segunda-feira, 25 de abril de 2011

A liberdade está a passar por aqui

À já clássica pergunta:
- Onde estavas no 25 de Abril de 1974?
Terei de responder:
- A frequentar a 2ª classe na Escola Masculina de Vila Viçosa.
Apesar dos meus sete anos de idade, recordo-me bem dessa 5ª feira de tempo chuvoso, vindo-me logo à ideia a inquietação sentida nos adultos que me cercavam, pela escassez de informação que ia chegando à nossa terra, a duzentos quilómetros do epicentro da revolução.
Cedo me apercebi de que algo importante se passava porque a vida mudou a partir desse dia, fazendo com que a previsibilidade do tempo antigo se transformasse num tempo de coisas novas e diferentes.
Passei a ver cartazes coloridos espalhados pela vila, as pessoas passaram a manifestar-se e a gritar palavras de ordem, lutando por tudo aquilo em que acreditavam e repudiando o que de todo não queriam. Liberdade, povo unido, vitória e igualdade, passaram a fazer parte do vocabulário do dia-a-dia.
Passei a ouvir falar de política e passei a ouvir confrontar ideias, porque todos, mesmo todos, pelo voto, eram agora chamados a dar o seu parecer relativamente ao futuro.
Até a minha escola recebeu raparigas e passou a ser mista, rebaptizada de Escola nº1 de Vila Viçosa.
Hoje, passaram 37 anos sobre esse dia, e com os meus 44 anos de vida, tenho a consciência clara de que esse foi um dia marcante, talvez o maior para a minha geração. Foi por esse dia que em 37 dos 44 anos pude viver em liberdade, a ser quem quero ser e a poder expressar o que sinto e quero.
Tenho a consciência clara de que sem este dia e esta revolução eu teria sido muito menos feliz e porque nasci no tempo dos uns e dos outros, eu, por ser dos outros, jamais poderia ter tido sem o 25 de Abril de 1974, as oportunidades que tive e que fizeram de mim o que sou hoje,
Tenho a certeza de que me teria sido dada apenas e só a oportunidade de dar continuidade à pobreza honrada dos meus avós, e por certo muitas oportunidades de continuar a servir um bando de bem instalados que com o dinheiro comprou o poder que conduzia à exploração de tudo e todos.
Não vivemos num regime perfeito e dessa imperfeição tenho dado muitas vezes conta neste Pomar, mas o regime que temos hoje é indiscutivelmente melhor do que aquele que existia antes de 1974, e penso que é sobre ele que deveremos com afinco construir os nossos dias do futuro.
Quis o destino que eu me encontrasse a cumprir o Serviço Militar na farmácia do Hospital Militar Principal, em 1992, na altura em que nesta unidade hospitalar faleceu o capitão Salgueiro Maia, o ícone maior da revolução dos cravos.
Apesar da enorme proximidade física, lamento não ter tido a oportunidade de lhe agradecer o facto de ter mudado o nosso tempo para que, entre muitas e importantes coisas, em muitas gerações da minha família eu pudesse ter sido o primeiro a licenciar-me numa universidade pública portuguesa.
Em muitas gerações de gente com as mesmas capacidades e muito mais mérito do que eu, mas sem a mínima oportunidade de o fazer porque nasceram no ponto errado do calendário da liberdade.

terça-feira, 19 de abril de 2011

De novos ricos a velhos pobres, ou o destino de Portugal.

