segunda-feira, 29 de abril de 2013

PESSIMUS – All together… later


Nunca antes me acontecera em sítio algum mas chegado a Copenhaga no sábado passado e depois de ter desactivado o modo de voo no I-phone, nem sinal de rede.
Essa fantástica invenção chamada Roaming desaparecera de vez, de nada valendo as dezenas de vezes que desliguei e voltei a ligar o aparelho.
Chegado ao hotel e tendo acesso a um telefone fixo, tranquilizei a família e iniciei a novela Optimus, eu daqui, e amigos e colegas directamente da pátria lusa.
O primeiro número que marquei pôs-me em contacto com um individuo que me disse nada poder fazer pois eu teria de ligar para o Serviço Clientes-Empresa.
Enquanto um amigo já se dirigia à Loja Optimus do Colombo porque aí, diziam, tudo se poderia resolver, liguei o novo número e fui carregando em todas as teclas sugeridas pela voz irritante da “menina” que nos lê o menu de opções como se estivesse em fase de pré-orgasmo.
Chego então à fala com uma nova criatura que me sugere em primeiro lugar que desligue e volte a ligar o aparelho. Apesar de já o ter feito dezenas de vezes, repito-o, e claro, nada.
Acto contínuo, diz ver uma irregularidade no pagamento de uma factura e pede tempo para ir averiguar. Para além de condenado a mudo, a Optimus promoveu-me a caloteiro, algo estranho pois pago as facturas por débito bancário.
Volta a criatura e confirma que afinal os pagamentos estão em dia.
Pede-me para fazer uma busca manual de rede e escolher uma das quatro com quem a Optimus tem contrato. Experimento. Tudo igual.
Tranquiliza-me então e diz que vai ter de reportar o sucedido e que eu aguarde pois serei informado por SMS sobre a situação.
- Por SMS?
Questiono-o e relembro-o de que estou sem rede.
Responde-me:
- Sim. Vai receber um SMS quando estiver tudo resolvido.
Bem. Que espectáculo!
É de ficar tranquilo.
Resolvi não maçar mais a criatura e desliguei, afinal de contas ele é pago com um salário Belmiro Style e não tem de estar a aturar um “chato” como eu.
Entretanto, a solução do Colombo foi a mesma:
- Tem de esperar.
Passaram mais de 48 horas, continuo à espera e de nada têm valido os infinitos telefonemas dos amigos e colegas para a Optimus:
- Tem de esperar.
E cá estou à espera num processo de reaprendizagem de vida sem telemóvel que vos confesso não ser nada fácil. Estamos mesmo dependentes “daquela coisa”.
Já peguei centenas de vezes no aparelho para mandar SMS’s e só depois me lembro quando vejo aquelas palavras “Sem rede” que me activam uma terrível síndrome de privação.
Tendo rede wireless no hotel, comunico por e-mail e através do Facebook, qual Joaquim Crusoé Barreiros enviando mensagens em garrafas de vidro abandonadas numa ilha deserta.
Adoro a Optimus e há sério risco de homicídio se alguma criatura nos próximos tempos me bater à porta para me vender os serviços da dita.
E enquanto não regresso no dia 1, peço-vos encarecidamente um favor:
Se encontrarem por aí o Roberto Leal, a Carminho ou o Rui Reininho, a desassossegarem transmontanos tranquilos que por certo foram subornados através de pontos acumulados no Cartão do Continente, digam-lhes por favor, da minha parte, que vão rapidamente para a… mais pestilenta das defecações.
All together now (todos juntos, agora), não se aplica. All together later (todos juntos, mais tarde) isso sim, talvez quiçá no meu regresso.
Valha-me a Santa Vodafone.

domingo, 28 de abril de 2013

Non ho l’età


É enganador este sol que brilha intensamente e que me despertou hoje às cinco da manhã, pois saindo à rua somos atravessados por uma brisa tão fresca, que as pernas abandonadas à frágil protecção das calças de um fato adaptado a uma primavera lusitana, me fazem compreender e desejar a inestética opção por um par de ceroulas que já não constam do meu espólio.
Copenhaga no seu melhor… e ali ao longe, a ponte de Oresund com a Suécia à distância de quase oito quilómetros.
Talvez por inspiração desta imagem de países unidos no contexto do espaço comum que é a Europa, projecta-se-me a memória para 1964. Foi aqui em Copenhaga, no dia 21 de Março, que Portugal participou pela primeira vez numa edição do Festival Eurovisão da Canção.
António Calvário e a sua “Oração” saíram daqui com zero pontos e foram apupados não por demérito musical mas por razões politicas pois os restantes países participantes recusavam “cantar” ao lado de Salazar e Franco.
Não há registo do espectáculo para confirmar o ocorrido após a actuação da Suíça quando um homem entrou no palco empunhando um cartaz “Boicotem Franco e Salazar” tendo obrigado a realização a mostrar o quadro das votações que por estas alturas do espectáculo, estando vazio, não tinha qualquer interesse.
A história de Portugal na Eurovisão começa aqui e acompanha a do próprio país: “O vento mudou” cantado em 1967 por um intérprete de etnia negra, Eduardo Nascimento, antecipou a Primavera Marcelista; em 1974 e poucos dias antes do 25 de Abril, Paulo de Carvalho cantou “E depois do adeus” que foi senha da revolução; a fantástica “Madrugada” da autoria de José Luís Tinoco é uma das canções que melhor retratam a revolução dos cravos e foi cantada em 1975 pelo Capitão de Abril, Duarte Mendes, com cravo vermelho na lapela do casaco; “A cidade até ser dia” cantada por Anabela em 1993 retrata uma Lisboa moderna e preparada para ser Capital Europeia da Cultura no ano seguinte…
Com algumas pontualíssimas interrupções, a nossa televisão pública participou sempre neste evento patrocinando uma desejável divulgação da música portuguesa e dos seus intérpretes, apesar de nunca ter obtido um êxito assinalável em termos classificativos. O empenho para tal também nunca foi grande coisa.
Este ano e por razões de ordem financeira, a RTP abandonou a Eurovisão invocando não ter dinheiro para suportar as despesas de logística nomeadamente os hotéis onde ficaria alojada a delegação nacional.
Quarenta e nove anos depois, Portugal sai da Eurovisão não por imperativo de uma ditadura política mas sim da ditadura dos nossos tempos, a financeira.
Não questiono as prioridades do Estado no contexto da emergência social que estamos a viver, e se o dinheiro dos hotéis da Eurovisão for utilizado para suportar a reforma de alguém, que se calem os microfones. Mas não posso deixar de referir o simbolismo da situação de afastamento total em relação à Europa, situação criada pelos novos ditadores da finança, aqueles, tantos, que só não se chamam “Salazar”.
Numa altura em que se descobre que estes “ditadores” e os seus “testas de ferro”, os imbecis de cartão partidário nomeados para as empresas públicas, ousaram “brincar” levianamente com os dinheiros dos contribuintes em aplicações “tóxicas” até nem é mau de todo que a televisão pública deixe de transmitir festivais e coloque em antena os políticos que já tiveram responsabilidades neste país.
Mas atenção, não a lavar imagens e a falar de promessas, mas sim a assumir o passado, facto que exige no mínimo um entrevistador dotado de uma mínima quantidade de cérebro, assim como de testículos e ovários, nos respectivos sítios.
Cumprindo o paralelismo das histórias de Portugal e da participação na Eurovisão, registe-se que o silêncio de 2013 reflecte a tão mal fadada crise.
Para terminar recordo que o Festival da Eurovisão de 1964 coroou vencedora uma jovem italiana de nome Gigliola Cinquetti que cantou brilhantemente uma canção fantástica chamada “Non ho l’età”, que em Português significa “Não tenho idade”.
Diria que eu também não. Não tenho idade, nem estatuto e nem paciência para esta mediocridade que nos envolve.
Por isso, porque nos calam os microfones mas nunca nos apagarão a alma, contra o silêncio que a crise nos impõe cá vai:
“Grândola, vila morena…”.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Tio Pastel de Bacalhau


