporte em ambulância de pessoas que necessitam de cuidados médicos continuados.
E se há a noção de risco e há práticas criminosas associadas a estes grupos, porque é que em vez de os escoltar, o Estado não os proíbe e desmantela? Acaso coloca um polícia a escoltar cada indivíduo perigoso e potencial homicida?
Os criminosos não se protegem, condenam-se.
Para além disso, e depois das declarações de Armstrong sobre o doping, não restam dúvidas de que o desporto de alta competição é uma farsa, e até o público, este público, é uma mentira.
Hoje são realmente outros, e contados a dinheiro, os valores do desporto.
E depois, desculpem, mas como cidadão, tenho o direito de manifestar a minha recusa em ter de realizar banais tarefas do meu dia-a-dia em ambiente de guerrilha, apenas e só porque um bando de acéfalos gosta de se entreter a partir sanitas e a roubar cervejas.

Rumo ao sul


Entrego o olhar ao horizonte, no momento em que finalmente acudi ao chamamento que por toda a noite, a chuva me fez, batendo ritmada e a compasso na vidraça da minha ocasional mas muito alta janela.
Encontro a Foz, esse merecido aplauso do mar ao Douro, o rio que, por arte e esforço, suor, por bênção dos Céus no casamento perfeito de terra e sol, congrega em si o melhor vinho, o perfeito e divino milagre de Caná. Engarrafados brindes, ao melhor da vida.
Vou rumar ao sul.
Sou do sul.
O meu destino de hoje é buscar Lisboa, deixando-me seguir pelos trilhos dos instintos de Tejo, o rio que para além de si, me devolve a planície e me faz chegar a casa.
Todos os dias da minha janela vejo o Tejo, feliz na sua entrega ao mar.
E o Tejo tem esse condão de em si carregar as águas temperadas de aromas de urze, que das Beiras ao Ribatejo, a água corrente baptizam a terra com a perfeição das Serras, as Terras da Neve.
O Tejo bebe do Zêzere a essência da terra que me devolve à simplicidade de onde nunca quererei partir.
Chove no Porto quando me preparo para partir rumo ao meu destino.
Para sempre o sul.
Para sempre essa rural essência que sou eu.
Essência que é e será sempre a minha verdade, e o melhor de mim.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Por favor, privatizem-me!


Conseguiram.
O recibo que hoje me foi entregue, comprova-o.
Pela primeira vez em mais de vinte anos de trabalho, a quantia que me é descontada do salário, é superior à que me é entregue para eu poder passar nos pórticos das SCUT’s e na via verde, pagar o IVA, as taxas moderadoras, os juros do empréstimo ao banco, o imposto sobre combustíveis, etc.
À semelhança do que aconteceu no ano quente de 1975, posso dizer que fui literalmente nacionalizado.
Ironias do destino, os liberais, os Homens que idolatram os Mercados, por seu interesse, viraram gonçalvistas.
Pela calada da noite da incompetência dos políticos, assaltaram-me, ocuparam os meus parcos haveres e neste momento ganhei a legitimidade de acrescentar EP (Empresa Pública) ao meu nome, uma vez que sou maioritariamente gerido pelo Estado, e sou uma importante parcela do Orçamento desse mesmo Estado.
De caminho e porque tenho a consciência do que é o problema do desemprego neste país, ainda me obrigam a sentir-me agradecido e um privilegiado.
Aliás, duplamente agradecido, pois não se calam com a história do redimensionamento do Estado Social e do necessário controlo do excesso de generosidade do Estado para com os cidadãos, eu incluído, na educação, na saúde e no apoio social que me facultam, a mim e aos meus.
Com medo de que eu pudesse esquecer a elevadíssima qualidade de quem me gere como Empresa Pública, tiveram a amabilidade de colocar em entrevista na RTP, o ministro mais patético de sempre, a falar de exigência e de dores na reestruturação da televisão pública.
Alguém deveria ter dito ao Sr. Relvas de que mesmo quando a mensagem é muito séria, se o emissor for um palhaço, a comunicação vira sempre uma anedota.
E eu, aqui, nacionalizado, e mal gerido.
Por isso e com toda a legitimidade, estou em luta: exijo ser reprivatizado.
Por favor, devolvam-me a mim.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Orgasmos dispersos


