segunda-feira, 30 de junho de 2014

O tempo e o envelhecer

À minha frente na sala de espera da consulta externa do Hospital da Luz está uma senhora lindíssima sentada numa cadeira de rodas. Não sou muito bom a reconhecer idades mas tenho a certeza de que o Cartão de Cidadã Nacional registará o seu nascimento numa data há mais de oitenta anos.
Alguém a transportou e a colocou face a face comigo deixando que os nossos olhares se cruzem e ela acabe até por esboçar um ligeiro sorriso nesse preciso instante. A mesma pessoa a transportará depois para a consulta quando chamarem pelo seu nome.
Imagino quantas histórias ela trará consigo “cravejadas” nas pernas já sem força e que impedem que caminhe...
Quanta vida lhe trará tingido assim de cinza o cabelo imaculadamente penteado por alguém nesta manhã?
E como olhará ela o tempo e o futuro por detrás daquele ser que já não existe de forma autónoma, independente?
Que cor terá o ver-se assim envelhecido?
Ontem domingo estive com os meus pais em Fátima na celebração da eucaristia no recinto, e junto a nós os três, estava uma outra família mas de dimensões bem maiores, com uma senhora que identifiquei logo como matriarca e denominador comum dos afectos de toda aquela gente.
À hora do adeus à virgem, impressionou-me a forma convulsiva como chorou, quando quase toda a gente por ali o fazia em silêncio, sendo denunciados apenas pelas lágrimas insistentes que corriam rostos abaixo.
Eu nunca entendi muito bem porque choramos no adeus a Fátima.
Será a saudade dos muitos que lá estiveram um dia connosco e agora já não estão?
Será a nossa própria saudade sobre aquele dia em que já não podermos estar ali?
Talvez um pouco de tudo isto.
E hoje ali na sala de espera, enquanto aguardava que chamassem o meu pai para a consulta de rotina de oftalmologia, a imagem serena da senhora à minha frente libertou-me na memória a senhora do choro de ontem, e juntei as duas talvez à esquina do medo de envelhecer que quase nunca deixa as pessoas indiferentes, e a mim por certo que também não.
Apeteceu-me então sair dali e ir viver intensamente para que nenhuma palavra fique por dizer ou escrever, nenhum beijo ou abraço fique adiado ou por dar, nenhum aroma e gosto fiquem por consumir no prazer de momentos únicos e irreversíveis…
Um dia, quando alguém me transportar seja para onde for por eu já não poder andar, quero ter o ar sereno daquela senhora que sorri, tendo no entanto comigo o peso de todas as histórias reservadas para mim no desenhar dos meus dias.
E se nessa altura me levarem a Fátima também quero chorar muito.
Não por saudade dos que já partiram, não por saudade dos dias em que já lá não conseguirei ir; mas chorar de alegria pela emoção de que o céu está ali a um passo e de que a bagagem que levo vai carregada daquilo que de melhor há no universo.

domingo, 29 de junho de 2014

Escravos da regra no silenciar da fé

A vela acesa tem o acrescido benefício de me confortar as mãos na noite fria de Fátima.
À minha volta há milhares de outras velas que resgatam rostos anónimos da penumbra da noite, e a vela acesa é assim a expressão de uma fé que nos une a todos.
A mim e aos meus pais, ao casal de Irlandeses que desceu connosco no elevador do hotel e que acabou a falar comigo de Temple Bar, do jovem com a camisola da Selecção de Futebol da Colômbia que grita golo no hall do hotel, da mulher que se descalça à minha frente no santuário quando a procissão se prepara para sair, dos dois meninos americanos de riso incontrolável que passam o terço a tirar fotos com o i-pad do pai, dos Chineses que rezam o quinto mistério em Mandarim fazendo com que eu só entenda a palavra “Maria”, das duas mulheres que há minha direita eu percebo que se namoram….
E quantas mais histórias…
Ali virado para a Capelinha das Aparições, penso também nos Jordanos com quem me cruzei há dias, ajoelhados nos seus tapetes e virados para Meca, penso nas raparigas Açorianas coroadas com a prata e os símbolos do Espírito Santo que vi também há pouco tempo nos Açores, e penso como a fé tem afinal tantos rostos quanto o número de Homens que habitam o universo.
E o epicentro dessa fé será sempre o coração dos Homens, com independência do “altar” ou da latitude para a qual nos viremos ou não na hora de rezar.
Na noite fria de Fátima impera o silêncio por entre as velas acesas até ao momento em que termina o terço e a procissão sai da Capelinha. Há então homens fardados ou homens com uma braçadeira verde que gritam para a multidão, empurram gente para a escravatura de uma linha preta desenhada estrategicamente na calçada, mandam acelerar velhos e coxos com a mesma leviandade com que se organiza um baile num serviço hospitalar de ortopedia… e já ninguém consegue rezar nem mais uma Ave-Maria.
Foi-se a paz e veio a estúpida regra de andar depressa sobre uma linha preta desenhada no chão.
O essencial, rezar, morreu às mãos da norma criada pelo Homem numa circunstância meramente logística em que não hesitou impor-se sobre a fragilidade dos outros fazendo de si um poderoso juiz.
Profético e exemplificativo.
A religião esmaga tantas vezes e inexplicavelmente a própria fé quando se substitui ao essencial na norma estúpida da conveniência de meia dúzia de poderosos.
E se os “operacionais das religiões” tivessem cara de ressuscitados, e palavras e gestos de gente de fé; nós até continuaríamos a rezar.
Mas há linhas pretas no chão de Fátima e um horário rígido a cumprir, há burkas sobre a face das Jordanas, há a moral que assenta mais nas convicções do que da própria fé.
Crucifiquem-me se quiserem, mas mesmo sendo católico e professando portanto uma religião, não tenho quaisquer dúvidas de que os maiores fazedores de ateus são os operacionais emissores e cumpridores de normas absurdas sacralizadas pelas suas conveniências; os que habitam nos templos mais íntimos das religiões a fabricar a moral.
A noite continua fria quando abandonamos o santuário e nos dirigimos de novo de volta ao hotel.
Falamos de quê?
Do homem e dos empurrões que levámos.
A paz à hora do terço?
Já passou.
A fé?
Viverá connosco eternamente e por cima de todas as convenções e meras circunstâncias da moral tantas vezes imbecil.

sábado, 28 de junho de 2014

Os mistérios do amor numa conversa ao fim da tarde

Em Vila Viçosa, às vezes ao fim da tarde e quando o sol insiste em se retirar ali para as bandas da Rua dos Fidalgos, a mesa dos amigos convoca-nos para a esplanada do Café Restauração, sendo a bebida fresca apenas um pretexto, porque o patrocínio da conversa e do riso, é o afecto eterno que nos une.
Ontem foi mais uma vez assim e as palavras levaram-nos até aquele momento “pirrónico” em que fui questionado sobre o amor e a paixão, expressos tantas vezes no que eu escrevo.
Como então não tive tempo para responder, Manuela, Manuel, Ana Cristina, Joana e Fábio, meus queridos amigos, aqui vai a resposta:

