sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Salazar engarrafado


O mau nunca deverá servir para aliviar a carga negativa do péssimo, e muito menos para legitimá-lo.
E por isso, e por muito mal que vá a nossa democracia e por muito graves que sejam os ataques ao nosso estado social, jamais aceitarei que isso sirva de mote para tornar Salazar um herói nacional.
Sabemos que a memória é curta, mas por favor, garantam que nela reservam espaço para recordar que o ditador que governou Portugal durante meio século cultivando a pobreza e a desigualdade, o homem que nos privou de toda e qualquer forma de liberdade, o indutor da mais estúpida guerra que feriu de morte uma geração de homens e as suas famílias, seja sempre recordado pela verdade do seu ser: um imbecil, um hipócrita e, sobretudo, um assassino, traidor da pátria e da liberdade que aos Portugueses assiste.
Vem esta minha reflexão a propósito do registo de duas marcas de vinhos, “Terras de Salazar” e “Memórias de Salazar”, que alguém da zona de Santa Comba Dão quer colocar no mercado.
Absurdo, e no mínimo, de muito mau gosto.
Poder-me-ão dizer que a proibição do registo destas marcas comerciais é a violação da liberdade de alguém que entende colocar estes nomes ao vinho. Não o vejo assim. A consciência nacional terá sempre legitimidade para se sobrepor e julgar actos individuais.
Sobre Salazar, e porque de bebidas falamos, não resisto a partilhar convosco, uma parte da carta por ele enviada ao presidente da Coca-Cola, recusando em 1962, o lançamento desta bebida no nosso país:
«Sei perfeitamente que o se­nhor nada tem a ver com vinhos, nem com sumos de fruta e é bem por outra razão que – apesar das excelentes relações que mantemos, o senhor e eu, e que datam da época em que repre­sentava a Fundação Rockefeller e não sonhava sequer em fazer parte da Coca-Cola – sempre me opus à sua aparição no mercado português. Trata-se daquilo a que eu poderia chamar a nossa paisagem moral. Portugal é um país conservador, paternalista e – Deus seja louvado – atrasado, termo que eu considero mais lisonjeiro do que pejorativo. O senhor arrisca-se a introduzir em Portugal aquilo que eu detesto acima de tudo, ou seja, o modernismo e a famosa efficiency. Estremeço perante a ideia dos vossos camiões a percorrer, a toda a velocidade, as ruas das nossas velhas cidades, acelerando, à medida que passam, o rit­mo dos nossos hábitos seculares.»
O louvor da miséria a emergir na paisagem moral de um país que se opõe ao modernismo. O verdadeiro retrato de Salazar.
Por mim, garanto-vos, jamais beberei ou brindarei com um vinho de nome Salazar nem que a sua qualidade seja expressão de um néctar dos Deuses.
Venha antes Coca-cola, mesmo Diet.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

As novas versões do presépio.


Há dias tive oportunidade de passear no centro de Madrid, e entre a surpresa e a desolação, senti como a movida foi irremediavelmente substituída pela indisfarçável pobreza.
Entre a Chueca e a Puerta del Sol, passando pela Gran Via, respira-se o mesmo ar do nosso Rossio e, suponho, da Praça Sintagma, em Atenas.
Há centenas de pessoas sem-abrigo buscando os sítios que mais as possam proteger do frio, competindo em número com gente que enverga coletes reflectores publicitando a sua disposição de comprar ouro a bom preço, abutres sem escrúpulos pousando sobre os restos da miséria dos que definham.
E os grandes armazéns e casas comerciais, ali mesmo ao lado, já têm luzes e falam de Natal.
Mas se o Natal é Cristo, e se pela minha fé, Cristo está onde está o Homem, não tenho dúvidas de que neste Natal, na nossa Europa da 4ª divisão, Cristo está aqui enrolado em cobertores e edredões sujos num presépio com o patrocínio de um Herodes chamado austeridade, morrendo de fome e à mercê da generosidade de uns quaisquer “pastores” saídos de alguma ONG ou Banco Alimentar.
Mais revoltado do que triste, apanho um táxi de volta ao hotel e as notícias em Castelhano que o auto-rádio vai veiculando, não deixam dúvidas: Jesus morre aqui, assim, à fome nas ruas das nossas cidades, ao mesmo tempo que é assassinado friamente em Gaza pelas mãos daqueles que só conseguem perspectivar um holocausto quando estão na posição de vítimas.
Subo ao quarto e pego no jornal que recolhi no aeroporto e que a curta viagem entre Lisboa e Madrid não me permitiu ler.
Em destaque, a notícia: “O Papa afirma em livro que não havia animais no sítio onde Jesus nasceu”.
Como vai obstinada a cruzada germânica contra os ruminantes. Primeiro, a outra matou-nos as vacas gordas, e agora o Sumo Pontífice mata-nos a vaca do presépio!
Como católico, permita-me Santo Padre que lhe diga, que hoje o mundo, mais do que uma rigorosa perspectiva histórica de Cristo, necessita de uma perspectiva social activa e dinâmica que não tenha medo de ferir sensibilidades de natureza política e económica, e defenda sem cessar todos aqueles que mais sofrem.
Para esta perspectiva, ajudará, como sugere o povo, que nos “montemos” nas botas dos que são vítimas.
E que tal começar por descalçar esses “sapatinhos” Prada?

