quinta-feira, 30 de outubro de 2014

As virtudes dos abraços e os cansaços que se diluem num sono feliz


É quase meia-noite quando o carro entra finalmente no parque e sinto aquele típico estalar das rodas sobre a brita. À minha frente a imponente fachada do hotel agora quase apenas e só à mercê da lua em quarto crescente, a mesma luz impotente para me fazer matar saudades das roseiras que eu recordo, ladeiam o lago central.
Cheguei à Curia.
O dia começou cedo em Ponta Delgada com as nuvens e a chuva a insistirem tapar-me a vista para o Atlântico.
Depois, uma longa espera no aeroporto, o avião que chegou com três horas de atraso, a explosão de azul após romper as nuvens, e finalmente Lisboa, já ao entardecer.
A auto-estrada até Évora faz-se num ápice desde o aeroporto, e hoje nem há tempo para beber histórias das sombras com que o luar veste os sobreiros do meu Alentejo.
O pai está melhor, fala comigo enquanto brinco com ele entre as colheres de sopa.
Não resiste:
- Esta é a quinta colher que dizes ser a última.
Está definitivamente melhor.
À porta do hospital há amigos de Vila Viçosa e acabamos a falar de poesia.
É um facto que ela está onde mora a vida.
Devolvo-me ao luar, como uma sopa na Área de Serviço, e faço-me à estrada que vai ser longa mas que se encurta pelas palavras dos amigos; e esse nosso namoro que hoje fala dos abraços e das suas virtudes.
Sou um homem cansado mas feliz quando chego à Curia. Percorro sozinho os corredores do Palace com o soalho a ranger rompendo o silêncio e eu a sentir-me a chegar à montanha mágica.
Nem me fixo nas sombras para que tudo isto não ganhe um ar de Hitchcock ou de Agatha Christie, e eu tema que a meio da noite tenha que chamar o Tommy e a Tuppence Beresford para tomarem um chá comigo e juntos resolvermos algum homicídio.
Depois… finalmente uma cama.
Preparo-me, apago a luz e só me lembro de começar:
- Pai-nosso...
Se depois continuei a rezar foi já em algum sonho.
Há dias assim, cheios de tudo e com muitas cores; porque até mesmo não vendo o Atlântico e as roseiras da Curia, sei que passei por eles.
Mas o que importa em que nem uma só gota de energia fique por consumir e se desperdice, e que ninguém daqueles a quem amamos adormeça sem sentir que estivemos perto num abraço nascido de um querer intenso.
É isso que nos faz ganhar os dias porque o cansaço… esse dilui-se num sono bom e feliz. 

terça-feira, 28 de outubro de 2014

E a ilha…


Por te querer assim guardo em mim cidades, muito mais de sete, e colou-se-me ao rosto, em tom de mistério, um azul tom de céu em rima com o verde que reveste o basalto, o chão da eterna Atlântida.
Romeiro em preces pelos trilhos de onde nunca se perde o cúmplice voo das gaivotas, bate em mim, por ti, um coração de fogo em perpétua paixão; e o meu sangue é lava que se estende até já não haver horizonte, que não há outro que não seja o mar, que tomou de ti a cor… do teu ser, do teu olhar.
Romeiro aqui, nos impérios todos de além pranto; que as tristezas deixei-as quando o alento tomei de ti na margem de uma lagoa quente, onde o borbulhar constante nunca poupa nas palavras para nos contar as lendas de eternos heróis.
Romeiro em fé nos milagres de Cristo, “Ecce Uomo”, Rei sem trono coroado de espinhos no Pretório de Pilatos numa tarde de Páscoa em Jerusalém.
E sinto o teu abraço, os teus beijos; quando pelas lembranças caminhas assim comigo, Romeiro de passos entregues aos dias; e os pensamentos se enfeitam de hortênsias azuis.
E sinto a festa e o canto que me ofereces quando estendes a mão e me prendes ao melhor que tem a vida.
E a ilha…
Sou eu aqui feliz rodeado de tanta história triste do que fui antes de ti; eu abraçado a um sonho que tendo a minha idade, nasceu apenas naquela tarde escura do nosso primeiro abraço.
Porque às vezes se nasce num simples abraço.
   

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Estas ruas onde nunca me sentirei só


Vila Viçosa, um sábado de Outubro.
Acordo com o ruído dos pavões no Jardim do Bosque, onde por entre o desenhado buxo se guarda a memória da espera de D. Luísa de Gusmão nos dias de Dezembro de 1640 e da Restauração.
Estamos no final de Outubro mas a aragem é quente e a fazer lembrar Maio, tomo um café na pastelaria do costume e subo depois a Avenida beneficiando da sombra das laranjeiras, tendo aquele cuidado tão Calipolense de me baixar perante os troncos mais rebeldes e que se intrometem no meu caminho.
Entro no Castelo, rezo à Senhora da Conceição, e ali ajoelhado, sinto-me um inevitável herdeiro beneficiário de uma fé que não se apaga. Ajoelhei-me por ali com os meus avós.
Não tardo a devolver-me à Avenida, depois à Praça e mais tarde à Corredora para poder regressar a casa, cumprindo os “mandados” entre o Multibanco na Caixa Agrícola, os Bolos Fintos na Pastelaria, o Expresso na Comercial e o pão na Padaria.
E um trajecto que em condições normais eu faria em vinte minutos, fi-lo em hora e meia, não tendo noção no final, do número e dos nomes das pessoas com quem me cruzei e com quem fui falando do estado de saúde do meu pai.
Quando se tem uma terra como eu tenho a minha, para além do abraço das árvores e do conforto natural das pedras que nos oferecem um eterno chão, para além do ar que é a nossa casa, temos este benefício da gente que nos abraça, que nos beija e que nos envolve de afectos na forma de olhares, gestos e de palavras.
Uma gigantesca e informal família…
E nunca nos sentimos sós.
Os dolorosos silêncios para onde a vida às vezes nos abandona à mercê de pensamentos difíceis, apagam-se assim por entre o brilho da gente que nos cuida e nos conforta, com algo de divino e de recompensa para quem reza; ou não fosse cada Calipolense um porta-voz informal da Senhora da Conceição que no coração de cada um, muito mais do que no Castelo, tem a sua casa.
Da varanda da casa dos meus pais vejo o Palácio, escuto os pavões e apercebo-me que o lilás que me perfuma a Páscoa, este ano e por mérito do sol voltou a florir como que visitando as romãs.
Sorrio, escrevo um poema de amor para quem trago no coração e sinto o abraço da gente.
O sol dos amigos rompe os impossíveis e até faz florir em Outubro aquilo que parece ser de Abril.
E é impossível sentir-me só.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Eu pressinto a eternidade


