sábado, 31 de dezembro de 2011

2011

Estão descascadas e saboreadas as laranjas da colheita de 2011.
Hoje, último dia do ano, sentados à volta de uma lareira que nos aquece aqui algures entre as laranjeiras deste “Pomar” e sempre à laia de balanço, partilho convosco todas aquelas laranjas que gomo a gomo se foram impondo à minha memória:

LARANJA DOCE – Revoluções nos países árabes
Saúda-se o fim de regimes totalitários pela força do povo unido nas ruas.
Foi de dentro do Egipto ou da Líbia que nasceu este desejo de democracia, tendo os líderes das grandes nações secundado esta vontade, após anos de convivências e complacências hipócritas feitas ao sabor dos mais variados interesses.

LARANJA AMARGA – Crise Financeira / Troika
De PEC em PEC chegámos à Troika, e fomos obrigados a pedir empréstimo às instituições internacionais.
Ataque à zona Euro? Crise financeira mundial?
Nada servirá para disfarçar a incompetência de quem nos governou ao longo de décadas.

LARANJA SUMARENTA – Eduardo Souto Moura
O presidente Obama entregou a Souto Moura, o prémio maior da Arquitectura Universal, o Pritzker, vulgarmente designado como o Nobel da Arquitectura.
Quem já visitou o Estádio de Braga, a Casa das Histórias ou a Pousada de Santa Maria do Bouro, não estranha este prémio pois estará habituado à genialidade de Eduardo Souto Moura.

LARANJA SECA – Aníbal Cavaco Silva
Cumpriu a regra da reeleição dos Presidentes da Republica do pós 25 de Abril, mas fê-lo com muito menor percentagem que Eanes, Soares ou Sampaio.
O discurso da noite da reeleição e o da tomada de posse no Parlamento, dividiram mais do que uniram. Num momento crítico para a nossa soberania não tem tido argumentos para criar sinergias entre os Portugueses e colocar reflexões no facebook é muito pouco relativamente ao que se lhe competia.
Ele e os seus próximos, um dos quais sentou no Conselho de Estado, estão demasiado envolvidos no escândalo BPN.

LARANJA MECÂNICA – Euro versus Mercados
Num processo demasiado amargo, o sistema de ataque dos Mercados ao Euro é de um rigor mecânico assinalável. E tem dado frutos.
Não será com políticos como Merkl ou Sarkozi que a nossa moeda europeia se irá salvar. É demasiada fragilidade para tão concertada acção.

SUMO GASEIFICADO DE LARANJA – Energia nuclear
O sismo no Japão e o consequente risco de um brutal acidente na Central de Fukushima puseram a nu a verdade do risco da energia nuclear.
Perderam gás os argumentos a seu favor.
Nuclear, não obrigado.

SUMO NATURAL DE LARANJA – Fado reconhecido como Património Imaterial da Humanidade
Já era há muito património nacional, esta música que é a expressão sonora da alma Portuguesa.
O rótulo mundial é mais do que legítimo e afinal quem desta decisão sai engrandecido, é o próprio mundo.

REFRESCO ARTIFICIAL DE LARANJA – Justiça em Portugal
É tudo uma questão de parecer e afinal não ser.
A justiça em Portugal não existe e de recurso em recurso se constrói o caminho da impunidade dos ricos e dos poderosos.
Um país sem justiça é um país sem critério e que merece muito pouco respeito e credibilidade.

LARANJA VERDE – André Villas Boas
Para mal do meu coração benfiquista, André Villas Boas ganhou com o Futebol Clube do Porto, quase tudo o que tinha para ganhar em Portugal e na Europa.
Abandonou a sua “cadeira de sonho” para responder afirmativamente aos milhões de Abramovich, o dono do Chelsea, mas os tempos mais recentes comprovam que ainda lhe falta amadurecer.
Pelos vistos, Mourinho há só mesmo um.

LARANJA PÔDRE – A dívida da Madeira / Alberto João Jardim
A factura das décadas do desenvolvimento feito de pontes, túneis, auto-estradas, carnavais e festas das flores, colocou a nu o descalabro financeiro de uma região que à custa do estatuto de periférica, liquidou a sua autonomia, cravando-se como sanguessuga ao resto do país.
E sempre com o beneplácito do poder central, independentemente da cor, que foi apontando a Madeira em múltiplas ocasiões como uma região modelo.
Afinal de contas há deficit gordo não Madeira e infelizmente para as bolsas de todos nós contribuintes, não é só democrático.

