segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Doce

A visita que uns amigos de Lisboa me fizeram a Vila Viçosa neste fim-de-semana, tirou-me de casa na noite de sábado, nas horas em que habitualmente já estou imerso nos lençóis, contactando com a “movida” calipolense dos bares da zona do Terreiro do Paço, apenas pelo ruído que até de madrugada, as trupes de adolescentes e jovens resolvem fazer por debaixo da janela do meu quarto.
Desta vez foi diferente, e fui vê-los.
Passámos pelas portas dos bares mais conhecidos na tentativa de encontrar um que nos agradasse.
É claro que o meu desconhecimento dos locais não ajudou nada na escolha.
Pelas ruas e à porta dos bares, o facto de não conhecer a maioria das pessoas, e a forma como era olhado com prova de manifesto desconhecimento, deu-me logo essa estranha e incómoda sensação dos “penetras”, sentindo-me um estranho apesar de estar na minha própria terra
Acabámos por optar por um dos locais mais antigos e cujo nome me era mais familiar.
Resolvemos entrar, claramente à descoberta.
Logo à porta tive um encontro imprevisto com o filho de uns amigos meus, de copo na mão, super simpático e educado, que logo me cumprimentou, mas que não evitou que me assolasse uma súbita depressão ao interiorizar:
- Este “miúdo”, na festa dos meus 30 anos, ia ao colo da mãe com um pau a fazer de espingarda e nós rimo-nos muito porque ele, a aprender as primeiras palavras, chamava-lhe “pingada”. E agora está aqui de copo na mão. Definitivamente, estás velho!
Permitam que faça uma pausa nesta narrativa para dizer que a bebida do jovem em causa tinha todo o aspecto de algo não alcoólico, portanto amigas e amigos, evitem telefonar-me pois já sabem que eu nunca pactuarei com as vossas actividades de espionagem sobre a vida nocturna dos vossos filhos.
Tio “porreiraço”, hein?
Mas voltando à depressão, deixem que vos diga ainda que ao pôr os pés no interior do bar, tive a sensação de que a média de idades das pessoas presentes tinha subido automaticamente uns dez anos, e só à minha custa.
Para já não falar nos olhares que alguns me deitaram, incrédulos como que a perguntar-se:
-O que faz aqui o Pai Natal numa festa em Outubro.
Não fosse eu pedir algo que não devesse, pedi que um dos meus amigos o fizesse por mim e foi já com o conforto de um copo na mão que comecei a sentir-me mais ambientado, e afinal, naquele mar de jovens marcados pelo acne da adolescência, ainda existiam alguns exemplares de velhos conhecidos dos meus tempos de liceu.
A coisa ficou mais composta.
Entretanto, a um canto da sala, um aparelho de Karaoke desafiava a que todos cantassem, algumas canções com mais sucesso do que outras, como é normal.
De repente, começa a tocar uma música e a sala repleta canta forte a uma só voz. Grande êxito. O maior de todos até aí. “Amanhã de manhã” das Doce.
Recordo-me perfeitamente desta canção e sei que ela tem 31 anos e juro-vos que nunca imaginei que ela viesse a cruzar gerações.
Ainda me recordo da letra e também canto mesmo sem olhar para o monitor.
Estou ambientado.
E eu, um diabético, fui salvo pelas “Doce”.
Será esta “Girls Band” um clássico da música portuguesa? Possivelmente já atingiu esse estatuto.
Mas o que é verdadeiramente um clássico e que atravessa todas as gerações e modos de viver, é este gosto e amor pela vida, é esta ambição por sermos e estarmos felizes.
E isso basta.
E isso é o segredo que a todos nos pode resgatar da incomodidade das situações por mais hostis que nos pareçam.
Assim nos fixemos nos denominadores comuns porque eles existem sempre.
“Vem amor a noite é uma criança e depois quem ama por gosto não cansa…”

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