Aqui junto ao rio, os nossos dois corpos abraçados são na tarde de Lisboa, um pequeno T0 onde cabem em segredo infinitos metros quadrados de paixão.
Os meus braços encontraram finalmente o seu destino e eu sinto a brisa que me chega carregada com a herança do mar, mas perfumada por ti, pela loura seda aparada que te reveste a face.
Na perfeição desta hora tento agarrar a eternidade: não quero jamais sair daqui; e sinto medo que a noite regresse e que cale o azul do teu olhar como o fez ao rio.
Mas as águas persistem no seu beijo ao Terreiro e entre as colunas; a essência do Tejo sobrepõe-se ao breu numa melodia que o meu peito acompanha ao ritmo do teu coração que de tão perto se faz siamês do meu. Igual que a alma que há muito já o é.
Então eu pressinto a eternidade, aconchego-me mais a ti e sei que por sobre qualquer noite eu irei amar-te sempre assim… e que jamais partirei daqui.
E dou-te um beijo, igual e do tamanho do Tejo.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

O amor é este instante…


Lisboa é um detalhe sublime, e a luz que se apaga ao ritmo lento do anoitecer vê-me vaguear pelas palavras na doce impotência de contar ao mundo o sentir que nasce do toque da tua pele na minha.
O divino não se escreve.
O amor jamais se vergará à linguagem banal com que os Homens fazem listas de supermercado.
Eu sigo a olhar para ti…
O miradouro, o verão que irrompeu rebelde pelo Outono, uma tília centenária, a mesa, os dois copos de Ginger Ale, a lua… e o meu braço colado ao teu no beijo que bebe das mil vidas que guardas no teu ser.
Há aromas de paraíso, o toque grená das romãs maduras… e este instante é o amor que a tudo oferece um sentido novo; o passado foi a estrada tantas vezes indecifrável para chegar aqui, e o futuro, nada mais poderá ser para lá deste querer multiplicado pelos dias todos que me restam.  
Mais tarde desceremos a calçada buscando o rio, passo com passo, pele com pele… e um abraço longo com a cumplicidade do som das ondas da água, vénias do Tejo à realeza azul da cidade.
Um abraço, pele com pele…
E o amor é este instante que não se escreve, mas onde o corpo todo estremece num doce arrepio intenso que queremos estender pela eternidade.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Sigo por ti… para me encontrar


Este caminho tem os traços e todos os detalhes da genética da minha vontade, nasceu do esboço dos dias que sempre ousei sonhar.
Esta estrada, tomo-a como minha rota pela mais do que consciente entrega de todos os meus passos.
Tu chegaste num dia escuro, iluminaste a tarde por entre aromas de açucenas que indiciavam primavera; entregaste-me as tuas mãos, os teus braços; e na dispensa assumida das palavras, ateaste em mim este não sei quê que mata antigas ilusões, que despreza agonias, dores, equívocos e faz avançar a nossa história.
Este não sei quê que é maior do que tudo o que demais se sente, e só pode ser o alvo eterno do canto de todos os poetas, aquele único e definitivo amor que por sobre todas as promessas e desilusões, cada vida merece e está destinada.
Da tua face loura de onde transborda o azul mar do teu olhar, de onde transpiram todas as lendas de antigos heróis, bebi então a fé que renasce e floresce em mim em cada alvorada.
Este meu caminho… és tu.
E rebelde, sem a bússola ou o sextante da sensatez, sigo por ti fazendo breves todos os instantes e encurtando o mar.
Sigo por ti… para me encontrar. 

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Os aromáticos dias do imprevisto


Para quê desesperar em prévio sofrimento com a perspectiva negra do que quer que seja, se até o calendário nos surpreende e nos oferece generoso, dias de verão em final de Outubro, algures entre o “verão que amadurece os marmelos” e o “verão de S. Martinho”, duas “instituições” de que sempre ouvi falar aos meus avós.
E apesar de sabermos que “Outubro quente traz o diabo no ventre”, também não esquecemos o muito que já choveu, e assim, “Outubro meio chuvoso torna o lavrador venturoso”; e estamos garantidos…
Que de chuva e sol se querem os meses e se compõe a vida, tão mais pobre quanto mais monótona e previsível.
De cada vez que regresso do Alentejo trago comigo um pão de meio quilo que deixo ficar duro para poder preparar uma Sopa de Tomate daquelas que importam para a minha cozinha, os cheiros por entre os quais cresci.
Frito as “capelinhas”, escolho o fruto maduro, tempero de orégãos, acrescento um ovo, o pão partido em “sopas”… e o jantar fica perfeito.
No meu prédio e à frente do meu apartamento, vive há vinte anos a minha vizinha D. Maria, Angolana, que insiste em preparar os seus pratos de uma forma tão intensa de sabores, que não há ninguém que saia dos elevadores e fique indiferente a tão fantástico perfume.
Ontem à hora do jantar e por ser Segunda-feira, a D. Amélia da empresa “Ferro Expresso” veio a minha casa recolher a roupa para engomar e viu-se de repente no epicentro de um dueto Alentejano-Angolano entre uma Sopa de Tomate e uma Muamba de Galinha, com os quiabos em agradável sintonia com o pimento verde e os orégãos.
Confessou que já não queria sair dali do meio daquele encontro com tanto de imprevisto quanto de bem cheiroso.
E os dias melhores são como os patamares onde se misturam aromas num inédito casamento.
Os dias do imprevisto de onde às vezes nasce um verão em pleno Outono.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