LARANJA CALIPOLENSE – Música na Pedreira
Original no contexto nacional, este aproveitamento de uma pedreira desactivada, das muitas que existem no nosso concelho, para sala de concertos, é uma ideia excelente e que pode trazer até nós excelentes momentos musicais num ambiente único.
A continuar e a melhorar em acessos, estacionamento, programas e conforto.

COMPOTA DE LARANJA - 2011 deixará para sempre a saudade de Vaclav Havel, o pai da Revolução de Veludo na ex-Checoslováquia, de Steve Jobs, o génio da Apple, Artur Agostinho e Cesária Évora.
E despeço-me ao som da guitarra Portuguesa de Luís Guerreiro e das vozes de Pablo Alboran e Carminho. “Perdoname” é para mim a canção do ano, a provar que de Espanha podem não vir bons ventos mas podem chegar bons casamentos, pelo menos os musicais.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

A terapia do Feijão com Mogango e das Migas de Tomate

Por estes dias de entre Natal e Ano Novo, o Alentejo cumpre esta contradição que é parte da sua magia, de um sol fantástico e de um frio que enregela até as partes mais recônditas do esqueleto.
Não me importo mesmo nada com isso. Se não fosse assim não era verdadeiramente Alentejo, não seria Vila Viçosa e eu jamais me sentiria em casa como agora me sinto.
Quanto mais mundo conheço, mais reforço a convicção de pertencer a esta terra e de ser este verdadeiramente o meu espaço.
Aconchegado de dia pela braseira que se encontra debaixo da minha camilha e de noite pelas pesadas mantas coloridas de Reguengos, faço por estes dias o meu atestar de paz, tranquilidade, amizade e força para enfrentar mais um ano.
Não sei se por andar a fugir à televisão e à rádio, ou se por ainda não ter comprado sequer um jornal, numa assumida atitude quase monástica de um Cartuxo, mas até parece que já estou mais optimista quanto a 2012.
O pior será quando eu acordar do sonho com o despertador da Troika a tocar. Mas isso a seu tempo se verá e tratará.
Quem me conhece bem, sabe que jamais coloco o estômago fora de qualquer festa, e o “retiro” destes dias não poderia ser excepção. Ao ritmo da saudade e com a ajuda das artes culinárias da minha mãe, comprometida que parece estar em dar-me tudo o que de melhor sabe fazer, já me deliciei com Feijão com Mogango (abóbora, para quem não domine “Alentejanês”), Migas de Tomate, Sopas de Hortelã, Carne do Alguidar, etc.
Por ser Natal, o combate à minha diabetes fez também uma abençoada trégua e até Sericá, Arroz Doce e Azevias de Grão, não se ficaram pelo armário e vieram também ao sacrifício anual no altar desta minha gula de marca Alentejana.
E a semana ainda não chegou a meio.
No outro dia, o meu sobrinho João, que do alto dos seus seis anos é um dos meus maiores inspiradores e um dos meus filósofos favoritos, chorou quando descobriu que jamais conseguiria saber contar até ao último dos números. Perturbou-o o facto de os números serem infinitos.
São infinitos os números e infinito é também o tempo, não o nosso tempo nem o tempo dos que gostamos, porque esse é limitado e por vezes nos parece tão escasso.
É curioso como a vida nos molda e transforma.
Primeiro choramos porque não conseguimos agarrar o mundo nas nossas mãos e mais tarde choramos porque o mundo que nos chega às mãos é afinal tão curto em relação ao muito e ao grande que ambicionámos que fosse.
Não me importo pelo facto da semana terminar daqui a alguns dias. Sei que matarei as saudades do futuro com a esperança de poder voltar sempre aqui onde sou mais eu e onde sou feliz.
Bendito seja este Alentejo que me aconchega o corpo e sobretudo a alma.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Os Natais dos dias simples

