sábado, 27 de maio de 2017

Manchester by the…sky


O vento recortou as nuvens de forma certeira, e pô-las a contar-me a história do cavalo alado que resgata uma princesa de tranças, cansada de estar presa na torre mais alta do castelo.

Um homem que entretanto passa por entre as mesas, aproveitando a ausência do empregado da esplanada do café, utiliza as suas unhas e uma velha lata, para emitir um som estridente, apelando às moedas, para que saltem dos bolsos alheios e venham adensar o ruído deste batuque improvisado.

Não reconheço a melodia que ele toca, mas não hesito, e promovo-a a banda sonora da história da princesa.

Não fossem os meus braços pousados sobre a mesa, como oferecendo guarida à pequena chávena da bica, e não fossem os pelos brancos que os envolvem, a denunciarem a idade, eu juraria estar em Vila Viçosa, algures pelos anos setenta do Século XX, repousando de barriga para cima sobre a erva de um qualquer campo de Maio.

Nesse tempo, com dez ou doze anos, ninguém me desmanchava o gosto de ler histórias nas nuvens e nas manchas dos tetos das casas, porque não havia bombas cheias de pregos, e Deus era apenas sinónimo de amor, num céu com estrelas e silêncio, onde não havia sirenes nem o sangue dos sonhos a esvair-se pelas ruas.

Trouxe esse gosto de então, comigo e até aqui, porque viver é nunca desmanchar os sonhos. É sobre os seus recantos que eu decalco parágrafos nas tardes de Maio e de todo o ano.

Manchester foi traída por esse falso céu sem Deus, e quando "matamos" uma criança asfixiamos o mundo e o tempo, privando-os do poder de se reinventarem.

Quando "matamos" uma criança… morremos todos.

domingo, 21 de maio de 2017

As sombras na floresta


Na floresta, quando o sol se despede, ao entardecer, levando com ele a bênção dos corvos, que lhe fazem sempre sete vénias, persistem sombras negras e imunes à lua.

Os homens e as mulheres que por ali passam nesse instante, recostam-se então como podem sobre a folhagem, adormecendo num pesadelo povoado por medos e monstros nunca antes vistos, enquanto os relógios parecem desatar o tempo numa vertigem até ao abismo.

Nesta agitação, valem-lhe os poetas, que são seres irmãos da noite, e que colhem palavras das árvores mais altas, em poesia ou em prosa, como bagas de cor vermelha com que enchem todos os seus abraços.

Um a um, entrelaçam o seu corpo com o das mulheres e homens adormecidos, e a esperança acontece no despertar suave e no caminhar dolente até às clareiras que brincam com o luar.

Nos últimos tempos, algumas pessoas muito próximas de mim sentiram o pesadelo destas sombras feias, escrevendo-lhes eu estas palavras para que não lhes falte nunca o abraço dos poetas.

Para vocês, aqui fica o entrelaçar amigo num abraço cheio de morangos ou bagas encarnadas.

Neste recanto da floresta onde os medos não entram, estamos juntos e confortavelmente sentados, preparados para em breve podermos celebrar as novas e doces madrugadas.

 

domingo, 14 de maio de 2017

Afinal coube tudo numa só noite


A fé, tomamo-la das estrelas com que o céu nos enfeita a noite, ou então das luzes que, generosamente, alguém vai acendendo sobre a nossa cabeça.

No tempo dos meus bibes de xadrez e dos calções de pano, o tio Zé e a tia Joaquina, levavam-me a ver os arraias ao redor de Vila Viçosa, as "luzinhas", sob as quais comíamos uma fartura, comprávamos uma rifa, tentando a sorte, e falávamos sobre os golos do Eusébio.

Mesmo com o meu pai Sportinguista, foi assim, e por eles, que eu nasci para o Benfica.

Não me recordo de ser eu sem sentir o Glorioso.

Ontem, sob o céu de Lisboa enfeitado de estrelas e lua cheia, fui da Luz até ao Marquês para celebrar o tetracampeonato, levando comigo toda essa gente grande, os meus heróis, a minha gente da pátria da fé.