Recordo-me bem de 1984.
O FMI andava por cá, havia manifestações constantes repletas de bandeiras negras, gritava-se fome nas ruas de Lisboa, havia uma taxa elevadíssima de desemprego, em cada canto só se ouvia falar de crise e até o Herman no Tal Canal, apresentava a moda crise feita de jornais ou tapetes transformados em roupa, parodiando ao mesmo tempo uma Filipa Vacondeus, cozinheira mestra na arte de aproveitar as sobras.
Depois de uma maioria de direita (AD) e de uma gorda maioria do centro (Bloco Central PS e PSD), a política vivia também de crise e de indefinição.
Vivíamos na esperança de entrar na “Europa”, leia-se CEE, o que veio a acontecer logo ali, em 1986.
E veio então o dinheiro e entrou-se na cultura do subsídio, indutora da doce ilusão da riqueza que conduziram sem grande resistência aos tiques e aos hábitos pérfidos do novo-riquismo.
Tornámo-nos importantes.
Deixámos de alugar casa para viver porque em cada um de nós nasceu alma de proprietário e com os bancos a incentivar comprámos todos a nossa casinha. Alguns, mais ousados, compraram a da cidade, a do campo e a da praia.
Substituímos o aprender pelo fazer cursos. Era fantástico, não existiu Português que não tivesse feito um curso da CEE. Pagavam-nos para termos um diploma, e sem esforço, que exames e testes eram coisa de outro tempo.
Para que cumpríssemos o nosso maior desejo de cada Português um doutor ou um engenheiro, abrimos universidades às centenas para pulverizar as licenciaturas e todos as pudéssemos fazer nem que tivéssemos de fazer os exames aos domingos e por fax.
Tínhamos encontrado o nosso destino de sucesso, e o trabalho do campo, da indústria ou da construção civil, reservámos para os que de leste chegaram até cá quando o muro abriu as fronteiras.
Fomos mestres na arte de substituir o trabalho pelo emprego.
Quer dizer, pelo emprego ou pelo desemprego, porque o estado arranjou um mecanismo que permite o nosso sustento, de forma razoável sem que tenhamos grande necessidade de trabalhar. Venham os Brasileiros e tirem-nos as bicas que entre ganhar 500 euros a trabalhar a um balcão ou ganhar os mesmos estando em casa, a decisão é fácil.
Quem é que ficava disponível para assegurar a audiência dos programas da manhã das televisões fantásticas e tão educativas que no principio dos anos 90 se juntaram à RTP?
Fizemos obras públicas em grande e sempre a bater recordes: uma das pontes maiores da Europa, uma Expo que foi um êxito e nos revelou ao mundo e um Campeonato Europeu de Futebol em 2004 com estádios novos construídos para receberem... dois jogos. Em 2000 a Holanda e a Bélgica juntaram-se para organizar o Euro e em 2008 a Áustria e a Suiça fizeram o mesmo, mas nós não, nós somos melhores e organizámo-lo sozinhos. Foi lindo.
E as auto-estradas? Construímo-las por todo o lado e algumas até completamente gratuitas, em principio, claro. Onde é que nós andaríamos com os nossos carros novos e os nossos jeep’s? Na terra batida, não? Sim porque cada um de nós tem um jeep, para além de um carro para ir às compras e da mota do filho, está bem de ver.
E os recordes que nós batemos a falar ao telemóvel? Compramo-los aos milhares e todos falamos muito entre todos. É uma interacção bestial.
E os Centros Comerciais? Temos os maiores da Europa e sempre cheios. É ver ali, sobretudo aos fins-de-semana, o brilho dos cartões de crédito, porque o banco facilita tudo.
Tantos exemplos, tantos tiques e tantas expressões de novo-riquismo.
O castelo de cartas da nossa superficialidade, do facilitismo, da mentira e da ilusão, ruiu quase sem que déssemos por isso.
Hoje, quase trinta anos depois, o FMI voltou e com ele voltou a nossa condição de eternos e velhos pobres, e estendemos a mão à Europa e ao mundo com o despudor da cigarra que cantou demasiado no verão da fartura.
E até a Filipa Vacondeus voltou aos best-sellers escrevendo livros sobre cozinha low cost.

Monte do Zambujeiro

Encontrei-o por acaso, ao virar da esquina na Internet.
A poucos quilómetros a sul de Vila Nova de Milfontes, os 3 últimos percorridos em estrada de terra batida, num anfiteatro de vistas privilegiadas para o Rio Mira, está o local ideal para fazer a terapia da alma, tal o conforto dado ao corpo e o requinte da festa proporcionada aos sentidos.
Repousamos a vista no horizonte verde da planície, inspiramos os perfumes da primavera alentejana, tacteamos de esteva em esteva até encontrar o caminho para o rio e nos deixarmos embalar pelo som do suave correr das águas, provamos o pão único e quente pela manhã, e não há sentido nenhum posto à parte por aqui.
Nem um sexto se descura, porque é constante o intuir que ali mesmo, a curto espaço atrás de nós, está o Atlântico.
E a magia talvez nasça do facto de estarmos exactamente nesta zona mista, neste ponto de encontro em que o imenso mar se entrega à terra e passa o testemunho às espigas para que embaladas pelo vento, prologuem horizonte fora o doce balançar das ondas.
A magia, eu sei, vem do facto de ser primavera e estar no Alentejo, não sendo esta festa nada mais do que o encontro da alma consigo mesma.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

