quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Um Fevereiro tão breve...


De intensidade de viver se escreve o tempo, e também os Homens, cuja grandeza jamais estará à mercê da banalidade avaliável pelas tão racionais métricas que se debruçam sobre a quantidade.
Não interessa quanto se vive, mas sim o que se vive e como se vive.
E assim, Fevereiro tem tudo para ser o maior mês deste ano e quiçá de todos os anos das nossas vidas…
Pela força das palavras que transpiram a melhor poesia da alma, pelas cumplicidades ao luar, sorria ou chore a lua seguindo-nos o rasto do sentir, pelo conforto dos olhares partilhados, esses olhares que sorriem com a verdade que os lábios por vezes não sabem ter, pelos silêncios que os olhos enchem de palavras, pelas mãos dadas ao alento e ao alívio de todos os caminhos, pelos beijos com ou sem lábios, pelos infinitos abraços, pela música, o fado, a guitarra, a desafinação, pelo amor, pelo riso, pelas lágrimas travadas ou não por beijos, pelas rosas, pelas esperas que morrem sempre nos encontros, pelos golos do Benfica, pelo chocolate que nos devolve a infância, pela frase romântica que não sai como o momento pede, pelos livros trocados, pelo medo, pela entrega, pela surpresa…
De tudo, se faz Fevereiro.
Breve. Intenso. Perfeito.
E agora, venha Março e nos traga a primavera.  

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

A minha geração


Quando era inverno juntávamo-nos na cavalariça do lado direito, na posição de quem entra ao portão principal do nosso improvisado mas eterno liceu. Era um longuíssimo espaço rectangular que abordávamos por uma entrada situada num dos topos e que mantinha as manjedouras em ambos os lados. Apesar do balcão e do bar, este espaço era o que menos conseguia camuflar as funções iniciais do edifício, construído para albergar os equídeos “motores” das viaturas que serviam os Senhores Duques de Bragança.
Colocávamos em círculo, as cadeiras de plástico de cor laranja e pés de metal preto, e planeávamos juntos, um incrível futuro.
Quando a primavera eliminava as nuvens, permitindo que o sol do Alentejo brilhasse e colocasse a descoberto os perfeitos aromas do campo, passávamos por vezes o portão da Tapada Real e buscávamos a Fonte dos Castanheiros para ali podermos planear esse futuro, inspirados pelo odor a poejo e hortelã que nos era oferecido pelas margens das ribeiras onde nos sentávamos em grupo.
De caminho sempre testávamos a sorte, que no Alentejo não usa trevos mas sim estevas, e a busca de quatro pétalas nas suas flores. Quase sempre as encontrávamos.
Estávamos no inicio dos anos oitenta, éramos cerca de dez amigos e tínhamos em média, mais oito anos que a liberdade, que assim, crescia e amadurecia connosco.
Um tal de Roger Waters compusera uma canção que falava de tijolos e de uma parede, e nestas tertúlias de amigos, a canção ícone do The wall, dos Pink Floyd, era dissecada à exaustão tornando-se ícone da rebeldia que todos os jovens gostam de atribuir a si próprios:
- Daddy what else did you leave for me? (Pai, o que mais me deixaste?)
A liberdade é reconhecidamente uma herança da geração dos nossos pais.
E o tal futuro incrível planeado em grupo, mais não era do que o assumir orgulhoso dessa herança, concretizando-a na acérrima vontade de jamais voltar a ser, apenas e só, mais um tijolo da previsível e monótona parede da hipocrisia do politica e socialmente correcto.
À mesa da liberdade, arquitectávamos as nossas vidas com base em sonhos ilimitados e tendo a nossa própria vontade no centro do processo criativo.
Beneficiávamos das energias que brotam das cumplicidades dos bons amigos, éramos impulsionados pela fé e nunca duvidámos que o amor seria a nossa escolha, em toda e qualquer circunstância.
Ontem, no decurso de uma agradável conversa ao serão e na partilha das mais nobres cumplicidades do coração, ele, com menos anos vividos, lançou-me a pergunta em jeito de desafio:
- Qual é a tua geração?
Boa pergunta.
Ocorreu-me e respondi:
- A dos “filhos da madrugada”.
E hoje acrescentaria, e pelo que vos disse:
- Somos os “filhos da madrugada” e irmãos da liberdade.
E ficaria bem a história se terminasse aqui mas impõe-me a coerência que um pouco mais de trinta anos depois do The Wall, revisite esta minha geração na hora em que já não somos os emissores mas os receptores da pergunta:
- Daddy what else did you leave for me?
E a história toma então uns tons muito mais tristes.
Como geração, falhámos em larga escala.
Arrumámos a “madrugada”, nosso pai e nossa mãe, no asilo do esquecimento e quais “Caim’s”, matámos a “irmã liberdade”, sempre por dinheiro, subsídios, licenciaturas mais do que saber, poder e estatuto social.
Traímos a sorte das estevas, e pela ambição cega e a ausência de escrúpulos do mais perverso instinto de sobrevivência, carimbámos os passaportes dos nossos filhos condenando-os à condição de emigrantes.
E como diz a canção dos Pink Floyd, tivemos o privilégio de “voar por cima dos oceanos” naquilo que é hoje apenas um pedaço de memória e uma breve foto no álbum de família, mas o que deixamos como herança é só, um pedaço, um tijolo no muro da previsível hipocrisia que tem esse acrescido desconforto de separar a geração nossa herdeira, da completa realização pessoal e do usufruto da sua legítima liberdade.
Sem deixar de assumir as minhas responsabilidades que me cabem por solidariedade geracional, deixem no entanto que vos diga que muito me consola e é para mim motivo de orgulho, ter em dia as contas e o pagamento das facturas, por vezes de quantias elevadas, inerentes ao assumir das diferenças e à ruptura do muro da “alinhada” normalidade.
Orgulho-me e saboreio esse prazer de não ter traído nunca as juras feitas no bar das cavalariças e na margem das ribeiras.
Até porque, contra a depressão: de encontro aos sonhos, marchar, marchar…
E acredito que ainda nos restam muitos anos para mudar o rumo da história da nossa geração.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Vergonha e revolta por sob o luar de Lisboa


