segunda-feira, 31 de outubro de 2011

No poupar é que está o ganho

Os especialistas em demografia estimam que durante o dia de hoje nascerá algures no mundo uma criança que fará com que a população mundial atinja o incrível número de sete mil milhões.
Sendo difícil de identificar com precisão o local onde ocorrerá esse nascimento, a Índia, país com níveis de natalidade muito elevados, surge como o berço mais provável para essa criança.
Se pensarmos que em meados do século XIX a população mundial era de aproximadamente mil milhões, vemos como o século XX foi explosivo em termos demográficos, ritmo que parece manter-se no século XXI pois desde que entrámos nos anos de 2000, a população já cresceu mil milhões.
Não deixa de ser interessante, a coincidência do nascimento deste habitante sete mil milhões ocorrer no Dia Mundial da Poupança, pois na ordem do dia está mais do que nunca, a existência e a disponibilidade de recursos que permitam qualidade e dignidade para a vida de todos os seres humanos do planeta terra.
Para essa qualidade nunca contribuirá a distribuição desigual da riqueza que vai alimentando o fosso entre ricos e pobres, quer se fale de pessoas ou de nações, tornando cada vez maior o escândalo da coabitação do desperdício e da carência.
E se ao nível das nações a nossa intervenção no combate à desigualdade carrega de algumas limitações, ao nível pessoal, esta consciência deve mover-nos à solidariedade e à partilha com os demais. Não faltam instituições credíveis para activamente fazermos esta partilha.
Em todo este contexto de desigualdade, choca-me o consumo e o desperdício sem pudor, sendo eu defensor da poupança, não no sentido do aferrolhar dinheiro debaixo do colchão, mas sim no contexto positivo da utilização racional dos recursos à medida das nossas reais necessidades.
Desde os anos da minha infância calipolense que fui treinado nesta atitude de poupança.
Através dos mealheiros de barro onde juntava as moedas, mais as pretas de tostões do que as brancas de escudos, que os tios, avós, pais e amigos me iam oferecendo, consegui tornar realidade alguns dos meus sonhos, e consegui sobretudo, aprender o real valor das coisas e de como, se lutarmos muito, temos fortes probabilidades de as conseguir.
Em Portugal, nas décadas da ilusão de riqueza pós integração europeia, perdemos o hábito da poupança, rotulando-a de fora de moda, e tornámo-nos hábeis no processo inverso: já não poupamos para adquirir algo, adquirimos algo e depois não nos poupamos ao pagamento de juros aos bancos para o pagarmos.
A competição e a afirmação pelo ter colocou-nos na espiral do consumo desenfreado e hoje uma criança já não necessita de desejar muito alguma coisa, pois ainda ela não pensou muito nisso, e já os seus pais a compraram para que ela não faça má figura na sua sala de aula junto aos filhos dos seus amigos e colegas de trabalho.
Este tique de novo-riquismo da não poupança será um dos maiores desafios que teremos de enfrentar no futuro, caídos das nuvens da nossa aparente riqueza, em plena gestão “troikiana” do nosso país.
Se quisermos evitar o descalabro das nossas finanças pessoais e evitar o consumo de anti-depressivos, será bom voltar a criar hábitos de poupança, e, diga-se de passagem, não nos fará mal nenhum.
Regressem os mealheiros, regresse a poupança e regresse sobretudo o bom senso.
Apesar de cada um de nós ser apenas um em sete mil milhões, há muito que nos compete a nós fazer, e a começar nas mais pequenas coisas.

