sábado, 20 de abril de 2013

Big Brother Vip


Há muitos anos, quando a TVI ainda era um projecto que sonhava ter inspiração cristã, a Teresa Guilherme permanecia como uma forma desconhecida de poluição sonora e os confessionários eram locais onde as pessoas se ajoelhavam perante o padre e não perante Portugal inteiro, o olho do “Grande Irmão” existia apenas na velada e insistente bisbilhotice exercida ao nível das vizinhanças, sempre tão atentas a ruídos e movimentações estranhas que rapidamente se convertiam no mote para uma boa conversa na mercearia ou no lavadouro público, quantas vezes despoletando esse requintado processo de alta criatividade que é designado por boato.
Com o Tony Carreira ainda a jogar ao berlinde na sua “aldeia perdida na Beira”, o José Castelo Branco a brincar com as Nancy’s divertindo-se a roubar o baton da mala da mãe e a Marta Leite de Castro sem sonhar sequer com a alta rotatividade da sua mudança semanal de “encostos” afectivos, as pessoas importantes situavam-se ao nível da rua, da vila ou da escola onde vivíamos.
E sem querer e sem que tivéssemos disso uma clara noção, nós vivíamos no contexto de um saudável Big Brother Vip em que as expulsões eram maioritariamente ditadas pelos afectos ou então pela ausência deles.
A prova maior desta nossa recíproca atribuição do estatuto de VIP na altura da nossa adolescência e juventude e no contexto das nossas simples relações ficava registada num fenómeno que é hoje apenas uma memória: os livros de autógrafos.
Inventados para que neles preservássemos as palavras, os nomes e as assinaturas das pessoas importantes, estes pequeníssimos livros de capas rijas e folhas brancas, eram utilizados como álbuns de imagens feitas de palavras e em que cada página tinha como destinatário, um dos amigos das nossas relações mais próximas.
Sempre com grandes declarações de amizade e o propósito de a prolongar indefinidamente no tempo, como a criatividade por vezes não abundava, era frequente ter de recorrer a um conjunto de quadras que toda a gente conhecia.
Havia as quadras de toque ingénuo:
Ainda ontem vi a Maria
Num carrinho de bebé
Tinha a cara toda suja
Da papinha Nestlé.
E havia quem ousasse e rondasse pela brejeirice, mas sempre numa escala facilmente tolerada:
No dia do teu casamento
Vai haver grande bailarico
Que até debaixo da cama
Irá bailar o penico.
Faziam-se uns bonecos, colocava-se a data e os inevitáveis beijinhos… e o livro seguia de mão em mão, sendo considerado privilégio e prova de amizade, um pedido para um “autógrafo”.
Saudável “Big Bother Vip” em que todos participámos no âmbito das relações próximas que são ditadas e estabelecidas pelo coração de cada um.
Sem cachet para a demonstração pública de quaisquer promíscuas imbecilidades.
Não sei se ainda existirão livros de autógrafos mas suponho que se existirem seja para registar as assinaturas dadas a correr por algumas estrelas do music hall luso ou então aqueles famosos fabricados pela televisão e que se cruzam connosco nos corredores das discotecas que lhes pagam principescamente para aparecerem por lá.
São outros tempos e que até não são maus de todo pois possibilitam-me serões na companhia das boas séries do AXN e da Fox, para além, é claro, de muitas oportunidades para buscar memórias e registá-las por aqui.

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