domingo, 7 de abril de 2013

Boa Nova


“Entrava a fermosissíma Maria
Polos paternais paços sublimados,
Lindo o gesto, mas fora de alegria,
E seus olhos em lágrimas banhados.”
É com estas palavras que Camões inicia no Canto III de Os Lusíadas a descrição do episódio da Formosíssima Maria.
Maria é filha do nosso rei D. Afonso IV e rainha de Castela por matrimónio com D. Afonso XI. Estando difíceis as lutas do seu marido contra os Mouros, Maria desloca-se a Portugal, ao Paço de Évora, rogando ao pai que envie as suas tropas e a ajude a defender a “sua gente” e o seu trono. Camões compara este gesto ao de Vénus solicitando a Júpiter o socorro para Eneias.
Diz a lenda que o Rei Português tardou a dar a sua resposta positiva, e que só no caminho de regresso a Castela e acampada algures no campo alentejano junto a uma ribeira, Maria recebeu a boa nova.
Para assinalar este local foi erguida uma ermida dedicada a Nossa Senhora da Boa Nova e a ribeira passou a receber o nome de Lucefecit (fez-se luz).
A lenda é o que é mas a capela e a ribeira existem nos arredores de Terena, uma fantástica vila alentejana minha vizinha, do concelho do Alandroal.
Semelhante a um pequeno castelo, esta ermida de Nossa Senhora da Boa Nova acolhe hoje e amanhã, fim-de-semana de Pascoela, uma das romarias mais impressionantes em que já me foi dado participar. Quem um dia ousar duvidar da fé das gentes do sul, vá a Terena nestes dias e veja como afina o seu julgamento.
No domingo à noite a curiosidade de saírem duas procissões ao mesmo tempo de duas igrejas distintas, a procissão de São Pedro que sai da Igreja Matriz no Castelo, e a procissão com a Senhora da Boa Nova que sai da sua ermida. Chegadas ambas a um ponto intermédio assinalado com um cruzeiro de pedra, as imagens de São Pedro e Nossa Senhora são colocadas frente a frente e os nomes que transportam a parte da frente dos andores baixam-se fazendo com que as imagens se saúdem com um gesto de vénia.
Seguem depois as duas procissões numa só para a Igreja Matriz e só na segunda-feira de manhã a imagem da Senhora da Boa Nova regressa à sua ermida numa enorme procissão em dia de feriado municipal no Alandroal.
Entre estas manifestações de profunda fé, os piqueniques em família junto à ribeira para comer o arroz tostado e as costeletas de borrego panadas que tinham restado da Páscoa, o desassombro da nossa entrega ao campo vestido de primavera e perfumado com aromas que jamais poderei descrever, as enormes trovoadas que quase sempre nos brindavam com um duche involuntário, a compra das rifas e os anúncios do “bazar”, confesso que tenho muitas saudades destes dias de festa rija em que apanhávamos a “camioneta” da Setubalense em Vila Viçosa e nos juntávamos alegres a todos os nossos conterrâneos e vizinhos.
Porque grande é a crença de toda a gente nos “poderes” da Senhora da Boa Nova, afirmando-se porém nas redondezas, que não gosta de ver noivas na sua Igreja.
Há alguns anos, uma amiga resolveu “furar” esta maldição e mostrou-se vestida de noiva casando na Senhora da Boa Nova.
É um facto que se divorciou passado pouco tempo, o que não abalou minimamente as crenças de todos os que participámos na boda, afinal, sabemos que há casamentos que para darem certo teriam de estar muitíssimo para lá dos territórios que já são classificados de grandes milagres.

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