domingo, 30 de outubro de 2011

Alpendres, orgasmos e … vinho verde

Estimulado por uma excelente imitação do actor Manuel Marques no programa Estado de Graça, não resisti a espreitar por esse cyber buraco da fechadura que é o YouTube, entrando por escassos momentos no mundo até então para mim desconhecido que é a Casa dos Segredos, verdadeiro “Estupidiário”, onde se encontram em cativeiro alguns exemplares da estupidez nacional, que ao que parece e para grande pena nossa, não estão em vias de extinção, estando pelo contrário em grande desenvolvimento.
Com um ar feliz, super divertido e sem a mínima expressão de incomodidade, há uma concorrente que demonstra desconhecer o que é um alpendre, durante uma aula de geografia em que lhe entregam um globo terrestre para o qual ela olha com o mesmo ar inteligente com que um jerico mira um palácio.
Saberá Deus em que outros globos ou bolas se empenhará ela em mexer com mais assiduidade e gosto!
Mas esta Miss Alpendre 2011 não é exemplar único e descobre-se mais tarde que todos os presentes nesta residência que tem paredes de vidro que são uma montra para Portugal inteiro, enfermam da mesma falta de cultura geral de nível mais do que básico.
A excepção é mesmo quando se fala de sexo, porque aí meus amigos e perante tantas lições de sapiência, o estúpido sou eu.
Após um brevíssimo trabalho de campo feito de contactos com alguns amigos que convivem de perto com estas espécies, ou melhor, que têm de conviver com elas nas suas actividades laborais de âmbito lectivo, concluo então que de facto estes seres não são excepção, são antes, a regra.
Apesar de não ter ainda obtido a respectiva comprovação cientifica, e perdoem-me por isso, sou então conduzido ao lançamento de uma teoria: por uma qualquer actividade cósmica anormal, o centro de coordenação dos organismos humanos está a passar do cérebro para os genitais.
A actividade cerebral está a sofrer uma atrofia na razão inversa da cada vez maior actividade genital, o prazer do conhecimento foi dominado pelo dos orgasmos múltiplos, intensos e variados e até as discussões e as tertúlias que tinham por base o pensamento e as reflexões, estão a ser substituídas por orgias e encontros na base do muito sexo.
Com a mesma facilidade com que antes se dizia:
- Vamos ali trocar umas impressões.
Diz-se agora:
- Vamos ali ter relações.
E até a frase “quando a cabeça não tem juízo, o corpo é que paga” está em vias de ser corrigida para a nova versão “quando o corpo não tem juízo, até a cabeça se apaga”.
E no meio disto tudo e olhando para o titulo deste post, perguntam vocês:
- E onde entra aqui o Vinho Verde?
- É simples e é para mim pois a outra malta alinha mais em Vodka. É para pôr uma garrafinha no frio e tê-la sempre à mão.
Não há nada como refrescar as ideias e estimular a cabeça, não vá este ataque cósmico potente ter foros de doença contagiosa.
Não é que eu menospreze o sexo, mas não me dava nada jeito perder a cabeça.
Não sei se a campanha que lançaram há alguns anos permitiu que salvassem o lince na Serra da Malcata, mas inspirado na dita, proponho:
- Salvem o cérebro na cabeça dos Homens.
É que com cérebro tudo faz mais sentido. Até o sexo.

domingo, 23 de outubro de 2011

João

As crianças temperam de esperança a nossa vida, e os seus olhares, o seu riso, os seus sonhos e ilusões, são o melhor e mais eficaz antídoto para as agruras que os nossos dias por vezes nos oferecem.
O segredo é sabermos sair da nossa cátedra de adultos e não ter vergonha de entrar no seu mundo que nos devolve sempre aos tempos em que fomos crianças, os tempos em que vivíamos munidos da força de acreditar, da coragem para galgar impossíveis.
O meu sobrinho João cumpriu hoje seis anos de vida e na festa que fez com os seus amigos, todos com meia dúzia de anos de idade, bebi e alimentei-me dessa magia, da cor e da alegria que gostaria jamais poder esquecer e sempre conservar em lugar cativo no mais íntimo de mim, tornando mentirosa a imagem exterior da carapaça carcomida pelo peso dos anos, marcados a rugas e cabelos brancos.
Pelo que vos conto, e ao contrário do que possam pensar, nesta minha relação com o João, relação de tio e sobrinho, é ele o meu mestre pelas lições de vida, energia e fé que sistematicamente se encarrega de me dar.
Quando o João diz por exemplo que a noite é má porque os sonhos não entraram, aprendo ou reaprendo a importância dos sonhos, e de como, quer as noites quer os dias, fazem sentido quando deixamos que os sonhos entrem e nos injectem vida e garra na nossa própria vida.
Ou quando o João chora porque descobre que nunca poderá saber contar os números até fim, no dia em que lhe explicámos que os ditos são infinitos e que atrás de um virá sempre outro, choro que é afinal dor do crescimento, porque crescer é ganhar a consciência do que é possível, e eu aprendo que o envelhecimento se trava mantendo os nossos objectivos muito para além do que ao mundo parece razoável, nos territórios que por vezes nos parecem ter a marca do impossível.
Neste primeiro domingo de verdadeiro Outono, terminada a festa do João, termino eu o meu dia na Igreja de Fátima em Lisboa, a ouvir à luz dessa arte suprema expressa nos vitrais de Almada Negreiros, o evangelho que fala na importância de amar, de amar os outros, de nos amarmos e amarmos a vida.
Ser criança, termos sonhos, ambicionarmos para além do óbvio e sabermos amar.
O que é que necessitamos aprender mais para sermos e vivermos felizes?

