segunda-feira, 31 de outubro de 2011

No poupar é que está o ganho

Os especialistas em demografia estimam que durante o dia de hoje nascerá algures no mundo uma criança que fará com que a população mundial atinja o incrível número de sete mil milhões.
Sendo difícil de identificar com precisão o local onde ocorrerá esse nascimento, a Índia, país com níveis de natalidade muito elevados, surge como o berço mais provável para essa criança.
Se pensarmos que em meados do século XIX a população mundial era de aproximadamente mil milhões, vemos como o século XX foi explosivo em termos demográficos, ritmo que parece manter-se no século XXI pois desde que entrámos nos anos de 2000, a população já cresceu mil milhões.
Não deixa de ser interessante, a coincidência do nascimento deste habitante sete mil milhões ocorrer no Dia Mundial da Poupança, pois na ordem do dia está mais do que nunca, a existência e a disponibilidade de recursos que permitam qualidade e dignidade para a vida de todos os seres humanos do planeta terra.
Para essa qualidade nunca contribuirá a distribuição desigual da riqueza que vai alimentando o fosso entre ricos e pobres, quer se fale de pessoas ou de nações, tornando cada vez maior o escândalo da coabitação do desperdício e da carência.
E se ao nível das nações a nossa intervenção no combate à desigualdade carrega de algumas limitações, ao nível pessoal, esta consciência deve mover-nos à solidariedade e à partilha com os demais. Não faltam instituições credíveis para activamente fazermos esta partilha.
Em todo este contexto de desigualdade, choca-me o consumo e o desperdício sem pudor, sendo eu defensor da poupança, não no sentido do aferrolhar dinheiro debaixo do colchão, mas sim no contexto positivo da utilização racional dos recursos à medida das nossas reais necessidades.
Desde os anos da minha infância calipolense que fui treinado nesta atitude de poupança.
Através dos mealheiros de barro onde juntava as moedas, mais as pretas de tostões do que as brancas de escudos, que os tios, avós, pais e amigos me iam oferecendo, consegui tornar realidade alguns dos meus sonhos, e consegui sobretudo, aprender o real valor das coisas e de como, se lutarmos muito, temos fortes probabilidades de as conseguir.
Em Portugal, nas décadas da ilusão de riqueza pós integração europeia, perdemos o hábito da poupança, rotulando-a de fora de moda, e tornámo-nos hábeis no processo inverso: já não poupamos para adquirir algo, adquirimos algo e depois não nos poupamos ao pagamento de juros aos bancos para o pagarmos.
A competição e a afirmação pelo ter colocou-nos na espiral do consumo desenfreado e hoje uma criança já não necessita de desejar muito alguma coisa, pois ainda ela não pensou muito nisso, e já os seus pais a compraram para que ela não faça má figura na sua sala de aula junto aos filhos dos seus amigos e colegas de trabalho.
Este tique de novo-riquismo da não poupança será um dos maiores desafios que teremos de enfrentar no futuro, caídos das nuvens da nossa aparente riqueza, em plena gestão “troikiana” do nosso país.
Se quisermos evitar o descalabro das nossas finanças pessoais e evitar o consumo de anti-depressivos, será bom voltar a criar hábitos de poupança, e, diga-se de passagem, não nos fará mal nenhum.
Regressem os mealheiros, regresse a poupança e regresse sobretudo o bom senso.
Apesar de cada um de nós ser apenas um em sete mil milhões, há muito que nos compete a nós fazer, e a começar nas mais pequenas coisas.

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