A felicidade e uma mezinha ao estilo do Padre Fontes


Por muito que possa soar estranho, há um dia em que alguém nos convida para ir assistir a uma palestra sobre a Felicidade, algo vendido ao jeito de uma Bimby para onde se deitam os ingredientes todos da vida e se cozinha esse tão desejado estado de alma… e do corpo.
“Cozinhar esse estado” é força de expressão porque segundo a palestrante, 50% da felicidade é inevitavelmente genética, 10% fruto das circunstâncias boas ou más que nos ocorram, restando apenas 40% para nós podermos controlar pela atitude; algo de que discordo totalmente, pois atribuir a maioria absoluta (60%) ao destino torna-nos demasiado passivos na construção da felicidade.
É uma rendição demasiado óbvia ao fado e eu acho que nós temos muito mais espaço de manobra para construir um grande futuro.
Relativamente aos 40% que nós controlamos, foram apresentadas dez comportamentos a seguir (fé, generosidade, ser positivo, foco no presente, etc.), numa espécie de versão revista e remix do decálogo, com a palestrante a dizer que há uma tendência natural para sermos pessimistas na maioria dos 60.000 pensamentos que em média temos por dia.
Também estou em completo desacordo, eu acho que há dias em que não tenho sequer um pensamento negativo (desde que não veja o telejornal).
Pois bem, não tendo passado por Harvard para aprender a teoria sobre estas coisas da Felicidade, e correndo assim o risco de ser considerado o Padre Fontes no fornecimento de mezinhas ao estilo de qualquer feira de Vilar de Perdizes, eu não resisto a deixar a minha receita muito pessoal.
Assim e segundo o meu ponto de vista, a felicidade não tem nada de genético (0%), tem algo a ver com as circunstâncias, mas eu incluo esse pouco nos 100% que estão sobre a nossa responsabilidade; pois mesmo sendo algo de menos positivo pode sempre ser trabalhado no sentido de nos fazer crescer e sentir bem.
Relativamente à receita para ser feliz deixo então alguns conselhos muito pessoais:
  1. Apaixonarmo-nos e amarmos sem reserva para que pelo menos 50.000 dos 60.000 pensamentos diários sejam com a pessoa que mais desejamos ter ao nosso lado;
  2. Abrir a janela em cada manhã sempre a cantar algo alegre. Se o dia estiver feio até podemos afrontar o nevoeiro ou a chuva com um “vocês não me derrotam”;
  3. Cantar no duche uma cantiga bem disposta (o “Ele e ela” da Madalena Iglésias resulta sempre);
  4. Não sair da casa de banho sem nos olharmos ao espelho e dizermos a nós próprios: “és tão giro”;
  5. Vestirmo-nos ao som da música como se estivéssemos a gravar um videoclip sensual;
  6. Beber um café forte com uma torrada afogada em manteiga;
  7. Mandar uma mensagem bem temperada de paixão a quem amamos e nos faz felizes:
  8. Enfrentar o trânsito como se estivéssemos no “Fil-rouge” dos “Jogos sem Fronteiras” em que todos têm pontos;
  9. Dizer bom dia a toda a gente que encontrarmos, escancarando o sorriso para aqueles que desconfiamos que não gostam de nós (nada os irrita mais do que ver-nos sorrir);
  10. Trabalhar a sorrir para o monitor do computador e cantar qualquer coisa alegre sempre que alguém ao nosso lado se queixe de algo pessoal ou profissional;
  11. Almoçar bem e contar sempre uma anedota ou uma história alegre para funcionar como sobremesa;
  12. Escrever todos os e-mails com infinita simpatia como se fossemos a “Marta Neves” das “Selecções do Reader’s Digest”;
  13. Falarmos ao telefone como se fossemos a Ana Zanatti a apresentar uma canção no Festival;
  14. Combatermos qualquer tendência para a tristeza com a ingestão de uma Bola de Berlim;
  15. Utilizar sempre até à exaustão a técnica dos R’s (Rir, rezar, relativizar, responder bem;
  16. Não deixar de espreitar o pôr-do-sol e depois saudar a lua;
  17. Utilizar muitas vezes o comportamento ABC (abraços, beijos e carícias);
  18. Telefonar pelo menos a dois amigos;
  19. Comer bem ao jantar e não fugir ao petisco;
  20. Deitarmo-nos a cantar algo romântico mesmo correndo o risco de sermos apelidados de genéricos do Frank Sinatra.
Tudo isto servido com muito amor.
Experimentem e depois digam lá que não conseguem ser felizes…  
   

domingo, 19 de outubro de 2014

Essa misteriosa e versátil meia-idade


Por muito optimistas que sejamos, e eu sou; e por muita que seja a esperança com raiz na justificação técnica que a médica nos transmitiu de forma tão simpática; será sempre estranha a sensação de percorrer o caminho de volta ao carro depois de deixarmos o nosso pai internado no hospital, trazendo connosco os seus haveres num saco de plástico que transportamos debaixo do braço.
Já antes, quando o ajudava a despir a camisa para vestir o pijama, senti pesada a batuta neste inevitável ciclo que nos faz ser fortes perante a fragilidade de quem foi sempre a rocha e a firmeza onde apoiámos a nossa fé.
Vale ter um irmão fantástico que compartilha igualmente esta “direcção da orquestra”, ter um amor que manda um beijo de ânimo, e ter os amigos que se juntam sempre para as palavras e os afectos nos ajudarem a esmagar a solidão que estes momentos sempre transportam consigo.
E entre Évora e Vila Viçosa, sozinho no regresso, faço das árvores confidentes e companheiras.
Há anos que as conheço das curvas deste caminho onde às vezes passo triste.
O Manuel chegou depois para me visitar e conversarmos um pouco no café em frente a casa. Acabamos a rir quando me descreve a cara de espanto dos filhos de 11 e 14 anos quando descobriram esta semana o que era escutar música de um gira-discos, e quando perceberam que o vinil emitia a música que nós dançávamos.
Até pediram ao pai para dançar ao som dos Singles e LPs para poderem descobrir alguma particularidade jurássica.
E ali a conversar com o meu amigo de sempre, eu o novo e forte do Hospital de Évora, talvez agora a coçar a barba branca entre os goles da Água das Pedras, até me senti velho; mas só até ao momento em que automaticamente fiz a média e percebi que isto é o que chamam a meia-idade; qualquer coisa como ser simultaneamente filhos e pais, no privilégio de poder ser um pouco de tudo.
Se todas as idades são boas, a versatilidade desta destrói claramente a monotonia e auto-sustenta-nos em grande parte naquilo que ao ânimo diz respeito.
Talvez esta percepção derive do facto de nunca nos demitirmos de viver com intensidade cada momento; os muito bons e os claramente menos bons e agradáveis, numa relação equilibrada de custo-benefício.
A força anda sempre algures à nossa volta enquanto a vida gira, umas vezes a 33 outras a 45 rotações; e a riqueza de um Homem da minha meia-idade será sempre o facto de vir da sua história em direcção ao seu futuro, percorrendo um caminho tecido pela sua coerência, vontade e pela sua fé; e um caminho perfumado de afectos.
Sem demissões, que os dias nascem para que os façamos e enchamos do nosso querer, e nunca para que assistamos à sua passagem.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