sábado, 24 de novembro de 2012

A minha noite perfeita nascida dos afectos


Um dia, pelo impulso da amizade e por imposição da memória, nasceu este Pomar das Laranjeiras, alimentado pelas palavras que brotaram dos dias perfeitos nascidos dos afectos.
E por relatos, crónicas e pedaços da memória; de amor, fé, alma, querer e muito Alentejo, se escreveram as enormes e fortes cumplicidades que nos foram congregando numa festa maior, uma festa de amigos reforçada a cada parágrafo partilhado.
E na noite em que o Pomar se fez livro, vieram dezenas de amigos, os presentes e os ausentes que se quiseram fazer presentes, para de afectos tornar perfeita, uma noite nascida de encontro aos meus melhores sonhos.
Obrigado pelos vossos sorrisos, pelos vossos olhares entregues à cumplicidade com o meu, muito obrigado pelas vossas palavras, os vossos abraços e os vossos beijos…
Só convosco sou maior, e de perto de vós jamais quererei partir.

sábado, 17 de novembro de 2012

A Rua de Três


É algo estreita, a rua onde eu nasci, e em metros de comprimento não terá mais de cem.
A meio, no trinta e quatro, com entrada por uma porta encimada por um pequeno arco de pedra, fica num primeiro andar, a casa onde vivi os meus primeiros dezasseis anos de vida. De 1966 a 1982.
Quem desce da Praça, por esta rua chega ao Mercado, e talvez por isso, muitos vizinhos faziam daquele espaço, então ao ar livre e de bancas de madeira, o seu ganha-pão: a prima Hermenegilda que vendia brinhol (farturas) numa barraca de madeira, uma vizinha que fazia e comercializava bolos, a família Pereira (“Os Barateiros”) que na nossa rua tinham uma retrosaria e um pronto-a-vestir e que nos mercados vendiam roupa, e também a vizinha Maria e o Sr. António Garcia (“O Laranjal”) que tinham um lugar de frutas e legumes um pouco abaixo da minha casa.
Havia também duas mercearias, a da D. Maria da Assunção e, a minha preferida que era a do Sr. Carola, uma padaria que tinha uma funcionária simpática de nome Maria Eugénia, a sapataria do Sr. Cabral onde também trabalhava um sapateiro de S. Romão, o Sr. Zé, e uma loja de electrodomésticos que pertencia ao Sr. Farelo.
Em qualquer destas lojas, a porta fechada não era sinal de ficarmos impedidos de comprar, pois batendo à porta dos proprietários, eles sempre tinham a simpatia de nos vir atender, fosse a que horas fosse.
Havia também duas barbearias, a do Sr. Marques (“O Sevilha”) e a do Sr. Boné, este último mais simpático para nós pois o seu concorrente era mais velho e com menos paciência para as nossas brincadeiras, insistindo sempre em nos roubar as bolas.
A barafustar com as nossas brincadeiras, também contávamos sempre com a D. Palmira, que passava os invernos em Lisboa, mas que chegava sempre a tempo de partilhar com a vizinhança os muitos frutos da inesgotável nespereira que tinha no quintal.
Na nossa rua também estava a entrada para o Hospital e por isso, muito de perto convivíamos com as lágrimas dos nossos conterrâneos, as de tristeza em caso de doença ou acidente, e recordo-me sempre dos acidentes muito graves que ocorriam nas pedreiras, e também as de alegria pois as salas do internamento da maternidade também davam para o nosso território.
