sábado, 4 de outubro de 2014

Praxes, não obrigado!


Somos os mesmos dois de há trinta anos, quando precisamente em Outubro de 1984, o meu pai veio comigo a Lisboa por alturas da matrícula na Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa, e até fomos juntos comprar um guia da Carris para me ajudar a movimentar na cidade que em grande parte eu desconhecia.
Hoje o meu irmão veio trazê-lo ao Campo Pequeno e agora vamos juntos a caminho da Avenida Defensores de Chaves, quase na hora da consulta de urologia.
Sinais dos tempos... e o ciclo da vida a funcionar neste “quem toma conta de quem”.
É quinta-feira à tarde e junto ao semáforo cruzamo-nos com um grupo de estudantes que solta palavras de ordem como se não fosse haver amanhã. Uns vão de capa e batina, outros de calções, mas todos levam na mão, garrafas de um litro de cerveja.
Mais tarde irão dispor-se em fila à porta do touril, e já de longe vejo-os rastejar, pôr a cabeça no chão, fazer flexões, etc.
Ao passarem por nós torna-se bem audível a mensagem de uma estudante para um caloiro:
- Meu caloiro de m...
E é um pouco difícil explicar ao meu progenitor, que tem a quarta classe mas que nos educou na base de que há palavras impróprias para um relacionamento saudável em família ou em comunidade, como é que uma certa “elite” do país faz uso e abuso desta mediocridade linguística.
Vamos caminhando os dois sem nunca nos calarmos, como é nosso hábito, tentando encontrar nem que seja apenas um só aspecto positivo para as cenas degradantes que vemos por ali com o alto patrocínio da cerveja de litro.
Não encontramos.
Integração?
A humilhação segrega e não ajuda a integrar ninguém.
Tradição?
É legítimo que o tempo a corrija no sentido da dignidade.
Passar um bom bocado?
Eu nunca experimentei mas acho que beijar a calçada do Campo Pequeno não será a actividade mais agradável e sugestiva.
Detesto praxes e assumo-o convictamente não lhe reconhecendo como disse um único benefício, que não seja possivelmente a satisfação muito pessoal de natureza sadomasoquista dos seus intérpretes.
A postura e estas práticas atentam contra a dignidade da pessoa e beliscam decisivamente o bom senso e o sentido de responsabilidade que se exige a instituições que no âmbito público ou privado se dispõem a formar cidadãos de uma forma superior.
Para a grande maioria dos jovens, entrar para a Faculdade é hoje bilhete para um carnaval de Torres Vedras, mas mais excessivo, com a duração de três ou mais anos passados debaixo de um disfarce de corvos alcoolizados.
E apanhem-nos à saída dos cursos e vejam como conhecem melhor a graduação alcoólica do Vodka do que o autor de “O Memorial do Convento”.
Voltando há trinta anos...
A Universidade tinha o apelo do conhecimento e da liberdade que ainda era mais jovem do que eu.
Sem capas que não as dos jornais que liamos e debatíamos à mesa da cantina.
Sem batinas ou rótulos de qualquer “farda”.
E sem praxes, que a solidariedade expressava-se na partilha dos caminhos, dos livros e de tudo o que nos compunha os dias.
Claro que também com a recomendação do meu pai:
- A portar-se com juízo e a fazer-se um Homem que é para isso que aqui estás.
Vá lá que a consulta atrasou e na hora de espera ainda acabámos os dois a recordar esse mês de Outubro de 1984 em que eu ia resistindo a tudo até ao momento do silêncio ao serão que quase sempre me fazia chorar.
Chorar em segredo, está bem de ver.

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