A simplicidade dos nossos dias Calipolenses fazia sobressair enormemente os dias especiais que eram os dos nossos Natais.
Não que deixassem também de ser simples, nós é que os tornávamos diferentes pelo que melhor que nos vestíamos, comíamos, bebíamos e também, e sobretudo, pela alegria com que os preenchíamos, celebrando o estarmos juntos e em família.
A alegria expressava-se pelo canto tradicional e acompanhávamos o “Eu hei-de dar ao Menino…” com as Roncas que construíamos colocando a pele de um animal, geralmente de um coelho, a tapar a boca de um recipiente de barro ou de lata, sendo esta cobertura perfurada ao centro por uma cana que friccionávamos molhada, criando uma ressonância perfeita para acompanhar as nossas vozes mais ou menos afinadas. Há medida que a noite avançava e os copos se iam esvaziando, aumentava a vontade de cantar, mas também a desafinação.
No jantar do dia 24 comíamos peixe e este no Alentejo é sinónimo de Sopa de Cação. A moda do bacalhau com couves veio mais tarde após o processo de globalização gastronómica à escala nacional.
Depois da meia-noite e pelo dia 25 regalávamo-nos com carne de porco frita temperada com pimentão vermelho, peru assado, canja de galinha do campo, filhoses enroladas, azevias de gila, de grão e de amêndoa, nógados, borrachos, sericá, arroz doce, etc. Acompanhávamos os doces com chocolate quente, o melhor que já bebi até hoje, feito a partir de um preparado que se comprava a peso e em sacos de plástico transparentes, na saudosa mercearia, requintadíssima, Pérola Calipolense.
É impossível esquecer o sabor destas iguarias e esquecer também a preparação destas refeições, sobretudo se tivermos em conta que os animais, galinhas e perus, eram comprados vivos e mortos em casa.
A propósito de perus vivos, recordo-me de um Natal em que nos juntámos em Lisboa em casa dos meus tios, tendo a minha avó decidido que nesse ano ensinaria aos meus primos nados e criados na capital, como era um peru vivo e com penas.
Fizemos a viagem de comboio entre Vila Viçosa e o Barreiro, depois a travessia do Tejo de barco e mais tarde a viagem na carreira 18 do eléctrico entre o Terreiro do Paço e a Ajuda, com uma perua viva dentro de uma cesta, semi-camuflada para que pudesse respirar sem ser descoberta.
Quanto mais nós queríamos que ela permanecesse calada mais ela cantava quando algum revisor se aproximava, numa verdadeira saga de “Maria Papoila” na versão anos setenta.
Não sei como ficaram os meus primos no fim da história, mas suspeito que muito traumatizados pois a imagem da bicha a esvair-se em sangue no chão da cozinha, ultrapassou qualquer prazer pelo encontro com o animal vivo.
O número de presentes era inversamente proporcional ao desejo que tínhamos de os ter.
O dinheiro não abundava e, brinquedos, tínhamos em geral apenas um, pois os familiares e amigos aliavam-se aos nossos pais e ajudavam-nos a compor os guarda-fatos, oferecendo-nos pijamas, camisolas, de malha e interiores, meias, cuecas e até ceroulas, que quase todos usávamos por essa altura.
Para nós crianças, quem trazia os presentes não era o Pai Natal mas sim o Menino Jesus, aliás, o próprio presente era muitas vezes designado por Menino Jesus, sendo frequente ouvir expressões como “aqui tens o meu Menino Jesus para ti”, num interessante e bonito gesto, chamando Jesus aquilo que partilhávamos uns com outros, expressando o amor ou a amizade que nos unia.
Também isso hoje é diferente e com frequência recebemos felicitações com “Seasons Greetings” em vez do habitual “Merry Christmas” pois há o medo de ofender os não cristãos.
É estranho este acto de retirar Jesus do Natal pois assemelha-se a comemorar um aniversário impedindo o aniversariante de entrar na festa.
Ou então é apenas e só mais uma marca da superficialidade onde hoje nos situamos nunca procurando os porquês, pouca vezes nos interrogando sobre as razões para o que fazemos e vivemos.
No meio da sofisticação da nossa existência falta-nos tempo para procurar a essência e voltar às coisas simples, preocupando-nos apenas com o ser feliz e com fazer os outros felizes, no fundo os segredos de um grande Natal, a receita para um verdadeiro Natal.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Natal 2011

Conta a história que há milénios atrás,
quando Herodes era rei,
só a pobreza de uma lapa fria,
estava livre para acolher o carpinteiro José,
que juntamente com a Virgem Maria,
fizeram brilhar a Luz e a Paz,
concretizando esse Mistério maior da história,
de um Deus que se fez Homem e nasceu rapaz.