A terra quente que nos faz poetas


Para cima ou para baixo, a A2 entre Lisboa e o Algarve dá-me quase duzentos quilómetros de Alentejo, um longuíssimo corredor da "minha casa" que gosto de percorrer com música mas sem palavras, que essas, sou eu quem as vai colhendo e guardando pelo caminho.
A colheita é demasiado fácil…
Não preciso sequer de abrir as janelas, conheço de uma vida, o cheiro que se solta da terra revolta que aguarda a sementeira, ou então da erva molhada a que se entregam as ovelhas de um imenso rebanho.
E sim... também sei de cor o canto dos pássaros, dos grilos e das cigarras quando o sol beija a terra e parece querer atear o horizonte.
O relógio do campo dá-me o tempo certo; com o sol a dizer-me a hora, o tom da seara a revelar-me a estação; e os anos, conto-os pela cor da cortiça que vai crescendo no seu doce abraço ao eterno sobreiro.
E as oliveiras alinhadas em corredores tingidos de relva verde dizem-me hoje também que não tardarão as manhãs em que as mãos beijarão a geada para colher o fruto precursor da luz sagrada que acompanha Deus pelos altares, como os destas ermidas que vão pontuando o meu caminho de barrocos detalhes de alvenaria e fé pintados de branco e de azul.
As casas são montes, e são igualmente brancas, por também serem divinas, com poiais debruados num tom ocre abandonado ao verde que lhes oferece a chuva. Invejo do poial o assento que mostra os horizontes, mas compenso-me com a infinita vista para o todo que a imaginação permite, na sombra com que as nuvens tocam a terra.
E de noite, seria sempre a lua a devolver-me a esse ser menino e a levar-me destemido pelas histórias todas.
Deixo-me ir pelo sonho à medida que os quilómetros passam...
Vou como se fosse uma ribeira debruada a fetos e hortelã, em direcção ao rio, e depois, sempre, até ao mar.
Comigo vou acumulando as palavras que dão forma à poesia.
O Alentejo não é definitivamente uma terra de poetas, o Alentejo é uma terra que nos faz poetas.
Uma terra quente…
A minha casa!

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Os anjos nunca têm asas


Os anjos nunca têm asas, por vezes nem sequer falam; são tão-só olhares, que chegam e nos preenchem os momentos de uma inédita paz que se estranha, e que depois, de tão intensa, se entranha em nós oferecendo-nos o universo inteiro com tanto de desconhecido.
Os anjos são imprevisíveis e chegam sem avisar naqueles instantes tantas vezes banais e que quase sempre nos oferecem uma expectativa positiva de grau zero ou muito pouco.
Os anjos são por vezes muito tímidos e discretos, e refugiam-se atrás de um poente, de uma canção, do perfume de uma manhã passada junto ao mar, de um chão de árvores de Outono, de um gesto ou até de um poema.
Os anjos podem ser identificados pelo toque da nossa pele na deles, pelos lábios no sabor doce de um beijo, e também pelo calor intenso com que nos abraçam.
Os anjos podem às vezes esconder-se em nós, ficando disponíveis para nos acompanharem nos instantes de aparente solidão, espreitando generosos de todos os cantos da memória. E assim caminham connosco e jantam sentados à nossa mesa, iluminando-nos as noites frias de um Outono com chuva.
Os anjos não tocam trombetas no alto dos céus, confidenciam-nos segredos e fazem-nos revelações, quase sempre com vista para o melhor de nós, que até apostávamos nem sequer existir.
Os anjos…
Os anjos somos todos nós chegados ao instante e a quem definiu o sonho e a vontade.
E o meu anjo és tu… e chegaste numa tarde fria e num abraço com janelas para o infinito.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

CARLA MARIA


Pelo afecto que o envolve, qualquer simples café que tomemos juntos pela manhã, e tomamos um todos os dias antes de começar a laborar; assemelha-se em tudo a um “Breakfast at Tiffany’s”, que a Audrey é uma paixão em comum e a amizade é como os diamantes e imune a qualquer desgaste provocado pelo tempo.
E porque com amigos “A vida é bela”, nada melhor do que começar o dia no pré-café com um “Buongiorno Principessa” a que eu tomei a liberdade de acrescentar um “Atómica” pelo risco elevado de explosão de gargalhadas que por vezes resulta das nossas conversas.
Cada conversa sempre “… com vista sobre a cidade”, qualquer delas de entre as muitas das nossas viagens; ou então com vista para o simples e complicado que nos vai preenchendo os dias, para aquelas músicas que trouxemos dos melhores anos das nossas vidas, aqueles que compartimos com os “Amigos de Alex”; as conversas também com vista para a poesia, que a alma bem precisa ser afagada assim pela manhã, sobretudo nos dias de chuva que nos deixam com uma predisposição para a depressão. Nós não nascemos definitivamente para fazer uma qualquer “Serenata à chuva”.
As segundas-feiras são em geral péssimas, sobretudo as que se seguem a um “Fim-de-semana alucinante”; a vindimar na Beira Baixa, a viver uma romaria popular com ou sem procissão e quermesse; a comer algum irresistível petisco; ou tão-só simplesmente a passear e a “pousar” algures aí por qualquer recanto de Portugal, daqueles que ambos gostamos e que não estão muito congestionados.  
E os dias correm sempre bem melhor depois destes cafés com palavras e muito da vida, das nossas vidas.
Porque os dias são sempre melhores e bem mais fáceis quando são recheados pela partilha com os amigos.
A verbalização e a partilha de algo muito bom dá-lhe corpo e forma, amplia-o através do eco que o amigo lhe oferece na sua alegria; e a partilha de algo menos bom, desdramatiza-o e reduz o seu impacto, naquela inevitável palavra de desvalorização, conforto e carinho que um amigo sempre nos oferece quando as nuvens parecem querer cobrir-nos o sol.
Às vezes a vida surpreende-nos e faz-nos descobrir assim um amigo para a vida de entre os colegas que connosco partilham os caminhos do trabalho; e até de entre as pessoas do Sporting…
Mérito das cumplicidades?
Por certo que sim, mas não só, mérito seu “M’na Carla” que quer faça chuva ou sol me garante o astro-rei sempre que chego ao trabalho.
E o quanto nós multiplicamos as alegrias quando as partilhamos… o eco chega a todo o universo.
Este texto deveria ter sido publicado no dia 18 de Março, o dia do seu aniversário, mas por ser tão especial, é o único publicado num dia diferente e imprevisível.
Mas teria mesmo de ser escrito e publicado pois o “Calendário dos Amigos” ficaria amputado numa página de ouro.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Nós somos tecidos por pedaços de um amor inoxidável


