segunda-feira, 26 de março de 2012

Uma voz que brada no deserto

Comecei por me indignar com o título do artigo: “Tenho vergonha do meu País”, afirmação atribuída a D. Januário Torgal Ferreira, Bispo Português com a responsabilidade das Forças Armadas.
Tenho orgulho no meu país e na maioria das pessoas minhas concidadãs e jamais conseguiria admitir esta avaliação que fora do contexto me soava tremendamente injusta e me parecia à partida um erro de extrapolação de uma parte para o todo.
Há muito que admiro D. Januário Torgal Ferreira, como Homem da Igreja e Homem de coragem e por essa razão, e também porque estou demasiado habituado à descontextualização pelos jornalistas das afirmações que fazem vender jornais e revistas, dei-lhe todo o meu benefício da dúvida e mergulhei no conteúdo da sua entrevista recente à TSF, de onde esta afirmação foi retirada.
Em boa hora o fiz porque reencontrei um Homem de uma lucidez extraordinária e na convergência das suas com as minhas opiniões, enraizei o orgulho de o ter como pastor da Igreja a que pertenço.
Recusa ser cúmplice na acção que desapossou da sua dignidade e do respeito por elas próprias, a uma multidão de pessoas, e afirma ter vergonha “porque numa casa onde os mais pequenos não se podem sentar à mesa e comer do mesmo pão, que é o pão dos direitos e da dignidade, quem estiver a presidir à mesa deve sentir-se cúmplice”.
Assume a sua, e que é também a minha responsabilidade como Católico, afirmando que “ se nos dizemos Igreja, servidores do mundo, devo sentir-me cúmplice e não devo dormir tranquilo perante toda esta multidão de pessoas que já foram desapossadas da sua dignidade, do respeito por elas próprias e a quem as promessas vão no pior sentido”.
Com coragem e sem medo de olhar para o passado, D. Januário lembra os tempos de Salazar e afirma sentir vergonha da submissão da Igreja ao ditador e ao seu regime, lembrando que os Homens da Igreja foram educados no medo e não na liberdade e no à vontade de dizer o que pensam.
Subscrevo as suas afirmações porque numa Igreja que se inspira em Jesus Cristo, o Herói de todas as rupturas e que sempre se recusou a sentar-se à mesa com os poderosos, é inadmissível e estranha a dimensão da submissão ao poder.
Afirma ainda, continuando pela mesma linha da coragem, que hoje em dia, uma pessoa que toca em aspectos sociais é alguém que é de esquerda. “Mas então honra seja feita à esquerda”, afirma, apontando que há muitos comunistas que são mais católicos que muitos católicos”.
Bravo, D. Januário, e muito obrigado, por em tempos de quaresma ser esta voz forte e de grandes e gratas convicções que brada no deserto das ideias e da coragem que marcam o nosso tempo.
É com Homens assim que se mudam os tempos e se acerta o passo com a História.

