domingo, 30 de novembro de 2014

Os amigos são anjos, não porque tenham asas, mas porque nos ensinam a voar


Passei há pouco pela estante do escritório aqui de casa. Sei de cor todos os livros que me deste e que estão lá desde o verão de noventa e um.
Retirei e folheei alguns sem ler nada, porque as palavras que me acodem à lembrança são aquelas soltas nas tardes de domingo em que após a missa no Chiado e um Cozido à Portuguesa numa tasca algures na Bica, tomávamos o eléctrico 28 até aos Prazeres, para depois desde ali caminharmos até tua casa; tomávamos um chá e líamos Pessoa, Sophia, Antero, discordavas do meu fascínio por Ary, e marcávamos o romance que iriamos ler na semana a seguir… um problema quando os de Agustina chegaram ao fim.
Depois eu partia porque os meus camaradas esperavam por mim no Cais do Sodré e havia que cumprir mais uma semana de recruta em Tavira. Partia mas sempre com uma caixa de biscoitos que me tinhas preparado e que eu arrumava no saco entre as palavras de Agustina ou Saramago.
E também entre o eco dessas palavras que insistias sempre em repetir:
- Joaquim nunca lutes contra o que és e tens em ti, descobre-te no mais íntimo da alma e constrói sobre isso a tua casa. Tenho a certeza de que serás eternamente feliz.
Os amigos são anjos, não porque tenham asas, mas porque nos ensinam a voar.
O tempo, essa costumeira desculpa que sempre usamos para justificar as distâncias que vamos abrindo entre nós, afastou-nos das tardes de domingo e conduziu-nos, mais de duas décadas depois, a apenas três telefonemas anuais: no teu aniversário, no meu, e no Natal.
Talvez por tanta poesia, pusemos de parte o pragmatismo e cuidámos ser imortais, insistindo em adiar há muitos meses, um chá em Lisboa para eu poder entregar-te os meus livros e falar-te das minhas tantas poesias de amor que te mantinham intrigado.
Já não poderei fazê-lo…
Soube ontem que partiste há dois meses esvaziando-me o Natal daquele nosso costumeiro abraço.
Irei ter tantas saudades tuas daquele Verão de noventa e um.
Devolvo os livros à estante mas permanecem as tuas palavras na minha lembrança…
O tempo acaba quase sempre por revestir de saudade as palavras doces que um dia recebemos de alguém, as palavras que eternizámos em nós como tijolos que nos transformaram na casa feliz que somos.
A casa que sempre insististe em prognosticar em mim.
Vejo-te a sorrir e sei que aquilo choro agora é muito mais por mim do que por ti…
Há tanto de nós que morre na partida de um amigo.

sábado, 29 de novembro de 2014

E eu sou eu no melhor que tenho em mim tão só porque tu me sonhaste e fizeste assim


Seguimos os dois pela estrada ladeada pelos tons do Alentejo, e sou eu quem conduz numa brevíssima excepção, um mero hiato no tempo todo que tem a tua marca e o teu olhar.
O caminho… todo o meu caminho foi desenhado por ti em coordenadas tecidas pelos sonhos, semeadas por beijos e alimentadas pela bênção de um despreendimento absoluto de ti; detalhes de um amor como nenhum outro e com marca de infinito.
E eu sou eu no melhor que tenho em mim tão só porque tu me sonhaste e fizeste assim.
Seguimos…
E como sempre fazemos quando estamos juntos, conversamos muito; de nós, daquilo que nos move, daquilo em que acreditamos, das nossas coisas, das cumplicidades, falamos do presente, do futuro…  
Entre nós há um desmesurado tráfico de amor, em tudo e também nas palavras, e eu não resisto nunca de fazer-te rir.
Porque gosto de te ver sorrir por entre o orgulho e o amor com que sempre me olhas nos momentos que tu tornas especiais, aqueles em que definitivamente mais gosto de mim.
Às vezes os dias amanhecem assim turvos como agora, e é necessário ir ao fundo de nós buscar todas as reservas de fé que nos impedem de pronunciar a palavra “desistir”.
Aprendi a fazê-lo contigo tomando fôlego e arte para voar por cima de todas as nuvens que ameacem chuva no horizonte.
Sem deixar nunca de ser eu na minha verdade, e sem ferir a liberdade de quem está perto.
As lágrimas, sabemo-lo bem, são tecidas do sal que pode secar as plantas mas que também pode dar sabor ao que nos alimenta e fortalece.
Continuamos…
Quase a chegar ao Redondo há à direita de quem vem de Vila Viçosa, uma pequeníssima albufeira que o Outono encheu de água; converso contigo e vejo reflectida a paisagem de sobreiros e uma casa pequena caiada de branco e enfeitada de traços azuis.
Eu acho que serei sempre um reflexo de ti.
Desvio por momentos o olhar da estrada para te ver. Quem dera que o meu olhar e as minhas palavras pudessem dizer o quanto te amo.
Acho que não conseguem.
Parabéns, mãe.
E continuamos juntos a nossa viagem…      

