terça-feira, 15 de janeiro de 2013

As camélias de um intenso tom rubro


Somos seis à mesa do jantar.
Quando hoje nos despertámos em nossas casas para mergulharmos em mais uma semana de afazeres e altas prioridades, jamais imaginámos que iríamos terminar assim, juntos, as nossas tardes.
Um SMS a meio da manhã comunicou-nos que a mãe da Fernanda, uma amiga comum, acabara de partir para o Céu, e, pelo compromisso com as amizades com marca de eternidade e por uma bendita imposição dos afectos, as prioridades foram imediatamente alteradas, e viemos todos.
Em momentos assim, do “toca a reunir”, já sabemos há muito que instintivamente o GPS da alma nos encaminha para o “Centro de Operações Especiais para Actividades do Coração” que está montado na Fazenda das Figueiras na casa da Mina e da Natália.
A comida surgiu por magia e sem Bimby, e foi apenas um detalhe, pois o que nos alimentou verdadeiramente, enquanto na lareira a lenha de sobro se entregava ao lume para nos aquecer, foram os frutos desse amor fantástico que nos une a todos e que insistimos em manter vivo, jamais desistindo e quebrando quaisquer dos muitos laços nascidos das mais profundas cumplicidades da fé e da vida, que para nós são uma e a mesma coisa.
E só as cumplicidades da alma são eternas.
Quando mais tarde nos juntámos à Fernanda e à sua família, e quando todos rezámos o terço, foi de amor, vida e fé que temperámos cada palavra, gesto, beijo ou sorriso.
Fomos nós, fomos iguais, os mesmos que há trinta anos e nos dias quentes de Agosto, escolhíamos aquelas margens do Sorraia onde comi os pêssegos mais gordos que alguma vez vi e onde os mosquitos alimentados a arroz tinham porte de helicópteros, para nos encontrarmos e partilharmos os sonhos a quem jurávamos a fidelidade dos mais bravos e convictos guerreiros.
E para nos rirmos muito, porque só quem nunca foi assim tão feliz, pode opinar que gargalhadas são sinal de pouco siso.
O adiantado da hora impôs-nos um adeus difícil à porta da Igreja de S. Pedro, em Coruche, só tolerado porque já carregámos as agendas de reencontros para os próximos meses, para que por entre as parties e o Cozido à Portuguesa, voltemos à alegria de estar juntos.
À porta da casa da Mina e da Natália há uma Camélia repleta de flores de um intenso tom rubro que brilharam ontem quando os faróis do meu carro as revelaram na escura noite do Ribatejo.
Foi um botânico e Padre Jesuíta Checo, George Kamel, que inspirou o nome de baptismo desta planta que é aparentada com o chá. E por Kamel, as Camélias são chamadas de Camélias, porque um dia este homem chegou a Manila e abriu a primeira farmácia das Filipinas, uma farmácia de acesso gratuito para toda a população daquele país.
As Camélias carregam a herança da fé e da vida de um Homem muito grande.
Minhas caras Mina e Natália, a Camélia de flores rubras, é o vosso legítimo brasão.
A fé, o vosso exemplo de vida, os valores partilhados e a amizade, são a inspiração, o mote, o “remédio” oferecido pela vossa generosidade para que os nossos dias sejam melhores e nós sejamos maiores.
Para mim vocês são e serão sempre, muito mais do que amigas, são uma referência que me motiva a crescer.
E sempre com a força e o brilho das mais viçosas Camélias.

3 comentários:

  1. Pode-se ter saudades dos tempos bons mas, coisa mais importante e ter amigos presentes nas horas amargas da nossa vida , e só um coração como teu para estar presente nestas horas.
    RUI PEREIRA

    ResponderEliminar
  2. Este texto mostra como são os verdadeiros amigos para quem os tem.
    É preciso muita força nas horas difíceis o que às vezes é complicado, muita fé acima de tudo e talvez a esperança chegue um dia quem sabe!

    M.Pereira

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Não deixaremos de rir!
      Quanto às camélias... são lindas e é um prazer beber desse chá!
      Estamos juntos!

      Alexandra Ferreira

      Eliminar