terça-feira, 8 de janeiro de 2013

A oeste, Portugal


O retrovisor oferece-me o prenúncio do Lumiar e da perfeição de Lisboa, quando de relance observo o imenso vale de Loures, que deixo para atrás à medida que a auto-estrada me faz subir até aos moinhos que, antigos ou renovados, insistem em não desaproveitar a força dos ventos que sopram bravos nos cumes dos montes saloios.
E os moinhos recortam as linhas, de Torres, da “memorial” Mafra, e de todos os horizontes até ao ponto em que Óbidos nos esconde Peniche e as Berlengas e nos fala das Rainhas, de quem sempre foi jóia maior que a própria coroa.
Óbidos, o castelo que nem o mar resiste a beijar, tornando-se lagoa e criando o arrendado de terra e água que pelo Arelho e deixando a Foz, nos leva às Caldas, por D. Leonor baptizada rainha, e por Bordalo tornada o berço do Zé, que sendo povinho, tem afinal a cara e o gesto de todos nós.
Antes de Leiria e do infinito mar de troncos que sustentam no alto o pinho verde semeado por D. Dinis, o Lavrador, o Alcoa traz-nos à memória o Baça e as terras de Cister que estendendo-se até ao mar da Nazaré de D. Fuas, são sítio, e são a sombra do mosteiro que guardará para sempre as memórias dos infelizes amores de Pedro e Inês.
E por Pedro e Inês, em Coimbra, do sangue se fez a fonte, cúmplice do Mondego que desce da Serra e que antes da Foz recebe o Pranto, para mais à frente, na Figueira, da tristeza do povo do fado, a lágrimas, de sal temperar o mar.
E segue boa a viagem, tal qual a Serra que do cume nos revela a imensidão de verde que parece escorrer do Buçaco para, por entre Quiaios e Mira, nos atapetar o caminho até Aveiro, a nossa Veneza da Ria e do moliço.
Daqui, até Espinho e Gaia, até à Granja, menina do mar e da eterna e maior Sophia, as chaminés que rompem por entre o verde do pinhal, denunciam o trabalho e o músculo da gente nobre e guerreira de entre Douro e Vouga.
Gaia, Douro e Porto…
Pela Arrábida, muito breve se nos faz o caminho, tanta a vontade de ver a cidade, sempre nessa hesitação de espreitar à esquerda a imensidão da Foz ou de relance buscar a Ribeira, única e tripeira, sustentando a perfeição da imperial cascata de tons granito.
Invicto, será sempre o amor pelo Porto.
Cheguei.
Uma manhã solarenga mas fria de Inverno, estrada fora na companhia do pensamento e das memórias, e sempre com as cumplicidades do Atlântico que nos molda o ser e nos marca definitivamente a História.
A oeste, Portugal.
Eterno e legitimado pela força do que nos une.  

3 comentários:

  1. Extraordinária narrativa esta em que, numa pincelada breve, se descortina em briosa prosa poética, este Portugal belo e romântico, que hoje (Janeiro do ano da desgraça de 2013), mais uma vez na história "descamba" para uma espécie de "fado errado".

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  2. SOMOS UM PAÍS PEQUENO ,EM TAMANHO MAS MUITO GRANDIOSO EM BELEZA
    RUI PEREIRA

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