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

O amor com a cumplicidade de uma velha giesta


Da janela do quarto a que chamo nosso pela intensidade com que te desejo, vejo ao longe um olival que se estende alinhado pelo monte; e lá no cimo e junto a uma velha ermida, o sol ao romper faz brilhar o ouro intenso de uma coroa de giestas.
Atravessarei este Inverno esperando uma manhã de primavera…
Os dois abraçados um ao outro e com a minha pele a saborear todos os detalhes da tua, nós seremos por entre o aroma de flor que a Páscoa sempre semeia nas laranjeiras, amantes rompendo madrugadas embalados pela herança de um amor perfeito inventado e vivido à luz da lua.
Talvez então entre um beijo e outro, eu te cante uma moda como se usa fazer no Alentejo. Baixo… muito baixinho, que nós já acordámos mas o sonho que trazemos não queremos que se desperte nunca.
E a canção que poderá até contar a história de um passarinho, falará por certo de amor.
Numa manhã como esta...
O quarto não resiste e far-se-á definitivamente nosso, trocaremos palavras, música do Cante do sul, e claro, mil beijos de amor.
E lá ao longe, depois de um corredor de oliveiras e cúmplice no cimo do monte, pisca-nos os olhos, mas em tom de ouro, uma velha giesta.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

O nosso Cante



Colou-se-nos à voz a dolência de oiro das espigas
E do chão de barro que bendiz os nossos passos
Colhemos cantigas
A poesia que entrelaçamos com a voz num eterno abraço

Do tom rubro das papoilas
De sangue vivo se nos faz a coragem que esmaga o pranto
O sol intenso do meio-dia
As aleluias que ecoam livres pelos campos...

E o suor é mote deste nosso canto 

Com a teimosia dos sobreiros
O alento do pão
A alegria do tinto
O tom da sinfonia que nasce da água que corre nos ribeiros...

Somos a festa dos amigos que flutua entre a alvura da cal das ruas
Às vezes com tanto de saudade

O nosso canto
O Alentejo colado à minha voz...
À tua
O hino da terra e da gente a cruzar a eternidade


terça-feira, 25 de novembro de 2014

FERNANDO EZEQUIEL


Há sorrisos e palavras que nos tornam os dias felizes, detalhes como flores raras que nascem de gente suculenta como as plantas.
Sorrisos e palavras que brotam dos afectos mais profícuos que o coração nos manda seguir, neste ciclo do tempo em que cada dia é como uma lição de piano que não tem mais nada em vista a não saber o saborear do prazer inscrito na sequência e nos tempos que cada tecla, como cada instante, nos poderá oferecer.
E é tão fácil gostar de ti, seguindo a recomendação do coração.
Tenho a certeza de que tu e os astros terão por certo outra justificação muito menos simplista do que esta minha de poeta, para o facto do meu mau feitio de Caranguejo sensível se ter encontrado à esquina do tempo com o teu perfil fantástico de Sagitário; para meu claro benefício, pois por entre afecto e palavras, colho de ti infinitos sorrisos; não sei se já te deste conta de uma particularidade facial que te assiste, é que mesmo quando pões um ar sério e zangado, não consegues, e sorris.
Até mesmo quando és actor e te chamam gordo desaprovando a utilização de roupa mais ousada…
E assim, por entre os teus sorrisos, os dias são sempre melhores e felizes quando contigo por perto.
Quando falamos horas seguidas, com ou sem o aporte gourmet e a paz de que o Fernando é divino mestre, eu descubro-me sempre melhor pessoa e infinitamente mais rico.
E porque tu lês os astros e eu leio a Eurovisão, sempre te digo que nasceste no último ano sem Festival da Canção e sem participação Portuguesa, mas no ano em que a Dinamarca ganhou com a canção “Dansevise” interpretada pelo duo Grethe e Jorgen Ingmann.
“Dansevise” quer dizer algo como uma balada para dançar e foi um prenúncio em Março para o teu nascimento em Novembro. Tu és uma “balada” tranquila que nos faz dançar.
Parabéns.
E não é fácil escrever algo de ti… por excesso de coisas boas para dizer.

domingo, 23 de novembro de 2014

Como se numa caneca de leite azedo o mais importante fosse a forma da porcelana


Eu não sou filiado em nenhum partido político, não tenho sequer uma fiel simpatia por qualquer agremiação de natureza partidária.
Eu nunca me abstive numas eleições e reconheço o valor que os partidos políticos têm no contexto do funcionamento da democracia. Voto em consciência naquilo e naqueles que num determinado momento me parecem melhor opção para governar o meu país.
Eu nunca me filiarei num partido político, já o sabia há muito mas reforcei a minha convicção.
Nos últimos dias, mais do que o incómodo de um ex-primeiro ministro preso, choca-me a ridícula defesa fiel e cega do indivíduo feita por gente que considero honesta e intelectualmente superior.
Com a liberdade entrincheirada nas masmorras das fidelidades partidárias e políticas, consegue até apelar-se à justiça, ferindo-a simultaneamente de morte, desprezando-a; uma vez que o apelo é sempre feito no sentido do reconhecimento da inocência, e isso é abrir-lhes os olhos que devem permanecer cegos, ensinando-lhe o caminho num determinado e muito específico sentido.
É como se a justiça fosse algo importante mas só até à porta da "nossa" casa, onde o cartão de militante tem o valor de um registo criminal limpo.
E foge-se do essencial, como se numa caneca de leite azedo o mais importante fosse a forma da porcelana.
Eu não condeno ou declaro inocente o senhor ex-primeiro-ministro. A justiça que o faça.
Eu prezo muito a minha liberdade e gosto muito de fazer as minhas escolhas e ter as minhas opiniões usando-o em pleno.