Brilharam estrelas por todo o universo,
viajaram com ouro, Magos de longe,
pastores dançaram e alegrou-se o povo,
acreditando que a vida seria uma festa,
neste eclodir de um tempo novo,
imaginado de Homens iguais entre si, sem ódios, rancores ou guerra,
um tempo em que a justiça e a concórdia,
viriam colorir e restaurar a Terra.

Mas se foi Deus que fez o Homem,
será sempre o Homem quem traçará a sua história.
E se a bússola for o ter e a perversidade da ambição,
jamais se chegará ao tempo
de Homens solidários estendendo a mão,
apostando em força na igualdade,
na tolerância, na fé, na humildade e no respeito,
que permitem construir a mais doce liberdade.

Como era bom se o amor fosse rei,
se matássemos a fome, a dor e os prantos,
banindo dos dias o ódio e a discriminação,
podendo expressar livres as convicções da alma,
sendo genuínos no ser e fiéis ao coração,
temperando este tempo nosso de um amor vivo e na essência natural
que permitisse acontecer a festa do universo,
a festa da chegada de Deus ,a alegria de ser e viver Natal.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Quatro horas de Natal

Com a total cumplicidade da alma, aceitei o repto e reservei quatro horas do meu calendário do Natal 2011, para o voluntariado na festa dos sem abrigo organizada em Lisboa pela Comunidade Vida e Paz.
Quatro horas apenas, o suficiente para que centenas de histórias se cruzassem com a minha, histórias de gente que não precisa de falar para expressar a dor de uma vida triste e sem rumo, pois os olhares, os gestos, as rugas, a tez, denunciam desde logo esse destino de uma existência madrasta.
Cruzam-se todos os dias connosco na cidade e nós não os vemos ou não os queremos ver, são uma multidão de gente que carrega às costas em mochilas sujas, todo o muito pouco a que podem chamar seu, gente que pela persistência no infortúnio, já incorporou a pobreza no seu código genético e que com a mesma naturalidade com que respira, afirma dormir na rua ou em alguma estação “quente” da cidade.
É uma multidão que chega ávida de pão, mas também e sobretudo de afectos.
Mais de vinte anos depois, reentro na Cantina da Universidade onde tantas vezes almocei e jantei com os meus colegas, apresentam-me as minhas funções como voluntário e cedo, ao abrir da porta à longa fila que já se encontrava no exterior do edifício, descubro que os sorrisos, as palavras, os carinhos e a atenção, são tudo o que de melhor posso dar.
Aperto as mãos, escuto, falo, olho nos olhos e sinto em mim esse conforto maior e esse privilégio feito da certeza de que as minhas mãos, os meus ouvidos, a minha boca, os meus olhos, o todo que sou eu, estão no sítio onde mais fazem falta, estão ao serviço das pessoas que nessa tarde soalheira mas fria de domingo, mais precisam deles.
Há milénios atrás, fez-se o Natal, quando um Deus se tornou menino para vir dizer aos Homens que só o amor vale a pena.
E eu, talvez daqui até dia 25 não venha a sentir de forma tão marcada, a alegria do verdadeiro Natal.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Os infantis no campeonato dos seniores

Imaginem se de repente Portugal decidisse apresentar-se num importante campeonato internacional de futebol de escalão sénior e com um elevado grau de exigência, com uma equipa de infantis…
Não será difícil de prognosticar que perderíamos todos os jogos por goleadas vergonhosas e que o desfecho seria a descida de divisão.
Revejam por favor o debate quinzenal que teve lugar ontem na Assembleia da Republica e que opôs Passos Coelho a Seguro, atentem ao nível abaixo de zero da discussão e confirmem por favor…
…não temos jogadores para este campeonato tão duro.
A guerra é feia e árdua e sem generais e com tais soldados, venha de lá mais um Alcácer Quibir.