Perguntas tu se é uma paixão
O que está por detrás dos meus versos
E eu digo que não há coração
Que não guarde segredos diversos

Jamais existirá um poeta
Que fale de amor sem o sentir
Se é o sol que um dia completa
E faz a noite à hora de partir

É assim bem fácil saber quem é
Que dá ao amor identidade
Alguém que estando mesmo aqui ao pé
Nos faz até chorar de saudade

E o amor em total dimensão
Não tem género e não tem cor
O amor é o próprio coração
Rendido ao que lhe dá valor

Assim eu vos confesso pois aqui
Olhando à nossa grande amizade
Que amor é tudo o que eu já vivi
Com este anjo, que o é de verdade.

Para bom entendedor…
Até para a semana com mais uma bebida temperada de palavras… e mistérios.   

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Uma absurda obsessão pela tragédia

Com mais ou menos fundamento, e com mais ou menos influência da nossa História antiga e recente, há em nós Portugueses uma quase absurda obsessão pela tragédia.
Não é raro que quando alguém vem ter connosco e desabafa:
- Sabes que tive um acidente e parti os dois braços?
Nós respondamos:
- Tiveste muita sorte…
Concluindo logo de seguida:
- É que poderias ter morrido.
Mas a sorte associada a um acidente e à fractura dos dois braços é algo que efectivamente soa a muito estranho, a não ser para nós que pomos sempre o destino muito para lá da fronteira do jazigo.
Agora que a Selecção Nacional de Futebol saiu do Campeonato do Mundo sem grande glória, o coro dos trágicos lá voltou a atacar com argumentos do tipo:
- “Pelo menos o Cristiano Ronaldo marcou um golo”;
Ou:
- “De todas as selecções europeias eliminadas, a nossa foi a que conseguiu maior número de pontos”;
Ou ainda:
- “Afinal até não foi mau porque só fomos eliminados pela diferença de golos”.
Pois foi, saímos eliminados como os demais e ao jeito dos dois braços partidos, mas ainda tivemos muita sorte. Porque até poderia ter caído o avião no regresso de campinas…
Um aluno que tire dez num exame tem uma óptima nota, pois poderia ter reprovado.
18% de desemprego é excelente, poderíamos estar todos desempregados e a dormir na rua.
Se nos fixarmos no terrível mais negro que nos possa acontecer até a mediocridade se torna aceitável.
Neste contexto da tragédia também é fácil “desenhar” e inventar heróis. O guarda-redes Beto chorou porque foi substituído e foi desde logo “trasladado” para o altar dos heróis porque as suas lágrimas eram da cor das dores da pátria.
Por favor, este homem foi o que afirmou depois da final da Liga Europa que ganhou ao Benfica pelo Sevilha, que o facto de ter ganho a uma equipa Portuguesa ainda lhe dava mais gozo.
Herói nacional? Com este conceito estranho de pátria, o homem estava a chorar pelas dores na barriga ou então porque o regresso antecipado a Portugal lhe diminuía consideravelmente o prémio de jogo.
Ainda associado a esta prática também é comum que alguém conclua no final que:
- “Afinal tinha sido possível”.
Já assim foi em Alcácer-Quibir com o desejado D. Sebastião e mais recentemente na final europeia com a Grécia.
Até o PEC IV ainda entra nesta onda.
Já li hoje o mesmo relativamente à goleada ao Gana.
Meus amigos, acreditar dá sempre muito mais jeito antes de um desfecho irreversível. Mais tarde, para além de ter o inconveniente sabor de uma sopa ingerida depois do almoço, já não consegue ajudar muito a mudar o destino.
Concluindo, tivemos uma prestação fraca no Mundial de Futebol. O Cristiano Ronaldo é indiscutivelmente o melhor jogador do mundo mas a grande maioria dos seus companheiros de selecção não é lá grande coisa, e o facto do Paulo Bento ser um treinador que nunca ganhou mais nada para lá de umas Taças de Portugal, também não ajuda muito.
Sem explorações pela área negra da tragédia, com objectividade e sem resignações; que assim com total apoio da razão, se cresce e se altera o rumo negativo que possa ter a História.
E sem que nos contentemos com pouco.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Tu, o teu amor e o quase nada que eu sou…

Há instantes que nos resgatam da mágoa, nos transportam para os sonhos e fazem surgir a melhor versão de nós mesmos por entre sorrisos francos e com raiz na alma.
Instantes que são fruto às vezes da aparência de tão pouco; que nunca nada é pouco quando nos torna assim felizes, e até o quase nada multiplicado com o amor resulta sempre no muito e no mais que perfeito.
E os bancos de jardim que amparam solidões tornam-se fontes de afecto e de pura paixão…
E as ruas, ao jeito da vida, ganham sempre um tom novo e doce quando o nosso olhar toca e beija o sorrir de quem carregamos na alma e nos pensamentos, mesmo que muito secretos.
Os mesmos caminhos e a mesma vida, polvilhados de amor e de açúcar como uma imensa e irresistível Bola de Berlim.
Esses instantes em que não travamos a vontade, chegam tantas vezes com a luz do fim da tarde, quando os nossos passos alinhados num paralelo desejo acompanham o ocaso por entre as palavras soltas e temperadas de uma indesmentível verdade.
Os passos… e as mãos que tantas vezes se procuram saciando-me a cada toque, mesmo que ao de leve, do mágico perfume da tua pele.
Gosto tanto de ti.
Muito obrigado por devolveres aos meus dias a bênção da melhor versão de mim.
Tu, o teu amor, e o quase nada que eu sou e que multiplicado por ti me faz perfeitos todos os caminhos.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Fraquezas musculares e outras da gente da pobre terra da má sina