No horizonte, o sol já desapareceu há um par de horas, deixando-nos esse breu, marca da noite, onde emerge o infinito ponteado das estrelas agrupadas em constelações, e a lua, que por estes dias, cheia e redonda, se oferece generosa às mais doces cumplicidades.
Soam carros ao longe, e só eles e os nossos passos, quebram o silêncio que o frio impôs às ruas, empurrando a gente para a quietude dos seus lares, confortáveis abrigos devidamente aquecidos.
É hora do jantar.
E jantar buscará por certo, e quiçá em vão, o homem a quem a necessidade e o desespero empurraram para o intenso vasculhar dos contentores de lixo dispostos num semi-círculo.
Metodicamente e sem nunca deixar cair algo de cada contentor, abre saco a saco, colocando o resultado da sua recolha num outro saco de plástico que lhe pende do braço.
A necessidade matou-lhe a vergonha de ir procurar a comida no lixo e, vergonha de tudo, mas sobretudo de mim próprio, é o que eu sinto quando cruzo o meu com o seu olhar e o cumprimento com um brevíssimo “boa noite”, que me esforço para que seja o mais caloroso possível.
A minha fé, o valor da igualdade e a consciência social impõem-me esta vergonha. Ainda esta tarde conversava com uma colega sobre dietas e sobre o elevado custo da sua drenagem diária de gorduras que a leva a tomar litros de água impregnada de L-Carnitina…
E agora cruzo o passo com o da gente com fome que definha pelas ruas da cidade.
A odisseia da vergonha ou as imbecis desigualdades de um mundo que insistimos em considerar civilizado e moderno.
Não sei onde acaba a minha vergonha e começa a minha revolta perante este comprovado brilhante resultado da estabilidade política que o primeiro-ministro hoje me convidou a estimar.
Será que fala da estabilidade que salva os banqueiros, lançando-lhes as jangadas construídas por sobre os restos dos cidadãos?
A estabilidade é desejável quando estamos bem e no melhor caminho, mas já todos vimos que esta procissão de “Passos” há muito chegou ao “calvário”, e que se impõe que acabemos a “quaresma” e aceleremos uma “ressurreição” urgente.
E até “Grândola” poderá virar aleluia, assim queira a nossa fé e imponha a nossa garra.
Acelero o ritmo da minha caminhada porque o frio a isso convida, esse frio no meio do qual o teu olhar, as palavras e as memórias, com as cumplicidades da lua, emergem como pedaços quentes saídos de um profundo amor.
E a lua sorri?
Tal como o sol quando nasce, também a lua não sorri para todos.
E impossível é ficar indiferente.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Transumância