O tio Zé finalmente celebrou um tetracampeonato, e logo assim, a brilhar sobre Lisboa.

Cumprindo todos os sonhos, estive ali com todos os que me fizeram Benfica, envoltos num mar vermelho, e explicando ao mundo que lampião, sim, isso mesmo, lampião, é ser gente que acendeu a esperança e tem sina de campeão.

Também no tempo do bibe de xadrez, quando a Tonicha e a Simone ganhavam o festival, eu juntava-me com os meus amigos no celeiro do Senhor Domingos e brincávamos à Eurovisão.

Ainda não entendíamos bem os poemas do Ary, mas pressentíamos-lhes a fé, algures entre a Desfolhada ou o Portugal no Coração.

Fizemos subir balões, fomos à tourada vestidos de mosqueteiros, cantámos o silêncio, falámos muito e não dissemos quase nada num estranho dai-li-dou, mas ninguém parecia querer entender-nos neste nosso grande, grande amor.

Na noite de ontem, os acordes simples de uma canção com um poema na língua de Ary e perfumado pela voz de um rapaz simples, como usa ser a gente grande, fizeram acordar finalmente a Europa, que nos deu todos os 12 pontos que lá tinham guardados.

Telefonei ao João Paulo e vi o Juan Blas numa chamada no Watshapp. Para nós que sempre sonhámos, este serão sabe a mel.

É da nossa idade, este sonho de Portugal vencer a Eurovisão.

Às duas e meia da manhã resolvo finalmente ir dormir. Já revi os golos do Benfica, não sei quantas vezes ouvi o Salvador Sobral, e vi todos os programas em directo do Marquês.

Ainda espreitei as estrelas antes de fechar a janela.

Afinal coube tudo numa só noite.

São incontáveis as coisas que se podem ajeitar nas noites de quem não permite que o tempo lhes desmanche os sonhos de rapaz.

domingo, 7 de maio de 2017

Mãe


As tuas mãos protegem-me do vento frio, construindo uma casa invisível onde eu gosto de adormecer sob a luz ténue, mas perpétua, de um beijo.

Sem que se espreite, eu sinto que é de linho bordado, o leito que me oferece o teu olhar, enquanto a voz pendura favos de mel das esquinas de todos os segundos.

Então, eu sorrio e navego, enleado nas histórias doces que, mesmo sem lápis de cor, tu me desenhas no pensamento. Invariavelmente, sou um herói sem lágrimas e impossíveis, um rapaz que voa com os pássaros num campo de trigo.

O amor é assim, do reino de sentir, e tu, mãe, vives aqui tão perto, como quem é tanto de mim, os dois envoltos por uma só pele.

O amor é assim, foca-se na essência, e quem oferece a vida, oferece-a todos os dias no respeito pela nossa identidade. 

O amor não tem pressa por não temer o tempo, e tu, mãe, és a palavra, o poema que nunca se esvai, a certeza de eu nunca envelhecer.

És a eternidade.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Maio


Com os dias que me ofereceram, construí uma torre, onde encarcerei o medo, reservando, no entanto, o ponto mais alto, para rasgar uma varanda onde me sento a brincar com os papagaios de papel que as crianças lançam ao entardecer.

Ali, acendo velas aromatizadas com a minha vontade, faço rimas com as palavras que me são gratas, e rasgo as notícias velhas e desinteressantes dos jornais, dobrando depois cada pedaço, e juntando-os, até fazer hortênsias que espalho pelo parapeito.

Quando o tempo vestir uma saia curta de verde trigo, bordada a ponto cruz com papoilas e malmequeres, saberei, mesmo dispensando o calendário, que Maio finalmente chegou.

As tardes espreguiçar-se-ão pedindo ao sol que fique mais um pouco, e da torre aonde eu moro, soarão liras e alaúdes em tom de festa.

O tempo é sempre de quem o vive de verdade, assim, calando o medo, e Maio, o mês das flores, é de quem não deixa passar sequer um segundo, sem o pespontar de liberdade.