quarta-feira, 31 de julho de 2013

A página pobre do diário de Cristina

Comporta, 30 de Julho de 2013

Querida Kitizoca,

Foi um dia supé caturra aqui p'la Pobrelândia, este nosso execício anual pa descoberta do estranho mundo dos pobezinhos, que pa nós é sempe um gande mistério.
No workshop matinal de "meias de leite e abatanados" tive excelente pontuação e até ultrapassei a Cereja que se queimou no vapor da máquina e não foi capaz de dizer mêrda logo de seguida. Ora pobezinho qu’é pobezinho diz logo de seguida mêrda. No mínimo.
Ah, é verdade, e po falar na Cereja, já descobri poque me ganha sempre no concurso de "peidos pós-prandiais". A caturra compra latas de feijão cozido do Lidl. Pa mim é doping mas já que po outros não, vou disfarçar-me um dia destes e mergulhar nesse horroroso mundo das compras dos pobezinhos. Vou levar toalhetes de álcool pa prevenir os fungos. Também pensei levar máscara poque sou supé alérgica aos “Bien-être’s” e aos “Old Spice’s” do povo, mas isso podia sê mal interpetado, tá ver?
De tarde não me correu muito bem o workshop de “lavagens de crica em bidé e uso de pó de talco após três dias sem duche”. Puxei de um toalhete pefumado e fui desclassificada. Mas o toalhete tava ali memo à mão na minha bolsa e o bidé de plástico era simplesmente horreroso.
Vinguei-me ao jantar e a minha febra era das melhores pa além de que ao serão contei uma anedota supé ordinária. A melhor que consegui mas custa-me tanto não poder usar a palavra pênis e usar o vernáculo do povo. É do... Ah, ah, ah... Caturreira.
Tou supé orgulhosa do meu Tico, o mais piqueno, foi campeão no concurso de "palitar os dentes sem palito e só com recurso a unhas e auto-chupadelas”. É um prodígio e já tira pedaços do tamanho de pastéis de bacalhau. Estou a exagerar, claro.
Já o Tecas, o más jelho não se adapta, embora já tenha uma boa média de 3 coçadelas de testículos po minuto e já lance ca boca as pevides a uma boa distância na disciplina de “comer melancia à moda de gaita de beiços e só c’ajuda de um canivete”.
Mas pa chamar “garinas” às raparigas e apalpar-lhes o rabo? Não lhe sai do corpo e não sei poquê.
Pa terminar a noite o Gigas propôs-me fazer amor à pobezinho, diz que aprendeu há mutos anos com uma pobezinhas e sem abrigo que antes apoiava em Monsanto.
Acedi poque ele tava supé desmotivado dado que perdeu o “lançamento do cuspo” po Tio Manuel, vá lá saber-se como é que o velho conseguiu, ele que até usa placa postiça que é definitivamente coisa de pobezinho… e eu bem sei.
Gostei da experiência do “amor à pobezinho” mas foi estranho e tenho de peguntar ao Padre Seabra se por ali posso procriar. Pa lem disso fico baralhada: po que raio de orifício é que as pobezinhas farão então cocó?
Agora vou dormir que o dia amanhã promete.
De manhã temos a visita excecial da Tia Filipa Vacondeus pa um workshop de comida de pobezinhos e vamos aprender a fazer caracóis com molho de escabeche. No final acho que nem vou pecisar do doping do feijão… Ah, ah, ah… Caturreira.
À tarde vamos aprender a lavar louça depois de uma sardinhada debaixo dos pinheiros, em alguidares de plástico e com a ajuda do Presto. Só espero que os glutões não me levem o que resta das unhas que já estão pêssimas.
Estou supé excitada.
Adeus e dois beijos (o que me custa, mas vá lá...).
A tua Cristina (por estes dias com o nome de guerra de Vanessa Idalina. Idalina como homenagem a uma sopeira supé querida qu’há anos tivemos no palacete da Lapa)

terça-feira, 30 de julho de 2013

Silêncio

Morreu o “amor” escrito no teu olhar,
A promessa dos beijos, dos abraços.
Noite, ressoar triste dos meus passos
Sem rumo, sem destino e sem luar.

Bússolas ditas, cartas de marear,
Foram tuas palavras, nós e laços
Desatados p’la ausência, cansaços
De um náufrago, eu, só, entregue ao mar.

Há uma ilha longe. Clama por mim.
Desta vida, destino e ao que vim,
A pátria dos sem rumo, a solidão.

Diz: “meu amor”, resgata-me da morte,
Insufla-me vida, a fé, um norte,
Eternidade e tão-só… a tua mão.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Sérios, honestos e bons de contas…

Quando optamos por circular no IC19 e chegamos sem problemas a Lisboa mesmo que em hora de ponta, a elevadíssima probabilidade de podermos encontrar mesa num restaurante sem que antes tenhamos feito uma reserva, as áreas de serviço das auto-estradas literalmente às moscas, a consulta médica que antes marcávamos para daí a dois meses e que hoje pode ser conseguida da manhã para a tarde…
Existindo uma causa para tudo o que acontece poderemos dizer que as situações que descrevo serão consequência da crise e das suas vertentes, a saber e entre outras, o aumento do número de desempregados e também o brutal aumento de impostos de que fomos vítimas nos últimos anos, envolvendo tanto as taxas directas como indirectas, numa perspectiva de “vaca leiteira” com ligação ininterrupta às máquinas de ordenha.
Para só nos reportarmos aos anos desta legislatura temos em 2011 o maior aumento de impostos da União Europeia com o peso dos impostos no PIB a crescer de 31.5% para 33.2%, em 2012 ficámos a saber que éramos vice-campeões mundiais do aumento dos ditos logo atrás da Argentina, e em 2013 sofremos um “enorme aumento de impostos” segundo a apreciação do ex-Ministro das Finanças, Vítor Gaspar, com cada Português a perder em média um salário mensal no contexto dos seus rendimentos anuais.
O desporto mais praticado, pelo menos pelas pessoas conscientes e que fazem boa gestão dos seus recursos, é hoje sem dúvida a “ginástica da carteira”, até porque as mensalidades dos ginásios subiram devido ao aumento da taxa do IVA.
Ao longo destes anos, bastas vezes, nós temos tido o desprazer da companhia do Primeiro-Ministro via televisão e sempre à hora do jantar, comunicando que por sermos um povo sério, honesto e bom de contas, temos de contribuir com mais um pouco dos nossos parcos haveres.
Sérios, honestos e bons de contas…
Na semana passada o Senhor Primeiro-Ministro afirmou que “a crise tem sido mais forte porque as pessoas gastaram menos do que previmos”.
Enganou-se nas contas.
Para além disso, o Português médio é de facto honesto e, ao contrário dos políticos não tem formas extra e subterrâneas de financiamento, pelo que se tem muito menos de rendimento é obrigado a gastar menos, em igual proporção.
Este fim-de-semana o Senhor Primeiro-Ministro afirmou que “nós não conseguimos recuperar a nossa economia para o futuro aumentando os impostos”.
A sério?
Andou conscientemente a “matar a economia” nestes três últimos anos, e perdoem-me a desagradável comparação, ao jeito do maquinista da Galiza que acelerou no risco e atirou as vidas para o abismo?
Terá por acaso a noção do número de pessoas que atirou para o desemprego ou do número de famílias que atirou para fora das suas casas?
O Português é sério, honesto e bom de contas, é um facto. E o Primeiro-ministro?
Definitivamente e comprovadamente não é.
Aproximam-se eleições, ele passou a pasta da economia para o parceiro da coligação, reformou o governo e vai começar um novo ciclo político…
Dirão em seu favor os portadores de cartão partidário ou os acomodados ao “tachinho” na organização do poder.
Pois…
Só que o pino feito em cima das feridas ou das fracturas dos demais é demasiado insuportável e causa muita dor.
Para além de que o bom senso e a vergonha serão sempre “irrevogáveis” na definição de um bom carácter.

domingo, 28 de julho de 2013

Uma campanha (demasiado) alegre

Boa gente aqui estou, sou candidato,
Homem recto, de palavra e acção.
P’ra política com talento inato
Grande sucesso em qualquer eleição.