sábado, 22 de outubro de 2011

O povo unido

Numa entrevista a que assisti esta semana na RTP Memória, uma fadista pertencente a essa classe elitista dos intérpretes do fado de salão, manifestou o seu incómodo quando o entrevistador, o excelente profissional Eládio Clímaco, de uma forma perfeitamente apolítica, desabafava que o povo deveria ser mais unido.
Pelos vistos persistem as saudades do Estado Novo ou então o que persiste é a síndrome pós-traumática do PREC, esse momento da revolução em que o povo gritava com legitimidade e naturalidade que unido jamais seria vencido.
A semana decorre e no contexto das notícias emergem dois nomes: ETA e Kadhafi.
Após anos de atentados terroristas e de milhares de vítimas mortais, a ETA, o grupo separatista Basco, anunciou o fim das suas actividades, pondo um ponto final nessa guerra hipócrita que é o terrorismo, uma actividade que jamais ganhará legitimidade por mais nobre que seja a causa e o ideal.
Kadhafi, ditador, tirano, excêntrico e líder louco da Líbia, após décadas de ditadura e tirania, é barbaramente assassinado às mãos de populares, ficando o seu corpo exposto no chão sujo de um mercado, a fazer lembrar Mussolini há algumas décadas atrás pendurado num talho em Itália. Embora se compreenda a revolta e seja legitimo exigir justiça, um linchamento popular jamais poderá ser aceite como desfecho por mais cruel que seja o individuo em causa.
Nos dois acontecimentos desta semana, cessar-fogo da ETA e morte de Kadhafi, o que fez a diferença foi o povo.
Em Espanha, mais do que os políticos que fugiam sistematicamente a este tema controverso, foi o povo que sempre saiu à rua sem medo e que de forma mais eficaz se opôs às actividades do grupo terrorista. Para além disso faltou sempre à ETA a força do povo Basco, que na sua grande maioria, e por muito forte que seja o seu anseio pela independência do reino de Espanha, jamais alinhou e suportou os seus métodos.
Kadhafi e o seu regime só terminaram após o povo Líbio, alinhado com os ventos de liberdade que varreram os países árabes, se ter manifestado nas ruas e ter lutado com garra e convicção pela mudança do seu destino. A NATO só entrou em acção depois do povo ter decretado o fim do regime Kadhafi pois durante anos e anos, os mais importantes líderes mundiais se sentaram à mesa com ele apesar do seu reconhecido curriculum menos positivo.
Afinal, ETA e Kadhafi comprovam que o povo unido jamais será vencido no seu querer e na sua força.
Ao contrário da "nobre" fadista-tia, digo eu:
- Ainda bem.
Digo mais:
- Queira Deus que sempre assim continue.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

As marcas do parecer e as marcas do ser.

