quinta-feira, 30 de maio de 2013

Da Alameda à Aula Magna: uma aventura no País do Betão

Um estudo hoje apresentado contabiliza que Portugal recebeu 9 milhões de euros por dia num total de 81 mil milhões de Euros desde que em 1986 aderiu à União Europeia, então Comunidade Económica Europeia.
Deste dinheiro, para além de embarcações de pesca destruída, cursos de formação profissional e outros, a maior fatia foi utilizada em obras de betão com destaque para as vias rodoviárias que todas somadas em extensão permitiriam ligar Lisboa a Nova Deli.
Se tivermos em conta que no inicio da década de oitenta estivemos nas mãos do Fundo Monetário Internacional e que há dois anos para lá voltámos, poderemos dizer que de pouco valeu este aporte de capital que ocorreu num quarto de século, dinheiro sucessivamente utilizado na construção das fachadas que através de uma ilusão de desenvolvimento foram alimentando as campanhas eleitorais e o perpetuar de uma classe política no assento do poder.
O betão é a marca de um certo novo-riquismo bacoco e vaidoso que com raríssimas excepções apodrece sempre e desemboca na penúria devido à carência das raízes do bom senso e da consequente e incompetente má gestão.
O betão posto ao dispor da vaidade que perpetua os nomes na pedra ou no bronze das placas de inauguração de pontes, rotundas e estádios.
Hoje é quinta-feira de Corpo de Deus e por “sugestão” dos nossos credores e pela primeira vez desde há muitos anos, não é feriado nacional. As estradas perfeitas do melhor alcatrão, antes engarrafadas no inicio de um fim-de-semana prolongado, estão assim tristemente vazias alinhando-se em destino com os chalés do dinheiro fácil que rapidamente se colocam na antecâmara da penhora.
E se os políticos tivessem vergonha viriam pedir desculpa e sairiam de mansinho, mas como não…
Hoje mesmo, o Dr. Mário Soares, ícone maior da nossa política, da adesão à “Europa” e que, entre muitos outros cargos, foi neste quarto de século, Presidente da República durante 10 anos, chamou à Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa, os partidos da esquerda para um consenso que tem em vista derrubar o governo.
Há alguns anos fez o mesmo quando subiu à fonte luminosa para derrubar… a esquerda com a inevitável ajuda e inspiração do “amigo americano”.
Se tivesse idade eu teria ido com ele à Alameda D. Afonso Henriques para ajudar a realinhar a liberdade de Abril e matar a tentativa de ditadura de inspiração soviética e cubana que se implantava.
Com esquerda, direita ou centro, eu também gostava de ir à Aula Magna falar de um novo governo com gente mais competente e munida de mais sensibilidade social e menos colagem aos “mandamentos” dos credores.
Mas há algo que definitivamente me distingue do Dr. Mário Soares: entre a Alameda e a Aula Magna eu lutei sempre pelo meu país e ele lutou sempre para manter e reforçar o poder no seu país, que é também o meu país.
E como ele, muitos políticos da esquerda à direita para quem Portugal foi apenas um palco para a vaidade vã do poder e nunca um terreno para cultivar o desenvolvimento e melhorar a qualidade de vida dos cidadãos.
E esta diferença que parece desprezível tem o valor de 81 mil milhões e tem o peso de muita dor, desemprego e fome.
Não basta haver novas políticas, a coerência exige novos agentes na política.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

O dia do meu regresso à escola

Há momentos que nos abraçam, colando-nos à doce e mágica sensação de que a vida valeu, e vale a pena.
Ao fim de trinta anos voltei hoje à minha Escola Secundária Públia Hortênsia de Castro, em Vila Viçosa, para falar com alunos e professores sobre o meu livro “Pomar das Laranjeiras”.
Um privilégio num cocktail de sensações.
Desde logo a gratidão. O espaço está diferente, irreconhecível, mas aquela será sempre a “casa dos meus mestres”, os heróis professores que me ensinaram a ser melhor e a quem estarei eternamente grato.
A saudade dos colegas que tal como os alunos de hoje, se juntavam comigo em grupos para conversar e partilhar sonhos no planear conjunto dos dias do futuro.
O conforto de me sentir entre os meus mesmo não reconhecendo a grande maioria dos rostos daqueles, muitos, que se dispuseram a interagir comigo. Há uma terra de afectos que nos une para além deste falar cantado e dolente que é a nossa indiscutível marca de alentejanos.
Perdoem-me a imodéstia, mas senti orgulho pelo conteúdo da bagagem neste meu regresso após trinta anos, orgulho pelos frutos colhidos na fertilidade dos talentos postos a render.
No espelho da inevitável auto-critica gostei do Joaquim Francisco que voltou.
E o “Pomar das Laranjeiras” cumpriu a sua missão de partilha de uma herança que nasce das memórias e tem raízes na verdade da minha história que tem a bênção da simplicidade, dos afectos e da fé.
O texto imaculadamente lido pela voz de uma aluna que desconheço mas que por certo será filha de algum colega que comigo frequentou a escola, desde logo ganhou um novo sentido.
Espero voltar mais vezes.
A determinada altura da conversa, uma aluna perguntou-me se eu não temia vir um dia a perder a inspiração.
Nunca tinha pensado nesta situação, mas se tal acontecer, agendarei uma nova conversa que me permita regressar mais depressa.
A vida, colectânea de momentos, é sempre melhor quando vivida assim entre os amigos na garantia da melhor inspiração.