Em arrumações, reencontrei há dias num armário da despensa uma pequena e velha lamparina de álcool já muito oxidada.
E quem guarda objectos da sua história, mais cedo ou mais tarde ganha o privilégio de contar muitas histórias.
Esta velha lamparina foi comprada pela Tia Maria na velha loja do Senhor Eduardo Pina, à Rua de Cambaia, e foi-me oferecida quando vim estudar para Lisboa há trinta anos e fiquei alojado num quarto que não tinha qualquer cozinha anexa.
Acompanhou-a uma pequeníssima cafeteira de alumínio que também ainda existe lá em casa, e a recomendação:
- Não quero que saias de casa sem teres a oportunidade de tomar uma caneca de leite quente.
E assim eu embebia um pouco de algodão em álcool, puxava-lhe fogo com um fósforo e aquecia o leite enquanto me preparava para sair, descer a Calçada da Glória e vir apanhar o Metro aos Restauradores, naquelas manhãs em que me ia apaixonando por Lisboa, espreitando-a em São Pedro de Alcântara.
A lamparina está hoje definitivamente inoperacional e oxidada, mas a história que me recorda é muito mais do que um velho pedaço de metal sujo e gasto pelo tempo; lembra-me que eu sou afinal o resultado de um entrelaçado de tantos detalhes simples de amor, mas daquele amor que resiste às humidades e às agruras, o amor que jamais oxida.
Os cuidados e a simplicidade que fluem tão naturalmente daqueles que muito nos amam.
E o sortudo que eu fui e ainda sou como alvo de tantos e bons mimos.
Na minha sala de estar tenho uma foto abraçado à Tia Maria no dia em que ela cumpria sessenta anos, 24 de Junho de 1969, e em que eu estava a dias de cumprir três anos.
Em quarenta e oito anos de vida é a minha foto de que mais gosto.
A preto e branco, só eu me recordo que a minha camisola era cor de mel, e isso é apenas um pequeníssimo detalhe comparado do doce que transparece dos nossos sorrisos serenos.
Não é por acaso.
E a lamparina?
Permanecerá no armário à espera que eu volte a limpar-lhe o pó e se soltem histórias de ouro… e que sabem a mel, tal como o mago na lenda do velho Aladino.  

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

A mais doce das alvoradas


A persistente chuva de Outono cessou há pouco, e as calçadas de Lisboa, vistas assim em contraluz, são espelhos de múltiplos passos, destinos e infinitas histórias.
Histórias como a nossa, tecida de palavras e de olhares, cumplicidades soltas nestes momentos que sabem a destino, de tantas vezes… e de tanto o termos sonhado.
E uma tarde de Outono faz-se um cais que abriga o mais perfeito dos encontros.
Eu cheguei.
Sinto-o no nosso abraço que despreza as solidões antigas, sinto-o no riso que aqui e ali se nos solta como um eco do que a alma sente, sinto-o nos tantos beijos que a hora nos pede e que nós cumprimos pelo benefício apenas de um olhar…
Sinto-o numa inédita paz que me faz rogar a morte do tempo, e esse infinito querer de fazer de ti a minha eternidade.  
No ar há hoje um quente aroma de castanhas assadas, há tímidos pregões nas múltiplas línguas da gente que como nós vagueia livre pelas calçadas.
Em Lisboa.
O mais perfeito dos Outonos.
Eu e tu.
Eu já te disse que quando estou contigo qualquer hora tem sabor à mais doce das alvoradas?

sábado, 11 de outubro de 2014

O Franchising do Carnaval de Torres Vedras


Acordo para o sábado, cumpro o vício matinal de comprar o Expresso e deparo-me na primeira página com uma foto que perpétua um abraço de Mário Soares a Isaltino Morais, com o ex-Presidente da República a referir a injustiça da condenação do ex-autarca de Oeiras. Os tribunais que vão para o inferno até porque “há gente que rouba milhões e não é condenada”…
Parece que o Ministro Crato pediu a demissão mas tal não foi aceite pelo Primeiro-Ministro com medo que o governo começasse a desagregar-se. E os maus ministros são como o Ébola e o que convém é nem mexer, mesmo quando tudo à volta ameaça morrer…
Leio entretanto que a Zita Seabra ter-se-á aproximado da Opus Dei; havendo a coerência da atracção por sociedades secretas, convenhamos que não é fácil percorrer esse tortuoso caminho uterino entre a defesa do aborto livre e a existência de relações sexuais tendo em conta apenas a procriação…
A Câmara Municipal da Covilhã atribui a José Sócrates a medalha de ouro da cidade e as chaves do município, definindo-o como um cidadão exemplar…
O rosto da renovação do PS começa com Ferro Rodrigues a liderar a bancada no parlamento. E olha que rosto novo e apelativo…
Como o sábado despertou com algum sol por aqui, eu até acabo por me rir e achar que o Carnaval de Torres Vedras conseguiu estabelecer-se como negócio de Franchising e que, qual McDonalds da política e do social, estará sempre à mão em qualquer esquina do país.
Consequência?
O Entroncamento fica reduzido à sua condição de pacata localidade do centro de Portugal por onde passam inúmeros comboios, dado que os fenómenos passarão a andar por aí à solta em qualquer lado.
Para além disso, o Presidente da República tem a hipótese de fazer como eu, levante-se cedo aos sábados, compre o jornal, e verá que muito facilmente irá entender o porquê de os seus concidadãos não acreditarem nos políticos.
Convém é não telefonar e tirar dúvidas com o amigo Dias Loureiro.
Entretanto, um pedido muito pessoal…
Neste reino do faz de conta e onde tudo é possível, se algum dia receberem um convite da minha parte para irem assistir a um concerto da minha pessoa no Coliseu dos Recreios, não acreditem pois será mesmo insanidade pura. Chamem o 112 e coloquem-me o colete-de-forças.
Tem que continuar a existir um limite e um ponto onde a decência se soçobra.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

