quinta-feira, 11 de julho de 2013

Quem vê caras…

Não persistem quaisquer dúvidas de que o mundo mudou de forma acelerada no passado mais recente, e em muitos aspectos, ainda bem, sobretudo quando tal representou um desenvolvimento objectivo e real, a aproximação do Homem a condições de vida associadas a uma maior dignidade.
Neste contexto actual, um dos exercícios que se nos exige é ver muito para lá das aparências, pois se colarmos os sensoriais sinais exteriores às nossas percepções de antes poderemos cair em erros gravíssimos de avaliação.
Há inúmeros exemplos.
Na tarde de ontem enquanto passeava no Oeiras Park vi caminhar à minha frente um senhora que tinha as pernas mais magras que os braços de uma vítima de subnutrição. Quando a ultrapassei apercebi-me tratar-se da Manuela Moura Guedes, apenas e só a mulher que é dona da maior boca deste país.
E as louras e as morenas?
Cuidado. As tintas fazem milagres em quaisquer cabelos e tudo parece natural. Até a cor dos olhos pode ser alterada e posta a condizer com a melena, escolhendo-se uma lente de contacto colorida, assim ao jeito do celofane que nós antes púnhamos em frente aos televisores a preto e branco.
E se estiver num elevador e entrar uma mulheraça?
Olhe para os pés da dita. Com mais ou menos compensação, possivelmente ela tem uns saltos a rondar os catorze centímetros.
E se tiver a televisão sintonizada na TVI e estiver de costas?
Não se assuste que não é a sirene dos bombeiros que está a dar alerta de fogo numa mata próxima, é apenas a Cristina Ferreira a falar com o Manuel Luís Goucha.
E se olhar para a televisão e lhe parecer que o canal está a transmitir um filme de extraterrestres, não se iluda, é apenas o José Castelo Branco que chegou à antena.
Domine-se e não puxe de uma moeda se vir alguém com as calças rotas pois tal não é defeito mas feitio super fashion pago a peso de ouro.
Uma senhora de seios generosos pode não ter que agradecer os ditos à genética mas antes à factura do Cirurgião Plástico; um homem verdadeiramente “fera na cama” poderá ter-se inspirado na acção química dos inibidores da 5 - alfa redutase; uma mulher magra poderá ser uma consumidora de laxantes e drenantes capaz de processar mais caca que a central de resíduos sólidos urbanos de São João da Talha; uma múmia a falar à hora do telejornal poderá não ser o anúncio a uma mostra do British Museum, mas antes uma espécie de Presidente da República em discurso dirigido ao país a apelar à Salvação Nacional, legitimando o caos; e um homem de fato e gravata a sair de um carro ministerial poderá não ser um respeitável Senhor Ministro e ser tão só… o Dr. Paulo Portas…
Um doutor ou um engenheiro poderão ser bons coleccionadores de equivalências da Universidade Independente ou da Lusófona; um bom cozinheiro poderá ser um proprietário da Bimby que domina o Manual de Instruções; um homem bronzeado que parece ter estado semanas na praia poderá ser apenas o portador de um cartão de utilizador frequente de um solário; uma senhora revestida de pele de cobra é apenas uma compradora de animal printing; uma lasanha poderá ser um “relinchante” pitéu de cavalo; uma cantora poderá ser a Ronalda a fazer playback; uma aparente habitante de um jazigo no Alto de São João, a Betty Grafstein; o dono do rosto num cartaz de propaganda política, um pré-nomeado para a Prisão VIP da Carregueira; a roupa de marca, uma contrafacção de qualidade comprada na Feira do Relógio; e uma escritora poderá ser tão só a Margarida Rebelo Pinto…  
E essa velha história do gato por lebre já está tão diluída que não se dá por ela.
Entretanto e enquanto não assumimos naturalmente a nova conjuntura percepcionai, decretemos internamente e em cada um de nós, uma agência anti-dopagem sensorial e cultural, para que minimamente mantenhamos a noção da realidade e não vivamos na fantasia.
O mundo avança mas a lucidez será sempre uma virtude.

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