sábado, 24 de março de 2012

Um fondue com o molho da verdade

A vida oferece-nos o prazer sublime de uma teia de afectos, infinita, porque cada pessoa que entra e se incorpora na nossa vida, traz outro ou outros amigos também, tornando natural a sugestão feita canção pelo grande Zeca.
Confesso-vos que o meu optimismo militante que me faz acreditar que o melhor está sempre reservado para amanhã, é em grande parte alimentado por esta imparável “avalanche de amizade” que beneficia quem se entrega e disponibiliza aos outros.
Quem investe em afectos, obtém depois os naturais dividendos e jamais terá de admitir a solidão.
Ontem ao serão, em volta de um fondue de carne, sentaram-se quatro pessoas, eu e mais três, num grupo impossível de imaginar há cinco meses atrás.
O que nos uniu assim num espaço tão curto de tempo no contexto das nossas vidas todas acima dos quarenta anos?
Mais do que o jantar ou a amizade que já unia alguns de nós, a essência deste encontro residiu no facto de nenhum de nós se demitir de viver intensamente, de não fugirmos a dar respostas afirmativas à verdade do coração e dos sentimentos, que por via directa ou indirecta nos congregou quase a partir do nada.
Desta intensidade com que os quatro nos obrigamos a viver diariamente, criámos ainda as cumplicidades e o à-vontade para temperarmos de verdade as cinco horas de conversa, ao ritmo das peças de carne que fritávamos e a que íamos dando sabor com os diferentes molhos, e com o tinto alentejano da melhor proveniência a servir de catalisador à acção de bloqueio total ao silêncio feito através da mais intensa e animada conversa.
E o segredo maior, repito, foi a verdade.
Quando gostamos de nós próprios e assumimos a nossa verdade, quando eliminamos os filtros do social e do politicamente correcto, quando despimos a pele que nos querem vestir e não tememos a exposição da nossa própria pele, quando nos oferecemos a possibilidade de ser genuínos na expressão dos sentimentos, então beneficiamos destes momentos que por serem simples são simultaneamente mágicos.
É assim nos jantares, nas reuniões de amigos, como é assim em tudo e na vida de todos os dias.
O conforto maior do universo é sempre o que nasce do nosso sim à verdade do nosso eu.
Ganhamos o amor, ganhamos amizade e ganhamos o privilégio da felicidade.

quarta-feira, 21 de março de 2012

A festa da primavera

Dizia o meu avô Francisco que desde que o Homem pousou na lua, nunca mais o clima foi o mesmo. Perdeu-se a previsibilidade e alterou-se definitivamente a cadência natural das estações.
Jamais os astronautas terão a noção da sua culpa, mas por este raciocínio, serão eles os responsáveis pela morte dos ditados populares que nos definiam os meses, porque “Março, marçagão, manhãs de inverno e tardes de verão”, é mesmo coisa do passado.
Seja como for, com ou sem manhãs de inverno, impôs-se a tradição do calendário e a primavera começou por estes dias.
Mas, ao contrário de antes, em que a dita começava sempre a 21 de Março e por isso se comemorava o Dia da Árvore, agora sabemos com exactidão o dia, hora, minuto e segundo da sua chegada.
Como se isto fosse necessário, e não soubéssemos nós, os Homens do campo, o exacto momento em que o inverno se despede para uns meses de ausência?
Para além de ser do campo, tive o privilégio de fazer os meus treinos em “Chegadas da Primavera” em Vila Viçosa, o local ideal onde nenhum sentido é descurado.
A primavera cheira à flor das infinitas laranjeiras, à esteva da Tapada, ao rosmaninho e ao alecrim.
Encanta-nos o olhar com a cor da palete das flores do campo, brancas, amarelas, roxas, sempre a acompanhar as rubras papoilas, rainhas nos infinitos campos verdes das searas.
Tem o sabor dos bolos fintos e do folar da Páscoa, do borrego assado, das alabaças, das favas e das azedas mastigadas enquanto entramos campo adentro.
Oferece a disponibilidade de mãos livres e soltas para tactear todo um mundo que nos parece renascer.
Faz-se ouvir pelos grilos, pelo correr da Fonte Pequena e da Praça, pelas andorinhas que se instalam nos Agostinhos e nas torres alvas de todas as outras igrejas, pelo canto e pela fala da gente que sai à rua e faz de cada encontro uma festa.
A festa da primavera de que Vila Viçosa nasceu para ser a pátria mãe.
Viva pois a primavera, viva a vida, e hoje, Dia Mundial da Poesia, e sempre, que jamais morra a voz dos poetas, os mestres e heróis artistas do canto da alma.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Artur

Nasci por ti e de ti, e continuo a nascer sempre que o meu olhar repousa no teu e bebe desse afecto infinito que é a expressão do amor perfeito e maior do universo.
Cresci apoiado em ti, no conforto dos teus cuidados, sob a tua atenção constante e com a tua presença segura que foi rocha, alicerce e raiz do meu ser feliz.
Ensinaste-me o inquestionável valor da liberdade e da responsabilidade que nos fazem ser Homens, treinaste-me nos valores nobres no ser e provaste-me como é vã e oca a triste ilusão do ter.
Meu exemplo, meu inspirador e meu mestre da vida.
Pelo amor que te tenho, não sei onde um de nós acaba e o outro começa, nesta intimidade de vidas entrelaçadas não apenas pelo sangue, mas sobretudo pela história e pelos sonhos que alimentam o futuro que não desistimos nunca de planear longo.
Mas sei que tudo é melhor e diferente porque te tenho hoje e te tenho em todos os meus dias.
Muito obrigado por tudo, e sobretudo, por seres o melhor pai do mundo.