Dispensa-se a aquisição do bilhete de cinema porque basta ir comprar o jornal à papelaria num dia feriado e desde logo, de forma gratuita, Pedro Almodôvar vem ter connosco.
A dona da papelaria, duas clientes e o filho de uma delas conversam animadamente.
- Coitadinho. Foi horrível a noite que ele passou. Nota-se-lhe na cara.
Diz a mãe apontando para uns cerca de dois metros de gente que a acompanha e a quem instintivamente tento ver a tez em jeito de confirmação, o que se torna muito complicado pois a criatura tem a cabeça coberta pelo capuz da camisola, para além de que literalmente abdicou do pescoço mergulhando pelo interior da dita peça de roupa num tom verde alface que não ajuda muito a disfarçar as nesgas de olheiras que vislumbro.
- Se calhar abusaste…
Avança a outra cliente.
- Não, coitadinho…
Acode desde logo a mãe.
- Só comeu um hambúrguer do MacDonalds.
Pois…
Era de prever que a dieta fosse essa e só não sei porque é que nas enfermarias dos hospitais ainda não estão a servir “Happy Meals”, mas já agora com dose reforçada de pickles de pepino, maionese e ketchup.
Preparo-me para sair mas ainda ouço a outra cliente em acto de generosidade:
- Vou ensinar-te um truque. Quando estiveres assim, bebes uma Coca-cola de lata que é a que tem mais gás, e quando estiveres a arrotar vês logo que a digestão está a normalizar.
Boa. Com muito gás…
A antecipação da imagem da criatura a arrotar por debaixo da camisola onde vive infiltrado, projecta-me definitivamente para fora da loja.
Não resisto, desejo um bom dia às minhas “Carmen’s Maura” de circunstância e saio na direcção de um multibanco.
No ecrã e entre o código e a saída do dinheiro:
“Feira do Pastel de Bacalhau”.
Em Cascais.
Faz-se luz.
O Pastel de Bacalhau virou tio, saberá Deus se por via das Novas Oportunidades ou de investimentos feitos no BPN, foi fazer companhia aos gelados do Santini e deixou-nos entregues aos hambúrgueres do MacDonalds.
Ou seja, condenou-nos a todos a uma “Boca do Inferno” e arrisca-se seriamente a ir parar a um qualquer Big Brother patrocinado pela TVI com a Teresa Guilherme a emitir frases do género:
- O Pastel de Bacalhau foi comido pelo Zezé Camarinha.
Acelero para o carro, mas ao chegar travo e disfarço porque há um senhor já de idade avançada que se escondeu a urinar atrás do veículo.
Por manifesta, assumida e masculina solidariedade para com a sua Hiperplasia Benigna da Próstata, dou meia volta, faço tempo e dou de caras com um papel junto ao pára-brisas:
“Mestre Vidente Dafé. Herdeiro de uma das maiores famílias do Mandingua. Iniciado desde os 6 anos de idade! 35 anos de experiência. O poder da sua vidência irá ajudá-lo(a) a resolver TODOS OS SEUS PROBLEMAS, mesmo que seja de longo tempo, ódio, álcool, maus-olhados, financeiro, afectivo, negócios, depressões, insucessos. 10 tipos de doença, incluindo casos desesperados, trabalho, quaisquer complexos físicos ou morais. Torna invulnerável qualquer pessoa que o queira ser! Prevê os perigos indicando todas as precauções a tomar. Conhecido por grandes personalidades no mundo inteiro. Êxito em todos os domínios. Exame do sexo para ter força no amor. Se o teu marido ou a tua mulher foi embora, vem consultar-me, irás vê-lo(a) na mesma semana! Resultados rápidos e garantidos a 100% em 3 dias. Trabalho honesto, sério, eficiente e rápido (por correspondência, enviar um envelopes com selo). Se quer começar uma nova vida, contacte-me. Pessoalmente todos os dias das 08h às 23h. Todas as consultas com marcação. Pagamento depois do resultado”.
Termina com um número de telemóvel da rede TMN e o “um envelopes” não é uma gralha da minha parte.
Qual Coca-cola de lata, qual Troika ou Vítor Gaspar… O Dafé já para o governo.
O velhote já saiu do seu improvisado mictório e eu entro no carro e fujo para junto do mar.
Não sei se o mundo está de pantanas ou se serei eu a estar, mas pelo sim pelo não, saio deste filme.
À beira de um ataque de nervos, claro.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Liberdade


De um imenso e novo sol se faz a madrugada, sonhada primavera, ansiada hora de um tempo que pela esperança já é novo.
Os punhos gastos, esses quase mortos pelos tristes adeus de lenços e lágrimas na bruma do cais, renascem no impulso de impor por sobre as cinzas, a flor que do nosso bravo sangue tomou cor.
Há heróis no Carmo e em todas as ruas de Lisboa, velhas e gastas calçadas de tantos e tão tristes passos, e ressoa o grito do povo que se reencontra e fervilha na doce alquimia de reinventar o seu destino.
Os insubmissos ao fado rasgando as novas madrugadas.
E nos campos morenos de Grândola há papoilas que rubras nos imitam o gesto…
Há festa, infinitas flores brilhando, e heróicas resistindo ao vento, por entre o verde e o granito das mais altas serranias…
E connosco, livre e sem amarras, grita forte o mar nessa ritmada canção trazida aos Homens pela força e pela espuma das marés.
Depois de um adeus, a preço de vida….
Erguem-se sublimes as vontades na imposição do sonho de um povo grande, e a História dobra a esquina de encontro à liberdade.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Janelas de papel