terça-feira, 28 de maio de 2013

A “tardinha” que trouxe a poesia

Quando o sol aperta cumprindo o destino das inesquecíveis primaveras alentejanas, é a tardinha, “essa hora dos mágicos cansaços” como a definiu Florbela, que nos traz a bênção de uma tão desejada brisa fresca, invariavelmente carregada com os muitos, fantásticos e indecifráveis aromas da planície.
No sábado passado, a “tardinha” convocou-nos para o Paço dos Mascarenhas, em Vila Viçosa, e entre piano, dança, amizade e muita conversa, sem ensaios e com o natural improviso que acrescenta verdade às coisas, celebrámos o Alentejo e a nossa terra, o “Pomar das Laranjeiras”, entre amigos de há muito ou de menos tempo, porque de afectos e de amor se nos preenche a alma sempre que aqui chegamos a estas terras do sul.
E pelas memórias, as minhas e as da Adélia, e o presente bem vivo e nada tímido dos oito anos do Miguel, entre os três desfolhámos a vida numa conversa que envolveu também as dezenas de outros amigos presentes, provando-se que é eterno o Alentejo, colado assim à genética do nosso ser e da nossa alma.
Da simplicidade das açordas, dos ensopados de borrego, das Calipolenses tibornas de ovos, dos Castelos e dos tesouros, das brincadeiras mais ou menos elaboradas das tardes da infância, da música das melódicas e das flautas, dos prazeres únicos dos dias passados no campo… ou da magia de um balouço instalado numa oliveira que para mim tinha nos troncos as asas de um avião, se foi dando o mote para os sorrisos e para as cúmplices gargalhadas e se foi instintivamente compondo a poesia que voou connosco e pelo tempo que não sentimos passar.
Porque a poesia ultrapassa qualquer espaço ou tempo quando nos juntamos assim para celebrar a festa da verdade de tudo quanto somos.
Corria ligeira a brisa na hora de dizermos adeus e, definitivamente, a imponência do limoeiro que envolve a velha nora, sobrepôs a todos os outros, o seu perfeito e citrino aroma: um fresco privilégio numa tarde quente.
Voltaremos em breve para estarmos juntos que assim nos impõe a vontade… e a poesia que é eterna como o Alentejo.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Exorcismos, decapitações e o diabo à solta


Acredito em Deus.
Reconheço-O na grandeza do universo, de todos os seres e também do Homem, todos criados com destino à perfeição numa rede complementar e dinâmica em que a “malha” é o amor.
E este amor vive-se pela verdade, liberdade, lealdade, generosidade, respeito, paixão, felicidade…
Não acredito no diabo.
Jamais o reconhecerei em manifestações físicas que traduzem patologias do foro neurológico ou comportamentos histéricos.
É a ausência de amor que mata o plano de excelência que Deus desenhou para o universo. E o Homem, reconheço-o, é um consciente agente activo nessa negação de um “destino” perfeito.
Por tudo isto, acredito que em plena Praça de São Pedro o Papa Francisco colocou as mãos e rezou apelando a Deus o debelar do sofrimento físico de uma criatura. E que o fez com amor… e por amor.
O amor que falta à Europa pelas vias da desigualdade e do desrespeito que mataram a “Velha Terra da Liberdade”.
A Europa desuniu-se ao ritmo da crise financeira do Euro e só quem desconhece a história e os seus ciclos achará estranho o facto de os ministros dos diversos países terem passado de Bruxelas para Berlim as suas magnas reuniões transformadas agora no beija-mão ao Governo Alemão, no exacto momento em que se verifica o eclodir da violência racista e xenófoba em países como o Reino Unido ou a pacifica Suécia.
Berlim foi e será sempre o epicentro da Europa em guerra e a sua reabilitação como capital do Velho Continente coincide com a morte da União. O “egocentrismo” de Berlim é incompatível com a Europa.
A adiada integração dos imigrantes em direitos e deveres foi sucessivamente camuflada pelo dinheiro que não faltava. Mas o barril de pólvora sempre existiu e a crise e a consequente instabilidade veio oferecer-lhe o rastilho para a detonação há muito anunciada. Com o alto patrocínio de Berlim.
Não foi o diabo que criou este momento.
Mais uma vez, foi o Homem que negou Deus e o destino de amor que lhe era oferecido, chegando inclusive ao cúmulo de matar em nome de Deus, na militância de religiões que são cada vez mais as “capas santas” que tapam o ódio entre iguais.
Haja fé e que se reencontre o amor… e Deus.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Com a cumplicidade do açor


O mar de um intenso tom de azul persegue-nos abençoando o olhar e impondo-se ao verde das montanhas que escondem vulcões e lagoas, e às alvas e muito simples casas debruadas a basalto.
A voz do povo enobrece o Português, embalando as palavras ao ritmo do vento e das ondas, fiéis e constantes companheiros destes dias perfeitos vividos na ilha.
Nos olhares há paz, nas mãos a nobreza do trabalho, brasão da bravura de quem se apodera do destino e jamais se verga à dureza da terra ou do mar...
E da alma, essa imensa e infinita alma, transborda a fé que canta preces a Santo Cristo e lhe pede a força e a bênção dos milagres que fazem nascer novo futuro.
Hoje, na solarenga manhã de São Miguel, há uma mulher que chora num adeus ao seu amado, e a ele, só eu lhe vejo as lágrimas quando mais tarde partilhamos o momento de apanhar o voo com destino a Lisboa.
Luís Vaz de Camões.
Tem nome de poeta o avião que arranca este homem à quietude e à paz da sua ilha, neste bravo cumprir de um lusíada destino que nunca virará costas, por uma só vez que seja, à fé e à luta por um “milagre” que é afinal o destino bom, mais do que certo, de quem nasceu para ser herói.

