quinta-feira, 11 de abril de 2013

Jangada de Pedra


Não consigo identificar a agradável melodia que pelo toque de um piano acompanha o estranho bailado dos aviões na placa do aeroporto da Portela nesse encontro que é sina alfacinha entre quem chega e quem parte mundo fora.
Estou no interior de um avião da Ibéria rumo a Madrid com muito poucos Portugueses e muitos Espanhóis com cara de terem comido “carradas” de Bacalhau Dourado, que regressam a casa munidos de Vinho do Porto, Pastéis de Belém e camisolas do Cristiano Ronaldo, num filme consumista que dá razão ao Ministro da Economia, salienta a gastronómica complementaridade entre Porto e Lisboa, e um filme que bem se poderia chamar: "A vingança das Nancy's, dos Pyrex’s e dos Caramelos".
A minha leitura da revista Sábado denuncia-me os interesses e as preocupações, fazendo "parelha" com o El Pais do meu vizinho do lado.
Rapidamente encetamos uma conversa.
Falamos de Portugal e Espanha, dos pontos que nos aproximam e que sem complexos devemos explorar região a região, sem que com isso coloquemos em risco a identidade cultural de cada nação, no desmembrar desse complexo de Aljubarrota, que já não faz qualquer sentido, muito menos numa altura em que os povos do sul da Europa estão a sofrer um ataque feroz.
Temos uma idade aproximada e ambos desabrochávamos para o mundo no tempo em que os crisântemos do enterro de Franco a caminho do Vale dos Caídos vieram fazer companhia aos cravos de Abril numa Península Ibérica com novos ares de liberdade.
A falar em Castelhano, porque sempre o entendemos e falamos muito melhor do que eles o Português, fomos revendo a dois, quatro décadas em que acreditámos que a liberdade era uma garantia e o progresso, um assumido e irreversível destino.
E agora, a Sábado fala de uma férrea austeridade a esmagar o Estado Social ao nível das funções mais básicas da dignidade, e o El Pais da proibição de manifestações a menos de trezentos metros da residência dos políticos Espanhóis.
Detalhes, episódios de uma paralela crise no âmbito do Euro, os grilhões da finança e a escravatura do capital, a matarem o progresso e a ferirem de morte a liberdade nesta ibérica Jangada de Pedra, como a imaginou Saramago, que cruza o Cabo das Tormentas, esse ponto onde há um perigoso e real Adamastor que spricht Deutsch e que… há sessenta anos queimava pessoas.
A viagem até Madrid é demasiado curta e impede-nos de muito falar (a Iberia em crise, nem um simples copo de água nos ofereceu para aclarar a voz) e quando damos conta estamos a descer para a capital de Espanha.
Não sei o nome do meu companheiro de viagem de quem me despedi com um aperto de mão e um desejo de boa sorte. Ibéricas cumplicidades algures nos céus da península.
Com um sorriso ainda me disse de saída:
-E se a liberdade e o progresso foram interrompidos, esta crise também o será um dia.
Como nós dizemos na nossa terra: "não há bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe".
Que acabe depressa e que muito saibamos fazer por isso.

2 comentários:

  1. Interessante pois que, durante a leitura deste agradável post, me veio à cabeça uma conversa com um amigo também de Madrid e exatamente acerca do fascinio que muitos espanhóis têm pela nossa Revolução dos Cravos...
    Abraço***

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  2. Simplesmente gostei com tenho gostado de todos os teus textos.

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