sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Salazar engarrafado


O mau nunca deverá servir para aliviar a carga negativa do péssimo, e muito menos para legitimá-lo.
E por isso, e por muito mal que vá a nossa democracia e por muito graves que sejam os ataques ao nosso estado social, jamais aceitarei que isso sirva de mote para tornar Salazar um herói nacional.
Sabemos que a memória é curta, mas por favor, garantam que nela reservam espaço para recordar que o ditador que governou Portugal durante meio século cultivando a pobreza e a desigualdade, o homem que nos privou de toda e qualquer forma de liberdade, o indutor da mais estúpida guerra que feriu de morte uma geração de homens e as suas famílias, seja sempre recordado pela verdade do seu ser: um imbecil, um hipócrita e, sobretudo, um assassino, traidor da pátria e da liberdade que aos Portugueses assiste.
Vem esta minha reflexão a propósito do registo de duas marcas de vinhos, “Terras de Salazar” e “Memórias de Salazar”, que alguém da zona de Santa Comba Dão quer colocar no mercado.
Absurdo, e no mínimo, de muito mau gosto.
Poder-me-ão dizer que a proibição do registo destas marcas comerciais é a violação da liberdade de alguém que entende colocar estes nomes ao vinho. Não o vejo assim. A consciência nacional terá sempre legitimidade para se sobrepor e julgar actos individuais.
Sobre Salazar, e porque de bebidas falamos, não resisto a partilhar convosco, uma parte da carta por ele enviada ao presidente da Coca-Cola, recusando em 1962, o lançamento desta bebida no nosso país:
«Sei perfeitamente que o se­nhor nada tem a ver com vinhos, nem com sumos de fruta e é bem por outra razão que – apesar das excelentes relações que mantemos, o senhor e eu, e que datam da época em que repre­sentava a Fundação Rockefeller e não sonhava sequer em fazer parte da Coca-Cola – sempre me opus à sua aparição no mercado português. Trata-se daquilo a que eu poderia chamar a nossa paisagem moral. Portugal é um país conservador, paternalista e – Deus seja louvado – atrasado, termo que eu considero mais lisonjeiro do que pejorativo. O senhor arrisca-se a introduzir em Portugal aquilo que eu detesto acima de tudo, ou seja, o modernismo e a famosa efficiency. Estremeço perante a ideia dos vossos camiões a percorrer, a toda a velocidade, as ruas das nossas velhas cidades, acelerando, à medida que passam, o rit­mo dos nossos hábitos seculares.»
O louvor da miséria a emergir na paisagem moral de um país que se opõe ao modernismo. O verdadeiro retrato de Salazar.
Por mim, garanto-vos, jamais beberei ou brindarei com um vinho de nome Salazar nem que a sua qualidade seja expressão de um néctar dos Deuses.
Venha antes Coca-cola, mesmo Diet.

2 comentários:

  1. Obrigado amigo Francisco Caeiro, pela partilha de mais uma pertinente reflexão sobre a nossa memória colectiva. O tempo e o desespero da Crise tenta muitas vezes branquear ou maquilhar esses pedaços da nossa História mais recente.

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  2. Barreiros, hoje depois do jogo do calipolense, onde desempenhei as funções de bilheteiro,o que me impediu de ir ao lançamento do teu livro, encontrei o teu pai e dei-lhe os parabéns pelo teu livro (que tinha folheado dez minutos antes na "mao" do Lourinho)e pedi-lhe que me fizesse chegar um exemplar. Já o li quase todo pois leio o teu blog com muita assiduidade. Como não tenho o teu telefone quero pedir-te desculpa por não ter estado presente e agradecer-te por nos fazeres recordar tantas coisas da nossa infancia (o grupo sementes de esperança, a rua de três, os anechins etc..) mas, se me permites uma sugestão, devias fazer um post sobre um Homem que, na minha opinião, marcou a Vila e nos marcou a todos, nas missas dominicais, no Liceu, no grupo de jovens, nos escuteiros, na rádio, e... enfim na vida- o padre Zé Luís (o buda, o Démis Russus, o Bud spencer, etc...), ficam os parabéns e a sugestão.
    Um abraço
    Inácio Esperança

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