Só a ausência de uma cabal e eficaz satisfação das regulares necessidades de âmbito afectivo e sexual, no enquadramento familiar ou alternativo, e no contexto dos territórios e domicílios privados, poderá justificar essa incessante busca dos Portugueses por prazeres alternativos.
E à mão, salvo seja, estão todas as situações normais do dia-a-dia.
O Português gosta de chegar ao trabalho pela manhã e evidenciar a muito “macha” boa disposição do pós-orgasmo, na hora de tomar café com os colegas. E se o sorriso não lhe advém do tempo em que permaneceu em casa, por aborrecimento, falta de vontade, falta de companhia, dores de cabeça ou outra, só lhe resta o percurso matinal de carro para “sacar” o clímax alternativo: buzinadelas, gestos obscenos, palavrões vociferados de vidro aberto, entradas e saídas irregulares nas rotundas, ultrapassagem de traços contínuos e sinais vermelhos, desrespeito pelas regras de civilidade junto de quem com ele partilha as filas, etc. Tudo serve.
E ao estacionar na empresa não resiste a pensar de si para si:
- Ah “ganda” macho. Venha de lá esse café.
Também muito típico é o prazer alternativo do Funcionário Público, “sacado” preferencialmente em zonas de atendimento e sempre com requintes de um exibicionismo atroz. Os preliminares, feitos do lento acariciar de folhas e rato de computador ao jeito de quem olha mas não vê nada, criam todas as condições para que uma multidão se reúna e possa assistir em directo ao clímax dominador e do mais puro sadismo. Quando se ouvir um berro do tipo: “Bem, isso agora…”; o funcionário conseguiu e já está na fase de pré-bidé.
E não se pense que esta busca alternativa do prazer se fica apenas pela população civil pois os militares e as forças militarizadas dão-lhe um intensíssimo uso.
Já alguma vez se cruzaram na estrada com uma coluna militar composta por carrinhas de caixa aberta cheias de soldados?
Se sim por certo concordarão que a forma como seguram as suas armas, invariavelmente de aspecto envelhecido, só encontra paralelo nos exibicionistas que se escondem atrás das árvores dos parques das nossas cidades e que não hesitam nunca em mostrar o seu “poderio”, também muitas vezes em elevado estado de degradação, aos incautos cidadãos que se cruzam nos seus caminhos.
E os Guardas e os Polícias no momento da multa?
Sejam homens ou mulheres, pouco importa, pois avançam sempre como machos sobre a “presa”. Rondam-nos, a nós ou à viatura, emitem sons secos e estranhos enquanto exigem a nudez da nossa identidade que lhe passamos para a mão sob a forma de cartões, e atingem o clímax quando rubricam o papel da multa que depois nos entregam já ao jeito de um toalhete:
- Então? Gostaste? Agora vai “lavar-te”.
Sem escolha de género, estatuto social ou profissão, este tipo de práticas substitutas da interacção e do prazer sexual, também atingem qualquer idade.
Por exemplo, se estiverem mais de meia hora na sala de espera de um Centro de Saúde, onde a média etária habitualmente ronda os setenta anos, verificarão que 10 a 20% dos presentes aproveitou esses momentos em que dispôs de parceiros de ocasião, para partilhar as situações em que o universo parou à espera de uma sua intervenção à moda do McGyver. E as histórias que falam de lucidez e da escolha e intervenção certas no momento certo, poderão atingir o clímax ou não, pois bastas vezes as administrativas, gritando o número dos heróis, deixam-lhes na boca aquele agridoce sabor a um coito interrompido.
Mas que se registe sempre, o seu esforço.
Há ainda os políticos na sua relação com os “Mercados”, os futebolistas com os carros de alta cilindrada, as tias com as carteiras Channel…
Eu bem sei que o ditado afirma que “quem não tem cão, caça com gato”, mas que haja também essa percepção de que o felino, na maior parte dos casos, jamais terá a eficácia do canídeo.
Aplicando-se ao tema, sempre digo que os alternativos e dispersos, jamais substituirão os orgasmos verdadeiros e legítimos, no prazer em si mesmo e na protecção eficaz contra as depressões crónicas.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Entardecer


O cinza camuflou o sol que nasceu forte pela manhã, e por completo aniquilou o acréscimo de luz que Janeiro sempre oferece aos dias.
De intenso negro e raro branco se faz a palete de tons que uniu o céu ao mar, e não fosse a vida alimentada a memórias e certezas das cíclicas primaveras, e diria aqui que o mar nunca existiu.
Até as gaivotas vieram e estão por sobre mim, e é estranho o seu bailado ao redor de uma esguia e imponente árvore, por hoje apenas e só, um bouquet de finos e hirtos troncos abandonados à guerra com o vento que insiste em soprar forte.
E ali mesmo ao lado, um canavial há muito se rendeu, e curva-se obediente à força e ao poder de cada rajada.
Por todo o lado há gente que corre e se cruza comigo ao ritmo rápido ou lento que a vermelhos e verdes, o semáforo oferece. Do lado de cá do carro, são todos, autómatos com ou sem rumo, mas sempre sem fala.
Os entardeceres assim, de cinza, chuva lenta e persistente, são espelhos abertos ao reflexo que expõe a despudorada verdade de tudo o que somos e daquilo que a alma nos impõe.
E o silêncio, incessante, grita-nos palavras.
As palavras sem letras dessa indisfarçável e maior verdade de nós mesmos: o pensamento.
Respiro fundo.
E sorrio…