sábado, 22 de novembro de 2014

Abrimos as portadas e vimos o mar


Sobre a mesa-de-cabeceira, a do lado direito, por onde entro sempre na cama, tenho um pequeno livro com poemas de Pessoa que veio substituir há pouco "O búzio de Cós" de Sophia, que morou por aqui algumas semanas.
Leio sempre algo antes de apagar a luz, nesse instante em que por entre Pai-nossos e Ave-Marias, os meus braços invejam o pensamento por não te terem aqui para te abraçar.
Poemas, orações e as preces dos meus lábios, detalhes de uma imensa fé e de um querer infinito, para que um sonho te traga até aqui à minha noite, e para que o sono não corte o eterno pensamento que estando vígil, sempre me traz o teu olhar.
Mas a esta noite acudiu-me a sorte... sonhei contigo.
Havia um corredor imenso de um soalho que brilhava de cera, e os dois de mão dada, lado-a-lado, alternando olhares e passos, trocámos palavras até chegarmos a uma sala grande com janelas fechadas.
Abrimos as portadas e vimos o mar.
Depois, e sem que se explique, como sempre acontece ao sonhar, chegou o Hemingway e ficámos os três à conversa longas horas, sentados e animados por infinitas histórias… tendo cada um de nós a sua barba para coçar.
Mais tarde abrimos a vidraça de uma janela, despedimo-nos do escritor de "O velho e o mar", e dando novamente as mãos saltámos e voámos para longe cruzando oceanos e mares.
Só me lembro que parámos depois numa ilha e num cais adornado de oliveiras.
Seria Cós?
Demos um beijo sentindo que esta ilha há milénios esperava por nós; e por entre o beijo, cumprindo a eterna insatisfação dos enamorados, eu só me recordo de pensar:
- Não, acordar agora? Não.
Mesmo que o pensamento seja eternamente teu, agora estás aqui para eu te abraçar.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

JOSÉ MARIA


Na minha pequena sala onde agora escrevo há dois quadros pendurados na parede a que tu ofereceste os teus traços.
Os traços e as palavras são elementos na mão dos poetas nessa doce alquimia de cantar a vida e tudo aquilo que os dias vão oferecendo.
Ofereceste-me cada um destes quadros em Vila Viçosa, exactamente nos dias em que lancei os meus dois livros de crónicas e de memórias. Num dos quadros há a Praça da nossa infância, com laranjeiras e a igreja de São Bartolomeu; no outro estou eu com uma expressão em que me reconheço.
Quando os dois percorríamos juntos a Alameda do Carrascal para apanharmos a automotora das sete e vinte da manhã que nos levaria para as aulas em Estremoz; talvez nunca tivéssemos sonhado que as nossas palavras e traços se cruzariam tantas vezes assim, brotando da amizade, alimentando memórias, cantando os nossos dias felizes no contexto de uma perfeita estereofonia de sentidos.
Ou talvez sim… que a ousadia também nunca a deixámos órfã por entre o choro da lamúria e a resignação.
Ontem… há trinta anos, quando petiscávamos empadas à sombra dos sobreiros e galgávamos montes cheios de estevas ali para o lado da Fonte dos Castanheiros, com a Manuela, o Manuel, as manas Duarte, e tantos outros amigos; jurámos mil vezes que iriamos ser felizes não traindo jamais a fé que nos juntava.
A forma mais verdadeira de louvar a Deus é a louvar a vida, à nossa escala, enchendo-a da certeza de que em qualquer amanhã iremos ser mais felizes do que hoje.
E a felicidade é tão-só sermos nós na fidelidade aos sonhos e ao destino que sonhámos, custe o que custar, fique incomodado quem o quiser ficar.
Foi, e é esta fé, e esta ousadia, que nos juntaram na amizade que dura há décadas, e também na cumplicidade dos traços e das palavras que oferecem voz à poesia que “cantamos”.
Sempre a rirmo-nos muito de nós e de tudo o que nos vai acontecendo à medida que tu ficas sem cabelo e eu o vejo crescer cada vez mais branco na face; ao ritmo da ginja, do brinhol, das viagens e dos cafés à sombra do Restauração.
É a vida no seu melhor com o patrocínio total dos amigos.
Zé, um grande abraço de parabéns e que continues a ter dos melhores argumentos para desenhares muitos e bons quadros.
Eu ofereço-te a amizade, as palavras e as paredes vazias que ainda vão existindo aqui por casa.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Roma e um serão


Há um homem velho sentado que vende castanhas
E uma gorda de ancas tamanhas...
Que para disfarçar a sua idade
De tão loura que está ofusca o sol sem dó nem piedade

Um Japonês pragueja com o sinaleiro só porque ele o separou do guia
Está furioso...
A criatura distraiu-se na hora de atravessar a passadeira para fazer uma fotografia

Numa loja de roupa...
Um homem compra umas meias
E na montra do lado...
Um vestido de noiva faz sonhar duas raparigas feias

Passa uma executiva toda perfumada
Um casal dá um beijo
E dois homens não travam o desejo...
E caminham de mão dada

Indianos vendem xailes e bugigangas
Recipientes de onde saem bolas de sabão 
Um pobre apela à caridade
E passa um padre e uma freira que pelo esbracejar do cura está a levar um sermão

Já passa das dez da noite
Estou em Roma a passear
E penso em ti

Ai se estivesses aqui...