domingo, 18 de março de 2012

Um improvável post por encomenda

Desde que inaugurei este Pomar há dois anos atrás, tenho recebido de múltiplas formas, os mais variados incentivos de todos vós, sentindo-me estimulado a continuar a dar-lhe vida.
Todos têm sido especiais e por isso vos estou eternamente grato.
Permitam-me no entanto que partilhe convosco o elogio que ontem me chegou na estranha forma de um post por encomenda.
O meu pai não tem um Computador Pessoal, nunca trabalhou com um computador, nunca fez uma consulta na internet, não faz ideia do que seja o Facebook, e seria portanto a última pessoa que eu esperaria me fizesse um pedido para que eu no meu blogue divulgasse um evento em cuja organização está envolvido.
Mas ontem ligou-me e fez o pedido. E fê-lo com toda a certeza motivado pela forma como lhe têm chegado os “ecos” do Pomar e por isso senti-me lisonjeado.
Claro que como a um pai não se pode dizer que não, aqui estou eu então a cumprir o que lhe prometi.
Já ouviram falar no Baile da Pinha?
Trata-se do único baile permitido no Alentejo por alturas da quaresma.
Nas sociedades recreativas e ao jeito dos bailes de sempre, as mães e as filhas casadoiras ficavam sentadas nas duas filas de cadeiras em volta do salão, esperando as últimas que os rapazes disponíveis para as levarem ao altar, as fossem buscar para uma dança que seria sempre efectuada com o consentimento das progenitoras.
Neste Baile da Pinha, existia no centro do salão, pendurada do tecto, uma estrutura feita de madeira de onde pendiam múltiplas fitas de seda das mais variadas cores, era a Pinha.
Pelo pagamento de uma determinada quantia, os rapazes garantiam o direito de ir à Pinha com o seu par.
Já para o fim da noite, a Pinha descia, os pares colocavam-se a dançar fazendo uma grande roda, e par a par, dirigiam-se até à Pinha para que a rapariga puxasse uma fita.
Todas se soltavam à excepção de uma que abria a Pinha de onde saltavam papelinhos coloridos.
Os elementos do par que elegesse esta fita mágica eram então designados por Rei e Rainha do Baile da Pinha.
No próximo sábado, dia 24 de Março, no Salão de Festas da Sociedade Filarmónica União Calipolense, ali a meio da Corredoura, terá lugar o Baile da Pinha 2012, e o meu pai, membro da Direcção desta Sociedade, quer com a minha ajuda assegurar que este importantissimo evento vai ser um sucesso.
Foi este o pedido e é este também o meu pedido.
Se estiverem por Vila Viçosa na noite do próximo sábado, vão até à Sociedade Filarmónica, dancem, bebam uns copos, comam uns petiscos, esqueçam as “fitas “ da nossa república e agarrem-se às fitas da pinha habilitando-se a ser reis e rainhas.
Bem sei que será só por uma noite mas já dizia a D. Luísa de Gusmão:
- Mais vale ser rainha uma hora…