Sempre alerta estavam as freiras-enfermeiras nossas vizinhas e também a D. Jerónima que vivia sozinha e que passava os dias à janela do seu primeiro andar, que tinha por baixo uns armazéns de mobílias dos seus sobrinhos. Nada se passava na rua que ela não desse conta em tempo real, não escapando jamais alguém que discretamente ousasse “roubar” uma planta do verdadeiro jardim que a vizinha Gertrudes tinha à porta e que quase a impediam de entrar no seu pequeno rés-do-chão. A ela, e também à sua gata de nome Cassilda que juntamente com o papagaio que o Sr. Ezequiel tinha à janela, eram grandes companheiros da pequenada.
Muito simpático para nós era também o vizinho Cristóvão Grilo que vivia na casa imediatamente abaixo da minha e que tinha a profissão de estafeta. Saía de Vila Viçosa no comboio das seis da manhã, trazia as encomendas e tratava dos assuntos dos Calipolenses tendo por base, em Lisboa, uma velha carpintaria na Baixa, na Rua dos Douradores, regressando depois a Vila Viçosa no comboio que chegava à meia-noite. Entre a estação da CP e a sua casa, transportava as encomendas num velho carro de mão que tinha uma roda metálica tão barulhenta que com o seu som até servia de aviso horário:
- Tens de te ir deitar. Já é tão tarde que até o Vizinho Grilo está a chegar.
Os serões não eram em geral longos, excepção às noites da festa de São Pedro e às imediatamente anteriores em que nos juntávamos para fazer as flores de papel que decorariam a nossa rua. E sempre, sempre em segredo, pois com as ruas vizinhas havia uma eterna rivalidade na hora de erguer as cordas com o resultado do trabalho.
Não fechávamos as portas à chave e em geral abríamos os postigos, gritávamos os nomes dos donos das casas e entrávamos, fosse para pedir hortelã, salsa ou coentros, para acudir em alguma doença ou então para comentar algum assunto de âmbito mais privado.
E assim, jamais nos sentíamos sós. De verão sentávamo-nos todos à porta a ouvir as histórias que a Avó Bacalhau nos contava, e de inverno, se alguém não se sentisse bem na sua casa, havia sempre uma cadeira a mais para os amigos ao redor das nossas braseiras.
De se aquecer também tratavam os homens quando entravam no Café Restauração, ao cimo junto à Praça, ou então na Taberna do Sr. Mamede que ficava na esquina com o Rossio e o Mercado.
Quando de lá regressavam vinham de facto quentes, quer de corpo quer de ânimo…
E ao sabor das estações e com brincadeiras alocadas a rapazes e raparigas, também nós brincávamos com os da nossa idade. Recordo-me de sermos muitos e muito unidos: o Tói, o Zé Carlos, a Vitorinha, a Lavínia, a Jesus, a São, a Nini, a Manuela, a Georgina, o Paulo, e até a Candinha Cigana, que com os seus pais vivia na nossa rua e que só nos lembrávamos que era cigana porque a sua mãe usava saias compridas.
Para além dos temperos para a açorda, e no nosso caso, dos cromos de colecção e dos berlindes, pouco mais de material tínhamos para partilhar.
E talvez por isso, tivéssemos mais disponibilidade para nos especializarmos e apostarmos nos afectos.
Foram sempre eles que tornaram mágica a minha rua, a minha eterna rua.
Ou não fossem os afectos, o pão da alma.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Rilhafoles