Dar-te-ia tantos beijos que os meus lábios não teriam sequer tempo para o que estão a fazer agora
Para se entreterem...
Resgatam da memória uma canção e estão a assobiar

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Três sentidos e meio


Sair ontem de Lisboa com um princípio de otite no ouvido direito e ser agitado sobre a Sardenha como o gelo num shaker, resulta numa semi-surdez com uma ressonância intracraniana de pôr louca qualquer criatura.
Nem consigo saber se estou aos gritos, e com medo de estar, tenho tendência para falar mais baixo e ninguém me ouvir, o que já me irrita entre tantos “desculpe” e “sorry” que me atiram.
Para além disso e nesta onda de “bem-estar”, resolvo ter graça e mandar uma mensagem em Italiano, com o Google a dizer-me que “um beijo infinito” se escreve “un bacio infinito”. A princípio soa bem mas depois de relido em Português é um pouco estranho pois parece que estamos a acusar a outra pessoa de sofrer de poliúria e não fazer outra coisa a não ser “xixi”.
Desinspiração.
Depois de uma noite de trovoada o dia amanhece com sol, eu continuo a ouvir mal, mas tudo parece ser diferente até ao momento em que no pequeno-almoço começo a ver o buffet a escorregar, por pura ilusão pois os meus óculos resolveram fazer uma espargata definitiva com cada lente progressiva a cair para seu lado e a visão de perto e a de longe a misturarem-se de forma demoníaca.
Depois do ouvido…
Acabo por ir para a reunião sem óculos e com a esquizofrénica sensação de que ainda ouço pior por não ter óculos.
Na reunião e como a formadora tinha uma cópia impressa dos slides, a coisa até não iria correr mal de todo, já que a partir do táxi não consegui ver nada ao longe; e se eu por acaso vos disser que me cruzei aqui em Roma com a Sophia Loren, relevem, poderia muito bem ser até o José Castelo Branco.
Resta-me o tacto, o cheiro que me revela um taxista pouco asseado, e o gosto, aquele que pela minha tendência para a gula deverá ser o derradeiro sentido a abandonar-me.
Estava eu neste episódio tortuoso de “Mr. Magoo visita Roma” quando me chega uma mensagem escrita a desejar-me “um dia cheio de sol e cheio com o meu amor”.
Eu estava a dizer-vos que via ou ouvia mal?
Pois… mas esqueçam.
Continuo sem óculos e com o ouvido entupido, mas o que é que isso interessa?
Os sentidos são pequeníssimos detalhes desprezíveis na sua limitação perante uma alma inteira e feliz.
O amor preenche-nos em todos os sentidos… e todos os sentidos, e assim não há dia que possa correr mal.
Três sentidos e meio?
O que é isso quando comparado com um coração feliz.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Há instantes que são infinitamente maiores do que a hora que os acolhe


Há instantes que são infinitamente maiores do que a hora que os acolhe porque concentram em si a dimensão da própria vida.
E vive quem cumpre desejos com a convicção de se alinhar com o destino, muito mais do que quem colecciona o tempo deslizando passivamente pelos dias sem que neles ouse deixar o perfume de uma sua qualquer marca.
A noite está amena, Lisboa insiste em oferecer-nos calor mesmo por sob algumas luzes de Natal já acesas no Chiado; eu caminho contigo ao meu lado e aqui e ali, sem que por vezes tu dês conta, olho feliz para a perfeição que o meu desejo vê em ti.
Os meus passos sentem-se alinhados com o destino, porque a minha vida não pode ser mais nada do que este cúmplice caminhar contigo.
Este instante tem então uma dimensão muito maior do que apenas um fim de tarde, tem raízes de quase cinco décadas e a vontade de um futuro que o multiplique até à eternidade em milhões de pétalas e folhas que de amor me perfumem mesmo os recantos mais escondidos de todos os dias.
Eu amo-te, e mesmo correndo o risco de ser alcunhado de um tonto numa recorrência doentia, não me importo e digo que sou e serei sempre teu.
Porque só assim vivo…

sábado, 15 de novembro de 2014

Quatro letras e a mesma dimensão de amor e vida


Numa longa conversa ontem ao telefone com uma “velha” e querida amiga, fiquei a saber que recentemente e numa reunião de índole religioso e católico em que ela participou, dois indivíduos se envolveram numa discussão em que entre gritos competiam sobre as horas que um e outro dedicam diariamente à oração.
Se o diálogo inter-religioso não vai bem, digamos que o intra-religioso não vai melhor…
E Deus que já é tantas vezes apenas e só, um bom pretexto para arear visons ao domingo, até porque as igrejas costumam ser bem arejadas e cheias de correntes de ar; vira assim assunto de discussão ao nível de um penalti mal assinalado que se discute no balcão do café numa manhã de segunda-feira.
Presumo que estas discussões sejam aceites em fóruns religiosos, mas só a partir do momento em que se saiba que nenhum destes indivíduos é gay ou já cometeu o gravíssimo pecado de recasar, porque isso sim é que são atitudes graves na ofensa a Deus, apesar de envolverem honestidade e fidelidade ao amor por nós e pelos outros.
O resto, até mesmo esta banalização que reduz Deus ao estatuto de uma coisa mundana, não interessa nada; ou pelo menos parece continuar a ser bem aceite.
Não o faço muitas vezes, mas estando em Vila Viçosa no fim-de-semana passado, resolvi ir até ao cemitério, no Castelo, e passear um pouco pelas memórias dos “meus mortos”.
Sem qualquer intuito de natureza mórbida ou semelhante, começo por saudar a Florbela Espanca e deixo-me ir por entre corredores de lápides de mármores cravejadas de nomes e fotografias, pensando mais do que rezando quaisquer orações formais, deixando que os nomes façam aflorar à lembrança as histórias de muitos dias em que fomos felizes, os dias que me fizeram assim como gosto de ser.
Passo sempre pela memória da D. Joana, que por acaso até era ateia e foi uma das minhas maiores amigas e a pessoa que mais contribuiu para o formar da minha consciência social, e recordo sempre o pedido que ela fazia quando brincava a dizer que queria ser enterrada envolta em cartão canelado porque era o que mais tinha no armazém da livraria.
E saio sempre com a certeza de que não rezando, eu rezei, porque fiz ressurgir detalhes de um amor profundo com pessoas que em mim serão eternas porque jamais as deixarei morrer.
Voltando à discussão das criaturas…
Talvez lhes faça falta aprender que na vivência do amor, da liberdade, da paz e da verdade do que somos, se louva a Deus, muito mais do que com centenas de fórmulas debitadas em genuflexão perante os sacrários do mundo; e nessa perspectiva todos temos 24 horas disponíveis para a oração.
Mas isso aprende-se quando se vive Deus muito mais no íntimo do que na esfera de um adorno social…
Ou tão-só quando se vive o essencial, e é inevitável voltar à palavra que o define e que tem quatro letras, tantas quanto a dimensão da vida: o amor.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