quinta-feira, 15 de março de 2012

A cidade mais bonita do mundo

A provar que a vida é verdadeiramente como os interruptores, ou numa versão mais clássica como os alcatruzes da nora, nesta intermitência entre o alto e o baixo ou o positivo e o negativo, se a viagem que fiz de Lisboa para Amesterdão, e que vos relatei ontem, foi na companhia da crónica depressão Portuguesa, eis que a viagem de regresso teve um momento fantástico ao nível do melhor da Alma Lusitana.
Com o avião já quase a aterrar em Lisboa, o comandante tomou a palavra e disse:
- Muito boa noite senhores passageiros, fala-vos de novo o comandante para vos dar as últimas indicações sobre o nosso voo, agora que nos preparamos para aterrar na cidade mais bonita do mundo…
Uau.
Nem mais.
Para os que entendíamos Português a mensagem estava dada mas fiquei na expectativa da conversa em Inglês.
O comandante não me desiludiu:
- … the world most beautiful city…
Não sei como se chama este piloto da TAP mas para que conste sempre digo que foi o responsável pelo voo TP661 entre Amesterdão e Lisboa no dia 14 de Março de 2012, a bordo do avião de nome Aquilino Ribeiro.
Em condições normais o relato desta conversa não faria sentido, mas estamos tão pouco habituados a ver-nos manifestar assim espontaneamente o nosso amor a Portugal e ao que é Português. Bastas vezes fazemos o inverso e valorizamos apenas o que não é nosso.
Confesso-vos que sempre invejei aos Espanhóis o jeito de gostarem de si próprios e a forma natural como o expressam em todas as ocasiões.
Sem querer cair na pieguice nacionalista (não me venham uma vez mais acusar de piegas), sempre vos digo que gosto muito de ser Português, tenho um enorme orgulho no país e no povo que somos e entendo que temos toda a legitimidade para dize-lo ao mundo inteiro sempre que tivermos oportunidade para o fazer.
Para além disso e para além do mérito pessoal deste piloto, não posso deixar de referir que é este tipo de atitudes e de mensagens que se espera do pessoal que tem o privilégio de trabalhar numa empresa que carrega a bandeira do país, empresa onde o país muito investe e a quem o estado atribui benesses acima do que proporciona ao comum cidadão que para si trabalha.
Exige-se um serviço de qualidade que seja a expressão das muitas qualidades do país.
E quanto a Lisboa?
Eu sei que sou suspeito, mas concordo com o comandante e não é só por motivos e “obrigações” nacionalistas.
Não há cor, luz, cheiro, e som como os de Lisboa, e quanto mais mundo conheço mais reforço esta convicção:
Lisboa é a cidade mais bonita do mundo.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Povo triste

“Às vezes pergunto-me por que diabo fui eu nascer neste lugar do mundo e, ao olhar para estes rostos tão pouco inspirados, duvido de mim mesma. Sou como eles?”
Estou na Sala de Embarque do Aeroporto de Lisboa e leio no jornal estas palavras retiradas de uma carta de Vieira da Silva para Arpad.
Às primeiras impressões não me resultam agradáveis, afinal de contas os meus avós estavam no “eles” e por isso tento enquadrá-las no seu tempo. Recuo até aos anos da ditadura e compreendo que nem a gente tenha motivos para sorrir e se mostrar inspirada, nem a artista tenha razões para se inspirar em algo do que lhe é dado ver num país e num regime em que a tristeza é orgulhosamente assumida como parte dos atributos da marca Portugal.
Levanto os olhos do jornal, devolvo o pensamento ao olhar e regresso ao espaço em que me encontro. Século vinte e um, um país diferente e eu busco a prova dessa diferença.
À minha frente há uma televisão que transmite o programa de maior audiência da televisão Portuguesa. Um casal de apresentadores vestido com cores garridas e com um gosto tal que demonstra ter escolhido os seus piores inimigos para consultores de moda, está perante uma plateia de mulheres de cabelo arranjado e fato domingueiro, e debatem o interessante caso de uma mãe que afogou um filho numa ribeira.
Sendo o programa de maior audiência, presumo que sejam os assuntos desta natureza que as famílias Portuguesas gostem de debater enquanto preparam o almoço e põem a mesa para o dito.
Sempre o apelo da desgraça.
Desvio o olhar da televisão e apercebo-me que tenho à minha frente três casais na casa dos sessenta anos. Ao primeiro olhar e pelo seu estado de ânimo, penso de mim para mim: devem ter família em Amesterdão e por certo lhes morreu um familiar por lá, pelo que vão comigo no avião para assistir ao funeral.
Tento confirmar esta hipótese e de forma abusiva, reconheço, concentro-me na conversa que as mulheres, sentadas, mantêm, enquanto os homens estão afastados e em pé.
Não acerto uma.
Vieram os seis do Ribatejo nessa manhã, aproveitaram um pacote de férias muito económico e vão para a terra das tulipas em viagem de puro lazer e descontracção.
Não evidenciam o mínimo de prazer pelo momento que vivem.
Pergunto-me porquê mas claro que imediatamente me assalta a ideia de que é sempre assim em Portugal. Nunca assumimos o prazer porque achamos que nos fica bem melhor à tez este ar de dificuldade e vida difícil, e por variadíssimas razões.
Em primeiro lugar porque achamos que muito riso é sinal de pouco siso e nós somos pessoas respeitadas, e depois porque a exibição do prazer nos coloca em dificuldades no futuro quando a sorte se inverter porque haverá sempre alguém que chegará para dizer:
- Andava para aí a cuspir para o ar e agora…
Por isso, por defesa e também porque os desgraçadinhos chegarão ao Céu mais depressa, quando temos de escolher optamos sempre pelo “Cemitério dos Prazeres” em detrimento da “Praça da Alegria”.
Regresso à televisão e vejo que o programa acabou.
Começaram as notícias e o Presidente da República está na televisão naquele seu jeito desengonçado de usar as palavras que não sei como iremos tolerar durante mais quatro anos.
Diferenças para o Américo Tomás? A Gertrudes agora chama-se Maria.
Volto às palavras de Maria Helena Vieira da Silva e dou-lhe razão, por natureza, gosto e até pelos malditos lideres que escolhemos, não há forma de aprendermos e termos razões para sorrir e nos mostrarmos inspirados.
Só discordo dela num ponto que é afinal decisivo: sei que irei morrer Português e que será de dentro deste país que amo que tentarei que ele seja diferente, no ser e no parecer.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Obrigado