Bem melhor que todos que aqui estão,
Do desenvolvimento sou um motor,
Garanto-vos quatro anos de paixão,
Muita entrega total, muito amor.

Não vos prometo o sol ou a lua,
Eu sou muito honesto desde rapaz,
Mas um ecoponto em cada rua,
De isso, já sou eu muito bem capaz.

Excursões às grutas, dias na praia,
Bailes, operações às cataratas,
Tony Carreira, consultas da Maya,
Piqueniques, fruta, atum em latas.

Muitas festas de Natal ou de verão,
Carnaval com corso e rei de fora,
Muito folguedo, banda e procissão,
Tudo a matar o mau de agora.

Darei assim o melhor presidente,
Um sucesso, um candidato de truz.
Para vos garantir um bom presente,
Por favor, no meu nome ponham a cruz.


Meus amigos descansem: não sou candidato. Foi apenas a campanha que me inspirou a estas rimas. 

sábado, 27 de julho de 2013

Reinventarmo-nos

Reza a história que Maria Pia de Sabóia, Italiana, rainha de Portugal por casamento com D. Luís I, era uma mulher com um apurado gosto pelo requinte e pelo luxo.
Visitar os seus aposentos no Palácio Nacional da Ajuda, confirma-o inteiramente e, no contraste com aquele que sabemos ser o nível de vida de um Português médio no final do Século XIX, compreendemos e aceitamos como natural, a revolução e a substituição “desta monarquia” por um regime republicado.
Abstraindo-nos por momentos das sedas e dos dourados, quando entregamos o olhar às janelas atraídos pelo azul intenso do Tejo, é impossível deixar de notar que há meio palácio por construir. Culpa da república e por certo da já crónica falta de verbas de que há muito sofre a nação.
Já visitei o Palácio em várias ocasiões mas hoje, sábado de verão abençoado pelo sol que induz a luz mágica de Lisboa, voltei para ver a exposição da Joana Vasconcelos, que espalhou a sua arte pelas diferentes salas da residência de D. Maria Pia.
Com tachos, tampões OB, ferros de engomar, talheres de plástico, gravatas, flores de plástico e outros materiais de natureza banal, a artista deu forma a peças de maior ou menor dimensão que me prenderam o olhar e que de forma natural me fizeram abstrair do luxo asiático que o gosto da rainha fez perpetuar naquele espaço.
Mérito maior da artista porque, afinal, a banalidade nunca subsiste à intervenção da verdadeira arte.
Aqui… e também na vida e no ciclo dos dias.
Tudo o que por vezes nos parece ser tão fútil e banal pode ter a harmonia e o poder das coisas grandes bastando para tal a arte de os alinhar e sintonizar com um destino de amor.
Foi necessário esperar na fila para entrar no Palácio e foi um gosto apreciar a heterogeneidade da pequena multidão constituída em muitos casos por famílias inteiras.
Foi fácil constatar que a grande maioria apreciava as obras e expressava-o sem os pudores por vezes tão típicos dos Portugueses na hora de elogiar o que quer que seja.
No final, uma pequena fila fez-me aguardar por vez para assinar o livro de honra da exposição. Num relance pelas mensagens dos que escreveram antes de mim, duas ideias principais: agradecimento e orgulho de Portugal.
Definitivamente estamos em pleno síndrome de abstinência de orgulho pátrio. As bandeiras do Euro 2004 já se desfizeram pela austeridade e já descoraram por acção da tão corrosiva Troika.
Apesar de sermos república há mais de um século, sempre que um novo governo toma posse, os salões da D. Maria Pia voltam a encher-se. Mesmo sabendo que apenas por momentos, pois os tomadores da posse vão depois dormir para os apartamentos no Heron Castilho ou as vivendas na Praia da Coelha, ficamos com a noção de que todos os dejectos humanos, por mais diferentes que sejam na sua natureza, nunca resistem a procurar os melhores recipientes receptadores, vulgo penicos.
E é sobre esta “miséria” que se nos impõe devolver o orgulho a Portugal.
Parece-me que a Joana Vasconcelos encontrou uma boa fórmula para o conseguimos.
Pode cada um por si achar que não vale nada, mas todos juntos e agrupados como deve ser, suplantamos tudo e todos.
Ao passar por uma das salas que antecede a Sala do Trono há um televisor envolto em crochet que transmite um Festival da Eurovisão. Quando passei por lá visionei o Festival de 1982, o do Bem Bom das Doce, e cantava Anna Vissy a representar Chipre com uma das minhas canções favoritas de sempre: Mono i Agapi (em Português: Apenas Amor).
Tudo bate certo então.
Apenas o amor, por nós e por Portugal, nos poderá encher os dias, arrancar a banalidade e devolver-nos o orgulho que como gente e como povo há muito merecemos.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

