sábado, 13 de julho de 2013

O mar

Por mais longe do mar que tenhamos nascido ou crescido, não há em Portugal distância suficiente e capaz de apagar esta lusa genética que nos faz sentir em casa sempre que caminhamos na areia sentindo a brisa e o abraço das ondas desfeitas a nossos pés numa imensidão de espuma branca.
Bebo incessante o aroma de sal que tempera esta manhã do verão algarvio que fez as nuvens esconder o sol, e não resisto a sentar-me numa rocha, banco adornado de algas que há muito o meu horizonte me oferecia como promessa de descanso.
Olho para trás traindo por instantes o mar.
A falésia é íngreme, inacessível e uma palete de rochas e areias de tons ocres e laranjas, perfeita escultura operada por Deus e pela arte dos ventos, terra de raízes de pinhos, aloendros e uma outra infinidade de verdes.
Mas o mar impõe-se e devolvo-lhe o olhar.
Aos meus pés há conchas, pedras de todos os tamanhos, e de repente, a memória transporta-me para aquele verão de 1970 quando com apenas quatro anos brinquei pela primeira vez junto ao mar… de Sesimbra.
O tio Lucas tinha um barco, e remando juntamente com o seu irmão Francisco fez-me pela primeira vez sentir no corpo as ondas e este inebriante e único efeito que pelo navegar, o mar nos oferece a todo o corpo.
Levei para Vila Viçosa um saco de conchas e pedrinhas e um boneco feito com elas, um menino de conchas sentado no búzio que durante anos encostei ao ouvido para me encher de ondas o Alentejo, e por elas me alimentar tantos sonhos.
Baixo-me e apanho uma concha que vejo perfeita quando a onda se afasta e a revela.
Passaram 43 anos, muitas praias, muito mar…
Só os sonhos seguem iguais. 

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