A razão entre mim e…


Há sempre aquele laivo da razão que espreita por entre os sentidos e me chama tonto, naquele momento em que vejo uma flor, e não resisto a fotografá-la para mais tarde, por cima dela, eu escrever doces palavras de amor.
E chamo-lhes de amor, por serem para o meu amor, colhidas como são daquele jardim de pensamentos eternos e bons que cruzam comigo os dias e viajam pelas ruas da cidade.
A maldita da razão faz-me olhar às vezes para o retrovisor do carro e chama-me tonto por me ver ali sozinho e a sorrir daquela maneira.
Quando isso me acontece, logo exorcizo tal juízo e fazendo do volante uma improvisada bateria, marco o ritmo que acompanha a voz numa canção...
De amor, pois claro, que mais poderia ser?
E aí penso tantas vezes como foi possível o poeta lembrar-se daquilo que efectivamente sinto, e fazer disso letra de canção.
Até posso chorar, mas quando me chega à boca o gosto a cloreto de sódio, lá vem outra vez a razão:
-Olha, olha... o tonto a molhar as barbas brancas e a chorar aqui ao volante.
Abro o vidro, deixo entrar o vento que já traz ar com cheiro de Outono e uma brisa fresca.
Penso no meu amor que adora esta estação e, parado no semáforo, sonho agora com aquele fim-de-semana em que partilharemos uma manta, beijos e palavras num fim de tarde no Alentejo.
Mas a razão ataca de novo e apita atrás de mim.
Avanço.
Sinto fome e penso numa Bola de Berlim.
As Bolas de Berlim são o bolo preferido do meu amor.
A razão diz que é um bolo pérfido e faz-me coçar a barriga que está maior.
Bolas...
Menos mal que a viagem está a chegar ao fim.
Muito sofre um apaixonado quando a razão não desiste e passa a vida a intrometer-se entre mim e... mim.
Mas sem sucesso, está bem de ver; afinal, não há razão que seja capaz de incomodar um amor assim.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Mas até quando?


Entre actuais e antigos colegas, somos três à conversa na mesa do almoço, naquela natural satisfação da curiosidade acerca dos últimos tempos e de como estamos e de como se encontram aqueles de quem mais gostamos.
O meu ex-colega reformou-se há pouco depois de 34 anos de descontos e de um período de três anos a receber subsídio de desemprego, ainda está longe dos 60 anos mas ainda mais longe de qualquer emprego, e por isso fê-lo com uma penalização que entre taxas e sobretaxas somou 42%.
Tem dois filhos casados, um deles vive em Portugal e está desempregado, o outro emigrou com a mulher para Moçambique e vive as agruras de quem está num país e numa realidade cultural nos antípodas da nossa.
À reforma teve então de aplicar uma característica extra, a elasticidade, acudindo à vida dos filhos que já têm mais de 30 anos e estão licenciados há mais de 5.
No restaurante onde nos encontramos, as televisões passam imagens na Ministra das Finanças, e em rodapé a grande conclusão da sua audição no parlamento no âmbito da Comissão de Inquérito ao BES: há uma forte possibilidade de os cidadãos terem de suportar financeiramente esta “aventura”.
Já há muito o sabíamos mas sempre nos haviam dito que não seria assim, cumprindo mais um episódio triste da promiscuidade entre a política e a mentira; tão tristemente aceite.
Os bancos, esses nossos amigos tão generosos que nos oferecem um juro fantástico quando lhes “emprestamos” dinheiro, quase igual ao que nos cobram quando a situação se inverte; os bancos tão bem geridos por gente séria e de famílias respeitadas…
Os bancos são hoje o núcleo de entre as prioridades do país. Mesmo que, como acontece, se assentem despudoradamente os alicerces da finança sobre a agonia do povo.
Saberá Deus, as campanhas eleitorais e os imensos favores, o porquê de tal acontecer.
O futuro está hipotecado e, bons políticos são algo que parece que continuará a não existir: António José Seguro “deixa” a política e vai ministrar a disciplina de Ciência Política na UAL…
O meu almoço termina com o meu colega a mostrar-nos as fotografias do neto e do encanto que é sentir-se infinitamente amado, sobretudo naqueles instantes em que ele lhe sorri e lhe estende a mão. Confessa-nos:
- Vocês não imaginam como é bom.
Imaginamos sim e até nos comovemos com ele.
Os afectos não pagam impostos (ainda) e vão compensando enormemente outras dores e desconfortos que a alma carrega.
Mas até quando?

