sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Enquanto o ananás vai espreguiçando o seu amarelo no fruteiro de uma qualquer sala de hotel…



Paciente, o ananás vai aos poucos matizando de amarelo o fruteiro para onde a ilha também enviou maracujás.
- O senhor levantou-se muito cedo e nós temos um buffet de pequeno-almoço ali no bar da recepção.
Agradeço e tomo um sumo de laranja enquanto espero o táxi.
A paixão põe o corpo a tiritar e torna vadio o pensamento, por entre esta sensação de nunca envelhecer. Porque aos quinze anos e no Outono de Vila Viçosa também já era assim.
- Boa noite.
- Bom dia.
Percebo rapidamente que o motorista do táxi ainda não se deitou; um homem que sorri, muito pequeno de altura mas de braços fortes que elevam facilmente a mala que trago carregada, entre outras coisas, com Massa Sovada e uma caixa de pacotes de açúcar da Sinaga para a colecção do meu irmão.
O sol ainda não nasceu e eu tenho este vício de não abandonar os minutos ao silêncio. Deito palavras tontas mas de água quente sobre o frio escuro da viagem conjunta de dois desconhecidos:
- A esta hora ainda não há trânsito e circulamos muito bem.
E já não nos calamos até ao aeroporto.
Passo a segurança e sento-me a tomar um café...
O sapato esquerdo continua a apertar-me o pé e ainda há pouco no quarto busquei uma calçadeira abrindo a gaveta da cómoda. Não a encontrei mas descobri uma Bíblia em Inglês e uma seta que percebi estar virada para Meca.
Deus está em todo o lado mas os Homens atribuem-Lhe coordenadas e fecham-no em palavras e gavetas.
Lá fora já amanheceu e o pensamento segue vadio sem cordas ou Astrolábios, e sobretudo sem outros "Cabos" para abraçar que não os teus braços.
O voo hoje não se atrasou e eu cruzo rapidamente as nuvens, adormecendo no exacto ponto onde o despertador me tinha apanhado às seis horas e vinte minutos da manhã.
Não há madrugadas tão doces quanto as dos Homens apaixonados, porque mesmo que "Deus" repouse nas gavetas dos quartos de hotel, a fé anda à solta pelos silêncios e pelo mar fora.
Cruzando o céu…
Enquanto o ananás vai espreguiçando o seu amarelo no fruteiro de uma qualquer sala de hotel. 

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Nem um só minuto…



Sempre que referíamos que o tempo passava demasiado depressa, a minha avó Natividade dizia congratular-se com tal facto, garantindo que quando ela tinha de trabalhar de sol a sol e esperar pelo sábado para receber o parco salário, o tempo era insuportável e dolorosamente lento.
Assim, cedo aprendi que sobre o sentido racional do tempo, os dias são directamente proporcionais à solidão, e, pelo contrário, inversamente proporcionais ao pão.
E a solidão é tudo aquilo que dói, e o pão é a festa do trigo que nos enche os dias.
Sobrevoei há pouco o Convento de Mafra, vi a Ericeira tomando o Atlântico como rumo até aos Açores e à Ilha Terceira.
No banco atrás de mim segue um casal Australiano que fala em Inglês fluente com um “rapaz” Português.
Os estrangeiros confessam vir aos Açores “com pressa” pois não querem partir desta vida sem cumprirem a promessa que fizeram nos anos cinquenta aquando da erupção do vulcão dos Capelinhos. Da Terceira seguirão para o Faial.
O Português que diz chamar-se Manuel e ser oriundo de uma família de Braga, confessa ter planos para ir até ao outro lado do mundo, à Austrália, mas não tem pressa; afinal de contas já confessou ser da idade do Cristiano Ronaldo.
E aqui estamos todos sentados no mesmo instante cumprindo o mais objectivo sentido do tempo, mas uns com pressa, outro sem ela, e eu, um tonto que decalca palavras sobre os sentires da alma, que os escuto sabendo que o tamanho dos dias, o dita afinal a paixão, ganhando um travo a infinito quando tu não estás.
Sim, é verdade, tu és o trigo que me alimenta.
Existisse então um relator nesta “conferência” em que eu cumpro o pecaminoso papel do ouvinte indiscreto, e sempre se poderia concluir que, lento ou rápido, importa que nem um só minuto se deixe órfão da nossa vontade.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Talvez por isso o Outono continue a ser ainda hoje a minha estação preferida...