O Jorge, o José e a Arte da Pantomina

Aquecem os dias trazendo a Abril um inesperado verão, e também vão quentes as lutas e as campanhas pelo sucesso, quer falemos de taças ou “tachos”.
O Jorge é há muito presidente de um clube de futebol e é nas últimas três décadas, o ícone maior do designado Futebol Português, instituição que apesar de algum sucesso internacional, associamos sobretudo a casos de arbitragem, corrupção, negócios estranhos, actividades ilícitas, etc.
À frente do seu clube, a motivação e a agregação da sua massa de adeptos fá-las com base na existência de dois inimigos: o sul e o maior e mais representativo clube nacional, eleito seu directo rival. Esta perseguição é de tal forma que depois de D. Afonso III ter definido o que são hoje e desde há oito séculos, os limites de Portugal, se trata por certo do maior agente desagregador da unidade nacional.
Instiga ódios, incentiva à violência e é incapaz de afirmar a superioridade do seu clube pela positiva, fazendo-o sempre pela destruição e a agressão ao rival e à região onde ele se insere.
Sendo assim diabo, é no entanto mestre na arte de se apresentar como anjo bom e fiel advogado da razão, praticante de boas obras e exemplo para a humanidade, atribuindo as culpas dos males do mundo, obviamente para o rival e para o sul.
O recente apagão de luzes no estádio rival que o impediu de fazer a festa do campeonato às claras é assim apresentado como o escândalo maior do momento.
Eu reprovo inteiramente este gesto de apagar das luzes, sinónimo de mau perder, mas também não posso deixar de dizer que este acto está para os muitos actos praticados pelo Jorge ao longo dos anos, como a bola atirada pelo Joãozinho ao vidro da janela da D. Maria está para o lançamento de uma bomba atómica sobre uma qualquer cidade do mundo.
O José é há seis anos dirigente de um governo eleito pelo povo com base em promessas de melhor emprego, melhor educação, melhor saúde, enfim, melhor vida.
Passados estes seis anos, quando o desemprego está nas taxas mais elevadas de sempre, a educação e a saúde com deficit de qualidade, e a economia e as finanças públicas obrigam a um programa de “aperto de cinto” que vai comprometer a qualidade de vida de todos durante muitos anos, o José demitiu-se.
Fê-lo não por incapacidade sua, pelo insucesso das suas medidas e da sua governação, fê-lo porque ninguém da oposição o ajudou a ele, ser perfeito e herói dos tempos modernos, na sua luta estóica e supra humana.
É mais uma vez o filme do “Diabo por dentro, anjo por fora”.
É mais uma vez o desfocar do essencial para fazer emergir o acessório, colocando uma capa sobre a responsabilidade.
Para o José, primeiro-ministro há seis anos, o país está na situação em que está por culpa do Pedro que há um ano chegou a líder do maior partido da oposição.
Só no teatro de comédia o ridículo chega a níveis tão sofisticados.
A economia do mundo pode estar mal mas o José esquece-se, neste seu palco feito de telepontos e telegenia, que os heróis não são os que se rendem à inevitabilidade e às circunstâncias adversas, mas são antes os que por cima delas constroem o sucesso, olhando com arte e genica para além apenas do espelho da fama fugaz expressa por sondagens.
Esquece-se o José de que um bom primeiro-ministro não é o que sacode a aba do capote, mas é o que se afirma e assume a responsabilidade pelo tempo em que foi gestor maior dos destinos de um país.
Só para citar um exemplo, direi que o Marquês de Pombal é grande na nossa história, não por ter estado preocupado com a popularidade, que não era o seu forte, ou então por ter feito os melhores relatos da desgraça sofrida por Lisboa na manhã de 1 de Novembro de 1755 atirando as culpas à má sorte e ao triste fado, é grande porque por cima das cinzas e do entulho de uma cidade destruída pelo terramoto, reconstruiu-a e fez dela uma cidade moderna e à altura do seu tempo.
Mas isso foi noutro tempo.
O Jorge e o José, duas histórias e dois actores maiores deste palco em que se transformou o nosso mundo, em que para a taça e para o “tacho”, a regra é a ausência da própria regra e onde os comportamentos são moldados pelo instinto básico de sobrevivência que caracteriza os medíocres de carácter.
Estaríamos nós bem se tudo isto não fosse uma tragédia, chamemos-lhe Portuguesa, mas, por todos os motivos e mais algum, feita à medida de uma tragédia Grega.
E ainda estaríamos melhor se não sentíssemos como a gente se disponibiliza para ser coro desta obra, parecendo querer continuar a apostar cegamente nestes mestres da arte da mentira.
O tempo o dirá.
Com a certeza de que dirá sempre aquilo que quisermos que ele diga.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Nobre, Povo? ou Presidente?