Quando rumo ao sul deixamos a Estrela, cedo e aos primeiros passos do caminho, percebemos a sarracena pertinência de chamar Refúgio, Guardunha, ou para nós, Gardunha, à montanha que se impõe ao nosso olhar, gozo sublime e privilégio único do caminhante.
E se por estes dias de inverno, altiva, a Torre exibe a neve, deixai vir a primavera, e toda a encosta da Gardunha que a mira buscando o norte, sem rival, de branco se vestirá na imponência da flor dos imensos cerejais que Maio, o maduro Maio, pintará de um encarnado tom de fruto.
Busco Alpedrinha mas a surpresa revelada por cada curva do caminho, revelação feita de fontes, árvores e granito, justifica este impulso que me obriga a parar.
A água escorre encosta abaixo, sangue da montanha por veias e artérias feitas de pedra, terra, plantas, musgos, líquenes…, festa das infinitas cores do campo para as quais a palavra é impotente na hora de buscar definição.
E o som da água rima com o registo das lendas gravadas no granito e que nos oferecem uma milenar cumplicidade com os Homens de todos os tempos, os Homens desde sempre e justificadamente apaixonados pela Gardunha.
Ficamos a saber que um dia, a violenta morte dos pintos à mão dos seus filhos ainda crianças, provocou tal ira numa mãe que lhes lançou a maldição de todos virem a ser clérigos, maldição tão bem concretizada que um deles, de Alpedrinha, acabou cardeal, em Roma.
E de Mouras encantadas, de Nossa Senhora da Lapa ou da Serra, ou das celtas Dagda, Danu ou Epona, e de seres não identificados oriundos de outros mundos do nosso universo, a fé e a crença dos Homens aliadas à eternidade deste pedaço de paraíso, tudo permitirão transformar em lendas que justificam a história dos lugares que, estando o caminhante atento, ainda conservam em si esse som da gaita e do rufo certo dos tambores entregues à arte e à bravura dos eternos tocadores que já perderam a idade.
E na imponência granítica da encosta a sudeste, onde sopram ventos de Espanha, há Castelo Novo numa templária e imponente pose a defender a mais mágica das serras, heroína e mestra, peça única do património fantástico e mítico de Portugal.
Há carvalhos e giestas, alguns sobreiros, quando a Gardunha mira o sul, e de granito de faz o Castelo Velho e o Galo, que no Cabeço, altivo e nobre, mira Castelo Branco e as Terras do Tejo que a Gardunha abençoa com a gratidão da Ribeira, ou Rio Ocreza.
Pouco importa o estatuto quando a nobreza impera, e certa é esta herança recebida por alturas do Fratel, heranças da Gardunha entregues ao Tejo no seu percurso até à grandeza do Atlântico.
Na Gardunha, os pastores e os rebanhos sobem e descem a Serra em busca da fertilidade dos campos e ao ritmo das estações que o ano nos oferece. É a transumância.
Não sei se pastor serei, e tão pouco que rebanhos de sentimentos carrego Serra acima, caminhante solitário, nesta magia que o olhar me atrai e direcção escreve nos meus passos…
Transumância da alma.
Mas há uma paz doce que me invade e um confortável sentimento de pertença que me convida a entrar e a fazer de umas quaisquer paredes de granito, a minha casa, acendendo a lareira nas frias noites de inverno, para partilhar memórias e reconstruir a história.
Porque nós somos, e seremos sempre, pertença dos lugares que nos fazem felizes.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Heranças