Se existe algo de que nunca nos podem acusar é de falta de coerência, e a prestação da Selecção Nacional de Futebol no Campeonato do Mundo do Brasil, é afinal, apenas e só, um detalhe do país que já não põe bandeiras à janela, até porque muitas dessas janelas pertencem a casas entretanto entregues aos bancos por falta de liquidez dos proprietários que assim não conseguem pagar as suas prestações.
Na minha urbanização, a Remax e os seus colaboradores em pose de candidatos à Junta de Freguesia, ganham por goleada ao espírito nacionalista da bandeirinha que foi criado há uns anos pelo Brasileiro Scolari.
Assim, neste país de Estádios vazios e plantados no terrível silêncio de muitas dívidas, emerge sempre um problema de falta de músculo nas lideranças, e os jogadores a saírem do campo em maca têm claras semelhanças com as “saídas de comícios” de Seguro e Costa em KO’s conseguidos em dias alternados com base em “pontapés” dados mais ou menos à socapa. Nem precisam dos adversários para se magoarem, uma “corridinha” para a liderança e aí está alguém a cair para o lado.
Há também algo de Cavaco em Paulo Bento, na pose de zangado com o mundo, nas suas formas muito peculiares de falar de onde nunca se capta muito bem o que dizem, e sobretudo ao nível das suas escolhas polémicas. Seleccionar para um Campeonato do Mundo um Postiga com uma hérnia discal é como escolher Pedro Passos Coelho para Primeiro-Ministro. Sair do Mundial sem glória é quase como desmaiar num púlpito por entre assobios e gritos da populaça.
Escolher a Maria para Primeira-Dama e o Miguel Veloso para o Centro do Terreno também é algo muito parecido, pois entre o tom da tinta no cabelo e a falta de jeito, os destinos parecem coincidir inteiramente no desacerto e desadequação.
Um passe do Miguel Veloso e um prato de carapaus alimados preparados na marquise do Possolo… são quase a mesma coisa.
Depois, temos de olhar para o nível de outros intérpretes.
O João Pereira está para a lateral direita da defesa como o Paulo Portas para Vice Primeiro-Ministro: muita “sarrafada”, muitas penalidades… mas defender só a espaços; e quando nos damos conta já fomos goleados pela Alemanha.
O Éder é como o Secretário de Estado da Cultura, ninguém sabe quem o inventou e não há nenhum remate que acerte no alvo.
O próprio luso-brasileiro Pepe encarna em si muito de PSD, com as suas cabeçadas e pontapés nos diferentes adversários a serem muito parecidas com as sovas no Tribunal Constitucional.
Já o Raul Meireles e aquela profusão de tatuagens, mais parece um bordado de croché inventado pela Joana Vasconcelos sobre uma estátua do António Variações.
Embarcar num cacilheiro e ir embora não lhe faria mesmo nada mal.
O Rui Patrício também tem algo de Isabel Jonet e não se nega a distribuir uns franguinhos para alimentar a malta.
Até o Sócrates faz da RTP o seu “estágio” no Irão, e paira sobre o país ao estilo de Carlos Queirós, sempre a mandar palpites sobre um desacerto que ele próprio conhece por dentro.
Sempre nos podem dizer que temos o Cristiano Ronaldo que é indiscutivelmente, e eu concordo, o melhor jogador de futebol do mundo…
Sim. Mas nós também somos o melhor povo do mundo e estamos onde estamos, quase sempre condenados a fazer contas com o FMI ao jeito das operações matemáticas difíceis que envolvem os nossos grupos de apuramento.
Será sina? A inevitabilidade de um terrível e inevitável fado?
Talvez mais falta de jeito e ambição.
Eu vou continuar a torcer pelo país e pela selecção, com “Gana”. Mas não me parece que chegue a algum lado.

terça-feira, 24 de junho de 2014

São João e um brinde com limonada

A Tia Maria faria hoje 105 anos, e nos 86 em que andou pela Terra nunca se conformou com o seu segundo nome de Teodora, considerando que em homenagem ao santo do dia do seu nascimento, se deveria ter chamado Maria João.
Mas nunca se dando por vencida e não aceitando como último destino esta má escolha dos seus padrinhos, tratou sempre de comemorar o seu aniversário em festa de grande louvor ao “Baptista”, não faltando à missa na ermida existente no Carrascal, preparando sofisticadas flores de papel para ajudar a decorar a sua Rua de Santa Luzia, e também com a montagem de uns altares encimados pela imagem de barro pintado que ela tinha todo o ano sobre a cómoda do seu quarto, e que ainda hoje lhe guardamos em nossa casa; altares decorados com as flores dos melhores vasos do quintal.
E o quintal era um espaço não muito grande, sombrio e fresco, porque beneficiário da sombra de um velho limoeiro que jamais soube o que era não ter folhas, e que partilhava raízes com os coentros, a hortelã e a salsa, os “cheiros” existentes no canteiro arrumado à parede do lado esquerdo.
Ao fundo do quintal existia um telheiro onde no verão tomávamos banho com a ajuda de um balde / duche de metal cuja torneira funcionava através de uma corrente que se puxava sempre que desejássemos que a água caísse sobre a nossa cabeça.
Do incansável limoeiro se colhiam os frutos em Dia de São João para preparar um lanche de aniversário que para além do toque ácido da limonada, tinha também o aroma e o gosto de um daqueles bolos que se fazem em casa nas velhas formas que parecem já saber de cor todas as receitas.
Chamávamos a Angelina que era nossa amiga e tinha uma mercearia quase em frente da casa da tia, e sentávamo-nos todos à volta da mesa redonda que ficava muito próxima da janela do rés-do-chão que era o melhor contacto com a rua, e debaixo da qual estava o célebre altar de São João.
Por mais anos que passem e por mais dias de São João que a vida me ofereça, não chegará nunca a hora do lanche sem que eu sinta saudades destes momentos.
Da “Ti Bia” e desta casa guardo as memórias de muitos e bons anos, milhões de palavras, de gestos, de aromas e sabores, dos infinitos e profundos afectos que me moldaram o ser; e guardo em minha casa uma velha e colorida manta de lã que ainda hoje derrota por goleada, os sofisticados edredões do IKEA, nas noites em que é mesmo necessário aquecer.
Uma herança de lã para me confortar na hora de soltar em sonhos as muitas heranças da gente, da minha gente, e de um tempo magnífico e inesquecível.
Um dia, a Tia Maria resolveu deitar para o chão do fundo do quintal, a água que restava no alguidar depois de ter lavado e preparado o tomate para a sopa do almoço.
Não tardou a que por entre as frestas das lajes grosseiras e desordenadas que nos ofereciam chão, nascessem viçosos tomateiros de onde se colheram frutos para algumas outras sopas.
Por debaixo das lajes havia terra fértil.
Por debaixo do tempo de hoje há sempre a raiz do que somos alimentada pelo muito que nos deram e que vivemos.
Serei sempre grato.
E um beijo muito especial de parabéns para a Tia Maria, que esteja onde estiver não resistirá hoje a ir cumprimentar o São João e a brindar com ele… com limonada, claro. 

