terça-feira, 18 de outubro de 2011

As marcas do parecer e as marcas do ser.

Foi com alguma perplexidade que esta semana ao receber o extracto trimestral da minha conta bancária, verifiquei que o mesmo vinha acompanhado de um desdobrável que publicitava uma linha especial de crédito para a aquisição de produtos de luxo de uma muito conhecida marca internacional de canetas e de acessórios para homem.
O meu espanto prende-se por um lado com o facto dos bancos continuarem a fazer apelo ao crédito para a aquisição de produtos de luxo e perfeitamente desnecessários, no momento em que muitos dos clientes que recorreram no passado a estas auto-estradas para o consumo, não têm capacidade para pagar as suas prestações, e por outro lado, pela dificuldade em aceitar que no actual enquadramento de crise, haja alguém que admita poder dizer sim a esta sugestão de compra.
Nem sei porque ainda me surpreendo com estas situações.
Há muito que deveria saber que os tempos que vivemos são tempos mais de parecer do que de ser, e que a busca ou reforço de um estatuto dado por uma marca, é algo que justifica que coloquemos de lado a prudência e o bom senso que o momento financeiro nos exige.
Estava eu envolto nestes pensamentos enquanto assistia ao jornal das oito na TVI, quando ao ver uma excelente reportagem sobre a mente e as doenças psiquiátricas, fui surpreendido pelas declarações de uma amiga de Vila Viçosa, pessoa que não sendo muito próxima de mim, há muito estimo.
Com a maior dignidade que possamos imaginar, falou da sua patologia crónica do foro psiquiátrico, da forma como se trata e de como naturalmente lida com uma doença que não a impede de ser feliz, de ter um bom emprego e de ter uma relação excelente com todos os que a rodeiam.
Num mundo que estigmatiza estes doentes, assumiu com coragem a sua doença, afirmando que vencia o desconforto de o fazer para dar força e encorajar todos os que como ela sofrem deste tipo de patologias.
Senti um carinho enorme por ela, um orgulho pela sua coragem e pela forma abnegada como se expôs.
Afinal nem tudo é mau neste nosso tempo.
Afinal ainda há corajosos que vencem a comodidade do bem parecer para se assumirem tal como são, fazendo-o sempre porque colocam os outros à frente de si próprios e dos seus interesses.
A humildade, a dignidade e a generosidade, são e serão sempre as marcas que distinguem os Homens e criam heróis.
Eu sei que são marcas raras, mas têm uma enorme vantagem, não necessitamos de nos empenhar financeiramente para as conseguir.
Basta apenas que nos empenhemos em ser grandes e demos asas ao poder sem limites que sem saber carregamos no coração.

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