Três meses após ter disputado as eleições presidenciais afirmando-se como ícone da cidadania e acima dos partidos políticos, Fernando Nobre aceitou ser cabeça de lista do PSD pelo círculo eleitoral de Lisboa, com o rótulo de candidato a presidente da Assembleia da República, não se assumindo como candidato a deputado do PSD.
A cidadania, comprova-se mais uma vez, não é mais do que um argumento de marketing político tendo em vista o sucesso e a chegada ao poder.
Foi assim no passado com Helena Roseta, cabeça de lista de um grupo independente na corrida à Câmara Municipal de Lisboa, e hoje transformada em parceira de António Costa.
E foi assim com Manuel Alegre quando após ter mais de um milhão de votos nas presidenciais de 2006, tudo fez para ter sucesso nas de 2011, tendo vendido a alma a dois partidos tão opostos que acabou por criar uma explosão de efeitos negativos.
Fernando Nobre, escolhe agora uma via “contra-natura” para chegar ao poder pois estou certo, a sua base de apoio nas presidenciais, situou-se essencialmente á esquerda do PS.
Mas já deveríamos saber que em política tudo vale e que as contorcionistas do circo conseguem fazer com o corpo aquilo que os políticos fazem com a alma.
Não ficaria mal a Fernando Nobre, que tantas vezes falou de cidadania, ter a noção de que está a desvirtuar as regras do respeito básico pelos cidadãos pois sendo candidato a deputado por Lisboa deveria apresentar-se como disposto a ser a voz dos eleitores de Lisboa na Assembleia da República, quaisquer que fossem as circunstâncias, deixando para mais tarde, inter pares, a decisão de quem presidirá à Assembleia.
Mas isso só seria uma realidade se este fosse um tempo em que a ambição cega pelo poder não suplantasse largamente a honra, o respeito e a coerência. O que não é o caso, definitivamente.

Açorda a maravilha!

Na onda da definição das 7 maravilhas de tudo um pouco, chegou este ano a hora de estabelecer as da gastronomia Portuguesa, o que após um longo período de votação, será comunicado em Santarém (a terra do Festival de Gastronomia) no próximo mês de Setembro.
Foi definida uma lista de 70 pratos divididos por 7 categorias, de onde sairão os vencedores, um por categoria. Realço o facto de o Alentejo ser a região com mais pratos nomeados, nada mais do que 12 (e vão ver que ainda cá faltam muitos), só não estando representado na secção dos mariscos.
Eis a lista:
ENTRADAS: Alheira de Mirandela, Bôla de Lamego, Bolo do Caco, Lapas da Madeira, Espargos com Ovos, Muxama de Atum, Pastel de Bacalhau, Pézinhos de Coentrada, Presunto de Barrancos, Queijo Serra da Estrela.
SOPAS: Açorda à Alentejana, Caldo de Cascas, Caldo Verde, Canja de Borrego, Gaspacho com Carapaus Fritos, Sopa da Pedra, Sopa de Cação, Sopa de Castanhas, Sopa de Peixe da Figueira, Sopas do Espírito Santo.
PEIXE: Açorda de Bacalhau, Açorda de Sável, Arroz de Lampreia, Arroz de Lingueirão, Bacalhau à Braz, Bacalhau à Gomes de Sá, Bacalhau à Zé do Pipo, Bife de Atum à Madeirense, Polvo Assado no Forno, Sardinha Assada.
MARISCO: Amêijoas à Bulhão Pato, Arroz de Marisco, Camarão da Costa da Figueira Cavaco Cozido com Molho Verde, Cracas Cozidas, Lapas Grelhadas dos Açores, Mariscada de Sesimbra, Ostras do Sado, Percebes de Aljezur, Xarém com Conquilhas.
CARNE: Alcatra da Ilha Terceira, Alheira de Mirandela com grelos salteados, Chanfana, Cozido à Portuguesa, Cozido das Furnas, Espetada de carne de vaca em espeto de pau de louro, Leitão da Bairrada, Migas Alentejanas, Posta Mirandesa, Tripas à Moda do Porto.
CAÇA: Arroz de pombo bravo com hortelã, Coelho à Caçador, Coelho do Porto Santo à Caçador, Empada de Coelho Bravo com Arroz de Pinhão e Passas, Feijoada de Javali, Javali no Pote com Castanhas, Perdiz à Algarvia, Perdiz à Caçador, Perdiz de Escabeche de Alpedrinha, Tordos Fritos ou Fritada dos Passarinheiros.
DOCES: Ananás dos Açores, Bolo de Mel da Madeira, Dom Rodrigo do Algarve, Encharcada do Convento de Santa Clara, Ovos Moles de Aveiro, Pão de Rala, Sericá, Pastéis de Tentúgal, Pastel de Belém, Pudim Abade de Priscos.
Quanto à minha escolha, não estranhem, mas como a minha mãe me foi moldando o gosto ao longo destes anos, ela está definitivamente marcada por um “alentejanismo” militante. Aqui vai:
 Pastel de Bacalhau
 Açorda à Alentejana
 Bacalhau à Braz
 Amêijoas à Bulhão Pato
 Cozido à Portuguesa
 Coelho à Caçador
 Pão de Rala
E que tal encontrarmo-nos um dia destes para derrotar alguns destes pratos? Isso sim seria uma maravilha.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Crónica de uma morte anunciada

