domingo, 21 de julho de 2013

Quatro gerações… e o azeite

Terá sido algures em meados dos anos setenta num período em que mesmo os invernos eram aquecidos pelo calor da política e o fogo de uma inédita liberdade.
Nas manhãs de sábado de entre Dezembro e Janeiro, e porque não tinha aulas, acompanhava o meu avô Joaquim aos olivais onde ele liderava um grupo de mulheres que apanhavam azeitona. Em linguagem do meu Alentejo, o meu avô era o “Manajeiro” do Rancho.
Aprendi a apanhar e a colher azeitona, a varejar para uns enormes panos e a atirar ao vento, o fruto e as folhas, separando-os por acção dessa diferença de peso que faz projectar as azeitonas sempre para lá das folhas da oliveira.
E essas manhãs em que eu era mimado por todas as mulheres e provava das suas merendas, acabava invariavelmente com o transporte dos sacos de serapilheira cheios de azeitona num carro puxado por uma mula, para o lagar comunitário existente no Carrascal.
Ao privilégio de nascer no campo somou-me a vida esse gosto de crescer em plena comunhão com a terra na bênção do testemunho de uma gente maior, recebendo por essa via tão simples e simultaneamente tão nobre, a herança do trabalho e do respeito supremo pelos frutos e flores que são o nosso alimento de todos os dias.
Em Vila Viçosa, o espaço e o edifício desse lagar dos meus anos de menino é hoje um magnífico hotel de cinco estrelas, o Alentejo Marmorium Hotel.
Na noite de ontem, sentados a uma mesa redonda num dos cantos da sala do restaurante, estive eu, os meus pais e o meu sobrinho João cuja idade anda próxima da minha na altura dessas manhãs da apanha da azeitona.
Conversámos muito, contámos histórias, revivemos memórias, falámos muito das pessoas de quem gostamos muito, partilhámos sonhos e projectos, rimo-nos ainda mais… durante as três horas que não demos conta terem passado, e em que íamos escolhendo o pão que partíamos e saboreávamos após o “mergulho” em quatro tipos diferentes de azeite, qual deles o melhor, e que o simpático funcionário teve a amabilidade de nos identificar e explicar.
Três gerações à mesa, ou melhor, quatro, por generosidade da memória e porque aquele espaço terá sempre para mim a presença do avô Joaquim e a cor do seu rasgado sorriso quando a balança indicava que a colheita tinha sido proveitosa.
Sentados, mais confortáveis nas cadeiras, no aconchego de um sumo de laranja ou de um tinto alentejano, e a saborear uma comida de excelência mas que não conseguirá nunca bater as “buchas” matinais das minhas amigas do Rancho, a terra, o Alentejo, a nobreza intensa da simplicidade… e o azeite, voltaram a ser cúmplices numa passagem de testemunho e na transmissão de uma intangível herança de valores.
A família é afinal esta “casa de valores” e o espaço de transmissão das heranças que nos moldam o carácter.
Os valores e as heranças que perduram no tempo e que resistem mesmo quando o tempo nos transformam enormemente ao ritmo da conversão de um espaço de lagar num luxuoso hotel de cinco estrelas.
E só se cresce verdadeiramente quando as raízes estão firmes na verdade da terra… ou na verdade do que somos.
Quando após o jantar nos devolvemos ao fresco da noite e pudemos admirar a lua cheia por cima da Mata, o João confidenciou-me:
- Estamos aqui tão bem que eu ficava por cá mais cinco dias.
As raízes bem presas à terra ou o prazer de estarmos bem no sítio a que pertencemos… por herança ou nascimento.
Tenho quase a certeza de que vi o avô Joaquim sorrir espreitando por detrás da lua.

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