segunda-feira, 23 de junho de 2014

O céu que cabe todo no teu olhar

Há muito que ouço trovejar, e por isso não estranho a intensidade dos relâmpagos quando às escuras me aproximo da janela da Cozinha que me oferece vista desafogada até ao Tejo e ao seu irresistível encontro com o mar.
É um espectáculo único, este dos raios a tentarem contrariar a noite, iluminando assim intensamente o breu que é costumeiro palco exclusivo para o brilho das estrelas nas suas muito arrumadas e muito bem conhecidas constelações.
Um espectáculo ao jeito da melhor sessão de fogo-de-artifício em qualquer romaria, ou então do disparo do flash de uma hipotética câmara fotográfica gigante e com direito a Guiness Book of Records.
A noite de verão é denunciada aqui apenas pela temperatura, pois no demais tem tudo de inverno, e até a chuva que não tarda em cair com uma intensidade que faz tremer a vidraça.
O prédio já está em silêncio depois daquele “desafio” de gritos, golos e impropérios, patrocinados pela astenia dos jogadores da Selecção Nacional de Futebol, uma apatia crónica veiculada pelas operadoras de televisão que nos fazem chegar as notícias com a diferença de alguns segundos. A avaliar pelas manifestações sonoras, o meu vizinho de cima vê os golos antes de mim, mas eu levo vantagem sobre os vizinhos do apartamento ao lado do meu.
Hoje, nem no Campeonato do Mundo do Brasil, nem aqui no céu por cima da minha casa… esta não é definitivamente a noite que faça brilhar todas as estrelas.
Mas nunca será pelo facto de as não podermos ver, que as estrelas do céu deixarão de existir.
São muito mais vulneráveis, todas as nuvens que as escondem desta forma tão fugaz.
E o verão e as suas noites são como os golos gritados pelas gentes nos apartamentos do meu prédio; poderão tardar, mas chegarão sempre a tempo de podermos fazer uma grande festa… à luz das estrelas.
Agora, através da janela, vejo chover copiosamente enquanto tomo as minhas “pastilhas”, porque isto dos quarenta e muitos, arrasta sempre consigo o acelerar do risco cardiovascular. No prédio ao lado, alguém se entrega ao próprio “risco” e fuma com “ganas” à janela, promovendo uma estranha competição entre a ponta incandescente do seu cigarro em cada “passa”, com o impossível clarão dos relâmpagos.
E por falar em coração…
Tão parecidas que são as estrelas e o amor, em tudo e até no chorar; quando a saudade, assim como as nuvens, não nos deixam ver o céu.
O céu das estrelas que cabe todo no teu olhar.
Gosto tanto de ti.
Oxalá a chuva intensa sobre a vidraça não me acorde e interrompa o meu longo e permanente sonhar contigo.
Isso sim seria perder ou empatar.

domingo, 22 de junho de 2014

Sob o céu perfeito da primeira tarde de verão

O sol rompeu vigorosamente as nuvens, e Lisboa brilha assim sem pudor na primeira tarde de verão, fazendo emergir todos os tons garridos que lhe vestem o casario disposto em socalco pelas sete colinas que namoram irresistivelmente o Tejo.
Sinto um indescritível prazer na hora de “aportar”.
E uma cidade é muito mais do que apenas um espaço físico, é uma confluência de vontades.
Em Lisboa, hoje há balões coloridos no Príncipe Real que se elevam juntamente com o orgulho de quem não se verga perante as convenções e se assume inteiro em todas as suas diferenças.
A marcha do orgulho gay irá descer até ao Chiado que já “arde” de turistas de todas as nacionalidades e línguas, prova maior da universalidade da velha Olisipo.
Eu deixo o carro no Camões no parque por debaixo da estátua do poeta da “lusitanidade” e de um palco onde uma jovem banda afina uns acordes para começar um concerto rock, e não tarda, descerei a Rua do Carmo a ouvir as palavras de ordem que chegam do Rossio. Os professores apelam ao reconhecimento do seu trabalho e pedem dignidade na forma como são tratados pela tutela.
Já vou nos Restauradores quando os ouço cantar o Hino Nacional e o da CGTP em despique com alguém que afina as vozes no palco gigante onde mais tarde actuará o Tony Carreira.
Há uma horta semeada na Avenida.
A minha geração americanizou-se e, ao estilo do Epcot Center do Disneyworld de Orlando, na Florida, necessita do Continente para demonstrar aos seus filhos e netos, que as ervilhas não são umas bolinhas verdes que já nascem congeladas em sacos nas arcas frigoríficas dos hipermercados.
Há ovelhas no Tivoli, porcos junto à Armani, e na Prada… o diabo com essa verdadeira mistura explosiva das “galinhas” e do próprio Tony.
A inevitável Serenella grita como se não houvesse amanhã, uma “tia” confunde os frutos pequenos de uma macieira com tangerinas… e eu parto para o Bairro Alto onde me espera o jantar.
Ainda estão “viçosas” todas as marcas de Santo António nas vielas que “bebem” o som de uma outra banda que actua agora no Palco do Camões; e, por entre as bolinhas de alheira do meu jantar regado com um tinto Alentejano, não tardarei a sentir como as ruas do Bairro adoptaram e tornaram seus os pontapés dos jogadores do Gana que fizeram golos na baliza da velha Alemanha.
Vingança ou tão-só porque o verdadeiro diabo não veste Prada, mas veste uns casaquinhos a três quartos, todos coloridos e que lhe assentam como cuspo numa parede caiada.
Mais tarde deixarei Lisboa pela rota do Tejo e deixarei a cidade entregue a outros sons numa noite regada a vinho e cerveja.
Uma cidade é muito mais do que apenas um espaço físico, é uma confluência de vontades e a pátria onde cabem e são legítimos, todos os sonhos.
Por impulso do reconhecimento da diferença, da revolta, da reclamada dignidade… ou até da paixão alimentada pelas palavras de um cantor romântico que fala de amor.
Uma cidade…
Lisboa sob o céu perfeito da primeira tarde de verão. 