Era uma vez um rapaz (sim, porque são rapazes e nunca meninos, os rebeldes cavaleiros dos simples entreténs que brincam livres na rua com as cumplicidades do luar) que todas as noites ansiava para que o silêncio da casa que acompanha a escuridão que impõe o repouso das almas, lhe abrisse as portas dos sonhos e por eles o fizesse voar muito para lá daquele ponto onde qualquer Homem julga possível conseguir chegar.  
Sem as amarras das faces que nos marcam os dias, cada noite devolve-nos o doce conforto de uma dedicação exclusiva ao pensamento e à verdade de nós mesmos, com esse benefício acrescido das asas que não conhecem, e não se vergam a quaisquer humanos limites.
Neste ciclo dos dias simples no campo e dessas noites povoadas por milhões de “viagens”, ansiava o rapaz por um momento em que os sonhos entrassem sem que para isso o ocaso tivesse que ocorrer, na momentânea e previsível derrota do sol que faz reluzir a lua.
Dessa esperança se alimentou, e por essa vontade deu mote à magia com tal intensidade, que a viu concretizada numa manhã que trouxe com ela uma criatura apetrechada de super poderes, indescritível e fantástica maga que o convidou a entrar no seu mágico palácio das janelas de papel:
- Cada janela espreita para um sonho. Abre todas as janelas que quiseres, tendo porém o cuidado de nunca as rasgar pois isso matará a magia que a ti e a todos os outros permite concretizar os desejos mais incríveis do universo, tudo aquilo que por entre o passado e o futuro, persiste eterno porque enraizado no mais íntimo de nós.
Pela mão segura, o rapaz deixou-se levar para o palácio e arranjou um canto discreto de onde do alto de um pequeno banco de madeira de assento redondo, diariamente ia abrindo as janelas que carregavam em si esse dom de o fazer sonhar estando acordado e na companhia dos raios de sol.
E assim, também os dias passaram a ter asas…
Conheceu o mundo nas suas grandezas e misérias, aprendeu a conhecer os Homens e de tesouros se encheu na riqueza que só os simples, pela tolerância, conseguem criar pela alquimia das diferenças.
Repletos de bênção do campo, de inverno saboreando deliciosas bolotas assadas num simples aquecedor e de verão bebendo as mais frescas limonadas, os anos foram passando, felizes, até o dia em que a maga teve de partir levando com ela o palácio das janelas de papel, e o rapaz, já homem, partiu para o mundo que antes espreitara, transportando com ele a gratidão expressa pela vontade de um dia também poder “desenhar” janelas de papel, jamais desistindo de sonhar e criar sonhos.
O rapaz sou eu, Joaquim Francisco. E uma janela de papel, cada livro que tive o privilégio de ler ao longo desta história tornada verídica pela magia de uma grande amiga e mestra de sonhos.
Eterna, ela continua a chamar-se Joana.

Dia 23 de Abril, Dia Internacional do Livro. 

segunda-feira, 22 de abril de 2013

A ilustre casa de todos nós


O sol nasceu há pouco e a intensidade do seu brilho que cresce lentamente, impõe um alucinado ritmo de cores à paisagem que a manhã me oferece.
Vejo terra, mar, ilhas que intercalam verde com longitudinais extensões de areia, uma infinidade de pequenos barcos fundeados numa competição de garridos tons, e só as gaivotas e um ou outro barco que acelera, quebram a quietude da manhã, quais estrelas cadentes no firmamento de uma noite estrelada.
Respiro a maresia ansiando que ela jamais se apague da memória quando eu tomar caminho por sobre o asfalto que privilegiado se estende entre sobreiros, searas e infindáveis matas de giestas.
Breve chegarei a casa e fumegará sobre a mesa uma sopa de tomate que também carrega em si a nobreza de um pão de trigo e o gosto único de um ovo fresco cozido manhã cedo agradecido a uma produtiva e poedeira habitante do galinheiro.
No final, como sempre, irei sacudir a toalha na varanda que tem vista para o Paço, porque os pardais que chilreiam no cipreste nosso vizinho já aguardam o petisco das migalhas que em breve povoarão o chão de laje.
A sopa estava boa mas faltava-lhe a intensidade de aroma dos frutos dos tomateiros que o avô Joaquim antes plantava no Álamo e que regávamos com a água do poço que escavámos em família. Os tomateiros que davam centenas de frutos contabilizados um a um pela paciência do meu irmão num tempo em que “agricultura biológica” era uma designação desnecessária por ser tão só um pleonasmo.
Neste relato de um simples domingo de primavera, entre a terra e o mar e algures entre o presente e as memórias, a excelência da Terra manifestada no perfeito equilíbrio entre as diferentes componentes da sua dádiva.
O Homem é apenas uma dessas componentes, beneficiário maior e a quem é legitimo exigir que a preserve e jamais destrua por razões de ordem pessoal, económica, política, religiosa, ou outra, o ciclo da complementaridade e simbiose perfeitas entre as espécies e o espaço que as rodeiam.
E mais se exige aos que cremos em Deus…
Hoje, dia 22 de Abril, é dia Mundial da Terra, esse elemento comum que nos une a todos, e a todos une à natureza.
A Terra ou a ilustre casa de todos nós.
Igualdade, paz, equilíbrio, honestidade, amor, verdade, comunicação, respeito, sorrisos, beleza, sonhos, oportunidades, vida, generosidade, poesia, simplicidade, prazer, tranquilidade, inteligência, simpatia, persistência, amabilidade, justiça, energia, gratidão…    
Pela expressão da nossa vontade, que de tudo isto povoemos a Terra.
Gratos, será esta por certo, a melhor forma de a louvarmos.

sábado, 20 de abril de 2013

Big Brother Vip


Há muitos anos, quando a TVI ainda era um projecto que sonhava ter inspiração cristã, a Teresa Guilherme permanecia como uma forma desconhecida de poluição sonora e os confessionários eram locais onde as pessoas se ajoelhavam perante o padre e não perante Portugal inteiro, o olho do “Grande Irmão” existia apenas na velada e insistente bisbilhotice exercida ao nível das vizinhanças, sempre tão atentas a ruídos e movimentações estranhas que rapidamente se convertiam no mote para uma boa conversa na mercearia ou no lavadouro público, quantas vezes despoletando esse requintado processo de alta criatividade que é designado por boato.
Com o Tony Carreira ainda a jogar ao berlinde na sua “aldeia perdida na Beira”, o José Castelo Branco a brincar com as Nancy’s divertindo-se a roubar o baton da mala da mãe e a Marta Leite de Castro sem sonhar sequer com a alta rotatividade da sua mudança semanal de “encostos” afectivos, as pessoas importantes situavam-se ao nível da rua, da vila ou da escola onde vivíamos.
E sem querer e sem que tivéssemos disso uma clara noção, nós vivíamos no contexto de um saudável Big Brother Vip em que as expulsões eram maioritariamente ditadas pelos afectos ou então pela ausência deles.
A prova maior desta nossa recíproca atribuição do estatuto de VIP na altura da nossa adolescência e juventude e no contexto das nossas simples relações ficava registada num fenómeno que é hoje apenas uma memória: os livros de autógrafos.
Inventados para que neles preservássemos as palavras, os nomes e as assinaturas das pessoas importantes, estes pequeníssimos livros de capas rijas e folhas brancas, eram utilizados como álbuns de imagens feitas de palavras e em que cada página tinha como destinatário, um dos amigos das nossas relações mais próximas.
Sempre com grandes declarações de amizade e o propósito de a prolongar indefinidamente no tempo, como a criatividade por vezes não abundava, era frequente ter de recorrer a um conjunto de quadras que toda a gente conhecia.
Havia as quadras de toque ingénuo:
Ainda ontem vi a Maria
Num carrinho de bebé
Tinha a cara toda suja
Da papinha Nestlé.
E havia quem ousasse e rondasse pela brejeirice, mas sempre numa escala facilmente tolerada:
No dia do teu casamento
Vai haver grande bailarico
Que até debaixo da cama
Irá bailar o penico.
Faziam-se uns bonecos, colocava-se a data e os inevitáveis beijinhos… e o livro seguia de mão em mão, sendo considerado privilégio e prova de amizade, um pedido para um “autógrafo”.
Saudável “Big Bother Vip” em que todos participámos no âmbito das relações próximas que são ditadas e estabelecidas pelo coração de cada um.
Sem cachet para a demonstração pública de quaisquer promíscuas imbecilidades.
Não sei se ainda existirão livros de autógrafos mas suponho que se existirem seja para registar as assinaturas dadas a correr por algumas estrelas do music hall luso ou então aqueles famosos fabricados pela televisão e que se cruzam connosco nos corredores das discotecas que lhes pagam principescamente para aparecerem por lá.
São outros tempos e que até não são maus de todo pois possibilitam-me serões na companhia das boas séries do AXN e da Fox, para além, é claro, de muitas oportunidades para buscar memórias e registá-las por aqui.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Sonho