Com o ar grave que a situação impunha, o primeiro-ministro acabou de anunciar que Portugal solicitou auxilio à União Europeia para fazer face à muito séria crise financeira que atravessa. Fê-lo na mesma sala onde há dois dias, em entrevista à RTP, negou que o fosse fazer, fê-lo com a desfaçatez habitual que o caracteriza, empurrando a responsabilidade para cima de terceiros e auto elogiando a sua heroicidade solitária na luta para evitar o que anunciava.
Fê-lo como sempre, com maior preocupação com a pose do que com o conteúdo, com alguns canais de televisão a denunciarem-no colocando-o no ar durante os ensaios com o teleponto, a sua muleta de actor à qual se socorre para nunca nos falar olhos nos olhos.
Todos sabíamos que iríamos chegar aqui, e Sócrates também desde há muito. Por isso não quis “morrer” sozinho, fazendo do PEC IV e de todos os contornos do seu anúncio que tornaram inevitável o seu chumbo pela oposição, a bóia de salvação à qual se agarrará durante toda a próxima campanha eleitoral. Apontará à exaustão, a oposição como responsável por esta situação.
Há muito que os mercados nos cozinhavam a lume brando e todos sabíamos que o PEC IV, á semelhança de todos os PEC’s anteriores, seria apenas um pouco de água fria atirada para a panela que teria como impacto o retardar do cozinhado porque o lume estava lá e ficaria a arder.
Desde Março de 2010 e até hoje nunca os juros da dívida deram sinais de decrescer, nem mesmo em momentos decisivos politica e economicamente, como o foi o acordo PS e PSD para o Orçamento de Estado para 2011.
Os PEC’s eram os tratamentos paliativos que apenas aliviavam os sintomas de uma doença que os sucessivos governos não souberam evitar ou tratar convenientemente e a fundo na primeira década do século XXI, tornando-a claramente numa década perdida.
Foi uma década PS, que de Guterres a Sócrates, apenas com um breve interregno Barroso e Santana, engrossou o Estado em despesa e o inundou da incompetência dos Boys filiados. Não se fizeram reformas de fundo e viveu-se na opulência e aparência, mentindo-se sistematicamente sobre a real situação do país que foi governado ao ritmo dos interesses eleitorais.
Foi a década da ilusão do cartão de crédito.
E hoje, dia 6 de Abril de 2011, ficámos a saber que a segunda década do século XXI será também ela uma década perdida, uma década de muitas dificuldades e de sacrifícios imensos para as pessoas e famílias, impostas obviamente pelas instituições que nos vão dar crédito.
Enfrentaremos esta década com uma taxa de desemprego nunca vista e com tendência a agravar-se, com baixíssimos níveis de exigência das pessoas consigo próprias e no seu compromisso para com a comunidade, com gente treinada no facilitismo dos subsídios e com uma classe média desmotivada e sugada à exaustão em impostos agravados ao limite.
Mas apesar deste cenário negro, e quando até aos optimistas, o pé nos parece resvalar para o pessimismo, há que acreditar que reuniremos forças para sair desta situação, criando condições para que o futuro seja diferente para melhor porque Portugal é um sonho grande demais para acabar assim e agora.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Se um diz “Mata”, outro diz “esfola”!