Foi com alguma perplexidade que esta semana ao receber o extracto trimestral da minha conta bancária, verifiquei que o mesmo vinha acompanhado de um desdobrável que publicitava uma linha especial de crédito para a aquisição de produtos de luxo de uma muito conhecida marca internacional de canetas e de acessórios para homem.
O meu espanto prende-se por um lado com o facto dos bancos continuarem a fazer apelo ao crédito para a aquisição de produtos de luxo e perfeitamente desnecessários, no momento em que muitos dos clientes que recorreram no passado a estas auto-estradas para o consumo, não têm capacidade para pagar as suas prestações, e por outro lado, pela dificuldade em aceitar que no actual enquadramento de crise, haja alguém que admita poder dizer sim a esta sugestão de compra.
Nem sei porque ainda me surpreendo com estas situações.
Há muito que deveria saber que os tempos que vivemos são tempos mais de parecer do que de ser, e que a busca ou reforço de um estatuto dado por uma marca, é algo que justifica que coloquemos de lado a prudência e o bom senso que o momento financeiro nos exige.
Estava eu envolto nestes pensamentos enquanto assistia ao jornal das oito na TVI, quando ao ver uma excelente reportagem sobre a mente e as doenças psiquiátricas, fui surpreendido pelas declarações de uma amiga de Vila Viçosa, pessoa que não sendo muito próxima de mim, há muito estimo.
Com a maior dignidade que possamos imaginar, falou da sua patologia crónica do foro psiquiátrico, da forma como se trata e de como naturalmente lida com uma doença que não a impede de ser feliz, de ter um bom emprego e de ter uma relação excelente com todos os que a rodeiam.
Num mundo que estigmatiza estes doentes, assumiu com coragem a sua doença, afirmando que vencia o desconforto de o fazer para dar força e encorajar todos os que como ela sofrem deste tipo de patologias.
Senti um carinho enorme por ela, um orgulho pela sua coragem e pela forma abnegada como se expôs.
Afinal nem tudo é mau neste nosso tempo.
Afinal ainda há corajosos que vencem a comodidade do bem parecer para se assumirem tal como são, fazendo-o sempre porque colocam os outros à frente de si próprios e dos seus interesses.
A humildade, a dignidade e a generosidade, são e serão sempre as marcas que distinguem os Homens e criam heróis.
Eu sei que são marcas raras, mas têm uma enorme vantagem, não necessitamos de nos empenhar financeiramente para as conseguir.
Basta apenas que nos empenhemos em ser grandes e demos asas ao poder sem limites que sem saber carregamos no coração.

domingo, 16 de outubro de 2011

2012

Há algum tempo atrás andou por aí um filme que, com base numa profecia antiga, ficcionava o fim do mundo em 2012.
O mundo não sei se acabará efectiva e realmente no próximo ano, mas para nós Portugueses, o Natal e as férias já morreram de vez.
Pode ser um principio…
A vida funciona em ciclos e já todos deveríamos ter aprendido que à bebedeira se segue a ressaca, ao Carnaval a Quaresma e a uma refeição abundante, o pagamento de uma factura gorda.
Já deveríamos saber mas por vezes esquecemo-nos ou então fazem-nos esquecer essa dura realidade transportando-nos para o reino da ilusão e da fantasia.
Há vinte e cinco anos atrás, recordo-me, éramos um povo pobre: havia fome em Setúbal, no Vale do Ave e em muitas outras regiões do país, havia muito desemprego, salários em atraso, falências de empresas, etc.
Entrámos na União Europeia, então CEE, e de um momento para o outro, tornámo-nos ricos.
Construímos auto-estradas, pontes, túneis e rotundas, organizámos Exposições Mundiais e Europeus de Futebol, comprámos casas de luxo, comprámos férias eternas em “time sharing”, deixámos de cultivar a terra e até nos pagavam para o fazer, construímos os maiores Centros Comerciais da Europa e abrimos as lojas de todas as marcas mais caras e conhecidas que há por esse mundo fora, passámos a ter subsídios para tudo e até para não trabalhar, construímos hospitais ao desbarato até quando e onde não eram necessários, renovámos o parque automóvel apostando sempre na velocidade e no luxo, desaprendemos de poupar porque isso era coisa de pobre.
Esquecemo-nos ou fizeram com que nos esquecêssemos que a factura para pagar haveria de chegar um dia.
Ao longo deste tempo tivemos cinco primeiros-ministros que com a arte das sereias nos fizeram acreditar que éramos um país desenvolvido e do pelotão da frente da União Europeia, que em Portugal as pessoas estavam em primeiro lugar, que não havia crise que nos atingisse e que já estávamos definitivamente na parte final e agradável dos contos de fadas que é aquela em que vivemos felizes para sempre.
Todos estes cinco primeiros-ministros, sem excepção, foram mestres da ilusão por conveniência própria e por interesse da sua sobrevivência politica e económica. Da sua e de todos quantos gravitavam à sua volta.
Na passada quinta-feira fomos confrontados com uma elevada factura que teremos de pagar e quando procuramos os responsáveis, onde os encontramos hoje?
Cavaco Silva, o pai da geração BPN, é Presidente da República, Guterres, o “subsidiólogo”, é Alto Comissário para os Refugiados na ONU, Durão Barroso, o fugitivo, é Presidente da Comissão Europeia, Santana Lopes, o fugaz, é Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, e Sócrates, o artista do teleponto, é um senhor a estudar em Paris.
E nós?
Nós continuamos a trabalhar, enquanto tivermos emprego, e a pagar a factura das suas incompetências.
Pela minha parte, pago o que tiver de pagar. Revoltado, mas pago.
Só faço duas exigências a Passos Coelho para que ele não se torne o sexto do cesto de “Luíses de Matos” da nossa política: verdade e coragem.
Verdade nas contas e verdade expressa na coerência do rigor e do sacrifício em todos os sectores do país e da governação.
Coragem para apontar culpados e denunciar todas as situações “anómalas”.
E neste último ponto já houve uma falha grave porque a confiança política em Jardim já deveria ter sido retirada.Há muito e antes das eleições na Madeira.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Doce