Meus queridos amigos, convido-vos hoje a entrar comigo no “Politicário Nacional”. Apertem os cintos, coloquem os óculos para a visão tridimensional, abram o corpo e a alma à aventura, predisponham-se para a descoberta e… mergulhemos na análise das espécies habitantes do ecossistema muito próprio designado por Portugal.
Com independência da sua localização no espectro ideológico, o político português oscila o seu comportamento entre a afabilidade e a indiferença. É capaz de num dia ir ter connosco a um mercado para nos dar beijos, abraços, sacos, canetas e aventais, e no outro dia passar por nós sem nos conhecer, assumindo-nos em muitos casos como gente de potencial perigo, rodeando-se por isso de uma segurança extrema que impede qualquer contacto físico ou verbal entre nós.
Com uma auto-estima muito acima da média, estes seres afirmam com frequência que a sua ausência provocaria o caos e pode até acontecer que no momento em que decidam retirar-se, imponham que a sua substituição seja assegurada por mais do que uma pessoa, pois a soma dos cérebros pode ser que permita a aproximação à sua magna inteligência.
É também esta desenvolvidíssima auto-estima que faz com que cobrem fortunas pela sua actividade, sendo muito frequente que a mediania das suas posses na fase de pré-política se transforme numa importante fortuna após apenas alguns anos de intervenção pública.
Desprovidos de memória, será sempre uma perda de tempo, qualquer questão sobre afirmações ou actos seus no passado, período sobre o qual têm sempre uma desfocada visão. Pelo uso ou não das lentes da marca “Poder”, poderão ver o presente como óptimo ou péssimo, mas o enfoque é sempre num futuro que com eles será perfeito.
Independentemente do passado, do presente ou do futuro, o seu desenvolvido instinto de sobrevivência poderá sempre induzir o recurso ao desvirtuar da realidade.
Da análise da sua fisionomia é fácil de observar que têm a boca maior do que as mãos, e isso explica o facto de serem muito desenvolvidos no discurso, infinitamente mais do que na acção, necessitando por isso frequentemente, e sempre que se imponha acção, de se rodearem de um número muito elevado de colaboradores e fiéis seguidores.
Acasalam preferencialmente com elementos da mesma classe e reproduzem-se com eficácia, protegendo sempre as suas crias e assegurando-lhes futuro com recurso a armas como os Decretos-Lei, as Portarias ou os Despachos.
À semelhança dos seus antepassados do Vale do Côa, adoram perpetuar-se na pedra, não resistindo a gravar placas que colocam junto a rotundas, viadutos, auto-estradas, túneis, etc. Mas, ao contrário dos seus avós do Paleolítico, já não desenham Cabras Pirenaicas, limitando-se a escrever os seus nomes juntos com as siglas DR, ENG ou PROF, as quais, em algumas situações, mais do que noutras, fazem algum sentido.
Alerto-vos para o facto das descrições aqui deixadas poderem ser confundidas com sintomas de quadros psicóticos como a Esquizofrenia, a Doença Bipolar, os Transtornos obsessivos, o Delírio ou as Alucinações. Será pura coincidência pois caso contrário este Ecossistema seria um manicómio.
Ou será que…

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Reformados de terceira geração