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Aquelas pedras brancas à beira dos ribeiros


Dispensando quaisquer escrituras notariais que certifiquem a posse, é legítimo que chamemos nosso ao chão onde assentam os passos que concretizam as nossas vontades, nesses instantes em que a fidelidade a nós, muito mais do que a qualquer outra crença, nos oferecerá às narinas o ar temperado com o aroma perfeito da liberdade.
O aroma que nos faz sorrir da maneira mais intensa e verdadeira com o à-vontade e o conforto de quem está sempre na sua “casa”.
Nós somos sempre de onde queremos estar, quer falemos de tempo ou de um espaço qualquer.
Um dia enquanto passeávamos pelo campo, o meu avô Joaquim sentou-me junto a ele na margem de uma ribeira que quase tocava a parede de um velho colmeal num lugar chamado da Silveirinha.
Cada um tinha a sua pedra como assento, e por entre o assumido cheiro a poejo que o inverno oferecera àquele lugar feito tão longe à luz do nosso lento caminhar; divagámos sobre a geografia e até sobre qual o concelho a que pertenceriam aquelas pedras; sem termos dúvidas porém de que naquela manhã, ali com o canto dos pássaros e das cigarras, aquela terra não era de mais ninguém, pertencia-nos inteiramente por entre aquela falsa sensação de solidão, ilusão por não vermos qualquer outra pessoa algures em algum ponto do muito que a nossa vista nos oferecia.
A imensa generosidade que o Alentejo sempre dá a quem se dispuser a olhar para ele.
Antes de nos levantarmos, colhemos um ramo de poejos que nos aromatizaram a açorda, já no interior da casa que existia dentro dos muros do colmeal, e onde uma osga imponente nos guardava zelosa espreitando sempre por uma das traves de madeira do tecto já muito velho e cúmplice de tantas histórias.
As histórias que somadas se fazem uma herança de liberdade que jamais iremos querer trair, seja qual for o preço que tenhamos de pagar.
E assim têm todos vocês de ler a resposta que ofereço a uma colega que ontem me perguntou à volta de uma bica porque é que eu estava sempre tão bem disposto.
Pois…
É que, para além disso, tenho a mania de ver as cadeiras do café como pedras brancas de um ribeiro num mundo que é meu.
A genética do campo que jamais se apaga e... só me falta o cheiro a poejo.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

“Somewhere over the rainbow…”


Com a previsibilidade de um “Estado” que tinha “Novo” como sobrenome, mas que insistia em nunca se renovar, nós entrávamos para a escola sempre na mesma data, 7 de Outubro; e de tal forma se entranhou em mim este dia, que nunca me esqueço de tal facto.
E assim como quem vai ali viver à pressa, recordo-me de repente que faz hoje precisamente 42 anos; já quase terminava o ano da graça de 1972, quando eu entrei para a Primeira Classe na Escola Masculina de Vila Viçosa.
Isso mesmo, não havia mistura de géneros.
Os bibes eram iguais para todos, e se eram brancos os das meninas que “moravam” na outra escola, os nossos eram azuis e brancos com uns quadradinhos ínfimos. Pelas gavetas da casa dos meus pais ainda consigo encontrar o meu, costurado pela minha mãe a partir de uma sarja própria comprada a metro na loja do Senhor Domingos. Abotoa do lado esquerdo com uma fileira de meia dúzia de botões.
Acompanhado pela minha mãe e com uma mala às costas carregada de material novinho em folha comprado na livraria da D. Joana, entre o qual o eterno Livro de Leitura de capa cor-de-laranja que algures dizia que “o gato comeu o carapau, o gato é guloso”, acho que me senti a pessoa mais importante do mundo.
E ali com um companheiro de carteira na fila mais próxima da janela e depois do professor nos ter alinhado por alturas, consegui ver-me muito crescido com o Caderno Escolar e caneta Bic transparente na mão; que é uma coisa muito difícil de explicar quando hoje pego no bibe e no capote que sobrou desse tempo.
Mais importante me senti ainda nesse primeiro dia de escola quando fui a casa almoçar e pelo caminho já sabia que a letra i resultava da subida de um foguete até ao céu, artefacto pirotécnico que deixava por lá uma pequena nuvem de fumo, regressando depois tranquilamente à terra para ser a primeira letra da palavra “Igreja”.
Já não consigo lembrar-me qual a brincadeira no recreio da tarde depois de ter comido o papo-seco com marmelada que a minha mãe me preparou e que eu levei envolto numa saqueta bordada a ponto cruz pela Tia Carlota. Mas algo de interessante terá sido por certo.
E assim, nos anos seguintes, o dia 7 de Outubro foi sendo o do regresso à escola no culminar de umas férias longas de quatro meses que tinham todos os benefícios, e mais aquele de querermos muito voltar a ver os nossos colegas e o professor.
Só a chegada da liberdade em 1974 quebrou esta previsibilidade de calendário, para além de ter trazido algumas raparigas até à nossa escola e ter levado uns quantos de nós até à escola delas, sem que as cores dos bibes tivessem sofrido qualquer alteração.
Definitivamente e por entre uma manhã de chuva que bate na vidraça e nos acorda cedo, nada melhor do que pegar no i-Pad e começar a desenhar com palavras os pensamentos que nos assaltam.
Vemo-nos a sorrir por esses dias e acabamos também a fazê-lo antes de aparar a barba branca e sentir o duche tépido a cair-nos em cima enquanto cantamos:
- “Somewhere over the rainbow…”

domingo, 5 de outubro de 2014

Amo-te como nunca te saberei dizer


Talvez eu nunca venha a saber qual a cor dos nossos entrelaçados passos pela cidade, quando os braços e as nossas mãos nos acompanham na vontade, e se tocam na suavidade e na paz de um eterno, certo e completo desejo...
Talvez eu não consiga jamais encontrar palavras na nossa e nas outras línguas, que possam fazer justiça ao sentir perfeito que nasce de um amor assim; tu, aquele que a vida me diz ser o meu amor, único, primeiro e derradeiro, porque irrepetível...
Talvez não nasça nunca a música tecida pela inspiração dos mestres, canção ou sinfonia que possa rimar com este momento que matou as saudades e fez real a esperança e todas as promessas...
Talvez não haja flores que bastem para narrar à gente o tom do sorriso que nos reveste as faces...
Talvez não haja fé igual à nossa aqui nesta hora, nem mesmo na fusão das preces dos milhões de dedos que acariciam infinitos rosários...
Talvez não exista pódio para a glória deste olímpico tempo nascido afinal da vontade de não ser mais forte, não ir mais longe e nem mais alto; a glória de sermos apenas nós mesmos coroados pelo louro da mais pura verdade...
Talvez...
Mas o que são os nomes e os adjectivos perante a essência de um instante que sentimos valer pela vida toda?
O verdadeiro amor é inenarrável.
Hoje ao acordar, ainda consegui palpar nos meus lábios, o toque e os aromas perfeitos que lhes deram os teus; e no silêncio do leito onde às vezes choro por ti, senti que te amo tanto, mas tanto... como nunca te saberei dizer.

sábado, 4 de outubro de 2014

Praxes, não obrigado!