A visita que uns amigos de Lisboa me fizeram a Vila Viçosa neste fim-de-semana, tirou-me de casa na noite de sábado, nas horas em que habitualmente já estou imerso nos lençóis, contactando com a “movida” calipolense dos bares da zona do Terreiro do Paço, apenas pelo ruído que até de madrugada, as trupes de adolescentes e jovens resolvem fazer por debaixo da janela do meu quarto.
Desta vez foi diferente, e fui vê-los.
Passámos pelas portas dos bares mais conhecidos na tentativa de encontrar um que nos agradasse.
É claro que o meu desconhecimento dos locais não ajudou nada na escolha.
Pelas ruas e à porta dos bares, o facto de não conhecer a maioria das pessoas, e a forma como era olhado com prova de manifesto desconhecimento, deu-me logo essa estranha e incómoda sensação dos “penetras”, sentindo-me um estranho apesar de estar na minha própria terra
Acabámos por optar por um dos locais mais antigos e cujo nome me era mais familiar.
Resolvemos entrar, claramente à descoberta.
Logo à porta tive um encontro imprevisto com o filho de uns amigos meus, de copo na mão, super simpático e educado, que logo me cumprimentou, mas que não evitou que me assolasse uma súbita depressão ao interiorizar:
- Este “miúdo”, na festa dos meus 30 anos, ia ao colo da mãe com um pau a fazer de espingarda e nós rimo-nos muito porque ele, a aprender as primeiras palavras, chamava-lhe “pingada”. E agora está aqui de copo na mão. Definitivamente, estás velho!
Permitam que faça uma pausa nesta narrativa para dizer que a bebida do jovem em causa tinha todo o aspecto de algo não alcoólico, portanto amigas e amigos, evitem telefonar-me pois já sabem que eu nunca pactuarei com as vossas actividades de espionagem sobre a vida nocturna dos vossos filhos.
Tio “porreiraço”, hein?
Mas voltando à depressão, deixem que vos diga ainda que ao pôr os pés no interior do bar, tive a sensação de que a média de idades das pessoas presentes tinha subido automaticamente uns dez anos, e só à minha custa.
Para já não falar nos olhares que alguns me deitaram, incrédulos como que a perguntar-se:
-O que faz aqui o Pai Natal numa festa em Outubro.
Não fosse eu pedir algo que não devesse, pedi que um dos meus amigos o fizesse por mim e foi já com o conforto de um copo na mão que comecei a sentir-me mais ambientado, e afinal, naquele mar de jovens marcados pelo acne da adolescência, ainda existiam alguns exemplares de velhos conhecidos dos meus tempos de liceu.
A coisa ficou mais composta.
Entretanto, a um canto da sala, um aparelho de Karaoke desafiava a que todos cantassem, algumas canções com mais sucesso do que outras, como é normal.
De repente, começa a tocar uma música e a sala repleta canta forte a uma só voz. Grande êxito. O maior de todos até aí. “Amanhã de manhã” das Doce.
Recordo-me perfeitamente desta canção e sei que ela tem 31 anos e juro-vos que nunca imaginei que ela viesse a cruzar gerações.
Ainda me recordo da letra e também canto mesmo sem olhar para o monitor.
Estou ambientado.
E eu, um diabético, fui salvo pelas “Doce”.
Será esta “Girls Band” um clássico da música portuguesa? Possivelmente já atingiu esse estatuto.
Mas o que é verdadeiramente um clássico e que atravessa todas as gerações e modos de viver, é este gosto e amor pela vida, é esta ambição por sermos e estarmos felizes.
E isso basta.
E isso é o segredo que a todos nos pode resgatar da incomodidade das situações por mais hostis que nos pareçam.
Assim nos fixemos nos denominadores comuns porque eles existem sempre.
“Vem amor a noite é uma criança e depois quem ama por gosto não cansa…”