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Gente maior


As pessoas, mais do que tudo, são as nossas maiores cúmplices no moldar dos dias. Em primeiro lugar pelo que são, e depois, pelo que são capazes de fazer acontecer.
E os amigos, os verdadeiros, são aqueles que impelidos pelos afectos, nos tornam o tempo mais do que perfeito, ficando para sempre sublinhados nos capítulos indissociáveis da nossa história.
Há alguns anos, inacreditavelmente muitos porque ninguém deu pelo tempo passar, são de amigos, algumas das melhores e mais requintadas memórias dos meus dias de Vila Viçosa.
Por estes dias frios de entre Janeiro e Março, era necessário, por vezes, acender a lareira enorme que existia entre as manjedouras do corredor da nossa improvisada mas eterna Escola Secundária, à Ilha – Porta dos Nós, que por este tempo é dependência do Museu dos Coches e que muito pouca gente consegue imaginar ter sido perfeita, como espaço para aprendermos e para nos divertirmos enormemente.
Os nossos impermeáveis coloridos, baptizados todos com a marca Kispo, eram de facto insuficientes perante tantas correntes de ar de um sem fim de janelas e portas inventadas para um espaço que nasceu para ser a Cocheira do Paço Ducal.
Usávamos camisolas de gola alta muito apertadas e chegadas a nós, e por cima das ditas, camisas de xadrez que ficavam a matar com as jeans compradas nas feiras ou nos mercados das quartas-feiras, no Rossio. As botas cardadas, eram invariavelmente compradas na Feira dos Santos, em Borba.
As raparigas usavam cabelos longos e armados ao estilo de parabólicas. Vistas de longe e com tanto volume, um terço do corpo era cabelo.
Por esses dias, os momentos de maior Lux eram aqueles em que nos dávamos estatuto de VIP, alindávamos as Caras e fazíamos as festas da Nova Gente, ou da Gente Nova, que para o caso éramos nós.
E as melhores festas, não tenho dúvidas, eram as de aniversário das minhas queridas amigas e manas Duarte: São, Zinha e Céu.
Fazíamos teatros cómicos com tal qualidade que os meninos dos Morangos com Açúcar, se nos vissem, coravam de vergonha e retiravam-se esmagados pelo nosso talento (Paula Dias e Clara Fonseca, o Teatro Nacional ainda hoje vive com a nostalgia da vossa ausência), cantávamos, dançávamos ao som do Simon & Garfunkel no Central Park, da Telepatia da Lara Li, das Baleias do Roberto Carlos ou então de O amor dos Heróis do Mar.
No tempo em que víamos a série Fame e O Passeio dos Alegres, não dispensávamos jamais as músicas da Sheena Easton, da Kate Bush, dos Culture Club, dos Spandau Ballet  e da Orchestral Manoeuvres in the Dark, que sob a forma de Single ou LP, se iam sucedendo no prato do gira-discos.
Quando era Carnaval, jamais nos negámos a trazer connosco uma máscara que a todos pudesse divertir.
Manuel, isso é que era imaginação. Tia Maria do Monte, não era? A saia de Nazarena assentava-te a matar!
Comíamos muito, mas todos menos que o João Paulo: rissóis de pescada, empadas de galinha com aroma de manjerona, croquetes, pastéis de bacalhau, costeletas de borrego panadas, sandes de fiambre ou de queijo, pãezinhos de leite também com fiambre e queijo, “apitos” de massa recheados com picado de carne, frango assado, bolos variados, sericá, arroz doce, bolo de aniversário, etc., e sempre na companhia de Limonada, Gasosa, Laranjada e, a grande novidade, Coca-cola.
Na cozinha, estava invariavelmente o dedo mágico da doce Eugénia, que o coração de todos nós adoptou como “Iá”.
Conversávamos muito, ríamo-nos ainda mais, e invariavelmente havia sempre uma amiga que por desgosto de amor se refugiava a um canto para com o apoio de algumas Damas de Honor verter umas poucas lágrimas terapêuticas. Quando no final da noite se cantava o Parabéns a Você, os desgostos já tinham morrido todos e por alturas da Salva de Palmas já ninguém se lembrava deles.
A casa da Rua dos Fidalgos era grande e nós éramos muitos.
E com estas três amigas, cujos aniversários marcavam o nosso calendário social de Janeiro a Março, com a saudosa D. Adélia, o Dr. Alípio, a Lurdes, o Fernando e o Rui, a casa até parecia pequena perante a grandeza de carácter, o infinito valor da honestidade, da amizade e a força da fé, inscritos no ADN de uma família de quem ser amigo, é para mim um privilégio e uma honra das muito grandes e raras.
As pessoas que nos moldam os dias e os tornam maiores e felizes.
São, parabéns pelo teu aniversário de hoje.
Não revelo a tua idade para não correr o risco de alguém um dia destes me amputar o texto quando tiver de o ler em público. Direi apenas que são muito poucos anos para os muitos e muito bons que tu e todos os teus merecem viver.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Suas Excelências, os “Ex’s”