O tempo e a vida

Chamava-se Inácia Isabel, era minha bisavó por ser mãe do meu avô materno, partiu muitos anos antes de a minha mãe ter nascido mas foi ela a inspiração para o nome de Inácia, acrescentado ao eterno feminino nome de Maria, com que a minha progenitora foi baptizada.
Conta-se que ia lavar a roupa da família para os ribeiros da Tapada Real e que passando no Terreiro do Paço em frente ao Convento dos Agostinhos, então um quartel de cavalaria, lavadeira denunciada pela enorme trouxa colocada em cima de uma burra, nunca negava aceitar receber e lavar a roupa dos soldados que já a esperavam ladeira acima, devolvendo-lhes a dita na hora do regresso ao fim da tarde.
Mulher de muita fé, diz-se que no seu percurso pelo campo, sempre que ouvia no campanário de uma ermida, o apelo de um sino a chamar para a missa, parava tudo e entrava porque segundo ela:
- A hora da missa nunca é uma hora perdida.
Foram muitas as histórias como estas que a seu respeito me foram passadas pela Tia Maria, também sua filha, nos nossos longos e agradáveis serões passados naquele tempo em que a televisão incomodava e se desligava, porque o importante mesmo era conversar.
Ilustrava-me a Tia Maria, o seu principio básico herdado da mãe, de que o tempo faz sentido se for utilizado ao serviço da vida, nossa e dos demais, bem como da fé e de tudo o que de importante acreditamos.
Na minha viagem de hoje na cumplicidade da auto-estrada, acorreram-me à memória estas histórias a propósito do acidente de comboio de ontem em Santiago de Compostela. Tudo indica que a morte de oitenta pessoas foi causada por excesso de velocidade.
Sinais dos tempos.
Hoje a métrica do “valeu a pena” não é a qualidade com que preenchemos o tempo e por ele crescemos e fazemos crescer os outros, é antes de tudo a aceleração que promovemos na vertigem de chegar mais rápido algures onde achamos que estará a nossa afirmação pessoal… e social.
E neste contexto, uma pessoa é muito inteligente porque tirou o curso em menos tempo, é bem sucedida na vida porque tem um carro que lhe permite acelerar de Lisboa ao Porto em pouco mais de uma hora, é um herói à mesa do café porque tem a hipótese de partilhar a adrenalina daquele momento em que duplicou a velocidade do comboio que dirige e que por acaso transporta centenas de pessoas.
Cinco minutos de um atraso são assim convertidos em oitenta mortes ao câmbio da futilidade e da violação do mais elementar dos respeitos que a vida nos merece.
Pode soar estranho, mas é um facto que urge recolocar a vida no centro da própria vida.
Só assim o tempo voltará a valer a pena.
Amanhã por ser dia de São Joaquim e Santa Ana, os pais de Maria, mãe de Jesus, será Dia dos Avós. Permitam-me que hoje e aqui, louve a vida pelos avós que me ofereceu e pelas sábias lições que eles me deram.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

“Que bem que se estava na praia”

A temperatura lá fora não desmente que é verão e reparo que a grande maioria das pessoas que enchem por completo a sala de espera estão vestidas como se estivessem em trânsito de e para a praia. Imperam as bermudas, os calções, as camisolas de grande decote, os chinelos e as havaianas.
Estou junto a um balcão onde se encontram duas funcionárias devidamente fardadas em tons de cinza e verde.
Estão as duas à conversa num tom de tal volume que é impossível não ouvir os relatos que uma dela faz sobre a manhã passada à beira mar:
- Que bem que se estava na praia.
De vez em quando interrompem a conversa para um carimbo, uma nova marcação ou então para se agarrarem ao microfone e num tom entre o asténico e o zangado, chamarem o próximo.
- Manuel da Silva. Gabinete setenta e oitoooo.
Sempre que alguém se aproxima e as faz afastar o olhar uma da outra, rapidamente preparam a metralhadora e os incautos utentes acabam invariavelmente fulminados pelas balas oftálmicas com que os seus olhares os trespassam.
E logo que podem regressam a:
- Que bem que se estava na praia.
Na sala há um plasma sintonizado na SIC Notícias e sem som, o que é sempre bom para ver os bonecos e tentar adivinhar o que as pessoas dizem através dos movimentos dos lábios.
Não fossem os rodapés com as chamadas de atenção e eu não “pescaria” uma.
Às cinco em ponto começam a transmitir a tomada de posse dos novos ministros.
Numa audiência na sala que eu poderia estimar em 100 pessoas, eu, apenas 1% parece estar a olhar para a televisão.
Cavaco Silva, o homem que depois de chegar à liderança do PSD apeou Rui Machete do cargo de Vice do Governo do Bloco Central, dá-lhe agora posse como Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros. O homem que nessa altura usava as páginas de “O Semanário” para os “abater” a todos, o mesmo que há três semanas afirmou ser irrevogável sair do governo, Paulo Portas, toma posse como Vice e não consegue disfarçar no gesto, o jeito de criancinha mal comportada que levou uma reprimenda em público.
Toma posse como Ministro da Economia, o homem da Super Bock que ao fim de dois anos de grande persistência consegue enfiar-se no governo por acção da “calçadeira” Portas, e um trio de jovens ministros saídos das “academias” das Juventudes Partidárias.
A cerimónia é rápida e não conseguiu prender a atenção de nenhum dos meus companheiros de espera.
Haverá meia dúzia a olhar para ontem, outra meia dúzia a olhar para o outro lado da janela, e a grande maioria assiste à novela:
- Que bem que se estava na praia.
Em Belém começa a fila de cumprimentos. Interminável.
Excepção a alguns que conheço, a grande maioria é composta por homens de fato escuro e mulheres louras, anafadas e com carteiras tão grandes que bem poderiam disfarçar no seu interior uma toalha de praia e um protector solar.
Não os conheço de vista mas até deveria pois imagino que sejam os tais “boys & girls” que vivem das nomeações, os tais que foram ali em acto de investimento na carreira, pessoas altamente patrocinadas por mim na rota Pagamento de Impostos – Salários de “Boys”.
Será que vendo-os a todos por ali e reparando que são tantos, não consegue perceber que não só, mas que é também por eles e pelos seus salários que nós não temos mais dinheiro para fazer compras?
Dava jeito.
Eu fui o único que acompanhei a cerimónia do princípio ao fim naquele jeito de cinema mudo com actores e malabaristas… mas a cores.
E aqui está Portugal.
A política é um circo, um aquário de seres desligados da realidade, sem palavra, um apetecível habitat alimentado pelo “motor” dos impostos dos cidadãos, os eleitores e contribuintes que já não podem ver os políticos.
E os políticos até agradecem que os cidadãos não estejam por perto e que só os conheçam pelo seu lado solar através dos cartazes das promessas eleitorais.
Apetece mesmo fugir e agora sou eu que penso:
- Que bem que eu estaria na praia.
Mas sem comichões que para isso já bastam estas.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Amália

Quis Deus um dia, dar voz a Portugal,
Cúmplice da guitarra e da saudade.
Nasceu Amália, instante sem igual
Que ao canto trouxe mar… e a verdade.

Dos poetas, a palavra imortal,
Do povo, o grito e a liberdade.
Luso sonho maior, tornado real
Num fado que é só nosso… sem idade.

É algo marinheiro, este canto,
Lágrima, nau por nós e p’la corrente,
Desbravando os segredos e o sentir.

Mulher, rainha, negro xaile, encanto,
Flor do campo, aroma, toda a gente,
Estrela que jamais poderá partir.