Somos os mesmos dois de há trinta anos, quando precisamente em Outubro de 1984, o meu pai veio comigo a Lisboa por alturas da matrícula na Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa, e até fomos juntos comprar um guia da Carris para me ajudar a movimentar na cidade que em grande parte eu desconhecia.
Hoje o meu irmão veio trazê-lo ao Campo Pequeno e agora vamos juntos a caminho da Avenida Defensores de Chaves, quase na hora da consulta de urologia.
Sinais dos tempos... e o ciclo da vida a funcionar neste “quem toma conta de quem”.
É quinta-feira à tarde e junto ao semáforo cruzamo-nos com um grupo de estudantes que solta palavras de ordem como se não fosse haver amanhã. Uns vão de capa e batina, outros de calções, mas todos levam na mão, garrafas de um litro de cerveja.
Mais tarde irão dispor-se em fila à porta do touril, e já de longe vejo-os rastejar, pôr a cabeça no chão, fazer flexões, etc.
Ao passarem por nós torna-se bem audível a mensagem de uma estudante para um caloiro:
- Meu caloiro de m...
E é um pouco difícil explicar ao meu progenitor, que tem a quarta classe mas que nos educou na base de que há palavras impróprias para um relacionamento saudável em família ou em comunidade, como é que uma certa “elite” do país faz uso e abuso desta mediocridade linguística.
Vamos caminhando os dois sem nunca nos calarmos, como é nosso hábito, tentando encontrar nem que seja apenas um só aspecto positivo para as cenas degradantes que vemos por ali com o alto patrocínio da cerveja de litro.
Não encontramos.
Integração?
A humilhação segrega e não ajuda a integrar ninguém.
Tradição?
É legítimo que o tempo a corrija no sentido da dignidade.
Passar um bom bocado?
Eu nunca experimentei mas acho que beijar a calçada do Campo Pequeno não será a actividade mais agradável e sugestiva.
Detesto praxes e assumo-o convictamente não lhe reconhecendo como disse um único benefício, que não seja possivelmente a satisfação muito pessoal de natureza sadomasoquista dos seus intérpretes.
A postura e estas práticas atentam contra a dignidade da pessoa e beliscam decisivamente o bom senso e o sentido de responsabilidade que se exige a instituições que no âmbito público ou privado se dispõem a formar cidadãos de uma forma superior.
Para a grande maioria dos jovens, entrar para a Faculdade é hoje bilhete para um carnaval de Torres Vedras, mas mais excessivo, com a duração de três ou mais anos passados debaixo de um disfarce de corvos alcoolizados.
E apanhem-nos à saída dos cursos e vejam como conhecem melhor a graduação alcoólica do Vodka do que o autor de “O Memorial do Convento”.
Voltando há trinta anos...
A Universidade tinha o apelo do conhecimento e da liberdade que ainda era mais jovem do que eu.
Sem capas que não as dos jornais que liamos e debatíamos à mesa da cantina.
Sem batinas ou rótulos de qualquer “farda”.
E sem praxes, que a solidariedade expressava-se na partilha dos caminhos, dos livros e de tudo o que nos compunha os dias.
Claro que também com a recomendação do meu pai:
- A portar-se com juízo e a fazer-se um Homem que é para isso que aqui estás.
Vá lá que a consulta atrasou e na hora de espera ainda acabámos os dois a recordar esse mês de Outubro de 1984 em que eu ia resistindo a tudo até ao momento do silêncio ao serão que quase sempre me fazia chorar.
Chorar em segredo, está bem de ver.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

O tempo é vida muito mais do que dinheiro


Por nos ser demasiado caro, bastas vezes afirmamos que o tempo é dinheiro, sendo que ele é efectivamente muito mais vida do que o vil metal; por muito que as retribuições de âmbito salarial sejam estabelecidas com base em qualquer unidade que o meça e o desdobre (dias, horas…).
E sendo assim, se o tempo é vida, há que vivê-lo muito mais do que apenas passá-lo de uma forma passiva tomando maneiras de um espectador rendido à inevitabilidade de um filme embrulhado por Deus nas projectáveis bobines do destino.
Encher os dias de paz, gargalhadas, choros, gritos, murros na mesa, momentos de amor, festa, viagens, encontros, abraços… é nossa obrigação; e com algum sentido de urgência.
Há alguns anos quando visitava uma familiar num lar de idosos sentei-me à volta de uma mesa com uns quantos, e por entre os bombons de chocolate que lhes levei, e as palavras, muitas, que sempre me saem soltas, uma senhora de mais de noventa anos não resistiu a falar-me:
- Está a ver aquela janela ali por detrás do limoeiro do pátio?
Espreitei e confirmei.
- Sim, vejo. É uma janela com as portadas pintadas de branco.
- De aqui do meu sofá sempre colocado nesta posição, eu passo horas a ver aquela janela. Muito pouco consigo ver para além dela.
Continuou:
- O tempo que a si lhe falta nessa sua correria louca pelo mundo, sobra-me a mim aqui sentada enquanto não faço mais nada se não vê-lo passar à medida que vai contribuindo para que quando eu morrer, ninguém tenha qualquer pena de mim. Todos dirão que já vivi muitos mais anos do que a média dos demais mortais.
Prossegue:
- E o tempo oferece-me simultaneamente a mim, momentos de sobra para pensar em tudo aquilo que não fiz e poderia ter feito, porque disso tinha muita vontade.
O muito tempo nem sempre é sinónimo de muita vida.
E olhámos os dois ao mesmo tempo para a inevitável janela, e a mim apeteceu-me voar para ir viver intensamente e com urgência.
Num jantar desta semana, um amigo de sempre soltou uma das frases que associada à inércia, mais erupção cutânea me consegue provocar:
- O que é que queres que eu faça?
Eu é que não faço mais nenhum comentário.