Faço-me ao sul pela Ponte 25 de Abril, e passada a Marateca com destino ao Algarve, só eu e a GNR circulamos na A2. Não fora o facto de os agentes estarem aqui não para me proteger mas para me caçar, e diria que estaria próximo da sensação da Sra. Merkel ontem em plena Marginal.
E é fácil lembrar-me da dita pois não consigo sintonizar um posto radiofónico em que não se esteja a divagar sobre a recente visita da Senhora a quem hipotecámos este nosso T0 com vista para o Atlântico, e que de caminho na hipoteca nos levou também as nossas vidas.
Ouço-a falar dos bravos navegadores dos anos de quinhentos, dos Heróis do Mar, mas essa conversa tem para mim o mesmo valor prognóstico de um algodão impregnado em álcool e a massajar o músculo: vem lá picada dolorosa.
Não sei se pelo elevado valor do juro que estamos a pagar, o que é certo é que parando na Área de Serviço de Aljustrel tive a oportunidade de pela primeira vez na vida, ter uma Área de Serviço só para mim. Confesso até que saí do carro na expectativa de encontrar um letreiro do tipo: “Fechada para obras. Prometemos ser breves”…
Depois de tomar então a minha Bica com estatuto de cliente raríssimo, faço-me novamente à estrada e ainda a tempo de ouvir o noticiário da hora certa.
Ainda e sempre a Merkel, a austeridade, as previsões catastróficas da economia, e também as declarações de um Secretário de Estado das Finanças que a propósito da urgência da revisão do “deveres” do Estado Social ilustra os seus argumentos com uma cena com que separou recentemente na sua rua.
Conta o ilustríssimo que uma idosa acompanhada por uma outra mulher mais nova, se cruzou com uma terceira mulher a quem cumprimentou e a quem apresentou a neta, que a acompanhava, referindo que a mesma se tinha reformado recentemente. Conclui o Governante que é impossível que o Estado tome conta de três gerações de reformados.
Pasmo perante a eloquência da criatura, com um discurso que se aproxima em termos verbais da elegância da pose e do andar “escarchado” da Merkel com os seus casaquinhos assertoados e a três quartos que cada vez mais lhe acentuam a proeminência da adiposa cintura.
Mas, pasmar porquê?
Se somos vítimas das Novas Oportunidades e do saldo de licenciaturas e pós-graduações de graduações inexistentes, não espanta que haja um Secretário de Estado que só consiga dar exemplos ao nível do que aprendeu na catequese e nos escuteiros quando lhe diziam por exemplo que uma boa pessoa é aquela que não tira burriés do nariz para os colar ao fundo da cadeira.  
Acredito que para este senhor, Portugal seria um paraíso se tivesse menos Portugueses, mas já agora dos que não descontam. Como seria confortável para o Estado que a morte nos viesse atapetar a saída do mercado de trabalho após dezenas de anos a pagar impostos a níveis escabrosos.
Mas para além do mais, que exemplo tão mal escolhido e tão pouco solidário para com os seus colegas, pois os únicos cidadãos que em Portugal e por altura das suas reformas, correm o “risco” de ter vivos os avós, são os da sua classe, os políticos.
A imbecilidade e a falta de sentido de oportunidade, a desabrocharem da mais profunda ausência de bom senso, adubada pela pérfida incompetência na interminável saga em que o Estado Político vai acabar por asfixiar o Estado Social.
E se é verdade o que o que a Sra. Merkel afirmou relativamente ao facto da Economia ser 50% de Psicologia, esqueçam lá isso dos deficits e dos rácios económicos. Nunca lá chegaremos mesmo que os outros 50% funcionem.
É que Psicologia sem cabeça, nem por milagre.

domingo, 11 de novembro de 2012

S. Martinho


O Alentejo agradeceu a verde e atapetando-se de erva fresca, a bênção destas primeiras chuvas de um Outono que matou a seca que parecia eterna.
E nas ribeiras já cheira a prenúncio do melhor poejo… asseguradas temos de aromas, as nossas açordas por altura do Natal.
Vestido de fresco, o campo ainda brilha mais intensamente nesta manhã que combina sol forte e frio, mas que comprova pelo brilho do astro-rei, como perpétuo parece ser este verão breve nascido da generosidade do soldado romano Martinho ao partilhar a sua capa com um mendigo que se cruzou algures no seu caminho.
O frio chama as castanhas, e as mãos arrefecidas ao abandonar o conforto da camilha que guarda a braseira de picão, agradecem o quente da casca que depois de assada salta simples e a um sonoro “xram”, antes da deglutição do miolo do fruto nos transportar o quente até ao mais recôndito da alma.
A castanha assada, e a jeropiga, a água-pé ou o vinho novo.
O fruto e o néctar, estado líquido da etílica alegria que no passado estio, o sol cravou nas uvas nascidas das cepas que agora descansam na festa castanha do pré-adeus das parras.
E de S. Martinho, castanhas e vinho, generosidade, calor e alegria, se faz a tarde perfeita que nos põe aqui a rir, a olhar positivo para os dias de um futuro que nunca deixaremos que nos derrote, uma tarde que é a festa da amizade e em que brindamos:
- À vida. À nossa!