Amália nasceu, faz hoje 93 anos, se considerarmos a informação do seu Bilhete de Identidade. Para quem é eterno, a data exacta de nascimento também será sempre um dado irrelevante.


segunda-feira, 22 de julho de 2013

Dinastia ao jeito de Dallas no imparável “Cagarra” Crest

Nas terras do seu “império”, o velho patriarca há muito se refugiara no seu sumptuoso palácio.
Entregue aos netos a gestão do feudo, limitava-se o avô a alguns passeios lúdicos pelos recantos mais exóticos da propriedade enquanto a mulher se refugiava em orações e preces na capela, e, de vez em quando, mais por hábito do que por lucidez, geralmente em datas importantes e festivas, ia o “venerável” ancião olhando para as contas e resultados da administração promovida pelos netos.
Num belo dia de verão, o neto mais novo, atraído pela luxúria e pela boa vida, aproveitou como pretexto a nomeação de uma nova contabilista recrutada pelo irmão e anunciou o abandono da administração do “império” colocando em risco o poder colegial que exercia com o “mano”, que foi desde logo acordar o avô, retirando-o do sono e da letargia da sua reforma dourada.
E enquanto o velho aquecia o cérebro já demasiado habituado ao descanso, para que pudesse articular algum mínimo pensamento, no silêncio dos seus apartamentos apalaçados, os dois netos resolveram organizar-se e entender-se para que o poder não lhes fugisse e para que o mais novo conseguisse conciliar tudo com a tão ambicionada luxúria e boa vida.
Quando apresentaram a solução ao “adormecido” avô este já tinha resolvido castigá-los, ameaçando-os com o papão da terrível perda da herança e tendo inclusive chamado à baila um bastardo, obrigando-os a todos a um esforço suplementar para acertarem um pretenso acordo de partilha de poder e responsabilidade, algo muito pouco provável de conseguir dadas as enormes divergências familiares.
Mas, os castigos dos avós para com os seus netos são em geral muito ligeiros, enfermam de uma excessiva tolerância e permissividade, e duram sempre no máximo uma semana. Efectivamente, estes “papões” são sempre e só um susto… e os netos acabam invariavelmente por fazer tudo o que lhes saiu da vontade.
Assim aconteceu até porque nestes “argumentos” o pecado mora sempre ao lado e os intérpretes… são todos bons rapazes.
O avô regressou ao silêncio da reforma depois de obrigar os descendentes a um abraço público de “confiança” e lealdade familiar, o bastardo regressou ao seu estatuto de pretendente à herança, os seus netos legítimos mantiveram o poder, o pródigo neto mais novo recebeu a pretendida luxúria feita de “ferraris” e novos palácios que comprova que nestas histórias, o crime, definitivamente, tem elevadíssimas compensações e…
Falta apenas referir que os trabalhadores do “império” verão adaptados os seus salários, benesses e encargos de forma a sustentarem a boa imagem e pretensa saúde financeira do feudo.
Mas isso não interessa nada e é verdadeiramente satélite ao essencial do argumento desta história de poder.
Entretanto, a avó continuará a rezar.
Qualquer semelhança desta história com pessoas e factos ocorridos em Portugal nos últimos tempos será a mais pura coincidência.  

domingo, 21 de julho de 2013

Quatro gerações… e o azeite

Terá sido algures em meados dos anos setenta num período em que mesmo os invernos eram aquecidos pelo calor da política e o fogo de uma inédita liberdade.
Nas manhãs de sábado de entre Dezembro e Janeiro, e porque não tinha aulas, acompanhava o meu avô Joaquim aos olivais onde ele liderava um grupo de mulheres que apanhavam azeitona. Em linguagem do meu Alentejo, o meu avô era o “Manajeiro” do Rancho.
Aprendi a apanhar e a colher azeitona, a varejar para uns enormes panos e a atirar ao vento, o fruto e as folhas, separando-os por acção dessa diferença de peso que faz projectar as azeitonas sempre para lá das folhas da oliveira.
E essas manhãs em que eu era mimado por todas as mulheres e provava das suas merendas, acabava invariavelmente com o transporte dos sacos de serapilheira cheios de azeitona num carro puxado por uma mula, para o lagar comunitário existente no Carrascal.
Ao privilégio de nascer no campo somou-me a vida esse gosto de crescer em plena comunhão com a terra na bênção do testemunho de uma gente maior, recebendo por essa via tão simples e simultaneamente tão nobre, a herança do trabalho e do respeito supremo pelos frutos e flores que são o nosso alimento de todos os dias.
Em Vila Viçosa, o espaço e o edifício desse lagar dos meus anos de menino é hoje um magnífico hotel de cinco estrelas, o Alentejo Marmorium Hotel.
Na noite de ontem, sentados a uma mesa redonda num dos cantos da sala do restaurante, estive eu, os meus pais e o meu sobrinho João cuja idade anda próxima da minha na altura dessas manhãs da apanha da azeitona.
Conversámos muito, contámos histórias, revivemos memórias, falámos muito das pessoas de quem gostamos muito, partilhámos sonhos e projectos, rimo-nos ainda mais… durante as três horas que não demos conta terem passado, e em que íamos escolhendo o pão que partíamos e saboreávamos após o “mergulho” em quatro tipos diferentes de azeite, qual deles o melhor, e que o simpático funcionário teve a amabilidade de nos identificar e explicar.
Três gerações à mesa, ou melhor, quatro, por generosidade da memória e porque aquele espaço terá sempre para mim a presença do avô Joaquim e a cor do seu rasgado sorriso quando a balança indicava que a colheita tinha sido proveitosa.
Sentados, mais confortáveis nas cadeiras, no aconchego de um sumo de laranja ou de um tinto alentejano, e a saborear uma comida de excelência mas que não conseguirá nunca bater as “buchas” matinais das minhas amigas do Rancho, a terra, o Alentejo, a nobreza intensa da simplicidade… e o azeite, voltaram a ser cúmplices numa passagem de testemunho e na transmissão de uma intangível herança de valores.
A família é afinal esta “casa de valores” e o espaço de transmissão das heranças que nos moldam o carácter.
Os valores e as heranças que perduram no tempo e que resistem mesmo quando o tempo nos transformam enormemente ao ritmo da conversão de um espaço de lagar num luxuoso hotel de cinco estrelas.
E só se cresce verdadeiramente quando as raízes estão firmes na verdade da terra… ou na verdade do que somos.
Quando após o jantar nos devolvemos ao fresco da noite e pudemos admirar a lua cheia por cima da Mata, o João confidenciou-me:
- Estamos aqui tão bem que eu ficava por cá mais cinco dias.
As raízes bem presas à terra ou o prazer de estarmos bem no sítio a que pertencemos… por herança ou nascimento.
Tenho quase a certeza de que vi o avô Joaquim sorrir espreitando por detrás da lua.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

A poesia

Sorrio à manhã que me traz uma leve brisa de mar em rima com o sol que se espreguiça e levanta por detrás do Cristo Rei.
Há um canteiro de sardinheiras que ainda transpiram e denunciam a rega que as alimentou durante a madrugada mas o aroma que tempera o ar de flores vem da alfazema disposta em ilhas de tom lilás.
Respiro e abençoo a vida no trautear instintivo de uma cantiga que dispensa letra e é cantada ao jeito de assobio.
Em coro e num improvisado dueto, junta-se a mim então um grilo que viverá algures nessa bênção campestre de um canteiro na cidade.
O café completa-me o despertar, saboreio-o enquanto ao longe vejo e sinto a paz azul do Atlântico, e de palavras e sorrisos se faz o momento de afectos com os anónimos que a confluência de hábitos transforma nos meus fiéis cúmplices de todas as manhãs.
E sempre com o olhar fixo no mar, faço-me ao caminho…
É o mar que me traz os teus olhos e me atenua estas saudades que jamais irei matar em mim.
Afinal, as saudades são o que de ti tenho mais próximo e mais meu.
As saudades e os sonhos que sempre pela noite e quando a lua sorri ali para os lados da Penha, me fazem abraçar a ti.
Abençoada ilusão.
Será a ilusão ou será o real e doce gosto que têm os dias, aquilo que me faz pegar numa caneta, e pelo rabisco das palavras perpetuar o momento de uma manhã assim assaz perfeita.
E quando leio e releio as palavras, quando busco a métrica da verdade que elas dão ou não ao sentir da alma, descubro-te.
Existes desde a nascente do meu ser até à foz de onde emergem e fluem essas palavras.
És tu: a poesia.
E és assim tão-somente, a vida... e o amor.
Hoje, uma simples mas perfeita manhã de verão.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Nelson Mandela ou o nome da própria liberdade