terça-feira, 21 de maio de 2013

O Post número 400


No Post número 400 os nomes dos muitos que inspiraram as memórias e as palavras de onde nasceram as laranjas doces do Pomar.
As mais amargas nasceram exclusivamente de mim e apesar delas espero poder vê-los sempre a todos por aqui.
Manuel Almas Manuela Barreiros Rui Pereira José Barreiros Marta Barreiros Ana Almas Joana Almas Fábio Almas Zinha Duarte Pedro Silva Padre António Simões Conceição Duarte Aires Tina Cravo Paulo Runa Mário Seabra Henriques Ana Serrano Carla Antunes Eduardo Ribeiro Ana Torres Júlia Lameira Lavínia Bacalhau Fernando Duarte Joana Duarte Pinto Artur Barreiros Álvaro Coelho Maria Inácia Caeiro Ricardo Esperanço Manuel da Costa Renato Borges Cristina Paiva Natália Barreiros Guilhermina Sousa César Jesus Patricia Nascimento Maria João Antunes Céu Duarte Carlos Breda São Aurélio Ricardo Pombeiro António Trindade Maria José Gita Paulo Chinopa Júlio Marinho Vanda Marques Paulo Ramalhinho Bruno Morgado João Silva Rui Sarmento Carlos Delgado Luisa Veiguinha Mena Fructuosa Mena Rosa Vanessa Vilar Orlando Teles Catarina Rodrigues André Alvim Macedo Paulo Caeiro Sara Roxo Catarina Marcelino Helena Novais Célia Negrão Gonçalo Guerra Manuel Caeiro Anabela Santos Isabel Branco Isabel Freitas Ana Isabel Coelho Fernanda Ferreira Pedro Vale Gonçalves Paulo Pacheco Isabel Dias Paulo Rocha Lucinda Almeida José Silva Ana Silva Tânia Pombeiro Dulce Costa Teresa Lopes Margarida Martins Adalberto Campos Fernandes Rui Cardoso Martins Gil Reis Pedro Aires José Barreiros Fátima Só João Barreiros Luís Barreiros Maria Clara Pombeiro João Pombeiro Natália Sousa Alexandra Ferreira Fernando Almeida Rita Almeida Vitor Almeida Felicidade Alves Humberto Alves Fátima Antunes Lurdes Duarte Maria João Nogueira Pedro Pinto Maria José Gita João Paulino Pedro Areias João Aurélio Pombeiro Pedro Jardim Ricardo Barros Susana Madureira Isabel Cachola Margarida Borrega Pedro Azevedo João Baptista Ângelo Lajes Paula Brito e Costa Carlos Barbeitos Cândido Barnabé João Pedro Barros Patricia Pereira Rita Pereira Mercedes Pereira Helena Batanete Sandra Bento Elisa Bernardo Lola Botello Juan Blas Delgado Babis Valmas Fátima Bragança Alexandra Brandão Filomena Cabeça Vítor Cabrita Manuela Cadima Elisa Santos Maria Ana Sampayo Maria Emilia Rodrigues Palmira Calado Joana Carvalhal Carlos Carneiro Joaquim Sousa Carvalho Ana Paula Carvalho Alexandra Casaca Ana Castro Luís Catita Afonso Cavaco Armando Cerezo Armando Varela Regina Company Margarida Coelho Lídia Conim Jorge Costa Carlos Couto Soares Fernando Capitão Nuno Cruz Carlos Brotas José Manuel Delgado Nuno Dias José Barata Dias Ana Domingos Sofia Domingos Alfredo Albergaria Rui Santos Rui Garcia Duarte Orlando Duarte Filipe Teixeira António Luís Duarte Pedro Duarte Francisco Duarte Aires Ricardo Durão Paulo Eduardo Manuel Encarnação António Espanca Raquel Esteves Rosa Espanca António Esteves Manuel Fontes Falcão Fátima Félix Raul Fernandes Carmo Só Cristina Fialho Rosário Figueiredo António Figueiredo Pedro Lilaia Stanley Mendonça Joaquim Azeitão Teresa Florêncio Helena Só Otília Florêncio João Fonseca Sandra Saúde Fontes Célia Frade Ana Frias João Frias Manuel Frota Antunes Francisco Carvalho Conceição Peralta Patricia Gama Fernando Garrido Ana Gaspar Paulo Geadas Ana Paula Geadas Maria José Generoso Luís Generoso Pedro Godinho Jorge Gomes Jaime Beltran Gomez Maria da Luz Gonçalves António Gonçalves Rui Paulo Fernandes Dulcineia Grilo Ana Cristina Gueifão Virginia Guerreiro Daniela Imaginário Mónica Inês Cristina Ivo de Carvalho Fernanda Jacinto Carlos Jana José António Jiménez Sandra Karmali Élia Lé Jorge Ferreira João Lemos Rosa Leote Celso Lopes Carlos Lopes Rodrigo Lopes José Rato Hugo Lucas António Bordalo Lula António Rosa André Machado Ricardo Machado Victor Borges Sandra Madaleno Ana Cristina Madeira Isabel Marcos Liliana Marques Padre Manuel José Marques Dina Marques Pedro Marques da Silva Carlos Martins Cristina Leandro Maria Filomena Martins Mário Martins Jeannie Martins Ana Masters Silvia Matos José Matos João Paulo Mavioso José Luís Mendes Cristina Lourenço Ana Paula Mendonça Raul Mendonça Teresa Moreira Débora Moreno Carla Santos Isabel Mourato Francisca Nemésio Carlos Serra Nunes Isabel Pinto Antónia Onofre Madalena Barros Gabriel Osório de Barros Mário Pais Nuno Pais João Patrício Freitas Paula Paulino Ramon Pelayo Vítor Pendão Teresa Pereira Helena Pereira Paulo Pernas Leopoldina Pernas Paula Pimentel Ana Rita Lima Jorge Pinto Miguel Duarte Pinto Mário Pires Pedro Piteira Isabel Marques da Silva Pedro Marques da Silva José Praça Pedro Caeiro Paulo Quinteiro Miguel Quesada Paula Rebelo Ruy Silva José Ribeiro Carla Ribeiro Conceição Cruz Maria José Pataca Maria São Rodrigues Soraya Centeno Ana Roma António Rosendo Lúcia Rosendo Diana Rosendo António Salgado Tiago Salgueiro Gisela Santos Célia Santos Rui Pinto Carlos Saramago Lurdes Seixo José Selorindo Joaquim Sengo Francisco Vidinha Fernando Silva Patrícia Silva Rosário Silva Jesus Simões Victor Tavares Paula Tavares Florbela Paulo Teixeira Helena Cecília Tertuliano Luisa Valente Zezinha Valinhas Rita Veludo Luís Ventura Luís Vilela Miguel Vinagre Cristina Vitorino Janita Zagalo João Pereira Nina Margarida Velez José Ganchinho João Paulo Silva…
E mais alguns que me desculparão pelo lapso da memória.
Muito obrigado a todos por serem uns amigos tão especiais.
Abraço-vos fortemente.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Campanhas alegres num país triste


