terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Viagem a Ítaca


Quando em Agosto de 2007 aportei na ilha Grega de Ítaca, o Juan Blas não se tinha esquecido do CD em que Luis LLach canta a viagem para essa ilha de todos os sonhos de Ulisses, e a saída do ferryboat ao som da voz e das palavras do cantautor Catalão, teve tudo o que têm os momentos perfeitos, aqueles em que é irresistível pensar:
- Ganhei à vida.
Hoje pela manhã e enquanto escrevia uma mensagem de parabéns para a minha querida amiga Ana Cravo, para todos nós, a Tina, recordei-me desse momento e fui à procura das palavras de Llach, ousando uma tradução do Catalão para o Português:

Quando saíres para a viagem a Ítaca,
ora para que o caminho se te faça largo,
cheio de aventuras e experiências (…).
Mantém sempre no coração a ideia de Ítaca.
Tens de chegar pois é esse o teu destino,
mas jamais forces ou tentes encurtar a travessia.
É preferível que dure muitos anos
e que sejas velho quando aportes à Ilha,
rico de tudo o que haverás ganho pelo caminho,
sem esperares jamais que ela te acrescente riqueza.
Ítaca deu-te a inesquecível viagem,
e sem Ítaca, jamais haverias partido”.
Tina, acho que era de Ítaca, da Ítaca de cada um, que falávamos quando partilhávamos sonhos ao entardecer e no regresso da Escola, atravessando o Terreiro do Paço da nossa Vila Viçosa, inspirados pelo mágico pôr-do-sol que apreciávamos sempre por detrás da majestosa nogueira que ainda hoje existe entre as Chagas e o Palácio.
A nogueira que sempre nos fez hesitar entre o gostar mais dela com folhas ou despida, quando no inverno nos ofertava generosamente a perfeição dos seus troncos.
Nunca tememos o avançar com, ou rumo aos sonhos.
Quando com quinze anos resolvemos fazer um trabalho de Economia, escrevendo-o a branco sobre folhas de cartolina de cor negra e ficando com uma bolha nos dedos pela força com que tínhamos de carregar o lápis de cor que afiávamos de cinco em cinco minutos, já sabíamos que nunca iríamos desistir do que nos impusesse a vontade e o querer, mesmo que estivesse inerente uma forte componente de diferença e o pagamento de uma elevadíssima factura.
Em primeiro, sempre, a fidelidade a nós mesmos.
E a todo o custo, que contra tudo, pode a nossa força.
Hoje estamos pejados de cabelos brancos e já são 47, os anos desta nossa viagem que queremos e merecemos, seja longa.
Agora, já não fazemos torradas utilizando o fundo da frigideira para nos alimentarmos nos lanches em que riamos tanto que acordávamos o bebé da tua vizinha de baixo, já não inventamos histórias malucas para irritar o professor de Português obcecado por perfumes e pela Morgadinha dos Canaviais, já não comemos pedaços de papel, já não armadilhamos o percurso dos professores mais irritantes… Mas continuamos em ritmo veloz de encontro ao que queremos ser, algures no território dos sonhos mais profundos.
Tina, parabéns.
É muito bom navegar tendo-te sempre à vista, nesta cumplicidade de buscar o destino, sabendo que a riqueza se constrói dia-a-dia e em todos os momentos, mesmo que por mais simples, de um longo caminho. 

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