Há vários filmes que poderei classificar como “da minha vida” e um deles é sem dúvida Cry Freedom (em Português, Grito de Liberdade) pelo impacto que teve sobre o desenvolvimento da minha consciência e activação da revolta perante uma das maiores injustiças do universo, o racismo.
Realizado por Richard Attenborough e com uma magnífica canção de Peter Gabriel na sua banda sonora, este filme narra a história de Steve Biko um dos maiores activistas da resistência contra o apartheid na África do Sul, morto barbaramente às mãos da polícia em 1977.
Quem distingue e separa os Homens com base em características de natureza étnica, assim como outras que podem passar pelo credo religioso, orientação sexual ou género, mata a própria humanidade e amputa-a de uma das suas maiores riquezas, a diversidade.
O regime do apartheid foi uma das maiores vergonhas da história do Homem e na mesma proporção Steve Biko ou Nelson Mandela foram heróis maiores porque colocaram a vida ao dispor do alinhar da humanidade com um destino de justiça e liberdade.
Os verdadeiros heróis são assim, anulam-se para serem a semente da vitória do colectivo e das causas em que acreditam.
Hoje enquanto comia uma espécie de almoço, seguia as notícias pela televisão e acompanhei a actualização do estado de saúde de Mandela que faz hoje 95 anos e agoniza num hospital.
No alinhamento das notícias, depois de Mandela surgiu o bebé dos príncipes ingleses. Quando nascerá? Será menino ou menina? Que nome irá ter?
As notícias a colocarem lado a lado, um herói da liberdade e uma criança que mesmo antes de nascer já é uma estrela produzida pela banalidade oca das “histórias da carochinha”.
Sou um republicano convicto e não só, mas também por isso, acredito que os heróis se constroem a si próprios com base no mérito e na genética do seu valor, não surgindo jamais da hereditariedade de famílias sustentadas por privilégios e cuja heroicidade dos antepassados já foi esmagada pelo tempo e pelos comportamentos mundanos e bacocos das neo-princesinhas da Hola e da Cirurgia Plástica.
Mas o mundo assenta tantas vezes nesta banalidade e está afinal tão longe de ser o espaço de liberdade e justiça que Mandela merecia que construíssemos em sua homenagem na hora da sua partida que parece estar iminente, um mundo que, confesso, julguei possível quando vi em 1990 Mandela sair da prisão e ganhar mais tarde o Nobel da Paz, tornando-se talvez no mais nobre e justo vencedor de tal galardão.
Para nós que acreditamos, continuar a lutar pela liberdade e pela justiça, segue como imperativo para todos, mesmo que algumas vezes nos alcunhem de utópicos e sonhadores.
A esses, talvez possamos sempre responder e reclamar como fez hoje o meu sobrinho João quando a minha mãe pela madrugada o convidou a satisfazer as suas necessidades fisiológicas:
- Avó assim não vale. Interrompeste-me um sonho bom.
Mandela e a sua memória impõem-nos que sonhemos a liberdade e que nunca paremos de lutar por esse sonho.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Lisboa, Tejo, Verão e toda a magia de um entardecer

Lisboa cheira definitivamente a verão neste final de tarde em que as cerejas e os morangos que a vendedora apregoa num claro timbre de Marcha Popular, sobrepõem o vermelho sobre o ocre do casario e a promessa de azul Tejo que a Rua do Alecrim sempre nos oferece.
O triângulo dos poetas que define o verdadeiro coração de Lisboa, esse mágico território entre os pedestais de Camões, Chiado e Pessoa parece ter sido tomado por uma imensidão de turistas de olhar deslumbrado, romagem de todas as línguas, preito feito de palavras à divina língua mater lusitana.
E é de palavras, muitas, do falar sentido das emoções, que se tempera o “café”, esse nome sempre dado ao encontro dos amigos, mesmo quando sobre a mesa, para fazer companhia às palavras e ao sentir, há de tudo menos a negra solução resultante de uma quente extracção de cafeína.
À mesa: Virgílio Ferreira, um Santo António pintado de amarelo e… as nossas vidas.
As partilhas e as cumplicidades dos amigos matam sempre os relógios nesse fenómeno que transforma as horas em tão breves instantes, o vertiginoso voar do tempo por sobre a nossa vontade de o agarrar, de o fazer nosso… e lhe dar a bênção da eternidade.
Nem demos conta, mas entre o brilho do olhar que fez companhia ao abraço do olá e o brilho da saudade que marca a despedida, passaram horas preenchidas com o doce encontro e a confluência das almas, essa cimeira conjunta que congrega toda a mais pura verdade do ser.
E na despedida, o até sempre quer dizer tão-somente, para sempre irei voltar aqui.
Já corre uma ligeira e fresca brisa quando regresso ao Camões subindo o Chiado. Entre montras que expõem o luxo e o caro, a mulher que apregoa e vende a fruta impera por todo o espaço, e a sua banca já quase vazia denuncia que na companhia de rubra fruta madura, para além da inevitável poesia, se foram daqui todos os turistas.
Desço a Rua do Alecrim rumo ao Cais do Sodré, buscando o Tejo.
E o rio, fiel companheiro da cidade e da sua gente, acompanha-me pela Ribeira das Naus e até ao Cais das Colunas e ao Terreiro do Paço, oferecendo-me o privilégio de uma palete de raros tons de azul que indiciam que atrás de mim, o pôr-do-sol em breve irá devolver a noite à grandeza de Lisboa.
Um cacilheiro ponteia e borda a laranja esta imensidão e festa de azul.
Campo das cebolas, a colina de Alfama, Santa Apolónia…
Estaciono junto ao rio virado para o topo da colina e para a imponente cúpula de Santa Engrácia, igreja e panteão dos heróis, o “santuário” da eterna Amália, a voz perfeita criada por Deus para que em sonoro cantar de fado se transformassem as palavras maiores nascidas dos poetas.
Não resisto e faço uma foto. Quero guardar e partilhar este momento que me oferece o entardecer.
A noite pressente-se agora mais do que nunca e a mesa já está posta chama-nos para um jantar de amigos que romperá o serão com palavras e infinitas gargalhadas.
Lisboa, cidade e cúmplice perfeita de todos os afectos, espaço de sonhos ou apenas e só, o mote para momentos que sendo tão especiais fazem sentir a vida a valer a pena.

