terça-feira, 28 de maio de 2013

A “tardinha” que trouxe a poesia

Quando o sol aperta cumprindo o destino das inesquecíveis primaveras alentejanas, é a tardinha, “essa hora dos mágicos cansaços” como a definiu Florbela, que nos traz a bênção de uma tão desejada brisa fresca, invariavelmente carregada com os muitos, fantásticos e indecifráveis aromas da planície.
No sábado passado, a “tardinha” convocou-nos para o Paço dos Mascarenhas, em Vila Viçosa, e entre piano, dança, amizade e muita conversa, sem ensaios e com o natural improviso que acrescenta verdade às coisas, celebrámos o Alentejo e a nossa terra, o “Pomar das Laranjeiras”, entre amigos de há muito ou de menos tempo, porque de afectos e de amor se nos preenche a alma sempre que aqui chegamos a estas terras do sul.
E pelas memórias, as minhas e as da Adélia, e o presente bem vivo e nada tímido dos oito anos do Miguel, entre os três desfolhámos a vida numa conversa que envolveu também as dezenas de outros amigos presentes, provando-se que é eterno o Alentejo, colado assim à genética do nosso ser e da nossa alma.
Da simplicidade das açordas, dos ensopados de borrego, das Calipolenses tibornas de ovos, dos Castelos e dos tesouros, das brincadeiras mais ou menos elaboradas das tardes da infância, da música das melódicas e das flautas, dos prazeres únicos dos dias passados no campo… ou da magia de um balouço instalado numa oliveira que para mim tinha nos troncos as asas de um avião, se foi dando o mote para os sorrisos e para as cúmplices gargalhadas e se foi instintivamente compondo a poesia que voou connosco e pelo tempo que não sentimos passar.
Porque a poesia ultrapassa qualquer espaço ou tempo quando nos juntamos assim para celebrar a festa da verdade de tudo quanto somos.
Corria ligeira a brisa na hora de dizermos adeus e, definitivamente, a imponência do limoeiro que envolve a velha nora, sobrepôs a todos os outros, o seu perfeito e citrino aroma: um fresco privilégio numa tarde quente.
Voltaremos em breve para estarmos juntos que assim nos impõe a vontade… e a poesia que é eterna como o Alentejo.

1 comentário:

  1. E eu que lá estive bem posso testemunhar o quanto foi agradável. Esse "pomar de laranjeiras" que é Vila Viçosa deixou-me com vontade de voltar, e mostrou-me que mesmo fora das grandes cidades se faz muita e boa cultura! Gostei mesmo muito.

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