Na ansiedade da incessante busca do teu calor, essa vertigem dos dias que se alimenta da vontade louca de te ver, acelero o tempo de encontro a não sei bem quando, sonhando-te presente no doce destino desse indefinido momento.
Turvo pelo lume que se vê mas não tem chama, como sempre infinito se mostrará o horizonte, correndo leve, quente e breve, a brisa que faz ondular o mar de espigas da seara que é verde, assim, na primavera. Um dia, o verão trará ao campo maduro, a bênção do ouro, tornando heróicos e maiores, os firmes e generosos braços da Ceifeira.
E contigo correrei campos fora na cumplicidade rubra das papoilas, alimentado pela esperança do bem-querer, amor arrancado aos milhões de pétalas que encontrarmos no caminho.
Sentados nas pedras da margem da ribeira e embalados pelo suave soluçar da água que corre, a fresca sombra de uma árvore qualquer nos dará abrigo para a sesta e para os sonhos que têm aromas de giesta, esteva, poejo e rosmaninho.
Lá longe, mas para nós sempre tão perto, há uma casa branca debruada de azul, que se abrirá como fresco abrigo no instante em que o sol nos dirá aquele “até breve” que tinge o céu de infinitas e inéditas cores.
O monte em que a noite nos abraça quando os grilos, as cigarras e as rãs, todos juntos, substituírem o canto dos pássaros que repousam e esperam um novo amanhecer.
Dir-te-ei:
- Amor.
Algures por entre um beijo trocado na dolência que nos impõe ao sono, entregues que estamos, assim, ao conforto de um abraço que nos torna um só.
Eu e tu, o meu Alentejo.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Da Menina Luciana à D. Dulce: O percurso de um cidadão nacional


Um dos muitos benefícios de concluir com êxito a 4ª classe do Ensino Primário era o facto de passarmos a dispor de um Bilhete de Identidade, indispensável para as matrículas no Ciclo Preparatório.
Assim, algures no verão de 1976 e depois de me ter submetido à tortura de uma sessão fotográfica às mãos do Sr. Sousa Menezes, que entre os ajustes na pose do “modelo” e os acertos nas luzes e na máquina demorava cerca de uma hora por cada “chapa”, lá fui eu pela primeira vez à Conservatória do Registo Civil, então no edifício dos Paços do Concelho de Vila Viçosa.
Sentindo-me muito importante, com as fotos tipo passe numa carteirinha de plástico e a inevitável Cédula Pessoal, tive o privilégio de pela primeira vez poder contactar através de um muito alto balcão de madeira, com a Menina Luciana, menina cuja idade andaria quiçá pelos sessenta anos.
Sem nunca sorrir e sempre vestida de negro, porque havia sempre uma razão triste para um permanente luto, esta mulher era dona da caligrafia mais fantástica que até hoje já vi. Não escrevia, desenhava letras, e guardo a imagem do seu desempenho artístico com uma caneta de tinta permanente sobre qualquer impresso, por mais modesto que fosse.
Depois de ter comprovado a minha fantástica altura de 1,40m encostado a uma velha régua de madeira colocada na vertical e que emitia um ruído simpático sempre que o indicador metálico passava de centímetro em centímetro, depois me ter esborratado todo com o indicador direito numa almofada para carimbos e de ter assinado o nome uma dezena de vezes, lá fiquei vários dias à espera que o Bilhete de Identidade pudesse ser recolhido no mesmo local após a sua chegada do Arquivo de Identificação de Lisboa.
Entre o 1,40m e a estabilizada altura de 1,73m foram então várias as vezes em que a Menina Luciana me renovou o dito documento.
Hoje, 37 anos depois e porque está a chegar ao fim a validade de 10 anos do meu Bilhete de Identidade, dirigi-me à Conservatória dos Registos Centrais de Lisboa para pela primeira vez solicitar o Cartão de Cidadão. Marquei ontem por telefone e tinha a indicação de que à 10,15h da manhã, o Balcão 3 estaria por minha conta.
Cheguei um quarto de hora antes do previsto, à hora certa, e fui recebido por um funcionário que confirmou o meu nome na lista e me indicou de seguida um balcão que já estava disponível e fui desde logo atendido pela funcionária D. Dulce.
De uma assentada converteu-me 5 cartões num só e colocando-me em frente de uma máquina “sabichona”, uma espécie de “Menina Luciana Electrónica”, mediu-me numa generosa atitude que me ofereceu 2 centímetros, tirou-me uma foto em que estou tão estranho que o Sr. Sousa Menezes morreria de susto, registou as minhas impressões digitais dos dois indicadores sem borrar os dedos e digitalizou a minha assinatura.
Máquina eficaz mas que pelos vistos não é para graças pois a única recomendação da D. Dulce quando me colocou perante a dita, foi:
- Não mostre os dentes.
Paguei e estava pronto para sair da repartição às 10.11h, quatro minutos antes da hora prevista para o meu atendimento.
Felicitei a D. Dulce pela eficácia e ela respondeu-me com um ar desconfiadíssimo. Afinal de contas, os funcionários públicos neste país estão tão habituados a elogios como os pobres estão acostumados a comer lagosta.
Com um ar satisfeito, reencontrei os Jacarandás da Rua Castilho que me faziam cobertura e protecção ao carro. Haja alguma coisa que funcione neste país.
Entro na viatura, coloco-me em movimento disposto a deter a marcha apenas nas passadeiras e semáforos vermelhos, mas acabando no entanto por ser obrigado a dar passagem a uma viatura negra e de alta cilindrada que seguia imediatamente atrás de umas motos da GNR: António José Seguro a caminho de S. Bento para uma reunião com Passos Coelho.
Com o pai fora (ou morto, porque isto já cheira a orfandade), o merceeiro a quem “pregámos” o calote está em negociação com os “putos” e estes vão conversar para ver se podem entender-se e podem esboçar um comportamento de homenzinhos.
Oh triste realidade e má sina!
Não fosse o documento impresso que a D. Dulce me ofereceu como recibo e lá se tinha esfumado em segundos o efeito fantástico e a eficácia da minha “Menina Luciana Electrónica”.
É que, em Portugal, a verdade para além de ser como o azeite e vir sempre à tona, é também como o vinagre… demasiado ácida.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Voz