A nossa história pessoal vai-nos oferecendo memórias, e tempo fora, os lugares, os acontecimentos, e sobretudo as pessoas, constituem-se como as raízes que vão alimentando a nossa identidade e nos dão o carácter único dos seres que somos.
À sombra das laranjeiras deste Pomar, já vos convidei muitas vezes a mergulhar nas raízes das minhas maiores e melhores memórias. Hoje faço-o mais uma vez.
Mas, ao contrário de todas as pessoas que aqui fui revisitando convosco, esta é por certo a pessoa com quem menos privei, que pior conheci, mas que mesmo assim foi decisiva para que eu hoje seja quem sou e viva feliz por sê-lo.
No inicio dos anos oitenta, encontrava-me a terminar os estudos do Secundário em Vila Viçosa, e se as classificações obtidas permitiam sonhar com a frequência de um curso universitário, a bolsa manifestava-se em sentido contrário. A vinda para Lisboa implicava a soma de muitas e gordas parcelas e o orçamento familiar não era farto o suficiente.
É neste contexto que entra em acção a pessoa de que vos falo, o Dr. João Amaral Cabral, presidente da Fundação da Casa de Bragança, instituição onde os meus pais são ainda hoje, orgulhosamente, funcionários.
Na sede da Fundação em Lisboa, então ao Príncipe Real, foi-me preparado um quarto fantástico, onde de forma perfeitamente gratuita eu residi durante todo o tempo em que frequentei a faculdade e onde permaneci até alguns anos mais tarde acompanhando o meu irmão durante o seu tempo de faculdade.
Com afã protector, não falávamos muitas vezes, apenas ocasionalmente sobre os estudos e a sua evolução, mas senti sempre a sua preocupação para que nada me faltasse neste período sempre difícil em que se deixa a casa dos pais e se vem viver sozinho para uma cidade a 200 quilómetros de distância e em que tudo é demasiado grande.
Mantivemos sempre o contacto, sobretudo através dos meus pais, e nos últimos anos, falávamos no Natal e tranquilizávamo-nos mutuamente em relação à saúde e aos projectos pessoais e profissionais.
As suas notícias para nós neste Natal não foram as melhores e a sua recente partida na passada semana, confirmaram os piores prognósticos de então.
Mas os Homens que são grandes e nos são gratos, jamais partem, porque estão marcados de forma indelével na nossa história pessoal.
Homenageio aqui a sua memória, expressando o meu infinito reconhecimento e gratidão pelo muito que a sua generosidade me proporcionou.
Muito obrigado.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Os dias do Homem