Desde sempre me habituei a conviver de perto com o ditado: “se queres ser bom, morre ou ausenta-te”.
É um facto que a morte de alguém nos “adoça” o coração e tem o condão de aliviar os juízos negativos, mesmo em relação a pessoas com que não simpatizávamos muito. Por um lado, porque não nos sentimos bem a “bater em mortos”, no verdadeiro sentido do termo, por outro porque delegamos em Deus, o dito julgamento, e de caminho, por precaução, não vão os finados ter algum poder misterioso e fatal que nós desconhecemos, e venham acelerados das mais profundas trevas para nos infernizar os dias.
A ausência tem efeitos semelhantes mas por não envolver uma componente mística e metafísica, tem sempre menos eficácia e menos impacto de perdão. Passa a ser uma questão de tempo e de alívio da memória.
Nos últimos tempos, tenho-me apercebido que é total a adequação deste ditado à política Portuguesa.
Por intolerância a telenovelas, programas de entretenimento, concursos e “Big Brother’s” ao estilo cabaret da mais ordinária coxa, circulo muito pelos canais de notícias das três estações nacionais, tendo assim o “privilégio” do convívio diário com o saber, a clarividência e a excelência dos “Ex’s”.
A “painelar” em conversas mais ou menos alargadas, os ex-Ministros das Finanças sabem todos como retirar o país da crise e sabem quais as medidas que devem ser tomadas para o conseguir com eficácia e em menor tempo.
Ex-Primeiros-Ministros, ex-Presidentes da República, ex-líderes partidários, ex-Ministros da Saúde, etc., todos sabem sempre o que fazer. E cheios de certezas.
É interessante a forma como os ditos indivíduos são apresentados pelos jornalistas, sempre como ex qualquer coisa, justificando-se por essa via a sua presença e antecipando-se desde logo, a pertinência e a legitimidade das suas achegas.
Este fim-de-semana, o ex-Presidente da República, Jorge Sampaio, deu uma entrevista ao Expresso, e foi ver a forma decidida como opinou sobre todos os assuntos, sobre as suas soluções para a sustentação do Estado Social, ele que em 2004 ouviu tudo e todos para conseguir tomar a decisão de empossar Santana Lopes com Primeiro-Ministro. Então, até os moribundos foram obrigados a subir as escadarias do Palácio de Belém, e para o que se viu...
- Pois… Havia também aquela questão de matar a liderança de Ferro Rodrigues no PS e esperar pela entrada de Sócrates…
- Ok, mas isso não interessa nada.
Este aumento da clarividência e lucidez após a retirada dos cargos, justificará quiçá a facilidade com que os políticos se reformam no nosso país, algo que até deveria ser incentivado, pois todos eles reformados, e talvez a crise se resolva por si só. Mas por favor, com a reforma mínima ao nível da dos trabalhadores rurais.
No fundo, e sabemos que é essa a razão, há um deficit grave na formação dos nossos políticos, muito treinados para a tribuna e para a palavra, e jamais treinados para a competência e para a arte do “fazer acontecer”.
É grave essa discrepância que à semelhança da Gripe das Aves ou da Doença das Vacas Loucas, poderia ser designada por Incompetência dos Papagaios, patologia grave com manifestação de sintomas de amnésia e desonestidade intelectual.
Há não muito tempo, em Julho do ano passado, um famoso “ex” felicitou os médicos pela sua greve, gesto heróico em defesa do Serviço Nacional de Saúde que em seu entender era "uma das conquistas mais importantes na normalização democrática após o 25 de Abril". "Perceberam bem todos o que estava e está em jogo, salvar ou não salvar o SNS, que está ameaçado", afirmou.
Meio ano depois, e na hora de escolher um hospital, este ex-Presidente da República, Mário Soares, exemplifica e manifesta todo o seu verdadeiro respeito pelo Serviço Nacional de Saúde buscando um hospital privado.
A não ser que goste tanto dele, que não o utiliza para não o desgastar, numa atitude mais ou menos ao jeito de quem tem um fato novo e só o veste em ocasiões especiais, não vá ele ganhar algum desgaste e nódoas.  
De facto, isto de ter de fazer algo depois de tão bem opinar, é mesmo uma grande maçada.
Por fim e no momento presente, que o tempo corra veloz, que os actuais ganhem rapidamente estatuto de “Ex’s” que nós até lhe pagamos a “Pensão de Alimentos” só pelo prazer e alívio do divórcio.
E até podem ir para os painéis de opinião ganhar alguns trocos que nós não nos importamos. Afinal de contas, o exercício do zapping é tão relaxante.

domingo, 20 de janeiro de 2013

Europa, essa pérfida mentira


Nada mais, para além da dimensão geográfica, é capaz de nos unir no espaço Europeu. A Europa é, apenas e só, um continente.
Quem tem a oportunidade de interagir com indivíduos oriundos de outros países da União Europeia, sejam Nórdicos, Belgas, Checos, Gregos ou outros, rapidamente se apercebe que pouco ou nada nos une para além do espaço geográfico, porque até a história de cada país é contada enumerando as glórias das batalhas que vencemos quando estivemos uns contra os outros.
Neste contexto, a solidariedade entre países é idêntica à de um leão esfomeado que nos vê entrar pela jaula para lhe fazer uma festa.
Quando na primeira metade do Século XX e em menos de trinta anos, a Europa se viu devastada por duas guerras de dimensão mundial, acredito que o desafio de criar uma união económica, mais até do que política, tenha sido um sonho legítimo de Homens de dimensão maior.
Porém, quem às vezes interpreta a música de um génio, nem sempre o acompanha em dimensão na arte.
Quem pegou no sonho Europeu e decidiu dar-lhe corpo, concretizando-o, foram pessoas de muito menor dimensão, que nos salões e no silêncio das grandes organizações secretas que alimentam interesses pessoais muito específicos e que contam sempre com o patrocínio da alta finança, criaram uma falsa união que de tratados em tratados, de negociatas em negociatas, sempre à revelia dos cidadãos, tornou a Europa no que é hoje, um desmesurado e incontrolável Titanic.
Agora, o navio vai cheio e a uma velocidade estonteante, e por falha do sistema de controlo, leia-se um sistema de vontades políticas articuladas, não há já qualquer possibilidade de desviar a rota dos Icebergues que do Hemisfério Sul e de Oeste, travestidos de Mercados, estiveram sempre ali à nossa espera.
Os comandantes do navio, bêbedos e alucinados pelo poder, demitiram-se, e dos camarotes de luxo das suas reformas douradas, dão ordens esquizofrénicas aos reles marinheiros que tomaram o leme: e no seu jogo de mais dividir para melhor reinar, tão depressa impõem mais austeridade como alertam para os perigos da própria austeridade.
Portugal, atraído pela ilusão da publicidade e da grandeza, quis há muito entrar neste paquete de luxo e de velocidade de potência mundial, tendo para isso empenhado a vida, as fronteiras e a sua autonomia que é recorde na história da própria Europa, para comprar um bilhete que nunca foi além da 3ª classe, o sítio sempre reservado aos mais pobres, aqueles a quem os ratos atacam em primeiro lugar.
Agora que o naufrágio é iminente, que é impossível estar “Seguro” e que a “Passos” caminhamos para o abismo, há poucas balsas e as que existem, jamais nos serão destinadas. Estamos no pelotão da frente, finalmente, mas neste caso para morrer afogados.
E se alguns estranharam a atribuição do Nobel da Paz de 2012 à União Europeia, olhem para ele com a dimensão de um Óscar, e assim, pela arte da ilusão, poderão compreende-lo melhor.
A crise Portuguesa é muito mais do que apenas isso, é uma crise Europeia e de desfecho imprevisível porque a austeridade é uma bomba relógio e porque não há mote mais eficaz para a guerra do que o desespero de estômagos vazios. 