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Telelixo

Faz hoje precisamente 19 anos que acabou em Portugal o monopólio da RTP, com o início das emissões da SIC.
Confesso-vos que sempre alimentei uma enorme expectativa relativamente ao aparecimento das televisões privadas, sobretudo para que fosse possível ter uma informação mais isenta relativamente à sempre governamentalizada estação do estado, por esses tempos de maiorias cavaquistas, de cor escandalosamente alaranjada.
Para além disso tinha a natural expectativa de mais variedade e melhores programas.
Confesso-vos que passados estes anos, e apesar de continuar a pensar que é importante termos mais do que apenas o canal do estado, e até não me perturbar a ideia de um do canais da RTP poder ser privatizado, sendo apenas uma questão de coerência, pois há já muito tempo que a RTP1 alinha pelo mesmo diapasão das privadas, tenho de reconhecer que a qualidade que eu esperava da diversidade, não foi concretizada.
Basta pensar em programas como o Perdoa-me, All you need is love, Amiga Olga, Bar da TV, Acorrentados, Big Brother, Casa dos Segredos, Malucos do Riso e a Quinta das Celebridades, para entender do que vos falo.
Verdadeiros atentados ao bom gosto e verdadeiras rolhas de entupimento cerebral.
A informação melhorou, sobretudo quando cada canal resolveu criar canais específicos só com noticias, embora por vezes e para preencher a emissão usem e abusem de discussões com painéis de entendidos mais entediantes que especialistas.
Na noite de ontem liguei a televisão para que esta me acompanhasse no serão.
A TVI estava em ligação a uma Casa onde colocaram cerca de duas dezenas de cromos representativos da sociedade do Silicone, do Bótox e das Tatuagens, que falam uma linguagem que ninguém entende e guardam segredos de fazer corar o mais descarado e tolerante dos seres.
A SIC estava a dar um programa rodado numa quinta no Alentejo, onde um monte de gordos, que se encontram em competição pela perda de quilos, se encontravam em volta de uma mesa com uma fonte de chocolate, para ver quem comia ou resistia ao dito.
A RTP estava a passar um concurso com perguntas de cultura geral, em que um apresentador-actor, com ar tão “inteligente” como os concorrentes, salvo apenas pelo teleponto da sua ignorância, manda as pessoas para casa atribuindo-lhes o título de elo mais fraco.
Desliguei a televisão e assumi comigo mesmo:
- O elo mais fraco sou eu.
Fui para a cama.
Há lá nada melhor que o silêncio quando só estamos rodeados de telelixo?

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

República

Há quanto tempo vos traímos heróis da Rotunda, inventores da república, sonhadores de uma pátria de justiça e igualdade, lutadores sem medo por um tempo novo e uma lusa alma renascida em nova fé e novos ideais.
Neste pouco mais de um século, em quantos dias nos esquecemos ou nos fizeram esquecer da liberdade, vivendo cativos e saboreando este amargo fel de ter de ser aquilo que o coração não nos manda ser.
Quantos dias de fome, de escravidão, de cansaços, de tormentas e luto. Quanta resignação ao fado de um destino assumido assim pobre e triste.
Quantas ilusões em madrugadas que acreditámos seriam de um tempo novo, que nos fizeram sair à rua de braços dados e cravo rubro ao peito, a gritar que a mudança seria agora e nos entregaríamos a um novo destino.
Quanta desilusão nesta descoberta da ausência de heróis, na consciência da esperança soterrada pela ganância vil dos que vestem a capa do patriotismo mas que são monstros cruéis que querem apenas ter, e sobreviver, nem que para isso tenham de destruir a vida de um povo inteiro.
E hoje? O que somos e o que queremos?
Hoje, fizeram-nos acreditar e converter à religião do facilitismo. Trocámos o trabalho pelo subsídio, a educação pelos diplomas, trocámos a cultura pela banalidade, o catecismo pelo manual do enriquecimento ilícito, desprezámos o ser para comprar a crédito a aparência do ter que acreditamos nos faz ser alguém, vendemos a justiça aos poderosos e tornámos a impunidade vendável em euros, matámos Deus como referência e substituímo-Lo por banais heróis do audiovisual…
Enfim, hoje somos o mesmo povo triste e sobretudo pobre de há cem anos atrás. Uma pobreza diferente, é certo, mas pior, porque é uma pobreza que ultrapassou as barreiras do corpo e nos invadiu a reserva do espírito, ferindo-nos a dignidade.
Nestes dias difíceis não se vislumbram heróis de pistola em punho talvez porque os heróis, os verdadeiros, terão de nascer de nós próprios, em cada dia, com garra, na luta contra a vulgaridade, exigindo a coerência e reactivando o eficaz julgamento do que está certo e do que está errado, no contexto do bem comum, do desenvolvimento, da paz e da liberdade.
Eu acredito que ainda é possível e peço a Deus que não nos faltem as forças.
Para que se cumpra a república, para que se cumpra Portugal.

sábado, 1 de outubro de 2011

Viva a música!