Por mais que o tempo voe e por mais vida que passe, guardarei para sempre em mim a esperança e a preserverança de uma sementeira de trigo que as chuvas de inverno fazem seara, e pelo pisar de um campo já ceifado, em horas de sol de estio, saberei que é calor, essa brasa que tem infinitos tons de amarelo e laranja num horizonte que parece não ter fim, e tem ares de fogo.
A frequência do meu coração vive ao ritmo da roupa, quase sempre branca, batida contra a pedra dos ribeiros, na arte das mãos mestras das minha avós, nessa magia de saber roubar ao campo, os aromas de poejo e esteva.
E de poejos, coentros, hortelã, alabaças, beldroegas, em sopas ou açordas, sempre com o pão amassado pela avó Natividade, se me fará sempre o paladar, ideal gosto e supremo prazer, regado a água das fontes bebida pela cortiça de um “coxo” recentemente roubado ao tronco de um imponente sobreiro.
E o vento? Eterno será para mim o voo a ritmos diferentes das azeitonas e das folhas das oliveiras, nesse lançar de mestre do avô Joaquim quando no meio do olival estender os panos para onde caiu o resultado da sua arte de varejar.
E as madrugadas serão essa hora de um tão cedo despertar que nos permita aproveitar o fresco, e fácil se nos torne apanhar os grãos.
No código genético se me gravou do campo esta herança, feita mais de suor do que de lágrimas, porque falando dos meus avós, é de heróis e bravos que vos falo.
E o meu orgulho tem expressão no compromisso de jamais trair tão nobre herança.
Hoje, o meu irmão foi receber o emblema de prata pelos vinte e cinco anos de sócio do Benfica.
Acompanhei-o de longe nesse momento e vivi com ele a alegria da conversa com o Paulo Madeira e da foto com o Carlos Mozer.
Senti que quando subiu ao palco, o fez também comigo, com o avô Xico, o avô Joaquim, o tio Zé Boquinhas, o tio Lucas e o tio Filipe, todos aqueles que ao ritmo dos golos do Águas, do Simões, do Eusébio, do Torres e do Nené, sempre contra a vontade do nosso pai, nos ensinaram a amar o Benfica…
…e a gravar o Benfica no nosso ADN.
Comovi-me ao trazer para este dia as memórias de todos eles na lembrança desta festa que me transportou para os meus dias mais felizes, os meus dias no campo.
Afinal foi no campo e entre as papoilas que todos eles nos ensinaram a amar as “papoilas”.
Bem hajam, eternamente. 

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Os filhos tristes dos palhaços


No Largo do Rossio, em Vila Viçosa, mesmo ao fundo da minha eterna Rua de Três, as caravanas ao redor de uma colorida tenda, rompiam por vezes a previsível pacatez do espaço onde só nas manhãs das Quartas-feiras havia mercado e nos dias 29 de Janeiro, Maio e Agosto, as feiras anuais.
Com melhor ou pior qualidade, passámos a ter uma animada banda sonora feita dos êxitos do momento, e tínhamos por dias, a estranha vizinhança de gente de quem, ao contrário dos demais, não conhecíamos nem o nome, nem a história.
Era a chegada do circo.
Nesses dias em que um carro com megafones apregoava ruas fora, leões, crocodilos, serpentes, palhaços, malabaristas, mágicos, trapezistas, contorcionistas… e a incontornável sessão de “grátis às damas”, apareciam sempre na nossa sala de aula, uns meninos diferentes, invariavelmente acompanhados por umas folhas de papel, e que se sentavam naqueles lugares que nas carteiras de madeira onde nos alinhávamos a par, permaneciam vazios durante o resto do ano.
Recordo-me de lhes ver sobressair a timidez no olhar, nos gestos e nas palavras, expressão do desconforto de quem chega por uma fugaz semana, e se sente intruso no banquete de amigos eternos, rapazes e raparigas unidos pela cumplicidade da partilha de todos os dias.
Em tão pouco tempo, mal conseguíamos ensinar-lhes as nossas brincadeiras, embora por certo os convidássemos a subir connosco ao tronco retorcido da mágica oliveira que era o avião de onde avistávamos, e onde partilhávamos todos os sonhos.
E um inquérito com muitas questões lhes fazíamos, nesta crónica atracção pela diferença de vidas tão distintas das nossas naquilo que nos era dado percepcionar.
Na errância do seu percurso víamos as emoções que chegávamos a invejar.
E das suas histórias e partilhas, fazíamos mote para cavalgarmos pela imaginação, saltimbancos de sonhos planície fora rasgando todos os horizontes.
Mas jamais lhes fixámos os nomes, e assim, nómadas eram eles também nestas raízes pulverizadas ao sabor da estrada que se impunha à sobrevivência e à arte dos seus pais.
Recordo-me deles, sobretudo, como meninos de olhar triste.
E talvez por me recordar dos seus olhares, ainda hoje não consigo oferecer uma gargalhada à piada de um palhaço, por mais rico e glamouroso que a arena do circo o tenha transformado.
Ao redor da festa, das luzes, da música e da fantasia, lá onde estão presas as cordas que sustentam a tenda de todos os sonhos e os trapézios que nos fazem voar até ao infinito, há gente que a vida não ensinou, nem nunca ensinará a sorrir.
E talvez seja aqui que o circo mais se aproxima da própria vida: tantas e tantas vezes, quantas lágrimas existirão escondidas por detrás de uma face que aparenta a festa de um sorriso.
Haja alguém que nos ame e as descodifique, e depois as saiba secar com essa fantástica eficácia do afecto maior enraizado na alma, por vezes, quiçá, apenas e só, com um breve e tímido beijo.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Os Anjos acabam sempre por ir morar no Céu