Não compreendo e não aceito que se comemore o Dia Internacional da Mulher, e tudo pelo respeito que tenho pelas mulheres, que é exactamente o mesmo que tenho pelos homens.
De forma instintiva e natural, assumo no que penso e no que faço, convictamente, este respeito pela pessoa humana, com independência do género em causa.
Compreendo o facto de no passado ter sido necessário alertar para a exploração da mulher e para a incompreensível submissão desta ao poder vigente e que era invariavelmente o “poder dos machos”, mas hoje em dia, a igualdade é parte integrante desta marca de liberdade que queremos dar ao Século XXI e como tal, atribua-se ao Homem, seja ele homem ou mulher, a totalidade dos dias.
O homem e a mulher deverão ser sempre avaliados pelos mesmos parâmetros e as oportunidades que se lhes ofereçam devem ser coincidentes. Não aceitarei jamais a ideias de quotas mínimas obrigatórias para mulheres pois quaisquer lugares ao nível político, empresarial ou outro, devem estar destinados a quem tenha mais competência para os ocupar, com independência do género a que pertença.
E os políticos, em vez de votarem leis com quotas, empenhem-se em garantir o cumprimento desta igualdade que está expressa na Constituição da Nação Portuguesa.
Pelo que escrevo, espanta-me ver o comportamento das mulheres neste dia que assumem ser reservado para si. Por exemplo, quando entro num restaurante e as vejo aos magotes a comer e a beber e a praguejar contra os homens, não compreendo como se contentam assim tanto com 1/366 dos dias do ano, quase uma espécie de comemoração efusiva do campeonato da terceira divisão quando se deveriam empenhar em lutar pela Liga dos Campeões.
Minhas queridas amigas, juntem-se mais vezes, todos os dias se puderem, saiam com os vossos maridos, filhos ou quem quiserem e não se limitem a reservar apenas um dia para fazer festa. Isso é demasiado pouco.
E já agora, isso é ridículo para o grande, o enorme que vocês são.
Termino sem vos enviar um beijo especial, sem vos oferecer uma flor ou até um bombom como vi hoje fazer no café que habitualmente frequento.
Deixo todas essas coisas para vos dar ao longo do ano, sem dia próprio, sempre que vocês forem aquilo que são tantas e tantas vezes em todos dias: maravilhosas.

quarta-feira, 7 de março de 2012

De Gracinda a Grace ou o ensaio sobre a nossa incompetência

O dia anunciava-se solarengo, o que por Londres é uma raridade, pelo que cedo nos levantámos para atacar um British Breakfast que nos desse forças para uma grande caminhada.
Chegados ao restaurante escolhemos mesa e fomos atendidos por uma simpática funcionária.
Comentei com o Paulo:
- Tem cara e ar de Portuguesa.
Mas ao mesmo tempo reparei que o nome que tinha na sua placa de identificação era Grace, e mudei de ideias.
Uns instantes depois, ao ouvir-nos falar na língua de Camões, a Grace reaproximou-se e confirmou que era tão Portuguesa quanto nós.
Partilhou connosco a sua história, confidenciando-nos que tinha uma licenciatura e um mestrado na área da saúde mas que tinha sido impossível arranjar um emprego em Portugal, e por isso, e para subsistir e poder ganhar um salário que lhe permitisse viver com o mínimo de dignidade, tinha emigrado e estava há um ano a trabalhar como empregada de mesa naquele restaurante.
Falou-nos do difícil que era viver longe de Portugal e da família, e da sua vontade de um dia voltar para poder viver no apartamento algures no norte do país, que estava a pagar com o dinheiro do seu salário e com o empurrãozinho das gorjetas que os clientes lhe pagavam.
À mesa de um restaurante de hotel em Londres, tive a sensação de estar a assistir à versão Século XXI da película tantas vezes vista e revista dos emigrantes Portugueses cruzando clandestinamente as fronteiras em busca de trabalho e de uma vida digna.
Confesso-vos que acreditei muitas vezes durante a vida que esses tempos jamais voltariam e aquele momento foi a prova do desperdício que fizemos dos últimos cinquenta anos.
Recuso-me a acreditar que este é o destino do ser Português.
A responsabilidade desta situação tem de ser imputada a quem durante todo este tempo teve o poder, mas, por incompetência ou interesses muito próprios, nos desgovernou.
A Gracinda, recusou-se a viver à rasca e antecipou-se á sugestão que os jovens da sua idade receberam recentemente de Pedro Passos Coelho, tendo emigrado para Londres com o objectivo de poder viver.
Por ter um nome impronunciável para os Ingleses, simplificou-o e chamou-se a si própria, Grace.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Margaridas e aromas de esteva nos vales do Paraíso