Criatura há muito desligada das notícias e que aterrasse agora em Portugal disponibilizando-se para circular nos espaços públicos, por certo apostaria convictamente que o país se encontrava numa fase muito positiva rumo a um futuro de grande sucesso.
Excluindo algumas muito raras mensagens de protesto, Portugal está desde já inundado de cartazes que publicitam os candidatos para as eleições autárquicas que decorrerão algures no próximo Outubro.
E as mensagens prometem o paraíso no já costumeiro jogo do “vale tudo” que tem por objectivo manter ou conquistar o poder.
É claro que o poder apenas pelo poder e pelos benefícios próprios que ele carrega para quem o exerce pois o bem-estar dos cidadãos (eu sou dos que nunca chegarão a Presidente da República pois não digo “Cidadões”, para além de comer Bolo Rei de boca fechada…) esgota-se nas mensagens promocionais destes cartazes.
Depois de já ter sido confrontado com estas acções em muitos sítios por onde passei, hoje de manhã deparei-me com um mar de cartazes relativos à "Batalha de Oeiras".
Com o actual Presidente da Câmara (que se recusa a ser ex-presidente) preso por corrupção, nada mais oportuno do que candidatar ao cargo um ex inspector da Judiciária que entre telenovelas e outros escritos já governou o Município de Santarém que muito na moda anda a “dança das Cadeiras”.
Para o ajudar nesta tarefa coloraram-me mesmo à porta uma gigante e sorridente Catarina que é adjectivada de “nova” e que pela forma como sorri expondo a sua imaculada "cremalheira", das duas, uma: ou é estúpida ou masoquista.
A roubarem os seus avozinhos nas reformas, com os papás despedidos ou em vias disso, com a perspectiva de ter de emigrar para sobreviver, a "imbecil" rirá de quê?
Ou foi o publicitário que se esqueceu que a malta não anda muito para sorrisos dos políticos ou sorrisos vindos da parte deles?
Não há por aí ninguém com o bom senso de calar as “violas” no “enterro” adequando as mensagens ao estado de alma dos votantes e respeitando as suas “dores”?
Por outro lado, conhecendo eu por profissão o preço da rede de outdoors do país, posso afirmar que entre indivíduos e sociedades são os partidos políticos que melhor e com mais desafogo vivem no actual momento, o que não deixa de ser estranho pois são financiados por dinheiros públicos retirados aos cidadãos a quem impõem uma férrea austeridade.
Os partidos políticos… para além dos bancos. Mas também nunca saberemos onde acabam uns e começam os outros.
Pelo ridículo das mensagens que pretendem fazer de nós algo pouco menos que “estúpidos” e por este custo exorbitante, pornográfico e despudorado das campanhas por nós indirectamente patrocinadas, afirmo aqui que me sinto agredido por todo e qualquer cartaz desta natureza com que me depare nos próximos meses.
Mais, não responderei por mim se alguém em plena via pública ou local onde eu passe me fizer a entrega de uma esferográfica, isqueiro ou avental de campanha.
Na difícil escolha para o voto que terei de fazer elegendo o menos medíocre do boletim prometo brindar qualquer candidato que use de discrição e de bom senso nesta campanha.
Sim, eu sei, arrisco-me a ter de votar em branco.
Mas como eu sou Magrebino, segundo um reputado deputado da nação e candidato pelo PSD à Câmara de Gaia que ontem a propósito da vitória do Porto no campeonato publicou no Twitter “Magrebinos: curvem-se perante a Glória do Grande Dragão”, o meu voto deve contar muito pouco.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Biologia, amor, sensibilidade e bom senso.


A Assembleia da República aprovou hoje um projecto de lei do Partido Socialista que possibilita a co-adopção por casais constituídos por pessoas do mesmo sexo.
Mais do que o activismo em redor da legítima igualdade de direitos que há muito está inscrita na Constituição da República, foram as crianças que saíram vencedoras em todo este processo que rompeu as barreiras ideológicas entre as diferentes bancadas.
É inconcebível que as crianças “cresçam” em instituições e no seio de famílias disfuncionais que tantas vezes as maltratam, existindo uma infindável lista de casais que tendo manifestado interesse para a adopção e tendo já provado ter condições para o fazer, esperam longamente pelo desfilar da burocracia de um processo que se centra mais nele próprio do que nos interesses das crianças.
As sempre difíceis e incompreensíveis teias da lei.
Tenho um elevadíssimo respeito pelas instituições que acolhem e cuidam de crianças, admiro o trabalho dos profissionais e dos voluntários que nelas trabalham e entendo que é injusto generalizar os episódios como os da pedofilia na Casa Pia, mas havendo condições para que uma criança viva no seio de uma família, tal deverá ser colocado como prioridade.
Tenho o privilegio de entre o meu grupo de amigos ter casais que adoptaram crianças que vivem hoje num perfeito contexto de família provando que o amor quando existe e é enorme, até consegue vencer a biologia e a genética.
Também não me choca que a adopção seja concretizada no contexto de uma família monoparental. Conheço pessoas que vivendo assumidamente sós são fantásticos pais e mães em potência
E casais do mesmo sexo?
A família, indiscutível célula mater da Sociedade, é um espaço de amor e não um modelo e uma estrutura rígida na forma da sua constituição.
Duas pessoas do mesmo sexo num contexto de amor são um “espaço” que poderá beneficiar enormemente o desenvolvimento de uma criança.
A prova de que a forma e o modelo contam pouco está nos casais de homem e mulher que todos conhecemos e que jamais conseguem provar ter condições para acolher ou até criar os seus próprios filhos.
Em todos os casos e com o recurso a profissionais habilitados e competentes, é fundamental que o Estado garanta as condições para o salutar desenvolvimento de uma criança.
Reforço, é a criança que deverá contar sempre e sobrepor-se a todas as ideologias e crenças.
Porque não interessa só defender o feto, também é necessário garantir o afecto.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

A vida e um grande amor


O amor nunca se explica e por isso jamais poderei dizer porque o amo.
Sentimento maior de entre todos, herói dos heróis nos territórios do ser, o amor morreria desde logo asfixiado às mãos de uma qualquer breve ou fugaz interferência da razão.
Por isso só me importa saber que o amo… e muito.
O amor vive-se… e vive com a própria vida na perfeita cumplicidade de jamais distinguir fronteiras entre um e outro.
Por isso sei que sem ele eu não seria eu.
E o amor que é amor de verdade soma sempre mais amor, desconhecendo, desprezando e dispensando, da raiz e até ao topo, a sua pérfida antítese, o ódio, sentimento menor e subtractivo da dignidade que a vida e viver sempre impõem.
Por isso sei que nunca o amarei contra nada nem ninguém.
O amor desconhece o tempo e as circunstâncias, não se esgota no momento do êxtase de uma conquista e da chama intensa de uma breve paixão, eterno e nascido que é à medida da própria vida.
O amor impõe sorrisos e festa, mas também as lágrimas, o mau estar e o desconforto de alguma dor.
Afinal, de tudo isso se faz a própria vida.
Orgulho-me dele, amo-o com a garra infinita de quem ama a vida e, fiel, por ele cantarei feliz até que a voz um dia deixe de ser voz.
Pintado da natureza de um intenso tom de sangue e vida, ele é um grande amor para toda a vida: Benfica!