sábado, 10 de novembro de 2012

Fome polémica


Há alguns anos em Vila Viçosa, uma abastada senhora da classe dos latifundiários, lamentou-se comigo pelo facto de já não poder “enobrecer” o seu Natal distribuindo camisolas interiores pelos pobrezinhos, pois o facto de lhes ver a casa composta com sofás, luz eléctrica e televisão, deixava-a pouco à vontade para o fazer.
Os pobres deram sempre muito jeito para aliviar as consciências das “Supico Pinto’s” da nossa terra que com a prática da “caridadezinha” pagavam as suas contrições com o proveito próprio adicional de sobre o palco da miséria alheia, reforçarem ainda mais o poder e a sua superioridade na escala social.
Enquanto os seus maridos se entretinham a fomentar a miséria em sede de poder político e económico, estes anjos disfarçados aplicavam os seus cuidados paliativos com a perversidade de nunca, mas nunca, darem um passo em frente para matar a doença pela raiz.
Surge-me esta reflexão na sequência das recentes declarações da presidente do Banco Alimentar contra a Fome, e embora esta mentalidade “Salazarenta” persista infelizmente no nosso país, recuso-me a acreditar que Isabel Jonet tenha deixado cair o véu sobre essa sua hipotética medonha verdade.
O seu trabalho à frente da instituição que dirige dá-lhe muito crédito que quanto a mim não pode nem deve ser esmagado por umas infelizes declarações, perversas no assumir da inevitabilidade da rendição à pobreza mas que não deixam no entanto de alertar para a perigosa ilusão de riqueza em que vivemos nos últimos anos, ao ritmo do encantamento do crédito bancário.
Em última análise, as instituições estarão sempre acima de quem momentaneamente as encabeça.
Conheço o Banco Alimentar, já ali estive como voluntário, reconheço-lhe inúmeros méritos na forma como actua, por exemplo ao nível da interligação entre o desperdício das empresas produtoras de bens alimentares e a carência de bens em instituições que apoiam as famílias com dificuldades económicas.
Ainda hoje vi num jornal o abandono de carapaus em praias Portuguesas, apenas porque falhavam em centímetros as normas da União Europeia, o que é demasiado perverso num país com elevadas carências alimentares.
“Secar” pois o Banco Alimentar em vésperas de uma campanha tendo por base as infelizes declarações de Jonet, ampliadas no pérfido coro das lamuriantes cigarras carpideiras que jamais foram capazes de pagar um papo-seco a um seu semelhante, não me parece minimamente adequado até porque tal terá por certo um impacto negativo na “mesa” de muitas famílias.
A presidente que se explique e retrate, e o Banco que siga o seu trabalho em prole de quem precisa.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Coronéis


Trinta e cinco anos depois e num assumido ímpeto saudosista, a Gabriela abriu uma excepção na minha alergia crónica, e reconciliou-me com as telenovelas.
Estranho a cor da imagens de agora, sinto a falta da Sónia Braga, do Armando Bogus e do Paulo Gracindo, não acho tanta piada a este Tonico Bastos que não penteia o bigode, o Bataclan da antiga Maria Machadão era mais rico em discrição, faz-me confusão o facto da Jerusa já não ser morena, desagrada-me ter de esperar mais de uma hora depois de terminado o Telejornal, mas o certo é que não resisto à música do genérico e mal a Gal Costa começa a cantar, lá me componho no sofá e… Ilhéus e Jorge Amado, aí vou eu.
Na versão de 1977, o actor José Wilker representava o jovem político reformista Mundinho Falcão, o homem das liberdades que lutava de forma brava contra os terríveis coronéis, os poderosos donos da cidade, feitos assim pela força económica do cacau.
Depois de há alguns anos ter protagonizado Roque Santeiro, o idolatrado falso Santo e Milagreiro de uma cidade do interior do Brasil, este actor encarna agora o personagem do Coronel Jesuíno, aquele temível ser que traído pela mulher, a mata a tiro quando ela está na cama com o dentista.
Ontem, após o episódio da Gabriela e quando já assistia na RTP1 ao programa Prós e Contras que colocou frente a frente parlamentares de todo o nosso espectro político a discutir o que cortar no Estado Social depois de já terem decidido um aumento brutal dos impostos, tudo muito ao estilo de paga a rifa e o prémio logo se vê, não pude deixar de pensar como a evolução das personagens atribuídas a José Wilker, se desenvolve em paralelo com a dos “nossos” líderes.
Carregados de ideias novas e impulsionados pela recente liberdade, respiravam esperança nos idos anos de setenta.
De bolsos cheios pela entrada na Comunidade Europeia, operaram os milagres económicos feitos de alcatrão, rotundas, Expo’s, Euro’s e cursos de formação, e viraram “santos” colocados no altar da pátria por maiorias relativas e absolutas.
E hoje?
Hoje, por incompetência e pela pérfida supremacia dos elevados interesses privados que esmagaram há muito os públicos deveres, emergiram como cruéis coronéis que nos tiram a vida e nos matam em todos os prazeres, dos mais pequenos aos maiores.
E se tiverem dúvidas sobre este novo “estatuto” dos nossos líderes, olhem para o vosso recibo de ordenado, para as contas da luz, da água, do combustível e do supermercado, e vejam se não está lá “escarrapachada” a frase que o Coronel Jesuíno ferozmente repetia para a sua mulher:
- Hoje, vou-lhe usar!  
E tal como a D. Sinhazinha, acabamos invariavelmente… “usados”.