sábado, 19 de janeiro de 2013

O vento


Toda a noite, o vento soprou forte.
Grito, sussurros, a cumplicidade com a chuva arrastada para a vidraça, e esse desenho dos sons que a nossa imaginação faz parecer palavra.
A voz do vento nascida da sua força, ou o mar perseguindo-me e impondo-se aos meus dias no Alentejo que só o pode sonhar, sendo como é, pedaço perfeito de terra lusa, que mira a nascente e corteja Espanha.
No Terreiro, ao lado da minha janela, o cipreste que compete em altura com a imponência do Paço, agita-se desde a madrugada num estranho bailado que dá movimento à estranha e inédita Banda Sonora que povoa hoje a minha terra, e que nos matou por instantes esse privilégio da companhia do eco dos nossos passos sobre a calçada.
Espreito pela janela, e daqui, do quente da camilha que esconde a braseira que pelo corpo me aquece a alma, vejo que o cinzento que se impôs ao céu, preservou e mantém intacta, a beleza do casario branco que por sob o tijolo dos beirais e numa quadrícula em amarelo e azul feita de rodapés e umbrais, dá corpo à Calipole, de onde sou e a que pertenço.
No ar já cheira a hortelã e de grão-de-bico se fez o cozido que anuncia o almoço.
Que bom é estar em casa, na minha verdadeira casa, num dia assim.
Com o Alentejo, e sempre, com as memórias do mar.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Dois mil e “treuze”


Tal como a roupa que vestimos, a quantidade, a qualidade e as marcas dos adereços e adornos que usamos, o número de beijos com que nos osculamos, também a expressão oral da língua Portuguesa é utilizada como factor diferenciador dos extractos sociais.
E se os sotaques de cariz regional são uma inevitabilidade que advém da zona onde nascemos e vivemos, muito agradável e simpática em minha opinião; esta forma de articular palavras e frases é em muitas situações, um visto para a entrada em áreas exclusivas e de afirmação, nem que para tal, se mate a facadas, a língua de Camões e Pessoa.
Vem isto a propósito do tormento que será suportar este ano, que para muitas pessoas é o de dois mil e “treuze” (treze). Ainda Janeiro vai a meio e já deu para ver que isto será duro…
Embora sem poder afirmar o seu significado estatístico, a amostra que utilizei para análise parece evidenciar que esta é uma verdadeira praga que ataca sobretudo essa classe das super sofisticadas louras ao estilo mostruário de madeixas e nuances, as aspirantes a “tias”.
São elas que por obra das aplicações de botox ou pelos esgares que traficam inter-pares, não abrem suficientemente a boca e ao melhor estilo vítima de AVC, dizem coisas como: “as mnhas xilhas” (as minhas filhas), “os xins de semana” (os fins-de-semana), “as xérias” (as férias), “as pusseiras” (as pulseiras), “os buzões” (os blusões), “à’ jezes” (às vezes) e “taás joa?” (estás boa?).
Mas não se pense que só esta classe sofre do “Síndrome do Treuze”. Apesar da mais baixa prevalência, ele ataca por todo o espectro social até aos antípodas do grupo das tias, sendo um dos raros denominadores comuns inter-classes.
E no pólo oposto ao das tias vamos encontrar a trupe dos frequentadores de Centros Comerciais ao fim-de-semana com equipamento desportivo de cor garrida, sempre depois de uma passagem pela “Feira do Relógio” e de terem gasto parte do ordenado em peças de contrafacção.
E, a uns e a outros, basta ouvi-los e logo os alinhamos com o grupo a que pertencem:
- “A maã” versus “a velha” (a mãe);
- “Imenso dinhairo”, “bué de papel” (muito dinheiro);
- “Enxaquêca”, “dor de cornos” (dor de cabeça);
- “Desinteria”, “caganeira” (diarreia);
- “Etilizado”, “com uma cadela” (bêbedo);
- “Supé chiquee”, “bués faine” (muito bom);
- “Aguarde, po favore”, “aguenta uma beca” (espere um pouco);
- “Tiu”, “irmão do mê velho” (tio);
- “Algarismos”, “númaros” (números);
- “Genitália”, “boca do corpo” (vagina);
- “Genitais”, “tomates” (testículos);
- “Supé caturra”, “de mijar a rir” (muito engraçado);
- “Soufá”, “divã” (sofá);
- “Supé amoroso”, “bacano” (boa pessoa);
- “Sopeira”, “mulher-a-dias” (empregada de limpeza);
- “Mictório”, “mijatório” (urinol);
- “Preparar a refeição”, “fazer o comer” (cozinhar);
- “Piqueno”, “minorca” (pequeno).
Mostra-me como falas e dir-te-ei quem és, ou, de uma perspectiva mais positiva, a prova e a expressão da riqueza da nossa língua.
Tanta diferença e afinal de contas, e tantas vezes, une-nos o “treuze”.
Por isso o meu apelo e porque há ainda muito ano para viver: com botox, esgares de AVC ou palito ao canto da boca, mas por favor, nunca com “treuze”.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