Hesito entre assumir se a minha vida dava um filme ou uma telenovela da TVI, mas a avaliar pelo já elevado número de episódios, muitos deles “escabrosos”, talvez a segunda hipótese seja mais realista.
Sobre o que não tenho a menor dúvida, é de que seja uma coisa ou outra, nunca lhe faltará uma rica e variada banda sonora.
Hoje é dia mundial da música e decidi partilhar convosco algumas das canções que pela arte das suas palavras, melodias ou interpretações, ou tudo isso junto, sublinharam momentos importantes da minha existência.
Não estão ordenadas por nenhum critério particular e acreditem que faltam aqui muitas outras que talvez num outro dia venha a partilhar convosco.

Gaivota (Amália Rodrigues)
À medida que se cresce e que o coração se exercita na arte de amar, aprende-se o real valor da saudade. Alexandre O’Neill fala como ninguém de Lisboa, do amor e da saudade, e a voz de Amália, a mais fiel expressão sonora do coração português, dá o toque de perfeição a uma canção que viverá para sempre comigo.

O Pastor (Madredeus)
Não sei se são as cordas, o acordeão, as teclas do Rodrigo Leão ou a voz da Teresa Salgueiro, sei é que para quem gosta de viver a sonhar, esta canção é um mote e um grito feito de vontade: “O meu sonho acaba tarde, acordar é que eu não queria”.

As Baleias (Roberto Carlos)
A mensagem é de veras ecologista, mas a recordação desta música transporta-me para as festas da minha adolescência, no tempo em que os aniversários dos meus queridos amigos da família Duarte eram passaportes para os melhores e mais animados momentos do ano. Quantas danças românticas entre croquetes e empadinhas de galinha.

Streets of Philadelphia (Bruce Springsteen)
Um filme fantástico ou o despertar da minha consciência social…

Menina dos Olhos de Água (Pedro Barroso)
O Tejo aquém Lisboa cantado através do olhar de uma menina e pela voz de um dos cantores portugueses que oferece mais fidelidade às palavras dos poetas. Mais uma vez e sempre o sonho.

Silêncio e Tanta Gente (Maria Guinot)
Em 1984 esta canção venceu o festival da canção e representou Portugal na Eurovisão, no Luxemburgo. No festival da RTP o acompanhamento musical é feito apenas ao piano mas na Eurovisão há uma orquestração soberba do Pedro Osório que justifica plenamente o facto de pela primeira vez numa edição do Festival da Eurovisão, após um ensaio, toda a orquestra se ter levantado a aplaudir uma interpretação.
Em 1984 saí de Vila Viçosa para Lisboa e tive de aprender a viver com mais silêncio apesar de tanta gente. Muitas vezes me fiz acompanhar desta canção.

Like a Virgin (Madonna)
A vida temperada com irreverência transforma-se em algo muito mais interessante. Como é bom sair da caixa e do armário dos nossos preconceitos.

Waterloo (ABBA)
1974 foi ano de muitas mudanças. Os ABBA cantaram e venceram a Eurovisão, exportando o seu ritmo da Suécia para o mundo com impacto na balança comercial do país dos Vikings. Do alto dos meus 8 anos e a começar a despertar para outros ritmos, era a loucura e os “Morangos com Açúcar” dos anos 70. Mamma mia.

Perdidamente (Trovante)
Sonho, poesia e Florbela Espanca.

Mediterráneo (Joan Manuel Serrat)
Quem nasce no Alentejo, nasce pela força da cultura, dos hábitos e dos costumes, no Mediterrâneo.
O timbre mágico de Serrat embala-nos nesta dolência e nesta forma única de ser de todos os que nascemos e crescemos entre oliveiras... e laranjeiras, claro.

Votos de um bom dia e… Viva a música!