sábado, 21 de junho de 2014

O verão

Com um assinalável rigor astronómico, mas com alguma chuva, o verão chegou hoje pelas 11.51 horas.
Há muito o pressentia, pelo ar quente que nos empurra para a melancia fresca e para os gelados; pela colocação do gaspacho e do “salmorejo” como opções a ter em conta na elaboração do menu; pelos dias maiores a convidarem a uma cerveja por entre a conversa ao fim da tarde numa esplanada algures na costa e a olhar o Atlântico; e também pelo esforço titânico de uma colega bem próxima de mim, que há duas semanas só almoça umas bolachas especiais que diz serem um compacto de salmão e outros alimentos, ingerindo simultaneamente litros de uma substância a que chama drenante, determinada que está a objectivamente urinar a parte do corpo que julga estar a mais e que a impede de vestir o fato de banho que seleccionou num catálogo a partir da fotografia de uma manequim que tem algo menos de metade do seu volume corporal.
Hoje é o maior dia do ano, pelo tempo disponível de sol, e não pelo concerto do Tony Carreira nos Restauradores ao fim da tarde na “Horta do Continente”, momento pimba-afectivo-musical que ontem era objecto de uma animada conversa de vizinhas aqui pela pastelaria perto de casa, acertando a logística para que chegassem o mais perto do palco e do cantor romântico; situações apoiadas pelos seus maridos, por certo, por via da perspectiva de finalmente poderem assistir a um jogo do Mundial de Futebol sem estes verdadeiros apitos humanos a martelarem-lhes os ouvidos.
Ao jeito de “Os Fúria do Açúcar”, eu também gosto do verão… mas sem ter motivos para apreciar em particular este dia do solstício.
A minha avó materna, a avó Francisca, foi para mim a mestra ideal no privilégio de desfrutar todas as excelências do campo.
Era a avó que eu acompanhava aos ribeiros de água fresca para lavar a roupa que corava pelas estevas, roubando-lhes os aromas; era a avó que trazia para casa os cheiros que dentro de água num alguidar no poial dos cântaros, perfumavam a cozinha durante todo o ano; era a avó que tinha vasos infinitos de sardinheiras e cravos nas janelas, e que sempre nos sorria por entre as suas flores, quando acudia ao seu nome na janela do Rossio ou na janela da Rua do Poço.
E tudo isso por entre esse infinito amor das avós que tantas vezes tinha expressão em coisas tão simples quanto o nosso despertar pela manhã num dia de feira, tendo por perto um saco de torrão, uma camisa nova pronta a estrear ou então uma bola de serradura envolta numa prata colorida e suspensa de um elástico que com a ajuda do impulso das nossas mãos, a fazia saltar.
Mas num dia de solstício, a avó partiu ao fim da tarde, levada por certo pelo sol, seu cúmplice, que a recrutava assim como um adicional e perfeito feixe de luz por sobre os dias.
Faz hoje precisamente 33 anos.
Eu gosto do verão, e acho que gostarei sempre, apesar de sentir saudades do tempo de antes desse dia do meu solstício triste.
O verão é o sol…
Acreditar que ainda se vai a tempo de ser modelo, que o Tony Carreira vai olhar para nós enquanto “debita” uma letra romântica… ou beber uma cerveja ao fim da tarde, conversar na praia, libertar todas as memórias…
Tudo isso é a vida, no riso e na saudade, a ser preenchida de momentos únicos “debaixo” do sol.
Afinal, tudo isso cabe no verão.
Aproveitem-no e encham-no de sorrisos, palavras, abraços, beijos e momentos felizes; por tudo e porque assim se faz a melhor profilaxia para enfrentar os dias curtos e frios do inverno.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Ainda se escrevem cartas de amor…

Meu amor,

Num destes dias redesenharemos a lua no exíguo espaço de um abraço, e seguiremos pela noite na rota do seu brilho mais intenso, até aquele instante onde já não entram as palavras, e onde só os olhares conseguem ser fiéis e oferecer verdade a tamanho amor.
Aí, entregues os lábios a um longo beijo, e libertas as mãos do férreo peso das Histórias, entrelaçaremos mutuamente os nossos dedos, ao jeito da alma; marcando o ponto zero de um tempo que será o da nossa própria e única História.
Eterno: contigo, será o tempo cravejado de poesia.
E chegados assim juntos às manhãs de todos os dias, por entre o aroma do café e o conforto de um pão quente com cheiro a lenha de Alentejo, os dois olhando o mar para lá da vidraça que empalidece com o nosso respirar apaixonado; nós galgaremos horizontes como pássaros livres voando por sobre a racional escravidão dos limites.
Eu, tu e esse teu olhar irmão do céu que sabe incendiar-me a face do prazer dos mais rubros e intensos sorrisos.
Reencontro-me, no destino e na vontade, na esperança e na vida, quando te olho nos olhos… e tudo faz muito mais sentido.
Reencontro-me… às vezes tão-só numa memória e na saudade.
Meu amor, eu juro-te que num destes dias redesenharemos a lua…
Apenas porque necessitamos dela para nos alumiar nas noites do nosso caminho.
Afinal, a lua é tão-só um brevíssimo detalhe para alguém que como eu, amando-te assim, já é dono do universo inteiro.
Um beijo e esse amor infinito.
Teu,
Francisco

quinta-feira, 19 de junho de 2014

O Dia de Corpo de Deus

Não sei se têm a noção de que hoje, dia 19 de Junho de 2014, não fora a má gestão e a incompetência de quem nos obrigou a chamar a Troika (e não vou aqui apontar directamente os culpados pois esta discussão acaba sempre ao estilo Madalena Iglésias versus Simone de Oliveira, consoante as simpatias partidárias); mas hoje, dizia, estaríamos a esta hora a regressar a casa depois do gozo de um Feriado Nacional, o Dia de Corpo de Deus.
Os católicos talvez tivéssemos ido à missa ou à procissão, e os não praticantes, ateus, agnósticos e afins, talvez tivessem acudido a algum areal da Caparica, já que o dia esteve muito convidativo para uma ida até à beira-mar.
Já que nos acusam tantas vezes de memória curta, aqui fica pois esta menção que contraria esse princípio.
Eu não me esqueço, porque tenho memória; mas esperteza não devo ter muita pois não entendo a importância estratégica de tornar laboráveis estes dias que há muito eram festivos e de descanso.
E juro, não cheguei hoje a casa com a sensação de uma coroa de louros no alto da cabeça por ter ido ajudar a salvar o meu país da bancarrota, um herói ao estilo de Camões agarrado ao manuscrito de “Os Lusíadas” depois de um naufrágio.
Se vocês fizerem um dia um Pudim Mandarim, experimentem a juntar ao preparado, duas claras batidas em castelo. Dizem que o pudim ganha uma consistência idêntica aos pudins de ovos de confecção caseira, o que é claramente mentira. O selo de Mandarim continua lá na consistência e no sabor.
Abolição de feriados?
São “claras em castelo” para disfarçar o problema que continuará lá eternamente.
Mas como sou um homem de memórias e para não deixar passar em vão este dia, cheguei a casa e não dispensei procurar o ano da minha primeira comunhão, já que era esta a data para tal celebração em Vila Viçosa.
Foi no dia 21 de Junho de 1973 na Igreja de Nossa Senhora da Conceição numa missa celebrada pelo saudoso Padre Reia e sendo minha catequista a também saudosa D. Mimi Lisboeta.
Tenho diploma, medalha no fio e uma foto “impublicável”.
Todos envergando um hábito branco, recordo-me de termos feito o percurso de São Bartolomeu para a Igreja de Nossa Senhora, no Castelo, dois a dois, de mão dada, sendo meu inevitável companheiro, o Manuel. Quem mais poderia ser?
A fila era imensa e atrasava-se sempre porque um de nós perdia os sapatos e tinha de se agachar para voltar a calçá-los; o dinheiro nunca era muito, nós crescíamos rapidamente e as mães compravam sempre os sapatos com alguma folga.
Depois da missa fomos todos até ao refeitório do Seminário de São José beber um cacau quente que era feito com um preparado comprado na Pérola Calipolense e que me recordo ser fantástico.
Foi assim há 41 anos e era feriado por ser Dia de Corpo de Deus.
Hoje já não é feriado mas eu quis terminar o dia a recordar o porquê de já não ser, demonstrando de caminho que podem levar-nos as festas, os subsídios, as férias… mas há duas coisas que nunca nos levarão: a memória e a vontade de mudar um destino tecido pela mediocridade.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

