quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Aquelas pedras brancas à beira dos ribeiros


Dispensando quaisquer escrituras notariais que certifiquem a posse, é legítimo que chamemos nosso ao chão onde assentam os passos que concretizam as nossas vontades, nesses instantes em que a fidelidade a nós, muito mais do que a qualquer outra crença, nos oferecerá às narinas o ar temperado com o aroma perfeito da liberdade.
O aroma que nos faz sorrir da maneira mais intensa e verdadeira com o à-vontade e o conforto de quem está sempre na sua “casa”.
Nós somos sempre de onde queremos estar, quer falemos de tempo ou de um espaço qualquer.
Um dia enquanto passeávamos pelo campo, o meu avô Joaquim sentou-me junto a ele na margem de uma ribeira que quase tocava a parede de um velho colmeal num lugar chamado da Silveirinha.
Cada um tinha a sua pedra como assento, e por entre o assumido cheiro a poejo que o inverno oferecera àquele lugar feito tão longe à luz do nosso lento caminhar; divagámos sobre a geografia e até sobre qual o concelho a que pertenceriam aquelas pedras; sem termos dúvidas porém de que naquela manhã, ali com o canto dos pássaros e das cigarras, aquela terra não era de mais ninguém, pertencia-nos inteiramente por entre aquela falsa sensação de solidão, ilusão por não vermos qualquer outra pessoa algures em algum ponto do muito que a nossa vista nos oferecia.
A imensa generosidade que o Alentejo sempre dá a quem se dispuser a olhar para ele.
Antes de nos levantarmos, colhemos um ramo de poejos que nos aromatizaram a açorda, já no interior da casa que existia dentro dos muros do colmeal, e onde uma osga imponente nos guardava zelosa espreitando sempre por uma das traves de madeira do tecto já muito velho e cúmplice de tantas histórias.
As histórias que somadas se fazem uma herança de liberdade que jamais iremos querer trair, seja qual for o preço que tenhamos de pagar.
E assim têm todos vocês de ler a resposta que ofereço a uma colega que ontem me perguntou à volta de uma bica porque é que eu estava sempre tão bem disposto.
Pois…
É que, para além disso, tenho a mania de ver as cadeiras do café como pedras brancas de um ribeiro num mundo que é meu.
A genética do campo que jamais se apaga e... só me falta o cheiro a poejo.

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