Entrego a voz às palavras que respiram, e num sonoro rendilhado, estendo para lá da alma, o supremo e nobre canto dos poetas.
De todos os poetas… ao compasso da terra e na mais doce e verdadeira inspiração dos dias que o sol me dá…
Quando a Braguesa e o Cavaquinho me impelem à dança, rodopio e bailo de corpo e voz, os garridos Viras e Malhões debruados a filigrana do ouro mais puro.  
Celta, uno-me ao toque da Gaita no eco das arribas quando o Douro, por Miranda, em luso rio se converte.
Desafio-me nas Chulas e mando bailes, costa fora, de norte a sul, e até mesmo quando o Atlântico dobra Sagres e se faz a Sotavento.
Caso-me às mãos que cantam pelo toque do adufe da raia, na Beira das imponentes serras que a Castela viram costas.
Canto chão na dolência do sul, na planície das terras em que o trigo de tão louro parece ter roubado a cor ao sol.
Encantado, Mouro enamorado pelas vielas estreitas de Alfama, de um gemido de saudade, pela voz me nasce um fado.
Com a nobreza que é apanágio dos simples, e forte, na persistência dos bravos, jamais calarei essas tantas palavras que de festa, riso, alegria, paixão, amor, revolta, querer e dor, a vida fará jorrar no decurso lento, ou rápido, do ciclo normal dos dias.
Pela voz.
Pela minha voz.


Dia 16 de Abril, Dia Mundial da Voz.

domingo, 14 de abril de 2013

De Miss Simpatia a Miss Universo


No tempo em que as senhoras liam a “Crónica Feminina” e a “Ela – Donas de Casa” sempre na esperança de se poderem converter na mulher ideal da lusa pátria, a Ana Maria Lucas ainda não convivia intimamente com as rugas no rosto e a Vera Lagoa era “O Diabo” e presidia ao júri, organizava-se anualmente no Casino do Estoril, o concurso de Miss Portugal, com o objectivo de eleger a mais bela mulher Portuguesa.
Nesse tempo, quando a Betty Grafstein só deveria andar ainda pelos oitenta anos de idade e o Mário Soares ainda tinha memória e articulava discursos com algum sentido, elegia-se também a Miss Simpatia por votação entre todas as candidatas a Rainha de Beleza.
E assim, qualquer zarolha, marreca ou coxa que estivesse a concurso, tinha a sua oportunidade de brilhar nessa noite de intenso glamour e naftalina, dispondo de uma faixa de seda igual à de todas as outras premiadas.
Bastava-lhe ser simpática… ou nem isso. Muito frequentemente adjectivamos de simpáticos aqueles que não têm grande factura a pagar à beleza:
- Sabes, conheci o namorado da Maria.
- Ah sim? E é giro?
- Beeeem… digamos que é muito simpático.
Ontem, o Conselho Nacional do PSD aprovou um voto de louvor pelos serviços prestados à nação pelo ex-ministro Miguel Relvas e confesso que tal circunstância me devolveu para a memória desses concursos de há muitos anos.
Num “concurso” em que a competência e a dignidade são o que está em jogo, os seus pares de partido votam e põe-lhe uma “faixa” de… boa camaradagem, passando por cima da mentira e da ausência de carácter que ele demonstrou quando a imprensa lhe despiu o fato elegante de homem sério e evidenciou a sua pobreza num patético desfile em “fato de banho”.
Um tiro muito ao lado e a ferir de morte a dignidade e a honradez que se exige a um partido que governe uma nação.
A social-democracia, viúva após a morte de Sá Carneiro, casou com o burguês e novo-rico Cavaquismo ainda a tempo de gerar uma prole de “meninos” incompetentes e mafiosos, que continua a habitar o mesmo “castelo” mas que há muito desperdiçou a herança de dignidade e verdade que lhe foi deixada.
E o Relvas, de simpatia em simpatia, e sempre por equivalência, ainda se arrisca a ser… “Miss Universo”.

sábado, 13 de abril de 2013

Abril em Portugal

Visto do alto, o Ribatejo tem o jeito de um imenso mar de verde... e inundada e fértil é a lezíria salpicada aqui e ali por breves ilhas, branquíssimos casarios das aldeias e vilas da beira Tejo.
No voo, desviamo-nos para oeste, sempre no rasto do verde, e de repente, o recorte mágico da Pena prepara-nos para a imensidão de azul que jamais saberemos dizer se é rio ou Atlântico.
Seguimos depois como que fazendo-nos ao sul, e não fosse o Cabo Espichel lá mesmo ao fundo, e juraríamos ser infinito o areal da Caparica que o mar beija continuamente pela espuma ritmada das ondas, alvas dobras de lençóis gigantes ajeitados no perfeito leito desse indescritível tom de azul.
Sob o olhar cúmplice do Cristo Rei e ali por sobre a ponte, o avião desvia a rota, faz meia pirueta e fica cara-a-cara com Lisboa, majestosa, imperial nas suas colinas revestidas de um casario que compete em cor e na intensidade de uma luz que nunca deixa de ser clara.
Nos pontos mais altos, as torres e os zimbórios onde brilham os sinos, sinalizam a inevitável fé de uma terra sagrada: Estrela, Sé, Santa Engrácia, Santo Condestável, São Vicente, Memória...
Mas sabemos que os segredos e as virtudes estão guardados algures nessa malha de ruas, entrelaçado de indecifráveis calçadas e vielas, as veias por onde corre o povo nesse bravo acto de dar vida à cidade pátria dos heróis do mar.
Há veleiros ancorados na margem do Tejo que pela encosta da Sé namora Alfama…
Irresistível, como que cumprindo um doce destino e voando cada vez mais baixo nesse corredor imaginário entre a Ajuda e o Castelo, o avião faz-se à terra numa descida com ares de uma vénia que se impõe à indiscutível majestade de Lisboa.
E há sempre um ponto novo e diferente que descobrimos neste privilégio do voo de uma chegada.
O sol brilha forte, estão vinte e cinco graus quando abandono o avião e comprovo como já inundou a cidade, esse inesquecível sabor do ar que só tem a primavera.
Abril, finalmente, definitivamente, o mês de Portugal.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Sangue, lágrimas ou o canto no país das tapas