terça-feira, 14 de maio de 2013

Big Brother Marquise


A propósito da sétima avaliação dos nossos credores, a célebre Troika, até agora a mais difícil para obter nota positiva, o Presidente da República afirmou hoje que tal resultado foi uma “inspiração de Nossa Senhora de Fátima”.
Não é jamais recomendado que se invoque o nome de Deus em vão, e, entendo eu que o de Nossa Senhora de Fátima também não, sobretudo em territórios desprovidos de quaisquer sinais de “caridade” para os que mais sofrem.
Ligar a Troika a uma intervenção divina é uma forma moderna de promover uma inquisição ao estilo Século XXI, baseada em “autos de fé” que nos queimam vivos na fogueira da mais vil pobreza.
Acrescenta depois o Presidente Cavaco que esta consideração é da autoria da sua mulher, Maria.
Confesso-vos que não sei o que é pior, se é quando o Aníbal cita a Maria ou quando a Maria cita o Aníbal, numa espécie de “Mariani” esquizofrénica e sempre de muito mau gosto.
No entanto, e dado que há em todos nós um certo apetite voyeur, não deixa de ser curioso esta exposição do casal presidencial ao estilo Big Brother, com a vantagem de dispensar a Teresa Guilherme.
Imaginamos então a Maria com os rolos na cabeça, roupão de flanela enfiado, creme aclarador do buço aplicado por cima da boca, a prótese dentária colocada num copo com água e lixívia, os pés de onde brotam generosos joanetes apoiados numa cadeira na claridade da marquise, algodões a separar os dedos dos ditos “chispes” enquanto pinta com verniz comprado numa loja chinesa, as unhas antes limpas com acetona para retirar os restos do verniz do mês anterior, dissertando sobre os assuntos de Estado ao mesmo tempo que na televisão da bancada passam imagens das cerimónias de Fátima.
E o Aníbal regista, aprecia e divulga.
Que há incompetência já todos sabíamos, mas esta “inestética” falta de bom senso que agrava o terrível estado que nos coloca cada vez mais na orfandade do vazio de uma liderança vai sendo evidente em todos os nossos dias, e com muita dor.
E tudo isto, se não doesse tanto até teria a sua graça.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Fátima


Há alguns anos numa viagem de táxi entre o aeroporto de Newark e Manhattan fui conduzido por um motorista Americano, muçulmano xiita confesso, que quando a determinada altura da nossa conversa se apercebeu que eu era Português me referiu que Nossa Senhora de Fátima era um apropriação indevida dos católicos perante as manifestações de Fátima, a filha do Profeta Maomé, a quem a sua religião atribui o título de al-Zahra (a Resplandecente), um reconhecido modelo de virtudes para a mulher muçulmana.
Com a mesma convicção que ele usou na sua afirmação, respondi-lhe dizendo que eu era católico e que não só mas muito por esse facto, acreditava que a “Resplandecente” Senhora do Rosário de Fátima era Maria, Nossa Senhora, mãe de Jesus, um modelo de mulher e mãe.
Sorrimos um para o outro e seguimos a conversa por outros assuntos que já não sei precisar. Afinal de contas, a fé não se discute, e o que nos unia aos dois, o essencial, a fé em Deus, era bem maior e mais importante do que tudo o mais de divergência induzida pela cultura e pela religião, uma diferença que nos poria num absurdo confronto pois jamais se abriria a hipótese de uma conclusão aceite por ambas as partes.
Num táxi algures nos caminhos de Nova Iorque e a uma escala demasiado microscópica para as dimensões da Terra, dois desconhecidos constroem um “modelo” com base no respeito e no enfoque especial e prioritário no essencial que une, o antídoto para que a guerra jamais possa ter o sobrenome de “santa”.
E Fátima como argumento e inspiração para uma atitude de paz.
Em trânsito para o Porto na A1, a data de 13 de Maio convidou-me hoje especialmente a uma paragem em Fátima.
A missa no recinto há muito terminara mas há milhares de pessoas que circulam cumprindo o roteiro ditado pela sua fé, milhares que não conseguem “matar” o silêncio que se respira e que se associa aos olhares na tradução do misticismo, da “magia” de Fátima.
A inconfundível paz de Fátima.
Eu sou apenas um entre milhares mas estranhamente sinto o conforto de quem está em casa.
A fé a fazer confluir as vidas de tantos anónimos para o conforto de um espaço espiritual comum. Ao redor da Capelinha somos muitos e todos diferentes mas sabemos que o acariciar das contas do terço a todos nos põe na voz e na alma as mesmas palavras: Ave Maria. 
Fátima, paz traduzida no real “encontro” de todos os Homens, a morte das diferenças que separam.
Corre um leve brisa fresca de fim de tarde quando saio do recinto não sem antes me recordar do meu “amigo” taxista de Nova Iorque.
Peço a Maria, Senhora de Fátima e da minha fé, por ele, e peço paz para todos os Homens.
Uma paz assim na tolerância e universalidade.
A paz de Fátima.

domingo, 12 de maio de 2013

Grandes egos siameses e o abortar das vitórias


Nesta primavera nacional que finalmente parece querer encher-nos do melhor sol, atirando-nos em glória para os longos areais da beira Atlântico, há duas personalidades que indiscutivelmente emergem do nosso quotidiano pátrio, aquele que todos os dias alimenta as notícias e aparece estampado nas páginas dos jornais: Jorge Jesus e Vítor Gaspar.
Para além de unidos pelo deficitário aporte de beleza com que ambos foram brindados pelo criador (o Treinador do Benfica está cada vez mais parecido com a Duquesa da Cornualha, Camila, enquanto o Ministro das Finanças é uma versão de Mister Bean com olheiras) estes dois seres muito dados a conferências de imprensa onde se exibem de forma muito generosa para com os cómicos e os imitadores, enfermam de uma estranha patologia que os faz confundir as marcas do caminho com o local de chegada, os sinais de trânsito com o estacionamento no destino da viagem.
No futebol, de pouco importa bater os recordes de invencibilidade e as médias de golo jogo a jogo, se no final do campeonato quando chegarmos à meta, já outros lá chegaram bem antes de nós.
Só um vence e o estatuto de vencedor só se define no final de uma prova. Tudo o mais é refresco para ajudar a chegar ao fim.
Nas finanças, é importante poder voltar aos mercados, celebrar o facto de termos sido brindados com uma excelente procura (com juros de 5,5% eu também lá ia para investir forte), mas de que serve isso se o país se afunda num número “pornográfico” de desempregados e se o ajuste financeiro é feito à custa de cortes indecentes nas pensões já de si tantas vezes miseráveis que os trabalhadores de ontem recebem no presente, bem longe das expectativas com que fizeram os seus descontos.
Mais uma vez, importa o ponto de chegada, e no que às finanças públicas e à economia diz respeito, salta à vista que quando chegarmos ao equilíbrio (se lá chegarmos, e se sim, por certo que mortos de fome) já a Senhora Merkel lá estará para nos impor a perda de autonomia com que sonha no seu dream of life de dominar a Europa à qual não pára de recomendar austeridade.
As razões para este comportamento anómalo de Jesus e Gaspar poderão ser várias englobando fantásticas auto-estimas, egos super desenvolvidos. E a quem muito olha para o umbigo resta pouco tempo e disponibilidade visual para olhar para a meta e sobretudo para poder definir as melhores condições para vencer.
Porque assim e pelo caminho que levamos, Jesus acabará sempre ajoelhado no relvado do Dragão e Gaspar colocar-nos-á a todos ajoelhados em Fátima a pedir Saúde, Trabalho e… o fim de todas as crises na órbita de um milagre demasiado impossível.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