Eduardo Lourenço

Foi ontem anunciado o vencedor do Prémio Pessoa 2011, e não posso deixar de me congratular com o facto de ele ser Eduardo Lourenço.
Há muito que me habituei a ler e a ouvir Eduardo Lourenço, desenvolvendo por ele uma enorme admiração com raízes na lucidez, na inteligência e na oportunidade com que este Homem Maior pensa a vida e o mundo em geral, e Portugal, de uma forma muito particular.
Não tenho dúvidas de que aos 88 anos, ele é um dos maiores Portugueses vivos, e por certo o mais importante humanista Português do nosso tempo.
Afirmou o júri do Prémio Pessoa de que estando deprimida por estes tempos a nação lusa, era necessário premiar algo de grande que a ela pertence. E maior e melhor, digo-vos eu, era impossível.
Um dia Eduardo Lourenço retratou assim Portugal:

"Nação pequena que foi maior do que os deuses em geral o permitem, Portugal precisa dessa espécie de delírio manso, desse sonho acordado que, às vezes, se assemelha ao dos videntes (Voyants no sentido de Rimbaud) e, outras, à pura inconsciência, para estar à altura de si mesmo. Poucos povos serão como o nosso tão intimamente quixotescos, quer dizer, tão indistintamente Quixote e Sancho. Quando se sonharam sonhos maiores do que nós, mesmo a parte de Sancho que nos enraíza na realidade está sempre pronta a tomar os moinhos por gigantes. A nossa última aventura quixotesca tirou-nos a venda dos olhos, e a nossa imagem é hoje mais serena e mais harmoniosa que noutras épocas de desvairo o pôde ser. Mas não nos muda os sonhos".

E que nunca esmoreçam os nossos sonhos porque já nos resta muito pouco para além deles.
Há uns anos atrás, Eduardo Lourenço recebeu o prémio Camões e afirmou que os prémios não se agradecem, honram-se.
Mais do que honrar Camões, Pessoa ou qualquer outro prémio, não tenho dúvidas de que Eduardo Lourenço tem honrado e espero que continue a honrar por muitos anos, Portugal e a cultura e a língua Portuguesa.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Essa insuspeita ligação entre as cavalariças e a amizade