A Sara Montiel morreu esta semana, mas o seu espírito deve ter decidido permanecer por aqui, encarnando desde logo no corpo da funcionária do meu hotel de Madrid que, qual rouxinol, entre os quartos que arruma e o corredor onde tem estacionado um estojo de dimensões escandalosas, não se cala nem um segundo, tornando-se audível no interior do meu quarto mesmo estando com a porta fechada.
Este jeito de falar e cantar alto é algo que não nos assiste, apesar de sermos vizinhos muito próximos.
Até parece mal cantar desta forma e quando alguém nos surpreende a trautear que seja, logo avisa:
- Deves estar a adivinhar chuva.
É um facto que, para um Português, a desgraça é permanente e “mesmo que não estejamos presos, quase de certeza que a polícia anda atrás de nós”, mesmo que não haja razão para tal.
Não sei que programas vê a camareira do hotel mas por certo não serão as telenovelas da TVI ou da SIC que são um exercício de puro masoquismo pois possibilitam durante um ano o convívio diário com as lágrimas, o sangue e a vitória dos “maus”, para depois, num breve e curto último episódio, ter o prazer de saborear por alguns segundos a vitória final dos “bons”.
Mas como nesse dia da vitória dos “bonzinhos” já começou outra telenovela que tem os “maus” em grande, a vida é um permanente martírio e um “rosário de penas”.
Para além do mais e na perspectiva da chegada ao trabalho, num hotel para fazer limpezas ou a qualquer outro local com diferentes funções, o melhor trunfo que temos para “animar” os colegas é descrever ao detalhe algum acidente com que nos cruzámos na estrada. E então se há pormenores de sangue e pancada, o dia está definitivamente ganho.
É claro que isto justifica que abrandemos e paremos perante qualquer acidente para recolha dos dados mais escabrosos que estejam ao nosso alcance.
Recolhemos os dados e juntamos a voz ao coro da desgraça que rodeia sempre qualquer acidente, quais carpideiras do asfalto sempre prontas a por o xaile negro por cima do toutiço.
Uma amiga que há uns anos teve um acidente grave na A1 e ficou retida no interior do veículo semi-destruído, estando consciente só conseguiu ouvir o seguinte diálogo entre as muitas pessoas que entretanto pararam:
- Não tirem a gaja que ela fica paralítica.
- E o carro está quase a explodir.
Animada por esta simpática conversa, só lhe ocorreu dizer então aos seus interlocutores:
- Tirem-me daqui que eu prefiro ficar paralítica, a ter de explodir com o carro.
Imagino as cantigas que estes dois “animadores” não cantaram no trabalho no dia a seguir…
Para além do mais, se a camareira fosse Portuguesa, o que estaria a cantar?
Se tivesse vindo de um concerto do Tony Carreira, “ai destino, ai destino…”…
Caso a rádio a tivesse colocado em contacto com a Mónica Cintra, “na minha cama com ela”…
Ou seja, rodeados de desgraça, sangue e lágrimas por todos os lados.
Não sei se esta senhora tem como lema o “pobrete mas alegrete” ou o “quem canta seus males espanta”, mas simpática ofereceu-me um sorriso muito aberto quando saí do quarto e abandonei o contacto com o seu concerto informal que ela continuou com afinco.
E eu também fiquei com melhor disposição.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Jangada de Pedra


Não consigo identificar a agradável melodia que pelo toque de um piano acompanha o estranho bailado dos aviões na placa do aeroporto da Portela nesse encontro que é sina alfacinha entre quem chega e quem parte mundo fora.
Estou no interior de um avião da Ibéria rumo a Madrid com muito poucos Portugueses e muitos Espanhóis com cara de terem comido “carradas” de Bacalhau Dourado, que regressam a casa munidos de Vinho do Porto, Pastéis de Belém e camisolas do Cristiano Ronaldo, num filme consumista que dá razão ao Ministro da Economia, salienta a gastronómica complementaridade entre Porto e Lisboa, e um filme que bem se poderia chamar: "A vingança das Nancy's, dos Pyrex’s e dos Caramelos".
A minha leitura da revista Sábado denuncia-me os interesses e as preocupações, fazendo "parelha" com o El Pais do meu vizinho do lado.
Rapidamente encetamos uma conversa.
Falamos de Portugal e Espanha, dos pontos que nos aproximam e que sem complexos devemos explorar região a região, sem que com isso coloquemos em risco a identidade cultural de cada nação, no desmembrar desse complexo de Aljubarrota, que já não faz qualquer sentido, muito menos numa altura em que os povos do sul da Europa estão a sofrer um ataque feroz.
Temos uma idade aproximada e ambos desabrochávamos para o mundo no tempo em que os crisântemos do enterro de Franco a caminho do Vale dos Caídos vieram fazer companhia aos cravos de Abril numa Península Ibérica com novos ares de liberdade.
A falar em Castelhano, porque sempre o entendemos e falamos muito melhor do que eles o Português, fomos revendo a dois, quatro décadas em que acreditámos que a liberdade era uma garantia e o progresso, um assumido e irreversível destino.
E agora, a Sábado fala de uma férrea austeridade a esmagar o Estado Social ao nível das funções mais básicas da dignidade, e o El Pais da proibição de manifestações a menos de trezentos metros da residência dos políticos Espanhóis.
Detalhes, episódios de uma paralela crise no âmbito do Euro, os grilhões da finança e a escravatura do capital, a matarem o progresso e a ferirem de morte a liberdade nesta ibérica Jangada de Pedra, como a imaginou Saramago, que cruza o Cabo das Tormentas, esse ponto onde há um perigoso e real Adamastor que spricht Deutsch e que… há sessenta anos queimava pessoas.
A viagem até Madrid é demasiado curta e impede-nos de muito falar (a Iberia em crise, nem um simples copo de água nos ofereceu para aclarar a voz) e quando damos conta estamos a descer para a capital de Espanha.
Não sei o nome do meu companheiro de viagem de quem me despedi com um aperto de mão e um desejo de boa sorte. Ibéricas cumplicidades algures nos céus da península.
Com um sorriso ainda me disse de saída:
-E se a liberdade e o progresso foram interrompidos, esta crise também o será um dia.
Como nós dizemos na nossa terra: "não há bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe".
Que acabe depressa e que muito saibamos fazer por isso.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Tão tristes as tardes que sabem a saudade…


De um intenso tom de negro e cinza, perseverantes, insistentes, as nuvens anulam o sol no seu fulgor e brilho intensos, marca dos dias que esperávamos nos pudesse trazer a primavera.
No horizonte, que por ora nos matou o mar, há gaivotas sem rumo que esvoaçam e árvores loucas esbracejando ao ritmo de uma brisa fria, grito e prece dos tristes ramos, verde apelo ao vento que de abalada lhes ponha para bem longe, o sabor feito desta mágoa que sempre carrega a tempestade.
Vazia, a calçada marcada a alva e negra pedra, espera em vão o desenho e o compasso do nosso paralelo e lento caminhar, nesses instantes em que as mãos num impulso se entregam, dando gesto ao amor cantado pelo riso e pelo brilho da cumplicidade dos olhares que são os nossos e que sem reservas se entrecruzam.
E só o vento, os ramos e as gaivotas, rompem no ar o silêncio nascido da ausência dessas palavras que em nossas bocas aguardam ansiosas pela chegada dos dias que têm cheiro a verão.
Fazendo voar para bem longe o pensamento, para lá onde só chega esse doce privilégio da memória, colo à vidraça o meu olhar que nada vê, e logo, no vapor de um tão breve suspiro, opaco torno o vidro que é meu cúmplice nas horas em que espreito o mar.
A infância há muito levou com ela o jeito e a arte de rabiscar num vidro que o respirar tornou fosco…
E a memória dá-me o teu riso e devolve-me o sol… o coração grita saudade… e a tarde, triste, sucumbe à noite no monótono cumprir do ciclo do tempo.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