A ausência e a saudade dos alperces


Em Vila Viçosa, no prédio onde moramos há mais de 30 anos, tivemos o privilégio de estabelecer uma relação de família com os nossos vizinhos Clotilde e João.
Um dos indiscutíveis prazeres de nascer e crescer num espaço rural é o facto de soltarmos os afectos sem nos impormos quaisquer reservas, embalados pela proximidade e a confiança que estabelecemos com todos os que nos rodeiam. E por esta via, os vizinhos transformam-se em família, muito mais do que apenas bons amigos.
Com a Vizinha Clotilde e o Vizinho João, para além de termos partilhado a hortelã, os coentros, a salsa, as brasas para acender ou reacender a braseira, a preparação dos bolos da Páscoa e das filhós no Carnaval, as favas do quintal, as limonadas nos lanches de verão e o chá nos de inverno, usufruímos do raro benefício de décadas de conforto na hora de limpar as lágrimas, e a alegria do riso partilhado em tantos e tão bons momentos de felicidade.
Nem as paredes tão grossas do nosso prédio vindo dos anos de setecentos impediram jamais que tamanha e tão boa relação se estabelecesse.
Há alguns anos a Vizinha partiu e o Vizinho mudou de residência por não poder estar sozinho e ainda hoje temos o prazer de o visitar com alguma regularidade.
Deixaram-nos enormes memórias e uma infinidade de histórias que recontamos tantas e tantas vezes. Com raízes no seu quintal e subindo até à nossa varanda para nos dar sombra nos quentes dias do estio Alentejano, permaneceu uma imponente árvore que nos meses de Junho nos brindava com uma infinita quantidade de alperces. Fruta doce e sempre ao alcance das nossas mãos permitindo esse imbatível prazer de comer a fruta acabada de colher da árvore.
Da janela da nossa cozinha e de todo o espaço da varanda, a vista oferecida por cada estação tinha sempre a cor desta árvore que se despia no inverno, se enchia de folhas verdes na primavera e nos oferecia o fruto no inicio do verão.
O ano passado ainda teve folhas mas os frutos que colhemos foram pouco mais de uma dúzia.
Este ano, a primavera já não lhe trouxe qualquer folha e muito menos indícios de fruto. Permanece com os troncos vazios.
A morte de uma árvore, a nobreza do tronco que se mantém de pé mas a triste sensação de que da sua madeira agora ressequida já não brotará mais qualquer sinal de vida.
Mais do que a saudade dos alperces que por certo nos atingirá em Junho, a saudade dos dias em que os podíamos compartir com os nossos Vizinhos de sempre. Os alperces foram sempre afinal um doce símbolo da nossa ligação num espaço de partilha e família.
Agora, resta-nos a memória, as doces, perfeitas e eternas lembranças que jamais se vergam às agruras e ao desgaste do tempo.
Os afectos, as memórias, as árvores…
O que é grande jamais morre ou se deixa cair, pelo contrário, permanece eterno e nobre no porte de jamais desistir de mirar e buscar o céu.  

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Espigas


Faz este dia o Senhor de todos os dias que hoje sobe ao Céu, divina Ascensão que por legado nos deixa a perfeição da vida, e campo fora nos põe buscando a “hora”, mágico momento, sol a pique, luz que oferece verdade às bênçãos maiores de toda a Terra.
E do campo, dos trilhos floridos de uma primavera que pelo canto louvaremos, em ramos feitos de aromas e cores, para casa traremos a sorte que todo o ano tornará perfeito de graças e abundância.
As espigas de trigo, aveia ou centeio, aquelas que pela força do vento e o peso da mó, no moinho um dia se tornarão farinha, garantam na mesa o pão, o sustento, a força e o alento de todas as horas.
Do ramo que a oliveira oferece, indício da luz que mais tarde brilhará na simplicidade da candeia, viva se torne a paz celebrada nos abraços que pela boa vontade nos unem a todos os outros Homens.
E os malmequeres, rainha das simples mas perfeitas flores do campo, gotas do mar de branco e amarelo que ondas põem na imensidão do verde da planície, com ouro e prata nos brindem na sorte de poder ser mais e ser maior.
Rubras, rebeldes e viçosas, carregue o ramo as papoilas e com elas a vida se inspire e se encha de mais vida, de amor e das bênçãos da paixão.
Que os dias tragam riso, canto, alegria, tudo isso e o vinho que é o mote primeiro para a festa, fermento da uva e do bago que brilhará um dia e se porá à mercê do Homem na vindima, algures por entre as folhas recortadas da videira, verdes irmãs desta que hoje colhemos ao passar.
Que o alecrim, imperial e rebelde aroma nascido aos molhos, traga com o seu perfume, a força e a saúde que nos conduzam para o ano e todos os outros anos, a um outro dia nascido assim.
Com o ramo da espiga atrás de uma porta qualquer do sítio a que chamamos a nossa casa, haja alegria, festa, vida, fé, paixão, amor, ilusão, sonho, amizade… e tudo o mais que à vida acrescenta o melhor sabor, agora e em todos os momentos que ditarão o sucesso nas “horas” de um enormíssimo e doce futuro.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Mar