A nossa terra

Tudo na vida é relativo, e por isso não estranhei que o motorista de táxi que me levou esta manhã do hotel em Ponta Delgada até ao aeroporto, ao saber que eu ia apanhar um avião para a Terceira e não para o continente, me tenha comentado:
- Então o senhor ainda vai até às ilhas.
Num processo em cadeia que vai no sentido do maior para o mais pequeno, o território onde se habita é assim uma espécie de “continente”, e os que se lhe seguem são as ilhas.
E para as ilhas ia também o jovem jogador de uma equipa de futebol da Madalena do Pico, que regressando a casa vindo de Boston, se encontra atrás de mim na fila para o controlo de segurança, a carpir as mágoas junto dos seus colegas, não se conformando com o regresso à terra “onde nada acontece e a noite é para dormir”.
Sentirá já saudades dos bares que frequentou na terra do Cheers, “aquele bar”.
Na ilha Terceira vive também a rapariga que me serve um café pela hora do almoço na pastelaria em frente à Sé, e que nem de propósito partilha com a sua colega de balcão e com uma cliente pelos vistos sua conhecida, o triste que é viver por aqui e encontrar todos os dias as mesmas caras.
As outras não concordam com ela e por isso ela vai extremando argumentos até dizer que ao ouvir falar em filas no IC19, até sente inveja porque isso é sinal de muita gente.
Haja gente com mau gosto.
Há então uma outra cliente que se mete na conversa e a tenta demover da vontade de ir para filas de trânsito, dizendo-lhe que vive na margem sul e de que já não suporta o trânsito na Ponte 25 de Abril.
Mas a rapariga segue pelas suas convicções.
É uma motorista de táxi que me traz de volta ao Aeroporto das Lajes vindo de Angra do Heroísmo. Metemos conversa e eu digo-lhe que a terra dela é fantástica.
Agradece e comenta:
- Não me vejo a viver em qualquer outro sítio. Este é o meu lugar. Já tive de reconstruir a minha casa após o terramoto de 1980 e voltaria a reconstruí-la mil vezes se tal fosse necessário.
E fala do sol e da forma como a luz vai alterando os tons de verde sobre a Serra do Cume.
Pego nos argumentos dos jovens com quem me cruzei pela manhã e questiono-a sobre a asfixia que se pode sentir a viver numa ilha pequena.
Sorri como que esperando a minha questão, previsível e com a qual tantas vezes se debate. Atira-me decidida:
- O meu marido foi o melhor homem que já viveu algum dia sobre a Terra. Partiu há quatro anos de morte súbita e deixou-me com este táxi e dois filhos que eu vou acabando de criar. Nunca importa o tamanho do sítio onde vivemos porque a nossa terra será sempre o local onde fomos ou somos felizes. O meu é aqui por entre as memórias de vinte anos e falando tantas vezes com o meu marido à medida que o sol me muda as cores de um caminho tão previsível e que faço tantas vezes.
É a minha vez de sorrir.
Pois é… o amor faz sempre a diferença, dá-nos pátria e às vezes até de uma ilha consegue fazer um continente.
Os outros dois “meninos” ainda não tiveram tempo de aprender a lição.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Os caçadores de piolhos

Um dos desportos mais em voga é a caça ao piolho, designação que eu atribuo aquele hábito tão lusitano e com raízes na inveja pura e dura, de conseguir descobrir algo menos positivo, um “piolho”, por entre uma amálgama infinita de excelentes atributos; dando então de seguida um desmesuradíssimo destaque a esse pequeníssimo detalhe que passa a ser o núcleo de qualquer apreciação.
Um exemplo:
- O Cristiano Ronaldo é o melhor jogador do mundo.
- Sim…mas já viste como a irmã é pirosa?
Outro:
- O Jorge Jesus foi campeão pelo Benfica.
- Sim filho… mas a mascar pastilha daquela maneira…
E ainda outro:
- A Ana Moura tem uma voz fantástica.
- Sim… mas aquele vestido semi-transparente do concerto do Coliseu…
Como se a forma de mascar pastilha ou a existência de uma irmã “pimba” fossem essenciais para ganhar jogos de futebol ou um vestido fosse fundamental para se afinar um fado.
Nesta caça, tal como em todas as outras, há também aqueles que regressam sem peças conseguidas, mas mesmo assim nunca se atrapalham e deixam algo no ar:
Um exemplo:
- A Julia Roberts é muito gira.
- Sim… mas tem ali qualquer coisa que eu não consigo explicar e que não me agrada.
Outro exemplo com algumas diferenças:
- O Mourinho é o melhor treinador de futebol do mundo.
- Sim… mas consta que para chegar onde chegou houve ali um não sei quê.  
E às vezes já não se fala sobre mais nada a não ser “o não sei o quê” destas criaturas.
Tal como eu já referi, esta prática da Caça ao Piolho tem raízes na inveja e também no assumir da postura de que na vida andamos todos a competir uns contra os outros; e elogiar alguém é então dar trunfos ao adversário.
E trunfos que podem ser decisivos.
Esta prática tem também alguns contornos de âmbito religioso e é muito treinada em sacristias e sucedâneos, pois na ânsia de chegar ao Céu rapidamente e até antes de morrer, qualquer beata gosta de se elevar ao estatuto de santidade, empurrando os outros para um nível um pouco mais abaixo atando aos outros os atributos mais negativos e cabeludos, ao jeito de pedras para que se afoguem rapidamente no mar.
Estou certo de que todos temos exemplos…
Ontem ao colocar no Facebook a foto que tirei em Petra ao lado de um velho Beduino que tocava um instrumento feito de pele de cabra e com uma crina de cavalo, houve logo alguém que comentou:
- A tua T-shirt ocidental é que não fica bem.
A minha T-shirt por acaso até era um pólo passou a ser o elemento mais importante da foto… e não precisam de ir ver quem fez o comentário porque eu já o apaguei.
Feito o meu diagnóstico deixem que vos diga que a malta anda a precisar da terapia do elogio e do positivo no sentido de acabar com esta prática infeliz e ridícula da Caça ao Piolho.
Tendo no entanto presente, e ressalvo, que aquilo que for seriamente negativo deve ser referido e combatido com veemência. Mas apenas o que valer a pena por ser importante.
É que se formos reler a História e já que falei de religião, repare-se que Jesus Cristo combateu seriamente os grandes pecados da humanidade; e nos outros detalhes era muito mais de dar e receber beijos do que de atirar pedras.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