Não me recordo exactamente da data mas sei que foi algures num final de tarde de Abril de 2005.
Eu estava a trabalhar num congresso no Porto e terei manifestado um entusiasmo tal pela presença da fadista Kátia Guerreiro na cerimónia de abertura do congresso, que uma colega que me acompanhava e que jamais tinha ouvido falar da fadista e muito menos alguma vez se tinha disposto a ouvir fado, por curiosidade, me acompanhou e sentou-se junto a mim na última fila da enorme sala já repleta de gente.
Acreditei que ela aguentaria o primeiro fado e de que ao segundo inventaria uma desculpa e sairia da sala.
Vi-a sorrir aos primeiros acordes da guitarra Portuguesa tocada pelo Paulo Valentim, e ao segundo fado…
“Prendo o mundo nos meus braços
Quando me abraças nos teus
E por momentos escassos
A terra dá-nos os céus.”
Não saiu. Segredou-me ao ouvido:
- Fantástico.
Deixámo-nos ficar na cumplicidade dos sorrisos, dos olhares e da comoção, no ambiente de silêncio que a alma nos impõe devotar ao fado.
“Pensa só no nosso amor,
Vem, dá-me a tua mão.
Sobe comigo a encosta,
Porque quando a gente gosta
Ninguém cala o coração.”
Partilhámos vivamente as palmas em cada pausa, naquele bater de palmas feito ao ritmo e ao jeito de quem não consegue calar o coração.
“Quando à noite desfolho e trinco as rosas
És tu a primavera que eu esperava”
E foi da primavera que falámos os dois à saída da sala após o último fado…
“Eu quero lançar raízes
E viver dias felizes
Na outra margem da vida.”
…Partilhando o gosto ou o destino dos que sabem que os dias felizes estão muitas vezes na outra margem da vida, naquele território onde vivem os apátridas de alma, aqueles que lutam mais, pelo facto de não terem uma vida fácil e previsível, mas que têm o raro privilégio de provar o inesquecível e viciante gosto da ousadia.
E por estes fados ao fim da tarde, se criou entre nós uma cumplicidade que foi alimentada a posteriori em inúmeras conversas e partilhas.
A inquietação de quem jamais se rende, de quem luta arduamente e de quem não abdica do seu direito a ser feliz.
Não me recordo exactamente da data mas sei que foi algures a meio da tarde de um dia de Maio de 2006.
Nem sequer me recordo do nome da aldeia entre a auto-estrada A1 e Cantanhede, onde à porta de uma pequena ermida me fui despedir da minha colega que partira subitamente, privando-me da sua companhia em tantos fados que ainda haveria para escutar nos finais de tarde das nossas cumplicidades.
Recordo-me de um sol radioso e de um intenso cheiro a flores do campo, naquele estranho momento em que os nossos olhares, mais do que tristeza, se revelavam estranhos e incrédulos pelo adeus tão inesperado a quem transpirava apenas vida.
E foi por certo por tanta vida, que o Céu veio pronto recrutar um Anjo feliz.
A partir desse dia, nas muitas vezes que, para norte ou para sul, passo na A1, na saída de Cantanhede, não resisto a calar a voz dos fadistas que me acompanham em grande parte das viagens, e rezo ao Céu e aos seus Anjos.
Hoje de manhã, de volta ao sul, foi mais uma vez assim.
E o campo, de um intenso tom verde salpicado pelo amarelo vivo das mimosas no auge da flor, pareceu sorrir-me.
Telegrama do Céu e dos seus Anjos?
Não sei.
Pouco importa.
Se tanto me apeteceu viver com garra e romper todas as margens.        