Quando caíam, castanhas, as folhas dos plátanos, sobre o caminho do liceu à Porta do Nó, o Outono já tinha apagado as diferenças que existiam entre nós: os amigos que podiam ir passar férias à praia já tinham regressado a Vila Viçosa com histórias que iam partilhando connosco, e estávamos novamente todos juntos.
Talvez por isso o Outono continue a ser ainda hoje a minha estação preferida.
Tínhamos horários impressos e oferecidos por diferentes marcas, folhas mais ou menos coloridas contendo espaços relativos aos dias da semana e às horas, e íamos juntos até cerca das vitrinas da escola buscar informação sobre o plano de aulas para a nossa turma. Depois jurávamos sobre as folhas imaculadas dos cadernos e dos livros que aquele ano iria ser fantástico.
Havia marmelos no fruteiro que a mãe às vezes cozia para a sobremesa do jantar, àquela hora em que o corpo pedia agradavelmente um casaco ligeiro para enfrentar o fresco libertador das agruras do estio.
Reluziam diospiros nas árvores por cima do parapeito onde a marmelada e o doce de melão secavam ao sol sob recortados pedaços de papel vegetal; e ao lanche comíamos um papo-seco com geleia, um pouco antes de ir até à Livraria da D. Joana onde às vezes assávamos bolotas no aquecedor para entretermos as mãos enquanto da nossa conversa se soltavam milhares de histórias.
Ao serão lia a Crónica de D. João I com a tia Maria e aprendia quem era o Conde de Andeiro.
Sentado agora junto à janela no primeiro dia de Outono de 2016, escrevo aqui enquanto a memória se entrelaça nestes sabores e em todos estes detalhes.
O entardecer trouxe uma brisa e a sala agradece-se assim aconchegada pela penumbra que vou esticando até ao ponto de quase não ver as letras.
O tempo cerrou uma cortina, “refrescou” lentamente o sol, pintou o jardim do tom mel e castanho do repouso, e devolveu-me a casa, devolvendo-me afinal a mim.
É isto o Outono.
E estávamos novamente todos juntos…
E tão bem aqui comigo, eu sei que os amores que cruzam o Outono são aqueles que nos marcam a vida.
Talvez por isso o Outono continue a ser ainda hoje a minha estação preferida.      
  

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Porquê chorar nas curvas da estrada em que não te vejo…



Porquê chorar nas curvas da estrada em que não te vejo, se eu sei que estes dias me levarão a ti…
Sei-o muito bem e pressinto-o em tudo, até porque se não fosse assim, eu jamais seria eu.
Nós somos tudo aquilo que buscamos e nada para lá do caminho nos pode oferecer identidade.
Entretenho-me então a decifrar os aromas que a montanha me oferece, e arrumo-os junto com as palavras que oferecem coerência ao desejo, tecendo as rosas que terei presas ao olhar quando chegares à casa que construí para nós.
Uma casa de pedra à sombra de um imenso carvalho, ao lado de uma fonte que o inverno abraça de água fresca.
Sei que chegarás numa tarde de Outono, talvez quando o campo já se tiver rendido em cor ao teu olhar.
Sei que o nosso primeiro beijo apagará a memória de todas as curvas em que não te vi.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Todos os nomes têm o seu Santo…



Todos os nomes têm o seu Santo; onomástico orago que colocamos entre incenso e entre os dias nos altares informais que coroam as montanhas de onde legitimamente sonhamos o Céu.
O Verão já não tardará a partir, está por dias, e ficará apenas o sol guardado nas uvas que ele foi perfumando de açúcar pela encosta íngreme que o Homem vestiu de degraus para poder descer desse Céu e beijar o rio.
Somos nós quem chama o Outono quando despimos o pó da terra que nos cobre os passos, e nos enleamos num abraço onde cabemos todos, os de perto e os que chegam de longe, cantando em rimas, os versos que oferecem eco eterno aos nossos avós.
E ali em baixo, a coerência do rio a serpentear a Terra e o tempo definindo o vale…
Essas águas “d’ouro” que correm pacientes e fiéis calando fronteiras entre altas arribas, aguardando o mosto e o vinho para o embalarem até quase à Foz, o ponto onde as sombras doces das Quintas se revestem do inevitável tom salgado que tem a saudade.
O rio imita-nos o olhar e a sorte; que o mundo ganha-se mar fora deixando atrás as sombras das casas onde nascemos... E o Porto é um imenso cais onde desembarcamos o sol e os amores, o Verão que andou alegre e rebelde pelas montanhas todas onde as nossas paixões tomaram guarida.
No alto da montanha, enquanto o meu sonho viajar pelo céu e pelo mundo fora, levantar-me-ei cedo nas manhãs de inverno, tomarei a poesia das palavras e levarei comigo todos os cuidados; que o vinho começa sempre no gesto perfeito do herói que rompe as madrugadas para acariciar as cepas que trata por tu.
Todos os nomes têm o seu Santo…
Um bispo do Século IV, Ilídio. Ofereci-lhe altar do cimo da montanha onde o olhar se deleita e eu afago todos os meus sonhos.
E este vinho é o sangue que me bombeia o coração e corre entre vasos e o tilintar da saúde e da vida que celebra a poesia.
Pelo mundo fora.