As camélias de um intenso tom rubro


Somos seis à mesa do jantar.
Quando hoje nos despertámos em nossas casas para mergulharmos em mais uma semana de afazeres e altas prioridades, jamais imaginámos que iríamos terminar assim, juntos, as nossas tardes.
Um SMS a meio da manhã comunicou-nos que a mãe da Fernanda, uma amiga comum, acabara de partir para o Céu, e, pelo compromisso com as amizades com marca de eternidade e por uma bendita imposição dos afectos, as prioridades foram imediatamente alteradas, e viemos todos.
Em momentos assim, do “toca a reunir”, já sabemos há muito que instintivamente o GPS da alma nos encaminha para o “Centro de Operações Especiais para Actividades do Coração” que está montado na Fazenda das Figueiras na casa da Mina e da Natália.
A comida surgiu por magia e sem Bimby, e foi apenas um detalhe, pois o que nos alimentou verdadeiramente, enquanto na lareira a lenha de sobro se entregava ao lume para nos aquecer, foram os frutos desse amor fantástico que nos une a todos e que insistimos em manter vivo, jamais desistindo e quebrando quaisquer dos muitos laços nascidos das mais profundas cumplicidades da fé e da vida, que para nós são uma e a mesma coisa.
E só as cumplicidades da alma são eternas.
Quando mais tarde nos juntámos à Fernanda e à sua família, e quando todos rezámos o terço, foi de amor, vida e fé que temperámos cada palavra, gesto, beijo ou sorriso.
Fomos nós, fomos iguais, os mesmos que há trinta anos e nos dias quentes de Agosto, escolhíamos aquelas margens do Sorraia onde comi os pêssegos mais gordos que alguma vez vi e onde os mosquitos alimentados a arroz tinham porte de helicópteros, para nos encontrarmos e partilharmos os sonhos a quem jurávamos a fidelidade dos mais bravos e convictos guerreiros.
E para nos rirmos muito, porque só quem nunca foi assim tão feliz, pode opinar que gargalhadas são sinal de pouco siso.
O adiantado da hora impôs-nos um adeus difícil à porta da Igreja de S. Pedro, em Coruche, só tolerado porque já carregámos as agendas de reencontros para os próximos meses, para que por entre as parties e o Cozido à Portuguesa, voltemos à alegria de estar juntos.
À porta da casa da Mina e da Natália há uma Camélia repleta de flores de um intenso tom rubro que brilharam ontem quando os faróis do meu carro as revelaram na escura noite do Ribatejo.
Foi um botânico e Padre Jesuíta Checo, George Kamel, que inspirou o nome de baptismo desta planta que é aparentada com o chá. E por Kamel, as Camélias são chamadas de Camélias, porque um dia este homem chegou a Manila e abriu a primeira farmácia das Filipinas, uma farmácia de acesso gratuito para toda a população daquele país.
As Camélias carregam a herança da fé e da vida de um Homem muito grande.
Minhas caras Mina e Natália, a Camélia de flores rubras, é o vosso legítimo brasão.
A fé, o vosso exemplo de vida, os valores partilhados e a amizade, são a inspiração, o mote, o “remédio” oferecido pela vossa generosidade para que os nossos dias sejam melhores e nós sejamos maiores.
Para mim vocês são e serão sempre, muito mais do que amigas, são uma referência que me motiva a crescer.
E sempre com a força e o brilho das mais viçosas Camélias.

domingo, 13 de janeiro de 2013

Secret Story


Glória Maria da Silva Araújo.
É deputada à Assembleia da Republica eleita pelo círculo do Porto nas listas do Partido Socialista, pertence à Comissão Parlamentar para a Ética, a Cidadania e a Comunicação, e em 2008 participou na Comissão Interparlamentar da Segurança Rodoviária.
No passado dia 4 foi detida por uma brigada de trânsito por conduzir com 2,41g de álcool no sangue.
Ana Teresa Vicente.
Presidente da Câmara Municipal de Palmela eleita nas listas da CDU, estando impossibilitada de concorrer a um quarto mandato, requereu a reforma aos 47 anos.
O Governo da Austeridade.
O Governo que quer “reajustar” o Estado Social despedindo funcionários públicos, nomeou até final do ano, cerca de 3.500 assessores políticos, todos com ordenados muito interessantes e com um grupo de cerca de 1.500, a receber os subsídios de férias e Natal.
Escolhi apenas três exemplos recentes para ilustrar a minha convicção de que hoje a Política Portuguesa é uma verdadeira Casa dos Segredos, em que todos os “concorrentes” têm lados negros mais ou menos escabrosos, estando a sobrevivência assegurada pela arte de melhor os disfarçar iludindo o povo.
“A voz” que os move e da qual se desconhece a face, serão por certo esses famigerados Mercados, a Banca e todo o conjunto de interesses pessoais que conduzam ao altar do protagonismo e sempre com o conforto dos bolsos cheios.
A condução do programa é feita por um apresentador já em fim de carreira, um Cavaco Silva, que desprovido de bom senso e pudor, se assemelha verdadeiramente a uma Teresa Guilherme, mas sem teleponto e sem água benta.
As nomeações para sair da “casa” são também feitas pelos próprios, sempre ao ritmo das zangas de comadres e nos confessionários da exposição mediática proporcionada pelas páginas dos jornais.
Quem produz o “programa” é também quem paga as chamadas de valor acrescentado para as expulsões, leia-se IRS, IVA, IMI, etc; ultimamente todos muito “acrescentados”.
E tal como o programa original, emitido numa televisão que se diz séria, que já foi de inspiração cristã mas que agora apesar de manter a Missa e as Transmissões de Fátima, há muito expirou o cristianismo, esta “Casa dos Segredos” tem sempre o invólucro de “coisa séria”.
No Portugal de 2013 choca-me a excessiva passividade com que lidamos com a desonestidade e como assumimos normal este desajuste entre os vícios privados e as públicas virtudes, assentado sempre as nossas escolhas no “clubismo” com que assumimos os partidos, ou então na constante selecção dos menos maus.
O momento impõe que sejamos exigentes, por tudo e também e sobretudo pela legitimidade que advém do elevado preço que estamos a pagar.
Quem paga para comer lombo jamais se deve contentar com um prato de ossos.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Cuidados domiciliários