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Aquele dia em que eu comecei a morrer


Diz-se em Vila Viçosa que pela noite, as corujas abandonam as torres do Castelo, do Palácio ou das dezenas de igrejas e conventos, para vir pousar e piar nos nossos telhados e chaminés, sempre que a morte de alguém próximo, está para acontecer.
O mau agoiro chega assim a voar por cima das nossas cabeças, mas pode chegar também pelo pontapear das latas contra as pedras da calçada ou quando se mantêm as pernas cruzadas sempre que os sinos dobram.
Superstições à parte, a morte nos dias da minha infância tinha o ruído de um carro de mão com roda de ferro a rolar sobre o granito dos paralelos da rua, transportando uma urna a céu aberto que acabava sempre no domicílio do defunto, lugar onde invariavelmente era feito o velório.
Desmanchavam-se quartos e salas, importavam-se cadeiras das casas da vizinhança, cobriam-se os espelhos, mantinham-se abertas as portas da rua para que entrasse uma “multidão” de gente vestida de escuro, e havia sempre essa recomendação de silêncio para as nossas brincadeiras na rua, silêncio que por vezes nos permitia escutar, perpassando paredes, o ruído mais ou menos abafado do choro, mais das mulheres, do que dos homens.
Depois, na hora do funeral, as urnas saiam pelas portas ou pelas janelas, por vezes com a ajuda dos bombeiros sempre que de um primeiro andar se tratava, e eram em ombros transportadas até ao cemitério, a pé, não deixando nunca de se fazer uma última entrada na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, ao Castelo.
Passava depois o ritual para a responsabilidade de um coveiro que tinha a alcunha de “Gira já”, porque se dizia que um dia, estando muito bêbedo e tendo inadvertidamente trancado no cemitério uma senhora, quando esta se aproximou da grade do portão, chamando-o, para que ele lhe abrisse a porta, ele terá respondido:
- Gira já para a cova!
E para mim, a morte foi assim, esta sucessão de factos desprovidos de muita emoção, até ao dia em que o homem do carro de mão parou à porta da casa do Tio João, nesse dia em que a casa se encheu de gente e a tampa da urna ficou por 24 horas encostada à parede de uma pequena sala onde nós habitualmente comíamos. Passaram-se anos e nunca mais a memória deixou de me trazer a recordação desse triste pedaço de madeira envernizada e com um crucifixo de metal, ali naquele espaço, antes sempre tão cheio de boas e valentes gargalhadas.
Aos onze anos sofria o primeiro rombo no núcleo duro dos meus afectos e instintivamente perdi a noção da imortalidade que a infância até aí me oferecera.
Desde esse dia, cada um que partiu levou sempre uma grande parte de mim, por muito que a memória me permita guardar esses dias feitos de cumplicidades e dos indestrutíveis afectos que me moldaram o ser: herança e privilégio.
E o pavor que na infância nos causa a ideia da nossa morte, dissipa-se ao longo da vida, não só pela natural aceitação de um desfecho inevitável do qual a idade nos vai aproximando, mas também porque já fomos morrendo em cada um que nos deixou e partiu.
O que nos prende aqui reduz-se a cada um que parte, por muito que a vida seja generosa e nos vá brindado com novos e poderosos afectos.
E tudo isto porque por muito intensa que seja a fé e a aceitação da passagem para o “paraíso”, humana será sempre a dor do adeus a quem amamos, no local onde fomos imensamente felizes.
Hoje pela manhã, ao tomar um café na pastelaria perto de casa, a azáfama da manhã abstraíra-nos a todos os comensais, do excessivo realismo com que a jornalista da TVI relatava a morte da namorada do atleta sul-africano Pistorius.
A todos, excepto a uma criança de apenas cinco ou seis anos, que de mochila cor-de-rosa às costas aguardava em pé ao lado da mãe, enquanto esta bebia o seu “abatanado”.
E num daqueles raros momentos em que todos fazemos silêncio em simultâneo, ouve-se a voz da criança:
- Oh mãe, quando é que eu vou morrer?
A mãe disfarçou o incómodo da pergunta acelerando e terminando o café, arrastando imediatamente a miúda porta fora, por certo na esperança de que o ar da manhã lhe dissipasse as dúvidas e não a obrigasse a dar-lhe uma resposta minimamente credível.
E eu, sem tempo e sem à vontade para lhe responder, fi-lo mentalmente na viagem até ao trabalho, respondendo simultaneamente a mim próprio porque como tantas vezes acontece, as crianças, sem filtros, limitam-se apenas a verbalizar as nossas inquietações.
E partilho a resposta convosco:
- Começamos a morrer demasiado cedo.
E eis como um “escritor de vidas”, como me apelidou recentemente o afecto de um amigo indispensável, um dia, inevitavelmente, tem de escrever sobre a morte.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Os passeios de um Flâneur