O meu amigo Ilídio Monteiro há anos que me convida para a vindima na sua Quinta dos Vales de Ribalonga., mas eu nunca consigo estar presente, apesar de já ter provado o néctar feliz que resulta de semelhante festa.
Não podendo mais uma vez oferecer os pés à pisa, resolvi pôr as mãos ao serviço da amizade e escrever-lhe este pequeno texto.
Para ele e para a nossa comum amiga e poeta Isaura Pires Vieira.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Se o tempo tivesse asas...



Se o tempo tivesse asas, como usa tantas vezes pensar e dizer a gente, eu tomava agora mesmo um minuto e ia já ter contigo.
Mas não…
Eu sei que a paixão destrói irreversivelmente o sentido racional dos dias; e também os distende, como agora, enquanto fico por aqui e escrevo luas nos silêncios e flores sobre todos os inéditos desejos que revelaste em mim.
O choro mais triste é o de quem não tem caminho.
E como poderá querer ter pão quem nunca oferece as mãos à terra cravejada das silvas de onde só fugazmente colhe amoras?
Às vezes choro sentado numa pedra à beira da estrada que me leva a ti, mas é aquele líquido sorrir salgado de quem ama e sente saudades por entre os distendidos dias da solidão.
Sim, o choro de quem espera e te pressente nas praças de todas as cidades do mundo.
Mas todos os dias escrevo trigo fértil pelas madrugadas, quando as minhas mãos rasgam ribeiros robustos sobre a aridez de não te sentirem por perto.
Eu sei que o teu olhar sabe a pão. 

sábado, 10 de setembro de 2016

Porque enquanto houver Setembro e um Calipolense…


Nem necessitei pisar a rampa, que o tempo era curto e dava apenas para parar o carro e espreitar o arraial ali desde a porta da Igreja de São Tiago; mas vi-os a todos. No muro que ladeia o caminho até à Igreja do convento, vejo sentados os meus avós e os meus tios que conversam animadamente à espera do Fogo Preso.
Vou sempre até lá para lhes dar um beijo e regresso invariavelmente com uma moeda de cinco escudos no bolso:
- Toma lá para ires comprar uma “maravilha”.
O nome mais do que justo que tomam as farturas quando são redondas.
Há rifas na Tômbola e na Quermesse onde às vezes dou uma ajuda porque o meu pai pertence à Comissão de Festas e até fui eu quem escreveu cem vezes o mesmo número em folhas de papel devidamente picotadas para poder alinhar as séries que andam à roda.
O Senhor Julião, pai do Manuel, já fechou o café na Praça e chega sempre a tempo de ganhar os melhores prémios.
- Olha, hoje só ganhei uma garrafa de Anis Escarchado.
A banda toca no coreto e o pai atina com os Pratos, a prima Maria Clara toca Requinta e o Tio António hoje encarrega-se da Caixa.
Não tardará o baile com o “Star Melodia”, os nossos Beatles de Vila Viçosa, mas eles ainda só afinaram os instrumentos. Há dois ou três pares que aproveitam e dançam mesmo ali ao redor do coreto.
Cheira a frango assado e ainda levamos o fumo no nariz quando nos ajoelhamos para rezar à Senhora da Piedade ou para pedir ao São Francisco jazente e aos seus “fradinhos” que nos ajudem até ao próximo Setembro.
A “Pesca ao Pato” já parou, as tômbolas estão meio paradas… É o meu pai que dá ordem para que o fogo comece mas só depois de ter ouvido mil vezes:
- Nem por seres “Foguete” e parente dos demais, os fazes subir aos céus sem mais delongas.
Foi na Terça-feira desta semana durante uma curta visita a Vila Viçosa, um dia quente e com fumo e fogo por perto. Fiz uma foto no arraial e voltei ao carro de onde não saíram a minha mãe e o João.
Mas vi-os a todos mesmo sem descer a rampa, assim como os vejo hoje aqui desde Paris onde escrevo já pela noite fora.
Enquanto houver Setembro e um Calipolense, os Capuchos jamais ficarão às escuras. Porque somos nós e tudo e todos aqueles que nunca deixaremos morrer sob arcos coloridos no redesenhar de um céu tão próximo de nós.
Há milhões de beijos nossos envoltos nas memórias dessas noites que nasceram para que fossemos imensamente felizes.
Num outro dia, uma amiga daquelas que vêm de terras sem muita História e sem memória, que vivem em Vila Viçosa mas que nunca se cansam de denegrir tudo o que temos e somos, confessou:
- Detesto a Festa dos Capuchos.
Se as palavras ditas assim podem ser saliva em jacto sobre a nossa indiferença, espero que as minhas palavras escritas possam ser o convite ao seu respeito pelas nossas memórias.
Porque enquanto houver Setembro e um Calipolense…
Comam um brinhol e bebam uma ginja por mim. Abraços.

