terça-feira, 5 de abril de 2011

Se um diz “Mata”, outro diz “esfola”!



Nas lembranças da minha infância guardarei para sempre os espaços que foram cenário desses dias felizes, porque é impossível dissociá-los do tempo e sobretudo das pessoas que os tornaram assim tão especiais.
Era um tempo em que tínhamos mais tempo para passear, para estar uns com os outros porque sem computador e sem uma infinidade de canais de televisão, a rua era o melhor local para se estar bem, e os amigos a melhor companhia.
Como vivia à altura na Rua Gomes Jardim (Rua do Hospital) tinha o privilégio de ter duas opções de luxo como espaços de brincadeira: se subia a rua tinha a Praça e se a descia tinha o Rossio e a Mata.
Na Praça brincava às escondidas, na placa central entre a fonte e o monumento ao Henrique Pousão. Havia umas árvores grandes e a maior era mesmo a primeira do lado direito de quem sobe, que por ter encostado ao seu tronco o cartaz do cinema, era aquela onde nos apoiávamos para fechar os olhos e fazer a contagem que permitia que os outros se escondessem por entre os bancos de pedra e as árvores.
No Rossio havia as amoreiras, muito populares na altura em que os bichos da seda saiam dos ovos e na Mata, ponto ideal de encontro com os muitos amigos que viviam no Bairro Operário, havia o fresco e a sombra nos dias quentes de verão, havia um parque infantil, um bebedouro para matar a sede, e se por acaso nos tínhamos cruzado com algum parente generoso que nos oferecera uma moedinha de 10 tostões como recompensa do beijo com que educadamente o saudáramos, havia também o quiosque do Sr. Cuco para podermos comprar alguma guloseima.
Há uns anos atrás cortaram as árvores da praça e reorganizaram os bancos tendo feito desaparecer alguns deles. Não sei se foi por falta de apoio para o cartaz, mas entretanto o cinema também fechou.
A Praça da minha infância, agora só existe mesmo nas memórias.
Esta semana fizeram um desbaste radical às árvores da Mata que a foto enviada pelo meu amigo José Barreiros acima testemunha. E sombra e fresco na quietude da Mata, este verão definitivamente não existirão.
E lá foi a Mata para junto da Praça no recanto das minhas lembranças.
E lá ficou o Pomar das Laranjeiras menos verde, com muito menos viço.
Não sou dado à agricultura em geral e à poda de árvores em particular, mas não me parece que tal seja necessário para que com o devido bom senso conclua que a intervenção feita na Mata Municipal, tão radical ao ponto de só deixar os troncos, enferma de incompetência e falta de respeito pelo ambiente e sobretudo, falta de respeito pelas pessoas que usufruem desse mesmo ambiente, que se deseja portanto saudável.
Reconheço que era necessário fazer a limpeza das árvores para não colocar em risco a segurança das pessoas até porque em dias de chuva e vento, havia já uma infinidade de ramos caídos, alguns com dimensões razoáveis, mas uma intervenção desta natureza ultrapassou claramente os limites do aceitável, situando-se no campo da destruição pura e dura.
Apesar dos tempos serem no poder local, por certo por inspiração do poder central, de total ausência de responsabilidade, e em que a incompetência é sistematicamente camuflada com o atirar de culpa para cima dos outros, penso que alguém devia dar uma justificação razoável para esta situação e já agora, apresentar um pedido de desculpas.
Nós os Calipolenses merecemos que o façam. Exigimos que o façam.
Merecemos que não reduzam Vila Viçosa ao panteão das nossas memórias mas que a conservem como um espaço vivo onde as gerações presentes e futuras possam ser tão felizes como nós fomos, algures num tempo em que havia árvores.

4 comentários:

  1. Joaquim, eu sou de Lisboa e, felizmente, na minha juventude, o Jardim do Campo Grande era ainda um espaço onde as crianças podiam brincar, onde havia árvores grandes e bonitas, muita relva e locais para andarmos de bicicleta ou jogar à bola. Foi o meu local de prazer, quando eu era criança. Mais tarde, quando cresci e me tornei homenzinho, passaram a ser os cafés os locais de confraternização dos citadinos. Tudo isso acabou, mais ou menos, na vida citadina. Que pena.

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  3. Que dizer? Desde os 3 anos até casar, vivi bem pertinho desse local tão aprazível para passeios, essencialmente no Verão. Namorei lá... ;) porque no Verão era o local mais fresco! Era! Infelizmente, por qualquer razão desconhecida, resolveram estragar tudo! Hoje, ao fim de alguns meses, conseguimos que o meu pai saísse de casa. E fomos até à Mata! Pena que já não é o local onde também ele já passeou tantas vezes...

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  4. Pois eu fiquei sem palavras. É de juntar o que estão a fazer à forma como o estão a fazer. Ao cortar as arvores estraga-se o pavimento em calçada que faz o arruamento da mata. O parque infantil onde brincamos está transformado. Um quadrado com passeio de pedra e uma serie de coisas que deixa qualquer calipolense triste de facto.
    To triste. Sériamente triste. Manutenção é uma coisa, estragar sem critério é outra. Não sei se vamos ver ou se a ver vamos...

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