sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Talvez por isso o Outono continue a ser ainda hoje a minha estação preferida...



Quando caíam, castanhas, as folhas dos plátanos, sobre o caminho do liceu à Porta do Nó, o Outono já tinha apagado as diferenças que existiam entre nós: os amigos que podiam ir passar férias à praia já tinham regressado a Vila Viçosa com histórias que iam partilhando connosco, e estávamos novamente todos juntos.
Talvez por isso o Outono continue a ser ainda hoje a minha estação preferida.
Tínhamos horários impressos e oferecidos por diferentes marcas, folhas mais ou menos coloridas contendo espaços relativos aos dias da semana e às horas, e íamos juntos até cerca das vitrinas da escola buscar informação sobre o plano de aulas para a nossa turma. Depois jurávamos sobre as folhas imaculadas dos cadernos e dos livros que aquele ano iria ser fantástico.
Havia marmelos no fruteiro que a mãe às vezes cozia para a sobremesa do jantar, àquela hora em que o corpo pedia agradavelmente um casaco ligeiro para enfrentar o fresco libertador das agruras do estio.
Reluziam diospiros nas árvores por cima do parapeito onde a marmelada e o doce de melão secavam ao sol sob recortados pedaços de papel vegetal; e ao lanche comíamos um papo-seco com geleia, um pouco antes de ir até à Livraria da D. Joana onde às vezes assávamos bolotas no aquecedor para entretermos as mãos enquanto da nossa conversa se soltavam milhares de histórias.
Ao serão lia a Crónica de D. João I com a tia Maria e aprendia quem era o Conde de Andeiro.
Sentado agora junto à janela no primeiro dia de Outono de 2016, escrevo aqui enquanto a memória se entrelaça nestes sabores e em todos estes detalhes.
O entardecer trouxe uma brisa e a sala agradece-se assim aconchegada pela penumbra que vou esticando até ao ponto de quase não ver as letras.
O tempo cerrou uma cortina, “refrescou” lentamente o sol, pintou o jardim do tom mel e castanho do repouso, e devolveu-me a casa, devolvendo-me afinal a mim.
É isto o Outono.
E estávamos novamente todos juntos…
E tão bem aqui comigo, eu sei que os amores que cruzam o Outono são aqueles que nos marcam a vida.
Talvez por isso o Outono continue a ser ainda hoje a minha estação preferida.      
  

Sem comentários:

Enviar um comentário