sábado, 3 de setembro de 2016

A vida conta-se pelos rios que cruzamos...



A vida conta-se pelos rios que cruzamos, e enquanto deixo que anoiteça nesta Quinta-feira, primeiro dia de Setembro, eu já levo o Pranto, o Mondego, o Vouga, o Douro…
Medievo caminhante por entre o aroma de árvores queimadas e o cansaço, vejo-me de repente à entrada do velho Mosteiro, portão fechado, uma luz ténue e discreta a dar-me a esperança de não me ter enganado.
Há festa em Braga, não arranjei outro hotel na cidade e preciso de ir trabalhar muito cedo, um pouco antes das oito horas do dia seguinte. O sistema de marcação de hotéis sugeriu-me a Albergaria do Mosteiro de Tibães, mosteiro que apesar desta imensa face barroca é mais antigo do que Portugal.
Saio do carro e toco à campainha. Não tarda quase nada até escutar os passos e o rodar tão sonoro da chave que abre o portão.
Já é tarde, faltava apenas eu para que a lotação de nove quartos ficasse lotada e ainda terei tempo para jantar no restaurante. Tudo isto fico a saber pelo meu anfitrião enquanto a mala de viagem concebida para os pisos polidos dos aeroportos do Século XXI vai soluçando aos pulos sobre o granito que adorna passos desde o Século XI.
O quarto é uma antiga cela dos monges beneditinos que um arquitecto revestiu do melhor design do nosso tempo, persistindo no entanto as paredes imensas que impedem a rede do telemóvel ou o acesso à internet.
Não me demoro, desço ao restaurante, escolho o jantar que vou saboreando ao ritmo do serviço prestado por uma Irmã Carmelita que fala Francês porque nasceu no Congo.
Esta minha genética anti-silêncios conduz-me pelas perguntas.
Todos os hóspedes já recolheram aos quartos quando o relógio bate as 22 horas e a Irmã me interpela:
- No final do serviço vimos sempre aqui ao restaurante dar graças a Nossa Senhora pelo nosso trabalho e pedir por todos aqueles a quem servimos.
E concluiu:
- Espero que não se importe e se assim o entender pode rezar connosco.
E eu que até cheguei cansado, levantei-me da mesa e juntei-me às “monjas” em oração, entre o Português e o Francês numa Ave Maria ao toque dedilhado da viola.
Com novos ritmos, a fé junta-se às paredes de granito e dá coerência e perseverança atravessando o tempo que nós vivemos a cruzar os rios. Preserva a essência.
Acordo cedo, dou uma volta pelo jardim; soam cânticos da capela e já cheira a café na Sala do Pequeno-Almoço. O mesmo senhor de ontem abre-me a porta.
- Foi o último a chegar e é o primeiro a sair.
Peço que me faça uma foto na fonte da entrada.
- Um dia voltarei com mais tempo… para rezar.
Corre uma brisa fresca na manhã de Braga, um helicóptero sobrevoa-me o caminho rumo aos incêndios, o velho mosteiro espreita-me ainda no espelho retrovisor.
É tão bom sentir que os dias ainda encerram detalhes secretos e bons que nos surpreendem e nos beijam generosamente.