Na tarde de um domingo do último mês de Janeiro, um daqueles dias em que a intensidade do sol nos faz esquecer o frio e o inverno, saí para passear no campo com o meu irmão e o meu Tio Filipe.
Há décadas que não o fazíamos, e comigo ao volante, por certo nunca o tínhamos feito.
Passámos por montes e quintas, andámos por atalhos, falámos de pessoas de antes e do presente, lembrámos acontecimentos das nossas vidas e, sobretudo, desfrutámos da tranquilidade que só o Alentejo nos oferece e da qual só nós alentejanos conseguimos desfrutar.
Chegados ao Monte do qual o meu tio cuidava, saímos do carro, e enquanto eu e o meu irmão vagueámos terreno fora naquele doce delírio de quem tem a oportunidade de por momentos voltar à casa da sua infância e avivar a memória dos cheiros, das cores e dos sons, o Tio Filipe, sentou-se num velho banco de pedra à sombra de uma árvore.
A doença ia avançada e a dificuldade em respirar limitara-lhe definitivamente a mobilidade e matara-lhe aquele prazer que sempre fez seu, de nunca sair do espaço da sua liberdade e da sua vontade.
Aproximei-me dele e conversámos um pouco.
Falou-me de um ribeiro que antes passava por ali e do qual agora não havia gota de água, embora houvesse aquele cheiro a poejo que é sempre denúncia de um terreno com humidade.
Apontou-me uma pedra branca lá ao longe e no leito do ribeiro. Era ali que a minha avó Chica vinha muitas vezes lavar a roupa.
Contou-me os projectos, muitos, que tinha para o seu futuro…
Por cima de nós estava uma velha árvore sem folhas e de cor negra, numa aparência de infertilidade, mas ainda carregada com dióspiros de um laranja em tons garridos.
Por momentos vi-o como a continuação da árvore naquela esperança construída da insistência em projectar o futuro, quando todos sabíamos que o cancro tinha chegado silencioso e apenas se fizera sentir quando já não poderia haver futuro.
No domingo passado despedi-me dele com um beijo no Hospital de Évora, confortei-o com o olhar porque por palavras a emoção apenas deixou que me saísse um tímido:
- Muito ânimo.
E saí com o coração a dizer-me que esta tinha sido a nossa despedida.
Não me mentiu o coração, o Tio Filipe partiu hoje para o paraíso.
Sei que o encontrarei um dia por lá, e por certo estará sentado num longo e fértil vale com tapetes de margaridas e cheiro a esteva e Alentejo, à beira de um ribeiro de águas tranquilas, esperando por mim para falarmos da pesca, do campo, da Sopa de Tomate, do Gaspacho e de tudo aquilo que ele me ensinou a gostar.
Sei que não trocaremos muitas palavras, porque foi sempre assim, e serão mais uma vez os olhares a falar por nós e a dizer o quanto nos queremos.
Passará pouco ou muito tempo, mas eu sei que chegarei carregado de saudade, a mesma que já sinto e me faz chorar a alma, e ainda agora há pouco soube da sua partida.