sábado, 14 de junho de 2014

Deus, pedras, guerras e esperança

Jordânia.
O sol queima-nos os passos e o olhar sempre que nos fazemos ao caminho ladeados por uma terra árida e semeada apenas de infinitas pedras, uma terra onde até os espantalhos são feitos de muitas pedras sobrepostas umas nas outras num estranho equilibrio.
E cada pedra que pisamos, tem um nome e guarda um detalhe na longa História do Homem e da sua fé.
A fé que hoje brota dos homens ajoelhados na berma da estrada orando ao seu Deus; no adeus acenado das crianças que sorriem sempre quando passamos; e também nas casas sempre incompletas, expondo nos telhados, os alicerces para novos pisos que surgirão em épocas que se esperam de mais abundância.
Mas a fé esmorece na subalternização e na escravidão das mulheres que são obrigadas a esconder o seu rosto e a sua identidade, sendo sombras negras que deslizam por entre o machismo doentio e brutal destes homens armados num absurdo “Deus Juiz”.
Um Deus transformado convenientemente em móbil de uma guerra permanente designada “santa”, que em tempos de cruzadas fez nascer castelos no deserto e no cimo das altas montanhas, e que hoje nos faz cruzar um sem número de bases militares de aspecto duro e sofisticado.
Israel é logo ali e avistamo-lo no outro lado do Mar Morto, a Síria um pouco mais acima e o Iraque ali mesmo ao lado…
Mas o deserto também esconde o esplendor da paz de civilizações que foram o nosso berço, e Petra, a cidade talhada pelo Homem no esplendor das montanhas vermelhas, é sem dúvida uma das jóias maiores no tesouro que em si conserva a humanidade.
Não se deve morrer sem vir até aqui.
Em Petra, pedra na fala dos Gregos, as montanhas falam, fazendo eco das mãos dos Homens que a criaram.
E por entre a guerra florescem assim argumentos para ter fé e acreditar no futuro; nos eternos “recados” de Petra, mas também nas mãos do jovem beduíno que nos oferece um açucarado chá de menta na sua tenda montada no deserto, ou das mãos sujas do homem que nos oferece uma amora na sua banca de fruta no mercado de Amman, e que nós saboreamos de imediato porque sabe a manjar do paraíso.
À sombra do castelo que Saladino construiu para combater os cruzados e lhes roubar a água, matando-os à sede; um velho beduíno que se perdeu já na contagem dos anos, e indiferente a tudo o que passa, descansa deitado sobre as ervas daninhas enquanto fuma o seu cigarro.
No deserto e de uma forma geral, os dromedários não morrem pacientemente com o decorrer dos anos que os envelhecem; ao fim de pouco mais de quarenta anos de vida, ficam loucos e os Homens abatem-nos então forçosamente pelo perigo que representam.
Às vezes os Homens são como os dromedários nesta confluência entre loucura e morte, esquecendo-se que há um velho a quem faltará tempo para saborear o seu cigarro por entre os aromas da paz.
Um velho e muitos milhões de almas.
Ontem saímos de Amman deixando a cidade como uma lua tal que nos obrigava a olhar duas vezes para confirmarmos não ser o sol; este sol tão fantástico que hoje nos beijou logo que avistámos Lisboa.
Haja esperança.

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