A Dama de Ferro e os Cavalheiros do Acrílico


Acompanhado pelas notícias veiculadas no rádio, faço-me à estrada numa manhã de sol que parece vir finalmente trazer a primavera. Por muito que o astro rei “puxe” pela música, a hora certa traz sempre as inevitáveis notícias.
Ouço Passos Coelho falar de austeridade e Sócrates de oportunidades perdidas, e não posso deixar de achar interessante como em apenas dois anos estes senhores trocaram de “fato”. Troca de fato… troca tintas.
Quase a chegar ao novo Hospital de Loures, descubro que talvez já como consequência dos cortes na prestação das funções sociais do Estado que surgirão depois do chumbo de alguns artigos inscritos na lei do orçamento para 2013, na rotunda de acesso ao hospital, o único cartaz ali presente anuncia a Servilusa e a excelência do seu desempenho nos serviços funerários. Comparando, imaginem-se a entrar num restaurante que tenha à porta um cartaz do tipo: Em caso de intoxicação alimentar não hesite e contacte...
O noticiário passa entretanto da actualidade nacional para a internacional: morreu a Dama de Ferro. Os especialistas chegam rapidamente à antena para lhe reconhecer o perfil de líder, uma das maiores e mais destacadas do Século XX, “férrea” nas suas convicções.
E entre o actual e os dois ex-primeiros ministros das minhas notícias, Margaret Thatcher ainda consegue tornar mais medíocres os seus parceiros ocasionais de noticiário.
Em Portugal, o poder é hoje o prémio de um desafio jogado na regra da ambição que há muito dispensou os escrúpulos e em que os cidadãos são as peças moldadas e arrumadas pelos “jogadores”, banais criaturas, que pelo poder alimentam a cobiça vã de astronómicas contas bancárias e a glória do mediatismo fácil e da preservação do nome em placas de acrílico colocadas nas paredes e descerradas ao som do hino nacional.  
Thatcher versus Sócrates e Passos Coelho ou a “Dama de Ferro” versus os “Cavalheiros do Acrílico”.
Mas neste jogo, embora sabendo que todos estamos sujeitos a manipulação, somos nós que legitimamos estes “líderes” e que lhes batemos as palmas na hora de tornar visíveis as placas, puxando a bandeira nacional que às vezes até dá cambalhotas.
Porque demasiadas vezes nos contentamos com muito pouco centrados que estamos na nossa “quintinha” e no interior da redoma de vidro que criámos para a nossa “importanciazinha”.
É tão fácil encontrar exemplos.
Se pretendermos entrar numa repartição, há sempre um segurança fardado e armado em “general de porta” que põe um ar carrancudo quando lhe perguntamos algo, respira fundo vinte vezes, faz-se difícil e coloca dezenas de perguntas mas acaba sempre por dizer a toda a gente: “segundo elevador à esquerda”.
As guardiãs dos carimbos que habitam os guichets também acabam sempre por selar os documentos mas depois de virarem e revirarem os papéis dezenas de vezes, de alternarem o fácies entre o espantado e o carrancudo e sempre depois de terem tentado espantar-nos com a frase: “isto não é aqui que se trata”.
Até o padre que me celebra a missa não resiste por vezes e reza em latim sabendo que das centenas de pessoas que estão na igreja, para além dele próprio, mais ninguém o pode entender. Mas sente-se importante.
E os taxistas que nos fazem dissertações sobre a arte de bem conduzir e se colocam no papel de heróis do asfalto?
Andamos demasiado entretidos com o nosso umbigo e tornamo-nos assim peças demasiado vulneráveis e fáceis de manipular neste jogo pelo poder e pela glória do acrílico que de forma despudorada nos põe aos ombros o peso da crise.
Já estão anunciados novos e difíceis episódios e nem o argumento varia.
Enquanto não olharmos para o colectivo mais do que para cada um de nós e enquanto não alimentarmos uma “férrea” cultura de exigência, jamais mataremos a mediocridade dos donos dos nomes gravados nas placas que nos furam as paredes… e a dignidade.

domingo, 7 de abril de 2013

Boa Nova


“Entrava a fermosissíma Maria
Polos paternais paços sublimados,
Lindo o gesto, mas fora de alegria,
E seus olhos em lágrimas banhados.”
É com estas palavras que Camões inicia no Canto III de Os Lusíadas a descrição do episódio da Formosíssima Maria.
Maria é filha do nosso rei D. Afonso IV e rainha de Castela por matrimónio com D. Afonso XI. Estando difíceis as lutas do seu marido contra os Mouros, Maria desloca-se a Portugal, ao Paço de Évora, rogando ao pai que envie as suas tropas e a ajude a defender a “sua gente” e o seu trono. Camões compara este gesto ao de Vénus solicitando a Júpiter o socorro para Eneias.
Diz a lenda que o Rei Português tardou a dar a sua resposta positiva, e que só no caminho de regresso a Castela e acampada algures no campo alentejano junto a uma ribeira, Maria recebeu a boa nova.
Para assinalar este local foi erguida uma ermida dedicada a Nossa Senhora da Boa Nova e a ribeira passou a receber o nome de Lucefecit (fez-se luz).
A lenda é o que é mas a capela e a ribeira existem nos arredores de Terena, uma fantástica vila alentejana minha vizinha, do concelho do Alandroal.
Semelhante a um pequeno castelo, esta ermida de Nossa Senhora da Boa Nova acolhe hoje e amanhã, fim-de-semana de Pascoela, uma das romarias mais impressionantes em que já me foi dado participar. Quem um dia ousar duvidar da fé das gentes do sul, vá a Terena nestes dias e veja como afina o seu julgamento.
No domingo à noite a curiosidade de saírem duas procissões ao mesmo tempo de duas igrejas distintas, a procissão de São Pedro que sai da Igreja Matriz no Castelo, e a procissão com a Senhora da Boa Nova que sai da sua ermida. Chegadas ambas a um ponto intermédio assinalado com um cruzeiro de pedra, as imagens de São Pedro e Nossa Senhora são colocadas frente a frente e os nomes que transportam a parte da frente dos andores baixam-se fazendo com que as imagens se saúdem com um gesto de vénia.
Seguem depois as duas procissões numa só para a Igreja Matriz e só na segunda-feira de manhã a imagem da Senhora da Boa Nova regressa à sua ermida numa enorme procissão em dia de feriado municipal no Alandroal.
Entre estas manifestações de profunda fé, os piqueniques em família junto à ribeira para comer o arroz tostado e as costeletas de borrego panadas que tinham restado da Páscoa, o desassombro da nossa entrega ao campo vestido de primavera e perfumado com aromas que jamais poderei descrever, as enormes trovoadas que quase sempre nos brindavam com um duche involuntário, a compra das rifas e os anúncios do “bazar”, confesso que tenho muitas saudades destes dias de festa rija em que apanhávamos a “camioneta” da Setubalense em Vila Viçosa e nos juntávamos alegres a todos os nossos conterrâneos e vizinhos.
Porque grande é a crença de toda a gente nos “poderes” da Senhora da Boa Nova, afirmando-se porém nas redondezas, que não gosta de ver noivas na sua Igreja.
Há alguns anos, uma amiga resolveu “furar” esta maldição e mostrou-se vestida de noiva casando na Senhora da Boa Nova.
É um facto que se divorciou passado pouco tempo, o que não abalou minimamente as crenças de todos os que participámos na boda, afinal, sabemos que há casamentos que para darem certo teriam de estar muitíssimo para lá dos territórios que já são classificados de grandes milagres.

