segunda-feira, 2 de junho de 2014

Esse mimar eterno que nasce das palavras

Acordar em Vila Viçosa a ouvir os pavões e as badaladas do relógio da Torre do Paço, tomar o pequeno-almoço com vista para o Terreiro desse mesmo Paço, percorrer as estradas do Alentejo e sentir todas as cores da primavera, tomar o café do pós almoço em Lisboa com vista para o Parque Eduardo VII, o Marquês e o Tejo, lanchar uma limonada no Chiado à conversa com um bom amigo; são privilégios que não se têm todos os dias e dos quais eu ontem pude usufruir.
Em dia da criança, eu fui assim e definitivamente, um petiz muito mimado pela sorte na magia de todas essas coisas.
Mas a sorte também se procura e sobretudo se treina…
Por força da sessão de autógrafos na Feira do Livro, tive de deixar Vila Viçosa mais cedo do que é normal nos domingos dos fins-de-semana que por ali passo, e acabei a almoçar sozinho num restaurante na zona do Marquês.
À minha frente e sentados num sofá em meia-lua devidamente colocado junto de uma mesa com a mesma forma, estava uma família constituída por pai, mãe e filho, este último com uma idade algures pelos doze anos e sentado no meio dos seus progenitores.
Não pude deixar de reparar no almoço animadíssimo desta família…
O filho estava concentrado num i-Pad e com os ouvidos tapados por uns auscultadores, de forma que não o ouvi dizer absolutamente nada; quanto aos pais, não fosse a funcionária ter enfrentado alguns problemas na hora de fazer o pagamento com Multibanco, e teriam saído dali sem dizer uma palavra um ao outro.
Um almoço de família em dia da criança?
Possivelmente sim mas para cumprir calendário, pois se um tivesse ido almoçar a Viana do Castelo, o outro a Faro, e ainda o outro a Elvas; talvez se sentissem mais acompanhados uns pelos outros por mérito de alguma possível mensagem escrita que enviassem pelo telemóvel a dizer algo do género:
“Estou a comer pizza”.
Perante estes biombos de silêncio, tal frase já seria uma autêntica algazarra nesta família que muito mais do que uma família, me parece uma “plataforma logística de vida em comum” de onde às vezes nascem surpresas menos agradáveis.
Achei interessante a forma e a disposição com que estavam à mesa, pelo facto de eu ter tomado o pequeno-almoço com os meus pais exactamente da mesma maneira, só com que vista para a janela da nossa sala que se abre ao Terreiro do Paço.
Sem i-Pads, i-Phones, televisão e mais nada a não ser as palavras, não nos calámos nem por um segundo, como é aliás típico nestas nossas refeições onde nunca faltam assuntos que têm a ver connosco e com os dias que vamos vivendo.
As nossas palavras que não são apenas ruído vago e sem sentido para preencher o silêncio, mas que são a expressão sonora de muitos afectos e são os elos que nos ligam e ligarão eternamente.
Pelas nossas palavras à mesa, ou noutras muitas situações, quanta herança passou ao jeito de uma “Transferência Genética”, quantos valores se transferiram de uma forma natural e espontânea, quantas dores e medos se apagaram, quanto riso, quanto eu cresci nesse privilégio de nunca deixar de sentir tão perto o infinito amor dos meus pais; esse tanto amor que me oferece o privilégio de ser uma eterna criança.
Pelas nossas palavras que sempre encerram os nossos “sentires” e tantas memórias, se foi criando a magia que tempera de especial todas as coisas banais de um dia simples: um acordar ao som dos pavões dos Jardins do Paço, uma vista para o Tejo ou uma limonada entre amigos num lanche no Chiado…
Tudo isso e o treinar da minha sorte, eu, um petiz super mimado.
Que Deus me conserve.

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