Atacado pela incompetência, mais do que pela invalidez, Portugal é hoje um velho senhor falido que habita o seu castelo com 89.015 km2, para além dos dois anexos algures no meio do mar, gozando de boas vistas e com “salões” carregados de memórias, mas preso de movimentos e com total dependência de terceiros.
Os filhos e netos, a quem entregou por testamento e voto de confiança, a gestão dos seus bens, esbanjaram a fortuna tratando das suas comodidades, e agora, por inabilidade ou má vontade, recusam-se a cuidar de Portugal e recrutaram recentemente os serviços de um prestador de cuidados, um tal de FMI.
Há alguns anos, quando tomaram as rédeas do governo da casa, a coisa animou. Chegou muito dinheiro e restaurou-se o “castelo” para abrir uma espécie de “Turismo de Habitação”. Fizeram-se acessos, pontes, rotundas, parques de jogos e de diversões… Parecia que o futuro estava garantido e que tudo corria sobre rodas.
Mas, rodas, agora só as da cadeira a que o velho senhor está preso, pois os seus descendentes falharam em toda a linha, sobretudo nas contas.
O falhanço não surpreende pois eles nunca foram pessoas muito dadas à formação e aos estudos. Digamos que mais facilmente compram bancos do que fazem cadeiras.
Ainda se tentou vender património, nomeadamente os aeroportos, a água, a luz, a televisão, os aviões… mas foi insuficiente para dar liquidez.
Entregue a gestão da “casa” e os cuidados ao FMI, os filhos e netos aprecem pouco por cá. Passeiam-se por Paris, pelo Brasil, etc. A última vez que deram notícia estavam a passar o fim de ano no Copacabana Palace, no Rio de Janeiro. E em grande, claro.
Agora, assim preso de movimentos e cativo da sua penúria, Portugal entrega diariamente todos os seus parcos haveres, a pobre reforma que lhe resta, e os cuidados domiciliários do FMI encarregam-se de toda a gestão da casa. É um processo do tipo “chave na mão” e serviço completo pois uma das primeiras medidas foi desde logo despedir todos os “serviçais” com funções no “castelo”.
A comida que é servida é pouca e light, com enormes vantagem para o utente pois o excesso de alimentos está associado ao aumento do risco cardiovascular que “entope” os serviços de saúde. Em todas as crises há oportunidades e comer bifes todos os dias só faz mal e traz transtornos.
E por falar em saúde, sempre que adoecer, Portugal terá direito a todos os tratamentos possíveis e indicados, exactamente por esta ordem de prioridades, primeiro, os possíveis, e dentro destes, os mais indicados. Os serviços especializados do FMI encarregar-se-ão de saber quando é que o doente necessita de cuidados especializados, os quais serão sempre ministrados com moderação. E com as respectivas taxas.
A limpeza também está assegurada mas será feita como tudo o resto, nos mínimos e sempre no limite do indispensável. Qualquer serviço extra obrigará a pagamentos suplementares e por certo o pouco ouro que ainda há nos cofres do “castelo” não se quedará muito tempo sem ir beber umas cervejinhas na Oktoberfest.
As últimas avaliações sugerem que apesar de toda esta situação, o “velho senhor” Portugal está lúcido e articula bem o seu discurso na revolta contras os serviços prestados e contra toda a situação em que foi colocado, o que causa por vezes algum incómodo aos cuidadores que diariamente se dirigem ao seu domicílio e que gostam de confrontar-se com mais moderados e pacíficos comportamentos.
Não é pois de estranhar que um destes dias haja uma manifestação de violência do “paciente” mesmo que só com as poucas armas de que dispõe no seu estado de semi-cativeiro.
Não convém esquecer que uma arrastadeira cheia de bostas é uma boa arma de arremesso e que até uma banheira cheia de água pode ter a eficácia de um oceano na hora de afogar um imbecil.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