Nas lembranças da minha infância guardarei para sempre os espaços que foram cenário desses dias felizes, porque é impossível dissociá-los do tempo e sobretudo das pessoas que os tornaram assim tão especiais.
Era um tempo em que tínhamos mais tempo para passear, para estar uns com os outros porque sem computador e sem uma infinidade de canais de televisão, a rua era o melhor local para se estar bem, e os amigos a melhor companhia.
Como vivia à altura na Rua Gomes Jardim (Rua do Hospital) tinha o privilégio de ter duas opções de luxo como espaços de brincadeira: se subia a rua tinha a Praça e se a descia tinha o Rossio e a Mata.
Na Praça brincava às escondidas, na placa central entre a fonte e o monumento ao Henrique Pousão. Havia umas árvores grandes e a maior era mesmo a primeira do lado direito de quem sobe, que por ter encostado ao seu tronco o cartaz do cinema, era aquela onde nos apoiávamos para fechar os olhos e fazer a contagem que permitia que os outros se escondessem por entre os bancos de pedra e as árvores.
No Rossio havia as amoreiras, muito populares na altura em que os bichos da seda saiam dos ovos e na Mata, ponto ideal de encontro com os muitos amigos que viviam no Bairro Operário, havia o fresco e a sombra nos dias quentes de verão, havia um parque infantil, um bebedouro para matar a sede, e se por acaso nos tínhamos cruzado com algum parente generoso que nos oferecera uma moedinha de 10 tostões como recompensa do beijo com que educadamente o saudáramos, havia também o quiosque do Sr. Cuco para podermos comprar alguma guloseima.
Há uns anos atrás cortaram as árvores da praça e reorganizaram os bancos tendo feito desaparecer alguns deles. Não sei se foi por falta de apoio para o cartaz, mas entretanto o cinema também fechou.
A Praça da minha infância, agora só existe mesmo nas memórias.
Esta semana fizeram um desbaste radical às árvores da Mata que a foto enviada pelo meu amigo José Barreiros acima testemunha. E sombra e fresco na quietude da Mata, este verão definitivamente não existirão.
E lá foi a Mata para junto da Praça no recanto das minhas lembranças.
E lá ficou o Pomar das Laranjeiras menos verde, com muito menos viço.
Não sou dado à agricultura em geral e à poda de árvores em particular, mas não me parece que tal seja necessário para que com o devido bom senso conclua que a intervenção feita na Mata Municipal, tão radical ao ponto de só deixar os troncos, enferma de incompetência e falta de respeito pelo ambiente e sobretudo, falta de respeito pelas pessoas que usufruem desse mesmo ambiente, que se deseja portanto saudável.
Reconheço que era necessário fazer a limpeza das árvores para não colocar em risco a segurança das pessoas até porque em dias de chuva e vento, havia já uma infinidade de ramos caídos, alguns com dimensões razoáveis, mas uma intervenção desta natureza ultrapassou claramente os limites do aceitável, situando-se no campo da destruição pura e dura.
Apesar dos tempos serem no poder local, por certo por inspiração do poder central, de total ausência de responsabilidade, e em que a incompetência é sistematicamente camuflada com o atirar de culpa para cima dos outros, penso que alguém devia dar uma justificação razoável para esta situação e já agora, apresentar um pedido de desculpas.
Nós os Calipolenses merecemos que o façam. Exigimos que o façam.
Merecemos que não reduzam Vila Viçosa ao panteão das nossas memórias mas que a conservem como um espaço vivo onde as gerações presentes e futuras possam ser tão felizes como nós fomos, algures num tempo em que havia árvores.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