domingo, 4 de novembro de 2012

Fábulas


Faço-me à estrada no meu carro de fabrico alemão depois de ter parado e atestado na latina petrolífera Repsol, da Área de Serviço de Estremoz, e de mais uma vez ter confirmado como no painel da bomba, aumenta velozmente essa diferença numérica entre litros e Euros.
No sentido Elvas – Lisboa, na tarde de sábado, tenho uma auto-estrada só para mim, o que me dá a sensação de que esta Parceria Público-Privada terá assentado mais em interesses privados do que públicos. O que também não me parece uma “Socrática” novidade.
Bem… uma auto-estrada só para mim, é força de expressão, pois chove tão copiosamente que no breu das seis da tarde, neste anoitecer antecipado, tenho por companhia dezenas de sapos que saltam à frente da viatura, o que dá um ar “Hitchckoquiano” ao meu passeio, observado também da berma da A6, ali algures entre Evoramonte e Évora, por um atento coelho em pose imponente, que me mira enquanto eu avanço pelo asfaltado tapete que rasga a minha planície.
Tapete, que diga-se de passagem, é um luxo muito caro, pois chegado ao Montijo e sem contar com a portagem da Ponte Vasco da Gama, são cerca de quinze, os Euros que me são descontados da conta bancária.
Passo o Tejo, faço-me à Segunda Circular, estaciono no Colombo, e em pouco mais de um quarto de hora, estou sentado na minha Catedral / Clínica, submetido a mais três doses de terapia anti-depressiva feita do gritar dos golos do Glorioso, com o alto patrocínio dos doutores Lima e Cardoso.
Mesmo sem La Fontaine, que linda fábula a da minha tarde de ontem no regresso a Lisboa.
Uma coisa porém vos garanto:
- Mesmo a ser observado atentamente por um Coelho, apesar de estar a pagar caras as Parcerias Público-Privadas, apesar de sentir que são os alemães que fabricam os motores que nos conduzem nesta incrível noite de breu… juro-vos que jamais engolirei os sapos que se me atravessem no caminho e que me impeçam de gritar VITÓRIA, no final.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Saudade


Fazem eco os nossos passos na velha calçada, quando caminhamos, romeiros da saudade, nas ruas desenhadas pela pedra que com nomes e rostos, preserva e eterniza pela força do querer, aqueles que um dia vimos partir.
Há ciprestes a desenhar horizontes, aquém e além muralhas, neste sacro território à sombra da Senhora da Conceição, o eterno “quilómetro zero” da fé Calipolense.
Há gente, muita gente…
…e todos escrevem saudade na melancólica linguagem dos crisântemos.
As nuvens por sobre nós, oferecem ao céu infinitos tons de cinza, e de vez em quando, tímidas gotas de prenúncio de chuva, fundem-se camuflando as líquidas expressões da alma que afloram aos olhares que roubamos aos transeuntes, e que entregamos ao vazio, para que mais nítida se nos emerja a memória.
Tangem os sinos que repicam e dobram a finados.
E do alto do secular campanário, pela fé, nos fala Deus, a nós, saudosas Madalenas carregadas de perfumes na manhã de domingo de Ressurreição:
- “Porque procurais entre os mortos?”