A verdadeira história do Tó Zé e da Fátinha

Nos tempos longos de viagem pelo deserto da Jordânia nas férias da semana passada, foi nascendo uma história cuja semelhança com quaisquer personagens reais, a existir, será pura coincidência.
O nosso grupo de quatro, habitando no T0 na traseira do autocarro, deu assim argumento a esta história que bem poderia resumir os quatrocentos e noventa episódios de uma telenovela da TVI.
Eu limitei-me a fazer as rimas.
Divirtam-se e não pensem mais em futebol.

Uma história de encantar
Que do amor não prescinde
O Tó Zé de Gondomar
E a Fátinha de Ermesinde

Estilo estranho beto rural
Sempre, sempre numa boa
Assim entre o "Pão sem sal"
E a "kitada" Ana Malhoa

Roupa três números abaixo
Para ficar apertadinha
Não se come nada do tacho
Só se ingere uma frutinha

E assim com grande astenia
São gente de poucas falas
Com muito pouca alegria
A arrastarem grandes malas

A Fátinha já mexeu na boca
Que aquilo tresanda a bótox
Os dentes alinham com a roupa
Nas aplicações de inox

A sua "cumbersa" é tão estranha
Que até parece irmã do par
Assuntos? Nada se apanha
O interesse é de vomitar

Mas já sabem como é
Felizes para sempre serão
Duas pedrinhas sempre em pé
Com menos tino que um limão

A insustentável “beleza” do ser

Ter o atraso de uma hora no voo que me levará do Aeroporto de Lisboa até Ponta Delgada, e partilhar a Sala de Embarque com uma "multidão" de Portugueses que vai de férias para Cancun, deixa-me na dúvida se estarei na fila do casting para as novas divas do Finalmente Club ou então no desfile das novas atracções para o Carnaval de Torres Vedras.
Cada modelo é pior do que o anterior, e ao meu lado está uma que terá um metro e meio, mas que jurou a ela própria que um dia teria a altura da Claudia Schiffer.
Com um vestido comprido colado ao corpo e uns sapatos que lhe exigiriam aulas de circo no Chapitô, a criatura desloca-se com a classe de uma pata choca e a desenvoltura de uma lesma.
Surreal.
Vendo esta performance das Portuguesas, as Brasileiras que não são de se ficar e vão em passo apressado para o seu voo numa porta mais à frente, começam instintivamente uma guerra ao estilo "Noite de Nomeações na Casa dos Segredos" com as pontuações a serem inversamente proporcional ao tamanho das saias.
E com direito a doping, leia-se bótox.
Tento abstrair-me e olho para os monitores de TV. A RTP está em directo do Marquês de Pombal e alterna cantores pimba em playback com pares de mulheres aos saltos por detrás deles, com apresentadores a repetirem números de oitocentos e qualquer coisa que dão Euros.
Ainda não entendi porque é que eu que sou farmacêutico e irei preso se for à televisão publicitar um produto para combater a diarreia, e está gente passa impunemente os dias a anunciar esta "treta" como sendo a solução milagrosa para os problemas financeiros de pobres e desempregados.
Numa estação pública.
Peço aos Céus que comece o embarque e me tire deste inferno, e não tardo a ser ouvido, desculpando até o pontapé na língua pátria dado pela criatura que na instalação sonora tenta separar os passageiros de Ponta Delgada daqueles que seguirão para Toronto, pondo ordem na porta "Córenta e dois".
Jorge Jesus, amigo, tu estás a fazer escola.
Mostro o Cartão do Cidadão e já na manga e em fila para o avião reparo numa criatura XXL a que o peso não conseguiu demover de usar um vestido sem costas onde se vislumbra uma tatuada Estrela de David a ser literalmente esmagada por duas, por certo "Palestinianas", dobras de banha que pendem de um e de outro lado do pescoço.
Junto ao seu companheiro e a falar alto apercebo-me que em cada cinco palavras, quatro são asneiras e das feias.
Tinha de ser...
O "Concurso de Beleza" Portugal - Brasil terminou e eu levo à minha frente a "Primeira-dama de Horror" que também será candidata a "Miss Fotofobia".
Bolas!
Pois… por falar em bolas; veio depois o Pepe, a Austeridade Merkeliana de resultados e…
Ele há dias...
Meninas Sónia, Margarida e Patrícia, mas que bem que se estava no deserto na Sexta-feira, dia 13, ainda que só a comer fruta. 

domingo, 15 de junho de 2014

O Chiado nunca falha…

Para quem chega a Lisboa depois de uma semana na Jordânia e carrega em si esse tão legítimo e luso sindroma de privação de uma Bica e um Pastel de Nata, nada melhor do que esquecer o cansaço da viagem, e, depois de ter devolvido a roupa pejada de sal do Mar Morto à neutralidade da água que passa pela Máquina de Lavar, ir até ao Chiado, cumprindo esse “divino” prazer tão queirosiano e terapêutico no que à cura das saudades diz respeito.
Assim fiz ontem pela tarde, e com dúvidas sobre se o calor do deserto tinha ficado apaixonado por mim e me tinha seguido até casa.
Entre turistas alucinados com a temperatura e a oportunidade de muitas compras, e enquanto eu imitava os passos do Carlos da Maia e do João da Ega, o Chiado permitiu cumprir mais uma vez esse prazer de nunca deixar de encontrar alguém conhecido e dar dois dedos de conversa.
Conhecemo-nos há mais de quarenta anos, fomos colegas de escola até ao 12º ano e eu não a via há cerca de duas décadas.
Eu a descer e ela a subir, cruzámo-nos algures entre o Loreto e a Brasileira, e eu reconhecia-a de imediato, num misto dos contornos do seu rosto e também do andar que ainda mantém igual ao de antes.
Cumprimentei-a usando o seu nome.
Ela olhou-me, teve não mais de dez segundos de hesitação em que terá por certo pensado:
“Mas quem será este barbudo que até conhece a minha graça?” …
E cumprimentámo-nos de seguida com alegria pelo nosso reencontro ao fim de tantos anos, não tendo sido difícil pegar na conversa pois fomos sabendo notícias um do outro pelos muitos amigos comuns.
Estivemos à conversa uns bons cinco minutos, e depois lá seguimos os nossos caminhos, tendo eu finalmente saciado na Brasileira, a minha enorme vontade de uma Bica.
Ali, olhando os turistas no seu delírio em manter para a posteridade uma infinita variedade de poses com o Pessoa sentado e “moldado” no bronze pelas mãos de Mestre Lagoa Henriques, temperei de memórias, muito mais do que de açúcar, o prazer do meu café.
São as pessoas, muito mais do que os lugares e qualquer outro detalhe, que fazem a nossa História, e por mais décadas que passem, quem se agarrou a nós pela cumplicidade de tantos e infinitos afectos, jamais partirá.
Sabe bem “envelhecer” descobrindo que somamos riqueza nas pessoas que as décadas de vida nos oferecem, uma riqueza infinita e perpétua como o incalculável e imenso prazer da amizade.
O Chiado nunca me falha e dá-me sempre muito mais do que apenas bom café.
E dou por mim a sorrir a assobiar enquanto desço a Rua Garrett.