A oeste, Portugal


O retrovisor oferece-me o prenúncio do Lumiar e da perfeição de Lisboa, quando de relance observo o imenso vale de Loures, que deixo para atrás à medida que a auto-estrada me faz subir até aos moinhos que, antigos ou renovados, insistem em não desaproveitar a força dos ventos que sopram bravos nos cumes dos montes saloios.
E os moinhos recortam as linhas, de Torres, da “memorial” Mafra, e de todos os horizontes até ao ponto em que Óbidos nos esconde Peniche e as Berlengas e nos fala das Rainhas, de quem sempre foi jóia maior que a própria coroa.
Óbidos, o castelo que nem o mar resiste a beijar, tornando-se lagoa e criando o arrendado de terra e água que pelo Arelho e deixando a Foz, nos leva às Caldas, por D. Leonor baptizada rainha, e por Bordalo tornada o berço do Zé, que sendo povinho, tem afinal a cara e o gesto de todos nós.
Antes de Leiria e do infinito mar de troncos que sustentam no alto o pinho verde semeado por D. Dinis, o Lavrador, o Alcoa traz-nos à memória o Baça e as terras de Cister que estendendo-se até ao mar da Nazaré de D. Fuas, são sítio, e são a sombra do mosteiro que guardará para sempre as memórias dos infelizes amores de Pedro e Inês.
E por Pedro e Inês, em Coimbra, do sangue se fez a fonte, cúmplice do Mondego que desce da Serra e que antes da Foz recebe o Pranto, para mais à frente, na Figueira, da tristeza do povo do fado, a lágrimas, de sal temperar o mar.
E segue boa a viagem, tal qual a Serra que do cume nos revela a imensidão de verde que parece escorrer do Buçaco para, por entre Quiaios e Mira, nos atapetar o caminho até Aveiro, a nossa Veneza da Ria e do moliço.
Daqui, até Espinho e Gaia, até à Granja, menina do mar e da eterna e maior Sophia, as chaminés que rompem por entre o verde do pinhal, denunciam o trabalho e o músculo da gente nobre e guerreira de entre Douro e Vouga.
Gaia, Douro e Porto…
Pela Arrábida, muito breve se nos faz o caminho, tanta a vontade de ver a cidade, sempre nessa hesitação de espreitar à esquerda a imensidão da Foz ou de relance buscar a Ribeira, única e tripeira, sustentando a perfeição da imperial cascata de tons granito.
Invicto, será sempre o amor pelo Porto.
Cheguei.
Uma manhã solarenga mas fria de Inverno, estrada fora na companhia do pensamento e das memórias, e sempre com as cumplicidades do Atlântico que nos molda o ser e nos marca definitivamente a História.
A oeste, Portugal.
Eterno e legitimado pela força do que nos une.  

domingo, 6 de janeiro de 2013

Uma família à sombra da amoreira


O acesso à nossa família pode sempre ser feito por duas vias: o parentesco ou os afectos.
E mesmo aqueles que acedem pela primeira via, apesar de inevitáveis na nossa árvore genealógica, são sempre sujeitos a uma prova natural de acesso e avaliação segundo as regras do coração, a qual, em caso de reprovação, os remete automaticamente para a longa galeria dos conhecidos.
Considero-me um homem de sorte pelo facto de a vida me ter oferecido uma família grande e sem necessidade de “chutar” alguém para o Panteão dos Afectos”, tendo para além disso, a generosidade de me oferecer muitos amigos que pela intensidade com que o são, se tornaram membros de pleno direito, e indispensáveis, na família que me rodeia.
Quando vim estudar para Lisboa em 1984, uma espécie de Maria Papoila na versão Estudante de Farmácia, fiquei alojado na sede da Fundação da Casa de Bragança, então ao Príncipe Real, onde tinha como companhia um casal, a D. Engrácia e o Sr. Francisco, pessoas que até aí eu desconhecia.
Rapidamente me adoptaram como neto e dos seus afectos se me compuseram os dias do meu receio no contacto com a cidade grande, onde eu temia tudo, e até a própria sombra, que eram simultaneamente os dias do deslumbramento e em que tantas vezes me senti o Artur Corvelo de “A Capital” do meu preferido Eça de Queirós.
A doença e a reforma destes meus novos avós, trouxe para junto de mim o seu filho, a nora e a neta, e com o Sr. José, a D. Aldina e a Luisinha, demos continuidade ao fluxo de afectos que fez do conhecimento nascer amizade e da amizade crescer laços de família.
Quem no silêncio e na solidão do nosso quarto de estudante, longe dos pais e de toda a família, nos chega um dia para nos aliviar na doença com uma sopa ou um simples chá, está desde logo “condenado” a ser um dos nossos.
Há gestos que pelo amor que carregam se sobrepõem ao desgaste do tempo, mantendo-se constantes na primeira linha de todas as memórias.
Conversávamos longas horas em verdadeiras cimeiras alentejano-lisboetas, partilhámos os momentos bons e os menos bons, a doença e a partida da D. Engrácia e do Sr. Francisco, celebrámos os aniversários, partilhámos o enorme amor pelos animais e muito nos divertimos com o pato Octávio, as cadelas Preta e Lassie, os gatos Jackie, Tigre, Rita…; as vitórias do nosso Benfica, e também carpimos as derrotas…
Jamais discutimos ou tivemos uma palavra menos agradável, por mérito maior, obviamente, da excelência que eles são como pessoas, e porque quando nós gostamos muito uns dos outros, todas as diferenças se tornam desprezíveis.
Cinco anos mais tarde chegou o meu irmão, e juntou-se à festa de vivermos no conforto da presença uns dos outros naquele inesquecível palacete com um jardim fantástico de onde emergia uma grande amoreira.
Ontem estivemos juntos durante uma parte da tarde, nesse encontro que o Natal felizmente nos impõe às agendas sempre tão sobrecarregadas mas que nunca nos impedem de saber como estamos, vigiando-nos e cuidando-nos à distância.
A determinada altura da conversa registámos o facto de nos conhecermos há vinte e oito anos. E como passaram rápido, todos estes anos.
Conduzindo já de regresso a casa, senti saudades dessas manhãs em que me sentava à secretária de madeira virada para a enorme janela do meu quarto que se abria para o jardim, e sentia a D. Engrácia chegar para dar milho e alimentar os pombos das redondezas que àquela hora se deslocavam para o “nosso” jardim.
Há alguns anos, um seu outro filho tinha partido ainda criança, vítima de um acidente enquanto brincava no Jardim do Príncipe Real e ela tinha prometido jamais deixar de alimentar aqueles que pelas suas asas davam cor e movimento ao espaço por sob o Céu onde o filho ganhara o estatuto da eternidade.
A fé e o amor de mãe tornados pedaços de milho atirados aos pombos de Lisboa.
Bendito Deus e bendita a vida que nos dá anjos assim que nos inspiram a ser maiores.
Família, porque pedaços do melhor de nós.