quarta-feira, 14 de março de 2012

Povo triste

“Às vezes pergunto-me por que diabo fui eu nascer neste lugar do mundo e, ao olhar para estes rostos tão pouco inspirados, duvido de mim mesma. Sou como eles?”
Estou na Sala de Embarque do Aeroporto de Lisboa e leio no jornal estas palavras retiradas de uma carta de Vieira da Silva para Arpad.
Às primeiras impressões não me resultam agradáveis, afinal de contas os meus avós estavam no “eles” e por isso tento enquadrá-las no seu tempo. Recuo até aos anos da ditadura e compreendo que nem a gente tenha motivos para sorrir e se mostrar inspirada, nem a artista tenha razões para se inspirar em algo do que lhe é dado ver num país e num regime em que a tristeza é orgulhosamente assumida como parte dos atributos da marca Portugal.
Levanto os olhos do jornal, devolvo o pensamento ao olhar e regresso ao espaço em que me encontro. Século vinte e um, um país diferente e eu busco a prova dessa diferença.
À minha frente há uma televisão que transmite o programa de maior audiência da televisão Portuguesa. Um casal de apresentadores vestido com cores garridas e com um gosto tal que demonstra ter escolhido os seus piores inimigos para consultores de moda, está perante uma plateia de mulheres de cabelo arranjado e fato domingueiro, e debatem o interessante caso de uma mãe que afogou um filho numa ribeira.
Sendo o programa de maior audiência, presumo que sejam os assuntos desta natureza que as famílias Portuguesas gostem de debater enquanto preparam o almoço e põem a mesa para o dito.
Sempre o apelo da desgraça.
Desvio o olhar da televisão e apercebo-me que tenho à minha frente três casais na casa dos sessenta anos. Ao primeiro olhar e pelo seu estado de ânimo, penso de mim para mim: devem ter família em Amesterdão e por certo lhes morreu um familiar por lá, pelo que vão comigo no avião para assistir ao funeral.
Tento confirmar esta hipótese e de forma abusiva, reconheço, concentro-me na conversa que as mulheres, sentadas, mantêm, enquanto os homens estão afastados e em pé.
Não acerto uma.
Vieram os seis do Ribatejo nessa manhã, aproveitaram um pacote de férias muito económico e vão para a terra das tulipas em viagem de puro lazer e descontracção.
Não evidenciam o mínimo de prazer pelo momento que vivem.
Pergunto-me porquê mas claro que imediatamente me assalta a ideia de que é sempre assim em Portugal. Nunca assumimos o prazer porque achamos que nos fica bem melhor à tez este ar de dificuldade e vida difícil, e por variadíssimas razões.
Em primeiro lugar porque achamos que muito riso é sinal de pouco siso e nós somos pessoas respeitadas, e depois porque a exibição do prazer nos coloca em dificuldades no futuro quando a sorte se inverter porque haverá sempre alguém que chegará para dizer:
- Andava para aí a cuspir para o ar e agora…
Por isso, por defesa e também porque os desgraçadinhos chegarão ao Céu mais depressa, quando temos de escolher optamos sempre pelo “Cemitério dos Prazeres” em detrimento da “Praça da Alegria”.
Regresso à televisão e vejo que o programa acabou.
Começaram as notícias e o Presidente da República está na televisão naquele seu jeito desengonçado de usar as palavras que não sei como iremos tolerar durante mais quatro anos.
Diferenças para o Américo Tomás? A Gertrudes agora chama-se Maria.
Volto às palavras de Maria Helena Vieira da Silva e dou-lhe razão, por natureza, gosto e até pelos malditos lideres que escolhemos, não há forma de aprendermos e termos razões para sorrir e nos mostrarmos inspirados.
Só discordo dela num ponto que é afinal decisivo: sei que irei morrer Português e que será de dentro deste país que amo que tentarei que ele seja diferente, no ser e no parecer.

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