My hands


I’m giving you my hands
Mothers of caresses
Hands from the genetics of an endless love
Address of blessings harvested from the angels’ cots

I’m giving you my laugh that knows so well how to supplant the weeping
My lips that have dressed kisses in singular bodies.
Guardians of gold and diamonds souls

I’m giving you my words
A forever yes
And this human being that never resigns and nothing see too far

I’m giving you the Day
The Night
The lap that it will be your home
The Lights
The Party
The Magic…

And I will make you fly
Without needing any wing

I’m giving you my eternal life
The sky that I see in everything and it is part of me

Marco?
Celia?

Names are irrelevant details from the dreams that put flowers in our days
From heroes who win the time and create a piece of paradise in everything I see

Nunca mais é verão…


Atravessar a ponte 25 de Abril em direcção a Lisboa num fim de tarde ao redor do São Martinho não conseguindo ver um palmo à frente do nariz, debaixo de uma chuva torrencial e sob um vento aterrador que nos abana a nós, ao veículo e à própria ponte; faz-nos desde logo pensar que é infundada a expectativa de um verão patrocinado por uma qualquer santidade, e os tempos são definitivamente outros e capazes de desmentir o “Borda d´Água”, que até é distribuído pela minha editora…
Desde logo porque os heróis já não são os generosos que rasgam as capas para as poderem partilhar com os mendigos; muito antes pelo contrário, são “santos” elevados aos altares pelo mediatismo e pelo marketing político, social ou outro, que sacam os “K’s” ou até os milhões de Euros em seu proveito fazendo com que floresçam mendigos.
E o Homem, cuja definição foi afinada para “ser vivo que respira e que vive rodeado por bancos”, deixou de ter a felicidade como objectivo último, para passar a ter esse grande sonho de conseguir “viver” tendo outras companhias que não só o “banco do jardim” e o “banco alimentar”.
Sob tamanha falta de generosidade, já não há motivos para que as nuvens desanuviem e brilhe o sol de um verão, mesmo que fugaz.
Sigo… mesmo que a abanar.
O rádio ligado e com o som em competição clara com o ruido da chuva e do vento, debita os últimos desenvolvimentos do escândalo de corrupção dos “vistos gold”, da privatização da TAP e da situação da PT; e fico com a sensação de que a desonestidade dos liberais é o mais eficaz fertilizante para que floresçam “comunistas”; até porque quase que nos apetece que construam um muro entre nós e essas imbecis criaturas criadas nos laboratórios da política.
E para além da saudade do verão de São Martinho, isto quase que faz ter saudades de um “verão quente”.
Depois chego a casa e dedico algum tempo aos programas dos canais de notícias que são hoje uma espécie de “jogo da honestidade” com bola cá e bola lá num campeonato em que os pontos são dados por conexões e nomeações partidárias.
Por mim ficam empatados porque ninguém se conseguiu destacar… pela positiva.
Desligo a televisão e vou escrever. Sou definitivamente um eleitor órfão à procura do sol por entre um denso nevoeiro que também não traz um “D. Sebastião”.
A chuva e o vento vieram comigo e batem forte na vidraça.
Apetecia-me ir ver o mar.
Mas porque é que nunca mais é verão? 

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Há manhãs às quais pedimos silêncio para podermos usufruir do eco das noites


Caminho rumo ao sul por entre sombras, e a pouco e pouco, e coberto pelas nuvens, o sol vai despertando as cegonhas que há muito têm casa no cimo das ruinas de um velho moinho que fica mesmo ao lado da auto-estrada.
As árvores emergem da penumbra, e só os choupos e uns raros plátanos insistem em falar de Outono por entre a constância verde dos sobreiros e também das muito mediterrânicas oliveiras alinhadas nos seus corredores traçados a régua e esquadro.
Do café onde paro para descansar um pouco tenho vista para uma festa de ruborizados medronhos e para o desenhado voo de uns muito animados tordos que os namoram.
O castelo de Evoramonte está envolto pelas nuvens e adensa mistérios nas convenções que não rejeitamos nunca fazer com o além.
E eu sigo sozinho e na aparência de não viajar por entre palavras, muito ao jeito de quem segue pé ante pé, por não querer despertar o dia.
Há manhãs como esta, manhãs às quais pedimos silêncio para podermos usufruir do eco das noites.
Eu penso em ti e o meu silêncio é afinal um mar privado, secreto e eterno das palavras que de noite bebi de ti e do teu olhar.
Prometo, e faço-o por mim:
- Jamais te deixarei morrer nas palavras e no tudo que me dás.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

