terça-feira, 9 de abril de 2013

Tão tristes as tardes que sabem a saudade…


De um intenso tom de negro e cinza, perseverantes, insistentes, as nuvens anulam o sol no seu fulgor e brilho intensos, marca dos dias que esperávamos nos pudesse trazer a primavera.
No horizonte, que por ora nos matou o mar, há gaivotas sem rumo que esvoaçam e árvores loucas esbracejando ao ritmo de uma brisa fria, grito e prece dos tristes ramos, verde apelo ao vento que de abalada lhes ponha para bem longe, o sabor feito desta mágoa que sempre carrega a tempestade.
Vazia, a calçada marcada a alva e negra pedra, espera em vão o desenho e o compasso do nosso paralelo e lento caminhar, nesses instantes em que as mãos num impulso se entregam, dando gesto ao amor cantado pelo riso e pelo brilho da cumplicidade dos olhares que são os nossos e que sem reservas se entrecruzam.
E só o vento, os ramos e as gaivotas, rompem no ar o silêncio nascido da ausência dessas palavras que em nossas bocas aguardam ansiosas pela chegada dos dias que têm cheiro a verão.
Fazendo voar para bem longe o pensamento, para lá onde só chega esse doce privilégio da memória, colo à vidraça o meu olhar que nada vê, e logo, no vapor de um tão breve suspiro, opaco torno o vidro que é meu cúmplice nas horas em que espreito o mar.
A infância há muito levou com ela o jeito e a arte de rabiscar num vidro que o respirar tornou fosco…
E a memória dá-me o teu riso e devolve-me o sol… o coração grita saudade… e a tarde, triste, sucumbe à noite no monótono cumprir do ciclo do tempo.

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