sábado, 6 de abril de 2013

O tempo e as pessoas

Depois de relativamente ao Orçamento de 2012, o Tribunal Constitucional já ter dado indicações precisas da inconstitucionalidade por falta de equidade e por desigualdade, no corte dos subsídios aos Funcionários Públicos e Pensionistas, o Governo preparou um documento para 2013 que insiste na mesma receita.
O documento com esta elevada marca de inconstitucionalidade foi apresentado na Assembleia da República a 15 de Outubro de 2012 tendo sido aprovado a 27 de Novembro de 2012, uma aprovação política sustentada pelos partidos que apoiam o Governo.
43 dias para que os Senhores Deputados, reconhecidos seres assoberbados de trabalho, aprovem a lei mais importante para o país. Muito mais importante no actual contexto.
O Presidente da República anuncia a 1 de Janeiro de 2013, data em que precisamente a lei do Orçamento entra em vigor, que tendo dúvidas sobre a constitucionalidade de algumas matérias, encaminhará o documento para apreciação do Tribunal Constitucional.
Ontem, dia 5 de Abril de 2013, o Tribunal Constitucional anunciou a inconstitucionalidade das matérias.
Desde a entrada do documento na Assembleia da República e até ao chumbo do Tribunal Constitucional passaram 172 dias. Praticamente meio ano para conseguir comprovar aquilo que já todos sabíamos: a lei enfermava de inconstitucionalidade.
Mais, só 95 dias após a lei já estar em vigor, se obtém essa confirmação.
O tempo, a crónica e assumidíssima lentidão de processos no funcionamento de uma máquina enferrujada pela burocracia é definitivamente um dos problemas sérios que não nos permitem avançar na melhor direcção.
Enquanto não existir um sentido de urgência, enquanto não se souber prioritizar e eliminar o desperdício do tempo em que se discute o “sexo dos anjos”, não se irá jamais a lado algum.
E depois vêm as pessoas.
Perante a evidência do chumbo, o Governo incompetente, embora menos porque já não tem Relvas, vai à procura de um atabalhoado Plano B e a oposição, liderada por esse raro crânio de nome Seguro, actual líder do partido que negociou com os credores, afirma estar preparada para tomar o poder pois tem a receita para o problema: renegociar prazos com os credores.
De um lado chove e do outro faz vento, no meio desta tempestade de mediocridade e incompetência que há muito assola o país.
Um médico que não conhece a melhor terapêutica para aplicar a um doente e que se limita a negociar com a administração do hospital para que o doente fique mais tempo sem alta e a ocupar a cama, é um médico medíocre pois o doente sentirá um falso conforto mas continuará doente por um tempo indefinido.

E depois a pérola das pérolas, esse dois em um contido na frase “quem criou os problemas que os resolva”. A desonestidade pelo não assumir do passado no Governo, e o suicídio de uma alternativa, que verdadeiramente nunca o foi.
Seguro só terá hipóteses de ser estrela se por acaso num destes dias, um cometa lhe cair em cima da cabeça.
Depois, acho uma certa graça quando alguns comentadores afirmam que esta situação pode precipitar uma crise.
Hello, em que planeta têm vivido?
A crise há muito que chegou e não tenho dúvidas de que só terminará com a chegada de gente séria e competente que com sentido de Estado e de urgência, com bem senso e dentro das legalidades, ponha as contas e o país na ordem.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Esplendor na Relva


A chuva cai de uma forma tão intensa, que está momentaneamente submerso o alcatrão no meu percurso entre o Marquês de Pombal e o Estádio da Luz, mais um episódio desta estranha primavera, na tarde de um dia de jogo do meu Benfica.
Acompanha-me o som das notícias e tenho inclusive de aumentar o volume, tal o ruído da chuva na “chapa” do veículo. A Antena 1 transmite as palavras de Miguel Relvas na hora da demissão justificada “apenas” pela falta de ânimo, no momento em que se disponibiliza para que a história lhe aplique um correcto julgamento.
Lisboa mete água e… Relvas também.
A história reserva-lha esse exclusivo e vergonhoso lugar de um ministro que viu a sua “licenciatura” anulada pela evidência recebida na gaveta do seu colega de Conselho de Ministros que gere a Educação. 
Reconheça-se no entanto que depois de quase dois anos de ruído e milhares de cartazes “Vai estudar ó Relvas”, o facto de só agora o ânimo se ter esfumado, comprova claramente que o homem tinha uma fantástica reserva de energia para a ilusão e para a mentira.
Com essa energia, quase nos ia dando cabo do poder local, da televisão, e sobretudo, da paciência.
Deixo o Relvas após estacionar no Colombo. A chuva abrandou e só uns pequenos borrifos me acompanham até ao interior do Estádio onde me sento calmamente no meu lugar de sempre.
É cedo, os jogadores ainda não saíram para aquecer e há uma máquina com ares de tractor que percorre todo o relvado promovendo o escoar da água acumulada após a terrível chuva, restabelecendo a relva e dando-lhe um ar renovado.
Não sei como se chama esta máquina mas pelo efeito pretendido poderia chamar-se “Passos Coelho”, um pouco à semelhança do raspador que há muito tomou o nome de “Salazar”.
O jogo começa mal mas uma “troika” de golos do Benfica compõe o marcador.
A relva aguenta-se bem durante todo o tempo da legislatura, perdão, do jogo. A máquina estilo tractor foi bem mais eficaz que o Passos Coelho na restauração do Relvas.
Ou será que a quantidade de água acumulada no Relvas era bem maior do que esta do tapete verde do estádio?
É muito provável.
Já não chove e é noite quando regresso a casa e me entrego a um momento de sofá em busca do visionar dos golos, “esplendor na relva”, e da confirmação das grandes penalidades do meu Benfica, de comando na mão e navegando entre os canais de notícias. Nada de golos. Apenas e só, o “esplendor de Relvas” dissecado pelos comentadores e politólogos.
Estou cansado, apetece-me dormir… esta é afinal a hora dos “mágicos cansaços”, a hora dos ataques da doce saudade que num romântico como eu, emergem sempre por sobre estas aquosas e frustradas primaveras.
Desembocando directamente da memória, um dia com tanta relva impõe-me ao pensamento o excelente e inesquecível filme de Elia Kazan, “Esplendor na Relva” (Splendour in the Grass).
Natalie Wood, Warren Beatty e os amores difíceis e castrados da adolescência, paixões tornadas impossíveis pela profusão de preconceitos e recalcamentos das gerações progenitoras, os amores que se convertem em duas vidas distintas e afastadas.
A luz que brilhava tão intensamente
Foi agora arrancada dos meus olhos,
E embora nada possa devolver os momentos
De esplendor na relva e glória nas flores,
Não sofreremos, melhor,
Encontraremos força no que ficou para trás.
A esta poesia de William Wordsworth (1770-1850) foi outro William, o Inge, buscar inspiração e título para este filme que em 1961 lhe valeu o Óscar para melhor argumento original.
E adormeci com estas palavras…
Encontraremos força no que ficou para trás.
Que assim seja para sempre no amor e na vida.
E quanto ao Relvas?
Que do seu passado de esplendor e glória no Governo encontre também a força mas para se eclipsar. A gente agradece e a pátria também.