Tenho a noção de que estou em pleno gozo do meu último fim-de-semana prolongado pois com a reforma “troikiana” dos feriados, as pontes ficarão reduzidas a estruturas de engenharia para cruzar estradas ou cursos de água, deixando definitivamente de existir as que ligam feriados a fins-de-semana e vice-versa.
Por isso, tal como acontece com o último pedaço do bolo, o último bombom da caixa ou a última gota de cerveja, ele me está a saber tão bem.
E depois, para saborear Vila Viçosa em plenitude, é preciso muito mais tempo do que apenas e só o que nos é oferecido entre sexta e domingo. Para entrar com eficácia na dimensão mais profunda das memórias é necessário esquecer o relógio e relaxar, deixando-nos embalar pela “calma” alentejana.
Ontem resolvi deixar o carro na garagem e “viajar” a pé até à zona dos supermercados onde se abastecem os meus conterrâneos, tendo assim a possibilidade de passar ao portão da minha Escola Secundária, a antiga, a que teve as suas instalações provisoriamente instaladas durante anos nas cavalariças do Paço Ducal.
A Vila terminava então ali e para lá do vizinho Depósito das Águas que tinha uma cegonha metálica com uma mensagem de boa viagem aos forasteiros que nos visitavam, só ousavam passar os atrevidos casais de namorados que pagavam com o beliscar da sua reputação, a ousadia de responder afirmativamente aos impulsos das primeiras paixões.
A rua íngreme do Terreiro do Paço até ao portão da escola, está agora vazia de gente e preenchida por este tempo, apenas pelos milhares de folhas de plátanos que não resistem à invernia. Era então a rua mais concorrida da Vila e a que, tendo em conta os habituais transeuntes, tinha uma média etária mais baixa. Circulava a juventude Calipolense e também, e se bem me lembro, a de Borba, Alandroal, Bencatel, Pardais, São Romão, Mina do Bugalho, Cabeça de Carneiro, Terena, Ribeira, São Tiago de Rio de Moinhos, Rosário, etc. Não podendo esquecer as dezenas de rapazes que habitavam então o Seminário de S. José e que também frequentavam a mesma escola que nós. Mais vocacionados para o matrimónio do que para o sacerdócio, eram eles também muitas vezes “isco” para as meninas namoradeiras da Vila e das redondezas, numa versão “Morangos com Açucar” versão religiosa e anos oitenta.
Não resisto a espreitar ao portão de ferro e constato que embora tenham feito algumas alterações ao espaço para o devolverem às suas funções de cavalariça, e acolher parte da exposição do Museu dos Coches, os edifícios principais que acolhiam a escola, estão lá todos.
À direita está o picadeiro que servia de ginásio e onde só nos era permitido ter aulas se não chovesse pois o telhado pouca resistência colocava à passagem da água. As traves metálicas deste mesmo telhado serviam de pretexto para adaptações locais de todos os desportos pois impedindo a livre circulação das bolas, era necessário criar regras específicas para que os jogos não se apagassem e deixassem de ter interesse. Por exemplo, se no voleibol a bola batesse duas vezes seguidas na trave do tecto, o jogo passava para a outra equipa.
Em frente estão os dois pavilhões, o da esquerda onde tínhamos aulas e o da direita, que permanecia com mais aspecto de cavalariça, e que nos servia de bar e sala de convívio.
No pavilhão das aulas, um simples pano de tijolo que ligava as colunas centrais permitia dividir as salas do corredor, permanecendo neste último as manjedouras de pedra, com as argolas para prender os animais, havendo castigos para aqueles que em períodos de aulas as fizéssemos bater contra as pedras, criando um ruído não muito agradável.
Ainda lá estão as casas do lado esquerdo onde funcionava a cantina, a secretaria e algumas salas de aula num corredor estreito no primeiro andar que se assemelhava ao corredor de um comboio.
Desapareceram obviamente os pavilhões pré-fabricados que tinham implantado ao fundo do espaço e onde tínhamos as oficinas de mecânica ou as aulas de desenho.
Também eram míticas as histórias contadas sobre encontros amorosos por detrás destes pavilhões, mais uma vez e sempre, tendo a descarga hormonal da adolescência como justificação.
Olho para o espaço e vejo como está bonito, e como ficam bem os limoeiros que salpicam de verde e amarelo o brando alvo com que mantêm todas as construções.
Mas não resisto a ter saudades dos amigos que comigo partilhavam as aulas, os momentos de recreio e que comigo saiam depois ao portão para juntos voltarmos a casa cruzando o Terreiro do Paço, a Rua dos Fidalgos e a Praça.
Com a Zinha, a Zé Ramalho, a Tina, a Guida Paulino e o Paulo Ratado, talvez inspirados por aquele ambiente de reis e rainhas, sonhávamos alto e partilhávamos esses sonhos e as muitas ambições que carregávamos para o futuro.
E quem um dia partilha sonhos, constrói uma amizade indestrutível porque assente naquilo que é mais íntimo em nós.
Hoje, senti saudades desse tempo, senti orgulho por tê-lo vivido e senti sobretudo gratidão pela vida me ter dado o privilégio de não crescer sozinho e ter crescido rodeado pela melhor gente.
Viva a amizade.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Avé Maria

Mãe de Jesus: Senhora da Anunciação, da Encarnação, do Ó, da Visitação, da Natividade, de Belém, da Lapa, das Dores, da Piedade, do Pé da Cruz, dos Anjos, da Assunção, …

Mãe nossa: Senhora do Amparo, dos Remédios, da Saúde, da Cabeça, da Vitória, da Pranto, da Agonia, da Graça, da Glória, da Vitória, dos Navegantes, da Boa Viagem, Auxiliadora, da Paz, da Boa Morte, do Parto, do Bom Sucesso, do Carmo, da Consolação, da Guia, do Leite, dos Mares, das Mercês, dos Milagres, da Misericórdia, das Neves, da Purificação, do Perpétuo Socorro, dos Prazeres, do Rosário, do Amor Admirável, do Bom Despacho, do Alívio,…

