quarta-feira, 6 de abril de 2011

Crónica de uma morte anunciada

Com o ar grave que a situação impunha, o primeiro-ministro acabou de anunciar que Portugal solicitou auxilio à União Europeia para fazer face à muito séria crise financeira que atravessa. Fê-lo na mesma sala onde há dois dias, em entrevista à RTP, negou que o fosse fazer, fê-lo com a desfaçatez habitual que o caracteriza, empurrando a responsabilidade para cima de terceiros e auto elogiando a sua heroicidade solitária na luta para evitar o que anunciava.
Fê-lo como sempre, com maior preocupação com a pose do que com o conteúdo, com alguns canais de televisão a denunciarem-no colocando-o no ar durante os ensaios com o teleponto, a sua muleta de actor à qual se socorre para nunca nos falar olhos nos olhos.
Todos sabíamos que iríamos chegar aqui, e Sócrates também desde há muito. Por isso não quis “morrer” sozinho, fazendo do PEC IV e de todos os contornos do seu anúncio que tornaram inevitável o seu chumbo pela oposição, a bóia de salvação à qual se agarrará durante toda a próxima campanha eleitoral. Apontará à exaustão, a oposição como responsável por esta situação.
Há muito que os mercados nos cozinhavam a lume brando e todos sabíamos que o PEC IV, á semelhança de todos os PEC’s anteriores, seria apenas um pouco de água fria atirada para a panela que teria como impacto o retardar do cozinhado porque o lume estava lá e ficaria a arder.
Desde Março de 2010 e até hoje nunca os juros da dívida deram sinais de decrescer, nem mesmo em momentos decisivos politica e economicamente, como o foi o acordo PS e PSD para o Orçamento de Estado para 2011.
Os PEC’s eram os tratamentos paliativos que apenas aliviavam os sintomas de uma doença que os sucessivos governos não souberam evitar ou tratar convenientemente e a fundo na primeira década do século XXI, tornando-a claramente numa década perdida.
Foi uma década PS, que de Guterres a Sócrates, apenas com um breve interregno Barroso e Santana, engrossou o Estado em despesa e o inundou da incompetência dos Boys filiados. Não se fizeram reformas de fundo e viveu-se na opulência e aparência, mentindo-se sistematicamente sobre a real situação do país que foi governado ao ritmo dos interesses eleitorais.
Foi a década da ilusão do cartão de crédito.
E hoje, dia 6 de Abril de 2011, ficámos a saber que a segunda década do século XXI será também ela uma década perdida, uma década de muitas dificuldades e de sacrifícios imensos para as pessoas e famílias, impostas obviamente pelas instituições que nos vão dar crédito.
Enfrentaremos esta década com uma taxa de desemprego nunca vista e com tendência a agravar-se, com baixíssimos níveis de exigência das pessoas consigo próprias e no seu compromisso para com a comunidade, com gente treinada no facilitismo dos subsídios e com uma classe média desmotivada e sugada à exaustão em impostos agravados ao limite.
Mas apesar deste cenário negro, e quando até aos optimistas, o pé nos parece resvalar para o pessimismo, há que acreditar que reuniremos forças para sair desta situação, criando condições para que o futuro seja diferente para melhor porque Portugal é um sonho grande demais para acabar assim e agora.

1 comentário:

  1. Hoje, não estou completamente de acordo consigo, e não estou porque, sem querelas partidárias, me parece que, infelizmente, o desvario não começou com Guterres mas anteriormente durante a gestão Cavaco. Como bem sabemos, ouve a crise que prejudicou a gestão Sócrates como, ceratmente, prejudicaria quem lá estivesse. Não sou defensor de ninguém, mas a realidade já foi demonstrada várias vezes. Como dizia hoje o sportinguista Carlos Xavier, referindo-se às eleições do Sporting, eles querem é chegar lá acima. Depois ... veremos. Infelizmente, com este Governo ou com o que vier das eleições, vamos continuar de tanga e a pagar forte e feio. E como dizia o economista Luis Duque, o FMI quando empresta é só para pagar aos credores, o devedor que se lixe, ie, quando acabar o período do empréstimo FMI, estaremos iguais ou pior do que estamos hoje. E quanto à Europa ... Deus nos livre.

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