E sempre sem margens…


Aqui sob os suspiros cúmplices do luar de Lisboa, faço-me irmão deste rio e esqueço todas as margens na suprema ambição de ser mar.
Aqui, no momento que tu me ofereces e de onde tudo se avista pequeno; que a eternidade não poderá ser mais nada, para lá deste abraço que nos faz respirar o mesmo ar ao jeito de um longo beijo onde por entre barbas se libertam palavras de amor.
Sem margens… 
Nós, a eternidade e o mar.
E o futuro, promessa deste instante, será um entrelaçado caminhar numa rua de Lisboa atapetada de flores, por sobre as relíquias das lágrimas cravejadas na espera em que apenas me alimentava da esperança que chegasses.
Uma rua que conduz inevitavelmente ao mar.
E o futuro seremos nós, o amor e um abraço de onde se soltam palavras de amor…
A eternidade… e sempre sem margens. 

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Os melhores dias para plantar flores


Há dias que apelam aos óculos de sol para que possamos camuflar aquela lágrima furtiva rematada pela alma e que não é defendida a tempo pelo autocontrolo que a razão sempre nos impõe envolto pelos panos opacos da discrição.
E por mais que alguém se esforce para nos fazer virar o pescoço e colocar o olhar de frente para o lado mais colorido e viçoso da vida, somos invadidos por uma crónica rigidez muscular que nos torna fieis a esse lado obscuro e lunar onde tudo é, ou pelo menos parece, negativo.
Nem as palavras, nem as memórias, as gargalhadas, nem o café quente aromatizado com açúcar…
A obsessão é total e nada parece eficaz como “relaxante muscular”, porque a cada argumento positivo que alguém nos apresente, nós respondemos com pelo menos dois em sentido contrário, dos tais que justificam este estado de espírito.
E a lágrima lá vem por aí acima.  
Acontece a todos e até aos melhores, e acontece muito particularmente quando saímos daquela zona de onde bebemos conforto por termos tudo segundo as regras apertadas que estipulámos para nós próprios.
Ontem ao final da manhã, em Vila Viçosa, e quando eu já quase não tinha argumentos para rebater esta espiral negativa de uma amiga, até porque a Sopa da Panela já estava em casa a arrefecer à minha espera por entre um intenso sabor a hortelã, “atirei-lhe” com aquele que é para mim um principio de vida:
- Quando saio de casa e me cheira ao esterco que alguém me colocou no tapete, aproveito porque esse é o dia ideal para plantar flores.
Ficamos nós muito bem porque temos flores frescas em casa, e irritamos sobremaneira quem nos deu o esterco na esperança de nos ver por ali martirizados eternamente pelo seu mau cheiro que atrai as moscas.
E assim pelo menos fi-la sorrir, tanto quanto pude ver para lá dos óculos de sol que serviam de biombo.
É que mesmo todos os dias são tempo demasiado curto para que nos rendamos a uma qualquer derrota.

sábado, 8 de novembro de 2014

Os dias aos quais nem os impossíveis resistem


Há dias em que as palavras esperam por nós à esquina das horas e se nos colam à voz dando uma fantástica expressão de verdade aos sentimentos.
São aqueles dias aos quais nem os impossíveis resistem.
Na velha pasta preta de cabedal levo as palavras escritas que chegaram de um serão em casa quando o pensamento se elevou até às histórias dos anjos que pela alma são maiores do que quaisquer corpos que os envolvem. 
A Rainha de Espanha está na plateia pronta para me ouvir e as palavras fluem facilmente porque elas exprimem a verdade dos heróis que serão sempre maiores do que os ocupantes de quaisquer tronos humanos; e maiores do que quaisquer reservas que eu possa ter perante uma real plateia.
Eu sou apenas o porta-voz do mérito desses heróis imensos maiores do que o tempo ou quaisquer circunstâncias.
Aprecio a lua cheia quando em Vila Viçosa saio de casa e vou em direcção à tertúlia que inspirada na minha conterrânea Florbela Espanca, nos convoca hoje para falar do Alentejo e das palavras escritas.
Não tarda a que se solte a poesia…
E mais uma vez as palavras a oferecerem rosto ao sentir da terra que me ofereceu berço; as palavras que cantam o espaço e o tempo de onde sou.
Depois, o copo de vinho tinto, as castanhas assadas, o riso, as conversas e o desprender das cumplicidades dos amigos… também tecidas por palavras.
Deitei-me há pouco, o iPhone pisca e leio palavras de amor que me enviaste. Sorrio, o dia foi exactamente como tu disseste pela manhã que seria: brilhante.
Tu dizes que eu brilho sempre para ti mas eu acho que o meu brilho é consequência directa de te ter na vida e de sentir tantas vezes as tuas palavras.
Há dias como o de hoje, que parecem trazer-nos horas maiores do que qualquer sonho, mesmo os mais ousados.
E as horas trazem palavras como expressões de um sentimento único: o amor.
E ao amor nada resiste, nem os impossíveis.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

AS MINHAS MÃOS


Entrego-te as minhas mãos
Mães de carícias
Mãos da genética de um amor sem quanto
Morada das bênçãos colhidas dos berços que embalaram anjos

Entrego-te o meu riso que tão bem sabe suplantar o pranto
Estes lábios que vestiram beijos em corpos singulares…
Guardiões de almas de ouro e de diamante

Entrego-te as palavras
Um eterno sim
E este ser que nunca se resigna e nada vê distante

Entrego-te o dia
A noite
O colo que será a tua casa
As luzes
A festa
A magia…

E faço-te voar
Sem que para tal precises de qualquer asa

Entrego-te a vida que eterna se me colou ao ser
O céu que vejo em tudo e guardo em mim

Marco?
Célia?

