terça-feira, 20 de julho de 2010

A memória dos heróis

Com o objectivo de acompanhar uma colega no momento do funeral de um seu familiar, desloquei-me hoje ao cemitério do Alto de S. João, em Lisboa. Mais propriamente ao talhão dos combatentes, um espaço próprio onde repousam os restos mortais daqueles que em alturas diferentes da nossa história, combateram pelos ideais da pátria lusitana.
Fiquei chocado com o estado de degradação e de total abandono deste espaço, numa dimensão que não tenho dúvidas em classificar como sendo de manifesta falta de respeito.
Há ervas daninhas por todo o lado, as placas metálicas enferrujadas, lixo acumulado, terra arrastada pelas chuvas e acumulada em todo o espaço, etc.
Não interessa se as guerras que os tornaram heróis foram mais ou menos aceitáveis e compreendidas, o que importa é que no seu tempo, estes homens levaram ao limite o seu amor à pátria Portugal.
Não interessa se estas pessoas têm ou não têm família. É ao estado que compete tratar dos seus heróis. O estado que é generoso a oferecer subsídios de inserção e de desemprego, tinha toda a legitimidade para recrutar de entre esses beneficiários, mão-de-obra para as tarefas de manutenção destes espaços, evitando simultaneamente a instituída cultura do ócio patrocinado que impera na nossa terra.
Ao lado de alguns colegas estrangeiros que me acompanhavam, e perante tudo o que me era dado ver, senti vergonha pelo país em que nos tornámos.
Perdemos a memória.
E um país sem memória é um país que não gosta de si próprio e que se autodestrói, matando a essência da sua génese.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Ilha do Pico


No mar, a terra se fez ao alto,
P’ra dizer a toda a gente,
Por um Pico, rei de basalto:
“Está aqui Portugal presente”.

Francisco Caeiro
Horta / Faial, 13 de Julho de 2010

domingo, 11 de julho de 2010

Para sempre, ROSA!

Todos nós crescemos beneficiando da inspiração de “ídolos” que podem ser oriundos da área do desporto, da música, do cinema, etc.
No campo muitas vezes apenas dos sonhos, são as pessoas que nos dão asas.
A única pessoa de quem eu posso dizer verdadeiramente que sou fã, é sem dúvida a Rosa Mota.
Num tempo em que Portugal apenas competia para estar presente, foi a pessoa que ensinou à minha geração, que é possível estar presente e ser o melhor, vencer.
Jamais esquecerei as tardes e as madrugadas em que acompanhei esta mulher franzina e cheia de garra, a deixar adversárias para trás e a galgar quilómetros só para ter o prazer de ver subir no lugar mais alto do pódio, a bandeira de Portugal.
Recordo-me de uma maratona em 1987 em Roma, nos campeonatos do mundo, em que a Rosa deu uma volta solitária pela Cidade Eterna e após cortar a meta, cansou-se de esperar pela adversária que chegou para a prata.
E aquela madrugada em Seul em que a Rosa fez quilómetros e quilómetros com uma alemã e uma australiana como sombras, para perto da meta acelerar e provar que era a melhor.
Inesquecível.
Tenho a certeza de que a Rosa não ganhou milhões, o que a movia realmente era vencer por Portugal. Ainda continua a ser nas vitórias e não nos ordenados, que se definem os campeões.
A Rosa reclamava antes das provas, pedindo sempre melhores condições para trabalhar. Nunca reclamava depois para justificar derrotas.
Desconheço a família da Rosa, os contornos da sua vida privada. Isso não interessa mesmo nada para este “campeonato”.
A Rosa era simples e genuína, e nessa simplicidade assentou sempre a sua grandeza. Sem querer ser, era maior do que todas.
Mas, mudam-se os tempos e mudam-se as vontades, já dizia Camões.
Os ídolos agora são outros e bem diferentes e eu temo muito que as novas gerações construam os seus sonhos tendo por base a insensatez e a vergonha de heróis feitos à pressa, movidos apenas a dinheiro e julgados reis não pela sua genialidade mas pela força de dinheiro que tudo compra, até filhos.
Para sempre, Rosa!

domingo, 4 de julho de 2010

A Casa dos Marcos RARÍSSIMOS


Por razões de ordem profissional, há já algum tempo que conheci e tenho vindo a interagir com a associação de doentes “Raríssimas”.
Nesta associação confluem pessoas que carregam consigo as chamadas “Doenças Raras”, assim designadas por atingirem um número muito reduzido de pessoas em todo o mundo. São muitas e diversas estas doenças.
O coração que bombeia vida nesta associação é a Dra. Paula Brito e Costa, mãe de uma criança com uma doença rara, o Marco, que tendo partido há já algum tempo deixou vivo na mãe o seu maior sonho: a construção de uma escola onde ele pudesse viver com os outros meninos raros como ele.
No passado dia 1 de Julho tive o privilégio de estar presente na Moita, na cerimónia de lançamento da primeira pedra deste sonho, designado legitimamente “A Casa dos Marcos”, um edifício que dentro de algum tempo albergará o sonho de mais de 100 Marcos raros, num projecto que confirma que quando confluem as vontades de público e privados, o mundo avança mesmo.
No rebuliço mediático deste evento, não pude deixar de pensar como continua a ser importante ir atrás dos sonhos e de como a garra e o querer fazem a diferença na hora de os concretizar.
Num mundo que cultiva a perfeição e menospreza sistematicamente “os diferentes”, este projecto é a prova de que todos, mas mesmo todos, somos de ter em conta e de que até os “raros” têm a possibilidade de nos dar lições que nós, por mais anos que vivamos, jamais seremos capazes de dar a alguém.A riqueza da pessoa humana vem da diversidade e havendo o respeito por todas as diferenças, o universo seria por certo um local bem mais agradável para se viver.