terça-feira, 16 de julho de 2013

As estrelas da tarde

A necessidade de preparar o jantar tendo o frigorífico ao jeito da montra de uma ourivesaria depois de um assalto, convoca-me em alguns finais de tarde para o Pingo Doce muito perto do meu domicílio, e ainda hoje hesito entre classificar estas incursões como uma revisão da “Caderneta de Cromos” ou a entrada numa retorta, coluna de destilação e tubo de ensaio de um verdadeiro experimentalismo social e comportamental.
A visita até estava a correr bem até ao ponto em que na fila para o pagamento encontro um pai e uma filha adolescente obesa, com manifesta astenia e vestida a conselho do seu pior inimigo, em diálogo que aqui reproduzo:
- Faz o favor de ires ali buscar uma caixa de recargas para a máquina de café.
- Ora…
Dá um ar desengonçado ao quadril e acrescenta:
- E porquê eu?
- Porque eu estou a mandar.
- Ai que chato… Eu não sei quais são.
- São as mais baratas.
Grita o pai que estica a mão direita e diz:
- E eu dou-te o chato… com um belo par de estalos.
- Não sei quais são. Já disse.
- Não sabes ler?
- Ai… Estou de férias. Não me obrigue a ler alguma coisa, por favor. Até Setembro não leio nada.
E falam alto para assegurar que semelhante pérola de diálogo é partilhada com todos os presentes.
Eu já desconfiava do estatuto de intelectual que aquela jovem com ar de “matrioska” de dentro de quem poderiam sucessivamente sair mais cinquenta figuras idênticas mas de menores dimensões, mas fico agora com a certeza de que a cabecinha nem para ler as etiquetas serve, sendo por certo destinada apenas às madeixas que mesmo após uma dissertação das minhas colegas à hora do almoço, nunca conseguirei saber se são Californianas ou Copacabana.
Mas a rapariga lá traz as recargas, paga as compras e sai acompanhada pelo pai.
Chega a minha vez, a funcionária da caixa passa os artigos, diz-me o valor da soma que sendo menos de vinte euros, eu tenho de pagar em cash, e na pressa de me ver sair dali para fora “arranco” o talão da impressora à minha frente, ouvindo imediatamente o apelo da operadora:
- O “xô” tem de esperar. Assim fico baralhada e não consigo ver o troco que tenho de lhe fazer.
E ali, o rosto do “Pingo Doce – e venha cá” olha-me com um ar tão enjoado que parece que subitamente foi atacada por uma infinidade de dores que lhe tomaram o corpo.
Ou seja, a intelectual da literatura especialista em etiquetas de supermercado já saíra com o pai, mas deixou-me por aqui a Matemática, um verdadeiro e “simpático” Einstein ao serviço da Jerónimo Martins.
Passo a confiar tanto naquele cérebro que conto e reconto o troco antes de sair da loja e de agradecer o ar da rua, muito mais fresco e sem os aromas destas conversas de altíssimo nível.
De volta a casa aconchego o frigorifico que fica mais decente e mais capaz de receber uma visita da mãe, ponho o jantar em andamento e sento-me por momentos no sofá a ver as notícias.
Salvação nacional.
Os três partidos que patrocinaram a nossa actual situação em sucessivos anos de governação com o tempero da incompetência estão a negociar um acordo para salvar o país, seguindo a sugestão do Presidente da República que também já governou o país durante 10 anos.
Não sei porquê mas esta fórmula de pedir às bactérias, aos fungos e aos vírus que se juntem e se entendam para resolver uma infecção muito grave num doente moribundo, não me parece muito eficaz.
Pela sua própria natureza são agentes nocivos e nunca farão parte de uma solução, para além de que todos juntos e reunidos num organismo doente, a sua acção é bem pior de que a de cada um por si. Potenciam-se na patogénese.
Enquanto vou observar os ovos que cozem para poderem ser mais tarde incluídos no meu Salmorejo, penso na minha experiência Pingo Doce e, talvez inspirado no cozinhado, entro rapidamente no dilema do ovo e da galinha: temos os líderes que temos porque somos assim ou seremos assim por obra e “mérito” dos líderes que temos?
Talvez ambas as premissas sejam verdadeiras e sejam afinal elementos do terrível ciclo da mediocridade acéfala e perniciosa em que estamos envolvidos.
Este ciclo rompe-se apenas e só pela exigência. Desde a básica que cultivamos nas nossas mais pequenas coisas até à mais “sofisticada” de quem ocupa lugares na cúpula do Estado.
Exigência com tolerância zero para a mediocridade.
Exigência que aplicada a nós nos oferece a legitimidade de a reclamar na acção dos outros.
Exigência que aniquilará Portas, Passos e companhia, que durante dois anos nos pediram sacrifícios em nome de uma salvação que mataram na hora em que fizeram emergir a sua falta de nível… e fizeram uma birra ao jeito da “Matrioska” do Pingo Doce.
Definitivamente, só a exigência nos poderá devolver as estrelas para nos acompanharem nos “mágicos cansaços” das tardes tranquilas a que temos direito. 

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Pelos caminhos de São Vicente

A lenda fala de Vicente, valenciano feito mártir e santo pela força da fé, e da cumplicidade e fidelidade absolutas dos corvos que desde Sagres e do Cabo a que dá nome, até Lisboa, numa caravela que cumpriu a vontade de D. Afonso Henriques, não deixaram jamais de guardar as relíquias do Santo que se tornou padroeiro da capital Portuguesa.
Os corvos serão para sempre, o brasão de Lisboa.
E vicentina ficou a costa que foi cúmplice da viagem de São Vicente, essa mágica linha feita de promontórios e areia que tem a virtude de casar o Alentejo e o Atlântico.
Saio de Sagres pela manhã subindo a estrada que me oferece esse duplo privilégio de Alentejo e mar.
À direita os sobreiros, a esteva e o infinito mar de amarelo do que resta dos campos de trigo já ceifados. Aqui e ali, um intenso verde no prenúncio de uma ribeira.
À esquerda a persistência de azul que não desmente: o oceano.
E há estradas assim como esta, em que o destino se pode tornar irrelevante e o prazer maior está em percorre-las e fazer delas o nosso caminho.
Um caminho para fazer no abandono dos relógios e apenas ao ritmo dessas irresistíveis vontades de constantemente virar à esquerda rumo ao azul, e não temer a poeira dos improvisados caminhos na descoberta de um ponto novo para olhar o mar.
Cruzo Odeceixe ainda sem fome.
Ou será antes o instintivo impulso dos Sargos que já antevejo à mesa do Josué em Almograve?
Uns quilómetros mais à frente, é por aí que paro, percorro as ruas de Longueira com as casas cor de rodapé de Alentejo na inédita companhia de um intenso aroma de mar, e saboreio a sopa que tem Sargo e tem o “meu” pão no caldo do tomate e do poejo, o mesmo poejo que dá gosto ao licor com que decido coroar o café.
Não resisto a espreitar mais uma vez o mar, e muito mais reconfortado, sigo a “subida”.
Cruzo o Rio Mira, passo Milfontes, a Serra do Cercal que um dia foi a chilena “Casa dos Espíritos”, Alcácer…
Batem as dezoito horas de domingo quando pela Ponte Vasco da Gama avisto Lisboa envolta numa neblina que não deixa de ser sua, nestes dias que o calendário diz serem verão, mas que afinal, da estação quente têm muito pouco.
Lisboa, o meu destino que jamais será irrelevante e será sempre um porto de abrigo.
O mesmo destino de São Vicente.
Eu, sem corvos e sem caravela, mas de alma cheia.
Comprova-se que os dias são feitos de caminhos, e os dias grandes são aqueles em que não nos negamos a percorre-los convocando todos os sentidos e sabendo aproveitar tudo o que de bom e único cada “estrada” tem para nos oferecer.
Até mesmo quando o pó das aventureiras ousadias das traições ao GPS e à rota mais previsível, nos obriga a uma rápida lavagem da viatura que a coloque operacional para um recomeço de viagem.
Afinal, a pimenta do imprevisível dá aroma aos caminhos… e aos dias.