Os nomes são meros detalhes de sonhos que de flores nos enchem os dias
De heróis que vencem o tempo e jamais terão um fim

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Mas o que importa a noite?


O relógio de casa permanece na hora antiga, mas também, o que é que isso importa?
O dia é o sol que o faz com independência da forma como contamos o tempo.
Estamos os dois sentados com as pernas cobertas pela saia que esconde a braseira acesa por debaixo da camilha.
Já é Outono.
As nossas mãos acariciam-se à medida que o creme que cheira a limão te tenta matar a “secura” provocada pelas semanas de hospital.
Soltam-se palavras, e claramente já realinhámos as memórias. Voltaram os dias mais felizes.
Depois vem o chá, as torradas, a compota de abóbora, e continuamos a conversar.
Parece que as palavras entre nós nunca se acabam e nascem da arte de saber cuidar; só o tempo faz alternar a definição de emissor e receptor.
E as palavras são apenas detalhes de um imenso amor.
Em breve irá anoitecer, o sol já se escondeu por detrás do palácio.
Mas o que importa a noite?
O sol em breve voltará a fazer o dia acontecer.
E nós nunca contamos o tempo… e jamais tememos a noite.
Nós somos assim fortes por estarmos juntos, e somos eternos, tal qual o sol e o nosso amor.
Pai, parabéns; o dia dos 74 anos passado em casa sabe bem melhor.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Basta tão-só querer muito


Há muito me habituei a escutar o vento que sopra forte ao redor de casa, por entre o silêncio que procuro e patrocina as palavras que vou escrevendo.
Às vezes paro e presto atenção ao ruido que se solta da lareira e que com o tempero da imaginação se converte rapidamente numa voz que sussurra estranhos ou doces segredos; talvez porque tudo pode ser muito mais do que o simples que é de verdade, tudo pode ser aquilo que queiramos que seja.
Basta tão-só querer muito.
Ontem enquanto recolhia a roupa que secara à janela e que eu estendera na véspera, caiu-me aos pés uma pequena folha de plátano com uma assumidíssima cor castanha, detalhe de Outono que o vento, que tantas vezes conversa comigo, fez subir até ao sexto andar do meu prédio e fez prender-se a alguma das minhas camisas.
Recolhi-a, apreciei-lhe a perfeição, e pousei-a depois no móvel da entrada junto a um dos presépios da colecção.
Continua lá depois de me ter proporcionado um serão com muitas palavras de Outono.
Os dias trazem detalhes que na aparência de um mero lixo que se sacode, são preciosidades que nos fazem sorrir, e nos oferecem palavras; da mesma forma que às vezes carregam as desilusões do nada que resulta de quem ou do que muito se espera.
A dor dos silêncios quando tanto esperávamos essas mesmas palavras.
Confesso que sobre estas incógnitas e surpresas que oferecem emoção ao acto de viver, gosto de me fixar nas primeiras e aproveitar a boleia de um plátano e do vento para eu próprio poder voar, sobre tudo e também por sobre as desilusões.
Não há muito tempo e num passeio de namoro ao fim da tarde, isso mesmo conversávamos sobre o tão pouco que é necessário para sermos felizes.
Basta tão-só querer muito.
E amar é querer até ao infinito.
Pensando bem, eu acho até que a folha de plátano com cor de Outono é um beijo teu que a noite me entregou por entre o desatino da saudade que sempre me oferece o luar… 

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

A Bardana e a Higiene Íntima Feminina


Ontem durante um almoço fiquei a saber que as senhoras que escrevem e opinam nos blogues da moda cobram em média 1.500 Euros por uma menção positiva a um determinado produto ou serviço, provando que as tias começaram por vender croquetes e carapaus com natas mas depois alargaram definitivamente o seu âmbito de acção, aproveitando a atracção que o seu estilo de vida exerce na populaça em geral, sobretudo nas candidatas a Miss Quinta da Marinha.
Um amigo que comercializa um produto destinado à higiene íntima feminina, solução fantástica de pH alcalino suave enriquecida com Bardana e sem parabenos, corantes e fenoxietanol, foi muito recentemente confrontado com esse facto.
Para que as autoras pudessem dizer que a Bardana lhe proporcionava uma fantástica sensação de frescura, era necessária a transferência da tal quantia; e possivelmente com gorjeta até seriam capazes de dizer que o tal produto até põe os bidés a cantar jazz e a bater palmas.
Ora perante este facto, apraz-me dizer desde logo que nem todos os blogues são iguais e que eu jamais recebi um cêntimo por ter dito bem do que quer que seja ou de quem seja, nomeadamente dos meus amigos a quem expresso elogios nos textos que vou escrevendo e publicando nos dias dos seus aniversários.
É tudo gratuito e natural, e como diria o grande e inimitável Jorge Jesus:
- “Limpinho, limpinho…”
E depois, e para que o meu amigo não possa ficar órfão de menção num blogue, ofereço-lhe este tempo gratuito no Pomar, mas com uma desvantagem clara em relação às senhoras que falam das carteiras Chanel, dos implantes de pestanas, dos penteados e das roupas da moda; é que eu percebo tanto de higiene íntima feminina como da cultura da beterraba ou da exportação de aglomerados de plástico.
Mas se o meu amigo me garantiu ontem enquanto nos refrescávamos nós com uns magníficos gelados do Santini (e o de Ananás da Ilha de São Miguel é realmente fantástico – menção gratuita, espontânea e natural da minha parte) de que a Bardana é excelente e refresca, quem sou eu para duvidar de tal facto.
Amigas leitoras avancem já todas em força para o consumo e utilização da dita Bardana.
E já agora deixo uma outra sugestão: se puderem depois passar pelo Santini, comam um geladinho porque a frescura a 360 graus é outra coisa. 