sábado, 14 de junho de 2014

Deus, pedras, guerras e esperança

Jordânia.
O sol queima-nos os passos e o olhar sempre que nos fazemos ao caminho ladeados por uma terra árida e semeada apenas de infinitas pedras, uma terra onde até os espantalhos são feitos de muitas pedras sobrepostas umas nas outras num estranho equilibrio.
E cada pedra que pisamos, tem um nome e guarda um detalhe na longa História do Homem e da sua fé.
A fé que hoje brota dos homens ajoelhados na berma da estrada orando ao seu Deus; no adeus acenado das crianças que sorriem sempre quando passamos; e também nas casas sempre incompletas, expondo nos telhados, os alicerces para novos pisos que surgirão em épocas que se esperam de mais abundância.
Mas a fé esmorece na subalternização e na escravidão das mulheres que são obrigadas a esconder o seu rosto e a sua identidade, sendo sombras negras que deslizam por entre o machismo doentio e brutal destes homens armados num absurdo “Deus Juiz”.
Um Deus transformado convenientemente em móbil de uma guerra permanente designada “santa”, que em tempos de cruzadas fez nascer castelos no deserto e no cimo das altas montanhas, e que hoje nos faz cruzar um sem número de bases militares de aspecto duro e sofisticado.
Israel é logo ali e avistamo-lo no outro lado do Mar Morto, a Síria um pouco mais acima e o Iraque ali mesmo ao lado…
Mas o deserto também esconde o esplendor da paz de civilizações que foram o nosso berço, e Petra, a cidade talhada pelo Homem no esplendor das montanhas vermelhas, é sem dúvida uma das jóias maiores no tesouro que em si conserva a humanidade.
Não se deve morrer sem vir até aqui.
Em Petra, pedra na fala dos Gregos, as montanhas falam, fazendo eco das mãos dos Homens que a criaram.
E por entre a guerra florescem assim argumentos para ter fé e acreditar no futuro; nos eternos “recados” de Petra, mas também nas mãos do jovem beduíno que nos oferece um açucarado chá de menta na sua tenda montada no deserto, ou das mãos sujas do homem que nos oferece uma amora na sua banca de fruta no mercado de Amman, e que nós saboreamos de imediato porque sabe a manjar do paraíso.
À sombra do castelo que Saladino construiu para combater os cruzados e lhes roubar a água, matando-os à sede; um velho beduíno que se perdeu já na contagem dos anos, e indiferente a tudo o que passa, descansa deitado sobre as ervas daninhas enquanto fuma o seu cigarro.
No deserto e de uma forma geral, os dromedários não morrem pacientemente com o decorrer dos anos que os envelhecem; ao fim de pouco mais de quarenta anos de vida, ficam loucos e os Homens abatem-nos então forçosamente pelo perigo que representam.
Às vezes os Homens são como os dromedários nesta confluência entre loucura e morte, esquecendo-se que há um velho a quem faltará tempo para saborear o seu cigarro por entre os aromas da paz.
Um velho e muitos milhões de almas.
Ontem saímos de Amman deixando a cidade como uma lua tal que nos obrigava a olhar duas vezes para confirmarmos não ser o sol; este sol tão fantástico que hoje nos beijou logo que avistámos Lisboa.
Haja esperança.

sábado, 7 de junho de 2014

Aquele abraço com gosto a céu

Na Lisboa de 2014 talvez seja difícil de acreditar que algures pelo inicio dos anos setenta do século passado, e estando eu a passar alguns dias em casa dos meus tios, me levaram de metropolitano até à estação do Parque para que eu pudesse ver e experimentar umas escadas rolantes.
As escadas rolantes a terem estatuto de estrela equiparável à Feira Popular ou ao Jardim Zoológico.
Senti-me então um herói a voar para o céu enquanto “mergulhava” naquelas estruturas metálicas que pareciam não ter fim, sempre por entre o ruído dos adultos, que ao estilo de coro de tragédia Grega, descreviam ao detalhe todos os mitos urbanos, como aquele da mulher que ficou sem coro cabeludo e morreu porque deixou que os seus longuíssimos cabelos se enrolassem nas escadas.
E o perigo a aumentar ainda mais a minha adrenalina e a dar um toque radical ao meu “baptismo” de escadas rolantes.
Estavas junto a mim quando ontem me recordei desta história, os dois muito próximos da estação do Parque.
Na esquina agora por ali à minha frente, o semáforo substituiu o bailado e o estranho rodopiar sobre si mesmo do Polícia Sinaleiro no cimo do seu arredondado “palco” de madeira; e já morreu o grito do ardina que por ali aproveitava a pausa na marcha dos carros para vender os vespertinos “A Capital” e o “Diário de Lisboa”.
Iguais àqueles dias, somente os inevitáveis e enormes Jacarandás floridos em tom intenso lilás de primavera… e eu a sentir-me destemido a trepar para o céu.
Talvez porque o céu seja em si mesmo uma manta tecida de muito simples mas perfeitos instantes, e também porque os caminhos para o céu são esses mutáveis atalhos à mercê das nossas maiores vontades, mas sempre na fidelidade a um eterno e imutável desejo: o sonho de ser feliz.
E perfeito é este instante de ter-te aqui a temperar de mel, por palavras e olhares, a cidreira quente que nos aquece na esquina fria de uma primavera vulnerável à chuva…
Como perfeito e com gosto a céu, é o destino que nos fez cruzar as rotas de tantas histórias e tanta gente, aqui onde os Jacarandás são hoje o tecto para o maior e mais sentido dos abraços.
Gostava tanto que este abraço não morresse jamais e pudesse atravessar Lisboa, connosco, por todas as estações e pelo tempo todo…
Um abraço ao jeito do céu em nós e na nossa vontade: eterno!