sábado, 13 de julho de 2013

O mar

Por mais longe do mar que tenhamos nascido ou crescido, não há em Portugal distância suficiente e capaz de apagar esta lusa genética que nos faz sentir em casa sempre que caminhamos na areia sentindo a brisa e o abraço das ondas desfeitas a nossos pés numa imensidão de espuma branca.
Bebo incessante o aroma de sal que tempera esta manhã do verão algarvio que fez as nuvens esconder o sol, e não resisto a sentar-me numa rocha, banco adornado de algas que há muito o meu horizonte me oferecia como promessa de descanso.
Olho para trás traindo por instantes o mar.
A falésia é íngreme, inacessível e uma palete de rochas e areias de tons ocres e laranjas, perfeita escultura operada por Deus e pela arte dos ventos, terra de raízes de pinhos, aloendros e uma outra infinidade de verdes.
Mas o mar impõe-se e devolvo-lhe o olhar.
Aos meus pés há conchas, pedras de todos os tamanhos, e de repente, a memória transporta-me para aquele verão de 1970 quando com apenas quatro anos brinquei pela primeira vez junto ao mar… de Sesimbra.
O tio Lucas tinha um barco, e remando juntamente com o seu irmão Francisco fez-me pela primeira vez sentir no corpo as ondas e este inebriante e único efeito que pelo navegar, o mar nos oferece a todo o corpo.
Levei para Vila Viçosa um saco de conchas e pedrinhas e um boneco feito com elas, um menino de conchas sentado no búzio que durante anos encostei ao ouvido para me encher de ondas o Alentejo, e por elas me alimentar tantos sonhos.
Baixo-me e apanho uma concha que vejo perfeita quando a onda se afasta e a revela.
Passaram 43 anos, muitas praias, muito mar…
Só os sonhos seguem iguais. 

sexta-feira, 12 de julho de 2013

A mesma velha história

Apanhar uma longa fila de trânsito a caminho de Lisboa na manhã em que no Parlamento se discute o Estado da Nação é castigo demasiado difícil para um pacato e cumpridor cidadão que como eu tem os seus impostos em dia e que procura afinal e tão só, a companhia amiga de uma estação de rádio que o possa distrair um pouco.
Para além do mais, o Estado da Nação é definitivamente péssimo e será estéril e uma real perda de tempo, qualquer discussão em torno deste assunto.
Circulo impaciente entre as estações de rádio que escuto habitualmente, e o facto de todas elas estarem com o som da Assembleia da República acaba por me fazer render e ficar a escutar um pouco, consciente no entanto que ficarei predisposto para um intensíssimo consumo de anti-depressivos durante o fim-de-semana.
E a história é má de mais…
Escuto Passos Coelho ainda numa autista pose de Primeiro-Ministro e fico com a clara sensação de que ele, Cavaco e Portas, incorporam na perfeição e por demérito de comportamentos, “O velho, o rapaz e o burro”. Tal como na história original vão-se fazendo alternar no andar às costas que os faz chegar ao destino, havendo no entanto esse detalhe de que os asfaltos que lhes servem de caminho são as costas do povo que não foge aos impostos, dos desempregados, etc.
A Presidente da Assembleia da República, que ontem chamou carrasco ao povo que manifestava o seu descontentamento pela situação actual do país, tem claramente uma voz e um comportamento de falsa ingénua que a colocam como “A Branca de Neve”. Não é sustentada por sete anões mas tem o apoio de quase sete mil euros de reforma que lhe são muito úteis enquanto espera que alguém a venha fazer despertar do sono tirando-lhe da boca, o pedaço da maçã, e fazendo com que ela veja que o povo não é estúpido e que é perfeitamente natural, a sua revolta perante a falência das promessas de retoma que foram anunciadas em sucessivos pacotes de austeridade, promessas mortas às mãos da inépcia e infantilidade dos seus pares, verdadeiras “bruxas” más desta história.
Os imbecis acabam sempre por ser carrascos de si próprios.
Escuto Seguro e não tenho dúvidas olhando para as pessoas que comigo esperam na fila para entrar em Lisboa: nós somos as formigas e está aqui uma bela cigarra que do inverno do nosso descontentamento faz o verão do seu canto sem fim. E por muito inspirado que seja o canto das cigarras, as formigas nunca deixarão de ser formigas.
Das bancadas da esquerda emergem as vozes dos “Capuchinhos vermelhos” que assobiam e gritam pela floresta (neste caso, aplica-se mais a expressão selva) mas que pelo discurso tantas vezes inconsequente manifestam estar completamente baralhados já não sabendo distinguir se na “cama” está deitado o lobo ou a avozinha.
Pela doce circunstância do poder, das bancadas dos partidos que sustentam este governo em fase terminal estacionado nos “Cuidados Intensivos”, ouço as vozes de meninos e meninas instalados na “Casinha de Chocolate”. É tudo tão doce e o país tem um tão raro aroma de caramelo…
E com toda esta gente, lá estamos nós à janela, oferecidos a qualquer João Ratão, Carochinhas apenas na posse de um mísero tostão.
Volto a olhar para o lado…
Cada um dos meus parceiros de fila está com um ar pior do que o outro.
Acho que para além de formigas, estamos todos com ar de Marco, que andando de terra em terra não encontra a “mãe”, ou talvez de Heidi mas depois do avô ter sido internado num lar após a fatalidade do Alzheimer.
Não aguento mais. Por um qualquer mecanismo de osmose ou de equilíbrio entre vasos comunicantes, o meu estado de ânimo já está igual ao da nação.
Quero chegar à Praça de Espanha e a fila na Pimenteira continua parada.
Esqueço o rádio e puxo de um CD.
Kátia Guerreiro. Fado. Asas:
“Aceita o meu desafio,
Embarca neste navio,
Rumo ao sol e ao futuro.
Corta comigo as amarras
Que nos prendem como garras
A um passado tão duro.”
Bolas… e o futuro que nunca mais chega!