Mãe de Portugal: Senhora da Oliveira, de Fátima, do Sameiro, da Nazaré, do cabo, do Monte, dos Mártires, do Incenso, D’Aires, da Enxara, da Abadia, da Ponte, da Boa Hora, da Boa Nova, da Luz, das Candeias, da Estrela, da Escada, do Livramento, da Pena, da Rocha, da Lapinha, da Fé, do Almortão, do Antime, da Serra, de Balsemão, do Nazo, da Ribeira, do Viso, dos Montes Ermos, da Tocha, do Monte Alto, do Cardal, do Castelo, das Brotas, da Póvoa, de Cárquere, da Ouvida, da Veiga, do Fetal, da Rocha, da Merceana, de Mércules, da Flor da Rosa, da Vandoma, da Silva, do Castelinho, do Mó, de Tróia, do Viso, do Minho, da Vinha, das Rosas, da Bonança, da Peneda, do Castro,…

Nossa Senhora da Conceição, de Vila Viçosa, de Portugal e de todo o mundo, dai-nos a inspiração da paz e dai-nos força e coragem para buscar com garra, o nosso crescimento como pessoas e como nação.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Restaurar a independência

No passado dia 1 de Dezembro comemorou-se o 371º aniversário da restauração da independência de Portugal.
Após 60 anos sob o domínio da coroa Espanhola, um grupo de bravos Portugueses correu com nuestros vizinhos para o seu lugar para lá da fronteira, e fez rei o Duque de Bragança, o Calipolense meu conterrâneo D. João, o IV na lista dos Soberanos de Portugal.
O dia 1 de Dezembro não significou o fim do processo de restauração da independência, foi antes o inicio de uma longa guerra que demorou 28 anos.
Passados quase quatro séculos, é triste mas inevitável pensar que Portugal persiste mas a independência, nem pensar.
Não há “Filipes”, Duquesas de Mântua ou “Miguéis de Vasconcelos”, mas sobram “Mercados”, “Troikas” e sobretudo, um brutal endividamento.
Na nossa economia doméstica como na economia de um país, se não dispomos de meios e dependemos de terceiros, até podemos dizer que existimos mas nunca poderemos sustentar que somos independentes.
Sem pretensões a economista, político ou guru de Wall Street, a mim, um modesto farmacêutico da terra do Rei Restaurador, parece-me que as batalhas a vencer para sair em triunfo desta guerra pela nossa independência, passam apenas e só por uma estratégia: aumentar a produtividade.
Operacionalizar esta estratégia também é simples e passa inevitavelmente pelo trabalho, pela motivação e pelo reconhecimento de quem mais trabalha, mais produz e mais cria riqueza para si e para o país.
Ao Estado compete ser juiz nesta avaliação e para tal e para que possa dispor de legitimidade, exige-se o exemplo no muito produzir e no pouco ou nada desperdiçar.
Até aqui tudo tem sido feito ao contrário pois não se premeia o trabalho, é-se tolerante para com a preguiça e permeável ao desperdício.
Qual é o estimulo e o reconhecimento dado a quem trabalhou durante décadas, nunca aderiu às baixas fraudulentas e sempre pagou os seus impostos?
Quantas pessoas “sobrevivem” à conta de subsídios dados pelo Estado sob a forma de Rendimentos de Inserção ou Cursos de Formação quando dispunham de condições pessoais e profissionais para exercerem uma actividade profissional que sistematicamente rejeitam optando pela comodidade do nada fazer?
Continuem a permitir que estas questões sejam classificadas de demagógicas e depois não se queixem da morte do “Estado Social” e da morte do próprio Estado.
Há pouco ao ler os meus jornais de domingo, cruzei-me com a entrevista feita a um dos pescadores das Caxinas que na sexta-feira foram resgatados após dois dias à deriva no mar. Quando o jornalista o questionou sobre o futuro, respondeu:
- Vou voltar ao mar. Tenho a minha família e necessito trabalhar.
É uma resposta normal de uma pessoa honesta e trabalhadora que se cruzou com a desventura algures no exercício da sua profissão mas que de forma responsável sabe que tem de continuar a trabalhar para assegurar a sua independência e da sua família.
Mas não deixa de ser interessante ver como o jornalista lhe dá destaque e rótulo de heroicidade pois talvez sem termos a noção disso, já quase todos interiorizámos que no país dos subsídios, este acontecimento seria razão mais do que suficiente para justificar um distúrbio de ordem psíquica, a incapacidade para trabalhar, assegurando uma “reformazinha jeitosa” que permitisse passar o resto dos longos dias a fumar cigarros na marginal de Caxinas ou sentado num café a jogar ao dominó.
Voltando à questão da nossa independência, tenho a certeza de que será pelo trabalho que lá chegaremos, e já agora com esperança, pois apesar de cada vez mais raros, ainda há, e bem vivos, Heróis do Mar.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Feriados, "pontes" e dias de descanso