domingo, 2 de novembro de 2014

Tu teces as manhãs em que me apetece cantar


Espreito o Rupert Everett a desafiar a Julia Roberts para dançar ao som the “I say a litle prayer for you”, numa batida que reinventa a famosa canção da Dionne Warwick, e naturalmente alinho a minha voz com o som que se solta do i-Pad.
Há manhãs assim, em cujo despertar parece insistir em querer prolongar os sonhos da noite, inundando-nos dos melhores pensamentos naquele instante em que abrimos os olhos e nos espreguiçamos alarvemente em todo o esplendor dos lençóis brancos que ainda cheiram ao aroma campestre do detergente.
E às vezes acabamos por saltar da cama a cantar.
Acho que dormi toda a noite entrelaçado nos teus beijos, senti o tom quente dos teus braços nos meus, e dormi embalado pelas tantas palavras que se soltaram de nós naqueles instantes em que a lua chegou para nos alumiar na generosidade e na ousadia de substituir o sol.
Guardei detalhes, sorrisos, respirares, desabafos, segredos, revelações… e o teu olhar foi hoje o primeiro pensamento por entre a consciência de acordar e sentir o dia.
Fui todo eu quem soltou o teu nome entre o mais doce espreguiçar.
E depois, o café, o Bolo Lêvedo torrado, a compota… e a Dionne Warwick a puxar-me para cantar.
Há manhãs assim…
E eu já não consigo imaginar uma manhã em que tu não sejas o primeiro pensamento do meu despertar.  

sábado, 1 de novembro de 2014

Bruxas e autoproclamados santinhos


Detesto bruxas, e o inevitável convívio diário que a vida me impõe que tenha com elas, leva-me a quem nem morto as celebre em qualquer noite especial dedicada ao efeito.
Sim, porque as bruxas andam por aí em todo o lado, sem nome, filiação ou género específico, a voarem sem vassouras por sobre a inteligência humana; sem nunca sequer conseguirem pousar para lhes tomar um arzito que seja.
Se o diabo veste Prada, as bruxas vestem qualquer marca, e até pode ser a Zara, porque acham que tudo lhes assenta bem aos corpos espremidos em horas de ginásio e toma de diuréticos que as tornam escravas dos mictórios da humanidade.
Acham-se lindas, quando algumas são mais feias do que bater na mãe; e não fosse o gloss que aplicam nos lábios mais ou menos retocados com bótox, e também nenhum brilho seria emitido pelas suas bocas, já que as palavras, por muito que se esforcem, são mais baças que as entrevistas da Teresa Guilherme no confessionário da Casa dos Segredos.
Porque mesmo vestidas de Vogue, as bruxas não conseguem travar os arrotos da natureza que abunda em si: o correio dos leitores da revista Maria.
Por isso, o mais longe que seria capaz de ir numa noite de 31 de Outubro, era partir-lhes uma abóbora nas suas cabeças de pedra onde têm os olhos incrustados, aproveitando depois o recheio das ditas (abóboras) para sopa ou compota.
No lado oposto, confesso, também não acho muita graças a santos, sobretudo aqueles que se “auto canonizam” a um ritmo quase tão acelerado quanto o que o Vaticano utiliza para colocar os seus Papas nos altares.
Essas criaturas que têm uma tendência natural para conjugarem virtudes na primeira pessoa do singular, mas de uma forma tão marcada e tão destorcida da realidade que ganham automaticamente o sufixo “inhos”; acabam por ser santinhos mas totalmente alinhados com o pior que descrevi das bruxas voadoras.
Os extremos tocam-se nos pontos reconhecidos como os piores da vaidade humana.
E aqui, é como se a frequência das sacristias e o convívio com o cheiro a mofo de qualquer arcaz bastassem para nos fazer bons, e funcionasse como um caldeirão onde borbulha essa poção magnifica feita de infinitos méritos e virtudes; e os santinhos enfiam-se todos como piolhos na celebração do dia de hoje.
Assim, entre as noites e os dias que a vida me disponibiliza, o que gosto mesmo é de esquecer bruxas e santinhos, e celebrar com os amigos, muitos e bons, amigos colegas de trabalho, amigos amigos, amigos família, etc.; aproveitando todas as horas para estar bem e construir um pouco de céu, aqui na Terra, porque o outro a seu tempo chegará e por certo sem ser por autoproclamarão da minha parte ou por decreto assinado por Homens, por muito importantes que eles sejam.
Por estes dias de Outono, venham então os amigos, os abraços, as gargalhadas, as castanhas assadas e as Bolas de Berlim…
E o céu assim me acontece porque quem tem fé não pode gostar de bruxas e santinhos.