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Quem vê caras…

Não persistem quaisquer dúvidas de que o mundo mudou de forma acelerada no passado mais recente, e em muitos aspectos, ainda bem, sobretudo quando tal representou um desenvolvimento objectivo e real, a aproximação do Homem a condições de vida associadas a uma maior dignidade.
Neste contexto actual, um dos exercícios que se nos exige é ver muito para lá das aparências, pois se colarmos os sensoriais sinais exteriores às nossas percepções de antes poderemos cair em erros gravíssimos de avaliação.
Há inúmeros exemplos.
Na tarde de ontem enquanto passeava no Oeiras Park vi caminhar à minha frente um senhora que tinha as pernas mais magras que os braços de uma vítima de subnutrição. Quando a ultrapassei apercebi-me tratar-se da Manuela Moura Guedes, apenas e só a mulher que é dona da maior boca deste país.
E as louras e as morenas?
Cuidado. As tintas fazem milagres em quaisquer cabelos e tudo parece natural. Até a cor dos olhos pode ser alterada e posta a condizer com a melena, escolhendo-se uma lente de contacto colorida, assim ao jeito do celofane que nós antes púnhamos em frente aos televisores a preto e branco.
E se estiver num elevador e entrar uma mulheraça?
Olhe para os pés da dita. Com mais ou menos compensação, possivelmente ela tem uns saltos a rondar os catorze centímetros.
E se tiver a televisão sintonizada na TVI e estiver de costas?
Não se assuste que não é a sirene dos bombeiros que está a dar alerta de fogo numa mata próxima, é apenas a Cristina Ferreira a falar com o Manuel Luís Goucha.
E se olhar para a televisão e lhe parecer que o canal está a transmitir um filme de extraterrestres, não se iluda, é apenas o José Castelo Branco que chegou à antena.
Domine-se e não puxe de uma moeda se vir alguém com as calças rotas pois tal não é defeito mas feitio super fashion pago a peso de ouro.
Uma senhora de seios generosos pode não ter que agradecer os ditos à genética mas antes à factura do Cirurgião Plástico; um homem verdadeiramente “fera na cama” poderá ter-se inspirado na acção química dos inibidores da 5 - alfa redutase; uma mulher magra poderá ser uma consumidora de laxantes e drenantes capaz de processar mais caca que a central de resíduos sólidos urbanos de São João da Talha; uma múmia a falar à hora do telejornal poderá não ser o anúncio a uma mostra do British Museum, mas antes uma espécie de Presidente da República em discurso dirigido ao país a apelar à Salvação Nacional, legitimando o caos; e um homem de fato e gravata a sair de um carro ministerial poderá não ser um respeitável Senhor Ministro e ser tão só… o Dr. Paulo Portas…
Um doutor ou um engenheiro poderão ser bons coleccionadores de equivalências da Universidade Independente ou da Lusófona; um bom cozinheiro poderá ser um proprietário da Bimby que domina o Manual de Instruções; um homem bronzeado que parece ter estado semanas na praia poderá ser apenas o portador de um cartão de utilizador frequente de um solário; uma senhora revestida de pele de cobra é apenas uma compradora de animal printing; uma lasanha poderá ser um “relinchante” pitéu de cavalo; uma cantora poderá ser a Ronalda a fazer playback; uma aparente habitante de um jazigo no Alto de São João, a Betty Grafstein; o dono do rosto num cartaz de propaganda política, um pré-nomeado para a Prisão VIP da Carregueira; a roupa de marca, uma contrafacção de qualidade comprada na Feira do Relógio; e uma escritora poderá ser tão só a Margarida Rebelo Pinto…  
E essa velha história do gato por lebre já está tão diluída que não se dá por ela.
Entretanto e enquanto não assumimos naturalmente a nova conjuntura percepcionai, decretemos internamente e em cada um de nós, uma agência anti-dopagem sensorial e cultural, para que minimamente mantenhamos a noção da realidade e não vivamos na fantasia.
O mundo avança mas a lucidez será sempre uma virtude.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

A “irrevogável” leveza do ser

No tempo em que os animais falavam existia um galinheiro na quinta do avô Zé, que por esses dias e por necessidade foi alugado a uma empresa constituída pela D. Ângela, a D. Cristina e o Sr. José Manuel. Nesse dito galinheiro, e com estatuto de intemporal, existia há muito um galo já podre de velho e que quase não tinha forças para cantar quando rompia a madrugada, mas que mesmo assim acreditava ser ele o verdadeiro e real comandante das “tropas”.
Existia um outro galo mais novo embeiçado por uma anafada galinha pedrês e com vocação de moamba, que parecia emergir na hierarquia e ditar as regras, mas quem o observasse de forma atenta facilmente descobria ser demasiado vulnerável e influenciado por um peru que já tinha sobrevivido a dezenas de Natais, solteiro, fanfarrão e de verbo fácil, que se enrufava por tudo e por nada e lhe condicionava todas as atitudes, das mais pequenas às mais relevantes para a vida do galinheiro.
Fiel ao galo novo existia um outro “galito” mais discreto e que mal tinha forças para cantar, mas que tinha a nobre missão de controlar a quantidade de milho que cada um dos elementos do galinheiro podia comer, para além de controlar toda a produção de ovos que rapidamente encaminhava para os verdadeiros donos do galinheiro.
Este galo enfezado e por quem ninguém dava nada, era definitivamente o melhor amigo deste trio de gestores dos galináceos.
Num belo dia de verão, farto de ouvir das boas do peru e de todos os elementos do galinheiro, que cada vez comiam menos e viam as suas patas mais afundadas em dejectos ácidos e pestilentos, este “galito” operacional resolveu partir deixando órfão o galo mais novo que acreditava ser líder, exposto como nunca à mercê do bico afiado do peru que ainda por cima não gostou mesmo nada que este rapidamente tivesse substituído o débil galo controlador por uma galinha amarela que cantava muito ao gosto dos donos mas que para pôr ovos não era lá grande coisa. Dizia-se que por culpa de uma “herança tóxica” que carregava em si.
Vai-se o peru ao galo ameaçando-o de uma morte “irrevogável”, há grande reboliço no galinheiro, penas pelo ar, nomes feios gritados de parte a parte, o galo velho intervém enquanto a sua galinha velha rezava a um canto do galinheiro para que a paz voltasse, há um outro galo que é irmão do que detém o poder e que está “seguro” que é hora de atacar o dito, os três donos gritam histéricos para dentro da rede deste território de galináceos e, acossado, o galo, em nome de uma paz podre e para que as aves não acabem todas “leiloadas nos mercados”, não tem outro remédio se não dar todo o poder ao peru que passa a controlar tudo e todos.
O galo velho dá-lhes a bênção e volta para o recato do seu canto, para o seu delírio de poder e para a ambicionada reforma. Antes de adormecer ainda desabafa à sua galinha velha que já nem com panela de pressão daria canja:
- Já não tenho idade nem cabeça para isto.
E assim se comprova que “quando um peru histérico fica emproado, arrisca-se a ficar com o poder absoluto e vindo de todo o lado”.
O galinheiro continuou então o seu dia-a-dia de cada vez mais atasco nos dejectos, menos comida e mais ovos entregues aos donos em mais dias e horas de produção cumprindo-se o lema “galinheiro onde manda um peru quase sempre acaba com a miséria posta a nu”.
E definitivamente, ninguém foi feliz para sempre.
Qualquer semelhança desta fábula com um país real será pura coincidência, a não ser que ainda hoje os animais continuem a falar…
Pois…
Acontece quase sempre às vinte na hora do começo do telejornal.