Empenhados os anéis do novo-riquismo e da falsa abundância das décadas do nosso passado mais recente, de volta à triste e quase eterna condição de pobres, laboriosa tem sido a busca nos últimos tempos, de formas e mecanismos de mais produzir e de maior poupança.
Os feriados têm estado no centro deste labor e à quase unanimidade em torno da necessidade de redução do seu número, junta-se o total desacerto quanto aos dias que deverão permanecer ou não como festivos.
Sobre este assunto, há uma discussão entre Igreja Católica e Estado, impondo-se mutuamente quotas, num processo que tenho dificuldade em entender à luz da laicidade do Estado.
Discute-se nos jornais e discutem os líderes de opinião porque à população em geral importa apenas o número total de dias de descanso e de “pontes”, pouco importando os que ficam e os que vão. Aposto que mais de 80% da população Portuguesa desconhece os motivos que se celebram nos dias feriados.
Se nos fixarmos nos quatro feriados que se diz que deixarão de o ser já em 2012, tenho a mais firme convicção de que para a generalidade das pessoas:

• O dia de Corpo de Deus é aquele feriado jeitoso que calha sempre a uma quinta-feira e que permite fazer uma “ponte” entre finais de Maio e Junho numa altura em que no Algarve a água do mar já está quente;
• O dia da Assunção de Nossa Senhora (15 de Agosto) é aquele feriado fantástico que há em Agosto que nos permite colocar sempre um dia extra nas férias de verão, se nos fixarmos na quantidade de dias úteis atribuídos às ditas férias;
• O dia da Implantação da República (5 de Outubro) é aquele feriado por alturas do Outono que nos permite ir à terra tratar das vindimas e das colheitas, ou então apenas para caçar;
• O dia da Restauração da Independência (1 de Dezembro) é aquele dia de descanso em que já tendo recebido o subsídio de Natal, podemos ir fazer compras, tendo sempre a possibilidade de optar por faze-las em Espanha dado que por ali não se descansa nesse dia.

Cortar estes ou outros quatro feriados seria praticamente indiferente para a generalidade das pessoas.
Para além disso, se nos fixarmos na história dos feriados em Portugal, verificamos que a quantidade e a natureza destes dias festivos são claramente influenciadas pelo regime político que se encontra no poder. Por exemplo, a República acabou com os feriados religiosos, o Estado Novo restaurou-os e acrescentou o dia 28 de Maio, o 25 de Abril matou o 28 de Maio e instituiu-se como feriado.
Neste contexto, permitam-me que apresente aqui a minha proposta de revisão dos feriados, proposta assente num critério major que é o respeito pela tradição Portuguesa que atravessa e atravessará regimes e momentos históricos:

• 1 de Janeiro / Dia da Fraternidade Universal;
• Terça-feira de Carnaval / Carnaval;
• Sexta-feira Santa / Páscoa;
• Domingo de Páscoa / Páscoa;
• 1 de Maio / Dia do Trabalhador;
• 10 de Junho / Dia de Portugal, Camões, das Comunidades e da Língua Portuguesa;
• 1 de Novembro / Dia da Memória e dos Heróis da Pátria;
• 25 de Dezembro / Natal.

Deixaria ainda um feriado de cariz municipal, fazendo com que de um total de 14 feriados passássemos a ter apenas 9, estando eu também a contribuir para irmos mais além do estipulado pela plataforma de entendimento com a “troika”.