Jamais se nos morrem as palavras, o som doce, intenso e livre arrancado à verdade do pensamento e que com ele voa frenético por sobre os nossos olhares que confluem e ressuscitam as cumplicidades de cada novo entardecer.
Há gaivotas e aromas de mar num horizonte que o intenso tom de azul denuncia ser Mediterrâneo e as ondas batem de encontro aos nossos pés, apagando na areia essas marcas deixadas pelo lento caminhar paralelo, passos irregulares interrompidos aqui e ali para uma atenção maior dedicada ao teu rosto que admiro por entre a festa mágica das cores do sol na expressão do seu breve adeus.
Não preciso sequer tocar-te. Os beijos nascem dos sorrisos, do olhar, dos gestos e de todas as palavras.
Muito pouco é o que para além de nós importa nesta doce e inédita festa de estar juntos.
E o tempo é tão só este momento…
Vivo está o passado apenas na herança de uma solidão que nos trouxe aqui: mar, primavera e o amor que acontece.  

segunda-feira, 6 de maio de 2013

A Síndrome do Testículo


Após ter ouvido o padre da minha paróquia fazer uma dissertação sobre as bênçãos da maternidade e a praguejar contra os homens que na sua opinião querem ser mães, fazendo piadas fáceis e brejeiras com base na herança hormonal dos ditos, num desarvorado exercício científico em territórios da fé, e de mau gosto onde o bom senso deveria imperar, pensava eu ter esgotado aí o aporte de estupidez que o domingo Dia da Mãe me reservava.
Pura ilusão.
Há muito que deveria saber que há sempre surpresas quando nos dispomos a escutar o ministro Paulo Portas.
Entre méritos e deméritos, reconheça-se desde logo ao actual Ministro dos Negócios Estrangeiros, o dom de ser o mais ubíquo dos políticos de Portugal, estando em todo o lado ao mesmo tempo.
É jornalista que denuncia escândalos de políticos mas está ele próprio dentro da política e até se vê envolvido em polémicas como a dos submarinos.
Super fashion, elitista e tio de Cascais, não há no entanto feira por mais popularucha que seja que não frequente sobretudo na fase em que conquista votos.
Católico fervoroso, conservador e grande defensor dos valores da família, apresenta para a preservação da espécie, um contributo idêntico ao do meu assumidíssimo celibato.
E ontem, sendo ministro do actual governo, presidente de um dos partidos que sustentam politicamente o executivo e o relator do projecto que visa reduzir a despesa pública, veio fazer uma conferência em que manifestou algumas posições nos antípodas das do primeiro-ministro num discurso que bem se poderia resumir:
- Passos Coelho, eu não te conheço.
Porque apesar de ser ministro, sabe perfeitamente que estar na oposição implica neste momento uma maior garantia de votos. Até Seguro, sem ideias e sem garra já os perspectiva.
Assim, para além da ubiquidade que o caracteriza e que se expressa mais uma vez na simultaneidade de estar dentro e fora, Portas demonstrou ter sido atacado pela Síndrome do Testículo: participa no acto sexual mas fica de fora.
A designação “acto sexual” não é utilizada aqui por acaso pois em toda esta “revisão” e corte de despesas, há mesmo alguém, a grande maioria de nós, que sai… digamos… lixado.

domingo, 5 de maio de 2013

Mãe


Aporto ao conforto do teu olhar doce que a cada chegada me fala de um amor sublime e maior do que todo o universo, esse olhar que para sempre e em tudo delimita e abençoa o espaço a que chamo a minha casa.
Abertos, os meus lábios sorriem no desenhar doce do teu nome:
- Mãe.
Enquanto os teus braços, no instinto de uma alma desprendida de si, se entregam livres aos meus e dão o mote para um beijo que me insufla vida.
O amor traduzido na incansável linguagem dos teus beijos…
Anseio louco na perturbante saudade, esta mágica hora em que tu, meu infinito e inesgotável berço de amor, me devolves a esperança e eu volto a ser menino.
O teu eterno menino, destemido cavaleiro nas incansáveis conquistas do futuro.
Dou-te a mão para seguirmos juntos, imbatíveis, confiantes, matando impossíveis e de encontro aos sonhos que a tua força transforma na mais doce e perfeita realidade.
Há perfume de rosas e garridos tons de sardinheiras em flor por sob o intenso sol da primavera.
E eu sigo...
E eu vivo…
Amando-te, mãe.