A arte do simples

O arquitecto Souto Moura recebeu o Prémio Pritzker que está para a arquitectura como o Nobel para a literatura, para a medicina ou para a economia. Depois de Siza Vieira em 1992 torna-se assim o segundo Português a ter o seu nome na lista restrita de vencedores.
Sou desde sempre um admirador confesso da obra de Souto Moura e o que mais admiro nesta obra é a forma como se chega ao requinte da arte num ponto muito elevado, sempre partindo das linhas e traços mais simples.
O estádio de Braga espantou o mundo durante o Euro 2004 e não foi só pelo enquadramento magnífico numa antiga pedreira, foi pela elegância das suas formas que dissecadas ao detalhe nos permitem chegar às linhas e formas geométricas mais elementares.
A mais recente Casa das Histórias da Paula Rego, em Cascais, permite-nos antever logo à partida o mundo de sonho e de fantasia para a qual nos transporta a obra da pintora. Souto Moura coloca aqui a arquitectura como expressão de uma leitura atenta e sofisticada feita por si das obras de arte que o museu iria albergar.
Admiro-lhe também a forma como respeita o espaço cultural onde as suas obras se enquadram.
Há alguns anos, quando pela primeira vez fiquei alojado na Pousada de Santa Maria do Bouro, fiquei em dúvida quando fiz a última curva da estrada que nos conduz a este antigo mosteiro do século XII, pensando não ser ali a pousada pois visíveis no edifício, exteriormente, só o eram as marcas do tempo passado quando albergava os monges da Ordem de Cister, pensando eu ser impossível alguém poder pernoitar num monumento que em nada aparentava ter o mínimo conforto exigido no então século XX.
Porém, a pousada era mesmo ali e o edifício oferece um conforto extraordinário, só que a intervenção de Souto Moura foi feita de forma a não beliscar minimamente o antigo mosteiro e os elementos arquitectónicos que dele chegaram aos nossos dias.
Há algumas semanas atrás encontrei o arquitecto Souto Moura na famosa cervejaria Cufra, na Avenida da Boavista, no Porto. Ainda trocámos algumas palavras motivadas pela circunstância de estarmos ambos na fila que aguardava mesa para almoçar juntamente com os nossos respectivos acompanhantes.
E ali estava eu, modesto mortal, a aguardar mesa no restaurante ao lado de um Prémio Pritzker, que ainda por cima e por ter chegado depois de mim, se sentou também depois de mim.
A simplicidade da arte é também acompanhada pela simplicidade do artista, provando mais uma vez que quando o valor intrínseco é enorme, nada mais é preciso para se ser grande.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

O dia das mentiras ou o dia do fim das ditas


Não ouso chamar-lhe casamento, matrimónio, boda ou outras palavras sinónimas, porque de todo quero ofender os proprietários, os detentores da patente de semelhantes conceitos. Longe de mim beliscar as instituições de âmbito social ou religioso que se afirmam as legítimas donas deste passo avante para a constituição de uma família.
Deixem então que lhe chame uma reunião dos amigos e da família para celebrar o amor e para afirmar à sociedade civil, que pela força desse mesmo amor, há duas vidas que, entrelaçadas numa partilha profunda, se vão unir numa só vida, solicitando a essa mesma sociedade civil que reconheça esse acto de entrega e compromisso.
Em minha opinião, não há nenhum cidadão à superfície do globo que não tenha o direito de fazer esta celebração, e hoje, dia 1 de Abril de 2011, é isso que vão fazer o José e o Rámon, dois amigos meus que há alguns anos conheci em Sevilha.
Assumindo a verdade das suas vidas, encontraram-se e encontraram o amor que os une numa mesma casa há cerca de 15 anos. A essa verdade e esse amor foram buscar as forças para vencer as dificuldades, e assim têm hoje o privilégio de saborearam o doce da felicidade plena, que é sempre aquela que assenta na verdade de nós próprios.
Tenho a honra de já ter sido convidado para a mesa da sua casa e o prazer de os ter tido já como convidados à minha mesa, e posso testemunhar aqui que o amor e a cumplicidade que os une e que expressam a cada momento, são inspiradores e são a prova de que é impossível e ridículo impor regras ao amor, tentando distinguir o socialmente aceite do rejeitável.
Há algum tempo atrás, quando em Portugal se discutiu a possibilidade da união civil entre pessoas do mesmo sexo, observei a histeria contestatária de alguns grupos radicais conservadores, defendendo a instituição família, sabendo nós, comprovadamente, que muitos deles são interpretes falhados em famílias que são verdadeiros filmes de terror, mas que só existem para manter as aparências e dar conforto social.
Vícios privados, públicas virtudes, e a mentira como capa do eu tantas vezes esmagado pela força das conveniências, castrando à partida a possibilidade de uma felicidade perfeita e à medida da nossa vontade e da dimensão única do nosso próprio eu.
Felicidades para o José e para o Ramón e muito obrigado por este testemunho de que quando se segue o coração, nem um só dia no ano, será dia para a mentira.