sábado, 4 de maio de 2013

Excel Killer e o Bando dos Incapazes


Desconheço se Luís de Sttau Monteiro alguma vez terá tido a percepção de quão proféticas eram as palavras do título do seu romance “Angústia para o jantar”, concretizadas nas inúmeras comunicações feitas pelos políticos à hora em que as famílias se juntam à volta da mesa e as televisões transmitem os noticiários.
O primeiro-ministro Passos Coelho esteve ontem durante 27 minutos a explicar as “reformas” que operacionalizará no Estado com o objectivo primeiro de fechar a sétima avaliação da Troika.
O conteúdo da comunicação é de cariz incendiário e indutor de revolta, até do Português mais pacífico e tranquilo, e é sobretudo a prova de que em Portugal não se governa, pelo contrário, gerem-se orçamentos, e mesmo assim muito mal.
Há dois anos, quando solicitámos ajuda financeira ao exterior, os três maiores partidos assinaram um memorando que pressupunha desde logo um necessário ajuste no Estado e na sua organização para que as contas públicas conseguissem chegar a um equilíbrio.
Mandava o bom senso que os três partidos, estivessem ou não dentro do governo, tivessem trabalhado juntos no cumprimento dessa missão.
Mas após dois anos, os políticos fizeram o que melhor sabem fazer: política.
Os da oposição assobiaram para o lado e disseram não conhecer “o pai do mal”, e os do governo, muniram-se de folhas de Excel e foram aplicando modelos consoante o dinheiro que havia e os prazos para o conseguir.
Acho inadmissível que ao fim de dois anos no governo, um primeiro-ministro me venha dizer que faz cortes porque os credores os impõem, fazendo um percurso que começa no dinheiro disponível e acaba na estrutura e na máquina do Estado.
Teve tempo suficiente e tinha obrigação de ministério a ministério saber qual a organização necessária ao correcto e adequado funcionamento do Estado, incluindo o número de funcionários para a sustentar. Estou certo que eliminaria muitas gorduras e chegaria por uma via razoável e racional ao dinheiro que precisa poupar.
Mas quando só se gere o dinheiro disponível e não se olha de forma estratégica para as reais necessidades, umas vezes come-se lagosta e outras… enlatados de terceira categoria.
Nesta fase, a dos enlatados, chamaram um contabilista autista e desprovido de qualquer sensibilidade social, para com as suas folhas de Excel, fazer o “racionamento” e é claro que o resultado só poderia dar nisto.
Não deixo de achar importante que os funcionários públicos se alinhem com os funcionários do privado, mas por favor, nos deveres e também nos direitos.
Acho no entanto inadmissível o ataque às reformas sobretudo quando não têm expressão de dó ou piedade pela miséria de algumas delas e perante as manifestas dificuldades de quem as recebe. O Estado, uma pessoa de bem, falha inclusive no não cumprimento das expectativas de indivíduos que estão hoje reformados e que foram contribuintes exemplares durante a sua vida activa.
E quanto à idade de reforma passar para os 66 anos, seria conveniente olhar para a idade de reforma dos políticos. É irónico que um parlamento que aprove uma extensão da idade para a aposentação seja presidido por uma senhora que se reformou aos 40 anos de idade.
Ontem, para além da angústia de Passos, tivemos ainda de assistir à posterior sobremesa azeda da angústia de Seguro em entrevista à TVI e a uma Judite de Sousa em versão Dona de Casa de robe vestido.
Depois das ideias para o vazio, o vazio das ideias, e esta inevitabilidade no cumprimento do ciclo de mediocridade em que estamos envolvidos.
Haja alguém que diga aos políticos que as maiorias absolutas não se pedem, conquistam-se pela força das ideias e pela competência, e que esta ideia de chamar a “Sociedade Civil” para um consenso alargado é algo que já está esgotado e para o qual não há paciência.
Os que responderão à chamada até poderão não ter cartão partidário mas são aqueles que desprovidos de “tacho” desde o último governo Sócrates, quererão comprar o bilhete para um possível governo Seguro.
E as ideias continuarão mortas.
Já que de morte falamos, haja forças para os matar a eles todos antes que nos matem a nós… à fome.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Velhas e novas faces de um destino de errantes marinheiros

Embarcara há pouco no avião que me traria de Copenhaga de volta a Lisboa.
Alheio à azáfama de pessoas e malas atropeladas no estreito corredor do avião, reclino a cabeça e através da minúscula janela com uma forma ovalada, distraio-me observando as operações de logística no exterior do aparelho.
Os sistemas de monta-cargas que sobem e descem, juntamente com o movimento constante de umas dezenas de pessoas equipadas com coletes reflectores, quase se assemelham a um estranho bailado com efeitos especiais ensaiado pelo La Feria no palco de um musical no Politeama.
A aparência de caos retirado do coordenadíssimo esforço para no menor tempo possível voltar a pôr a “máquina” a voar.
De repente sobe para o avião uma enorme caixa de madeira cuja forma de um paralelepípedo é excessivamente explícita no denunciar da sua função: há um Português que se devolve à terra, não abdicando de o fazer no abençoado solo pátrio que foi seu cúmplice ao nascer.
Para mim não tem nome, nem rosto e nem história, este Homem que voa comigo por sobre as nuvens, que desce rumo a sul numa rota paralela às praias que não têm fim, essa contínua linha de areia que começo a identificar no instante em que o Mondego me transporta o olhar para a direita até ao inconfundível mar da Figueira.
Ao meu lado vai sentado o Francisco.
Não se cansa de sorrir aos estalinhos que lhe faço com os dedos, tem seis meses e vai ao colo da mãe que não terá mais de trinta anos e que em surdina lhe canta todas aquelas canções de embalar que me são muito familiares.
Porta-se como um homem neste regresso a casa após um fim-de-semana prolongado que foi passar com o pai, um jovem engenheiro emigrado na Dinamarca.
O mesmo céu, a mesma eterna cumplicidade do mar, velhos e novos emigrantes, o fado de marinheiros da vida numa “caravela” que voa por sobre todas as tormentas e nos faz cumprir esse tão nosso errante destino de incansáveis conquistadores de sonhos.
Unidos pelo destino, pela alma, pela língua e pela fé.
Sem impossíveis.
Portugueses, sempre.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Maio


Jamais adormecido me apanhará o raiar do primeiro sol de Maio, porque é, e será sempre eterna a voz da Tia Maria a despertar-me no silêncio da madrugada:
- Acorda. Não deixes entrar o Maio!
Não deixar entrar o Maio ou… não dispensar o privilégio e a bênção de o ver nascer.
E assim, o primeiro raio de sol celebrado à janela que mira a oriente, com a simplicidade de um cálice de Porto e uma Broa de Azeite.
Maio, maduro Maio, madura primavera que enche de flores o campo, o fruto que o verão um dia irá colher.
É preciso ser assim, senhor da terra, mestre do campo, povo simples, para saber entender Maio e com ele brindar à vida… e ao pão.
Cheira a tílias no Mercado, a laranjeiras na Praça, caiem amoras maduras no Rossio, há hortênsias em vasos na placa da Fonte, amores-perfeitos nos canteiros da Avenida, e breve, muito breve, Maio trará o gosto do primeiro tomate tornado uma fresca salada, esse gosto que é o meu eterno prenúncio do verão que trará os calções e as brincadeiras ao luar por entre as cadeiras baixas postas à porta pelos vizinhos na doce partilha dos alegres serões.
Nos campanários repicarão os sinos ao fim da tarde, porque Maio tem flores e é de Maria.
Senhora, Esperança Nossa, profunda fé de todos os Homens celebrada em Rosários cantados por sobre as calçadas adornadas com flores do campo e onde o perfume a rosmaninho se impõe claramente à nobreza de qualquer incenso.
Maio da vida.
Maio da fé.
Maio de amor, nesses beijos, tantos, vividos nas noites abençoadas pelo doce regresso do teu olhar que se entrega ao meu.
Maio, também, do trabalho, da luta e da dignidade dos anónimos heróis que pela arte e suor, afincadamente, constroem o futuro numa herança de vida legada à humanidade.
Que nunca te matem, meu Maio. Que sejas sempre assim, florido, e que o teu raiar que desponta na mais doce madrugada, “pinte” de esperança, profunda bênção de alma, a vida de quem te vir e te fizer nascer.