Há domingos assim, dias em que o sol apenas se pressente na ténue luz filtrada na imensidão das nuvens muito densas, que não nos deixam ver muito para lá, no horizonte. Dias em que a chuva, arrastada e ao ritmo irregular do vento, bate sem compasso na vidraça, abafando sem piedade o chilrear dos pássaros que há dias recomeçou, indicio de primavera, numa pequena árvore aqui mesmo por debaixo da minha janela.
Há dias assim, nascidos apenas para nos devolver a nós.
Não liguei a televisão. Não estou predisposto para a selecção no menu de imagens e de sons que as centenas de canais prepararam para me oferecer.
Ouço António Zambujo, por imposição da alma.
Na voz carregada da dolência do Alentejo que nos une, e pela doçura tão latina importada dos sons de terras quentes, as palavras dos poetas levam-me sem hesitações para onde eu quero ir…
E embalado pela rima de João Monge, insisto em voltar várias vezes à “Casa Fechada”: “aquela casa fechada onde o sol tinha a morada e entrava sem bater…”
Acho que jamais deitarei ao Tejo, as chaves das casas que os sonhos construíram e reservaram para mim. Mesmo que a razão a isso obrigue, o sal da vida será sempre o compromisso com a poesia.
E nesta errância de um dia de chuva que das vistas das minhas janelas me matou o Atlântico e a Pena, vagabundo se faz o pensamento, e de repente: Paris.
Será culpa deste céu em matizes de cinza?
Há um bar no cimo do Museu de Orsay por detrás do imponente relógio da fachada, que tem porta para uma imensa varanda de onde se avista o Sena e o Louvre.
É sempre desde ali que me imagino em Paris. Voltarei sempre a este sítio para tomar um café, antes ou depois de entregar o olhar ao privilégio do impressionismo.
Procuro na minha estante e encontro: Paris – Os passeios de um Flâneur.
Edmundo White, o autor, saberá Deus porquê.
Folheio:
“Um Flâneur é um ser errante, um vagabundo, alguém que deambula pela cidade sem propósito aparente, mas que está secretamente em harmonia com a sua história.
Pela cidade, e pela vida, acrescento eu.
Com sol, ou assim, com chuva, mas sempre com a poesia aos comandos do pensamento, da alma e do querer.
E por nada mais do que apenas aquela maravilhosa história que se nos impõe que ofereçamos ao nosso destino.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Quando a lua sorri…


Por sob o intenso luar, há uma especial nobreza que se prova quando os olhos se entregam ao casario do Camões, ali ao redor da praça do Poeta, onde o quiosque iluminado nos chama ao calor de uma ginjinha, com ou sem elas, porque nobre, mas sempre com marca de povo, é esta Lisboa tornada eterna pelo querer do coração de quem a vive.
E em Lisboa impõe-se o Tejo, que no passo de quem deixa o Chiado, se revela ao fundo da Rua do Alecrim. E, porque a noite lhe roubou o brilho azul, pressente-se o rio apenas pela dolência da luz móvel de um cacilheiro que busca o sul.
No campanário do Loreto, um sino assinala as horas, repica a fé e marca o compasso de uma multidão que não resiste e se entrega à inevitável sina de Lisboa: o fado e a viela.
Soam os acordes da guitarra que pronto arrancam da alma a voz, e é de destino, o canto em tom sofrido de uma mulher que para nós passantes, não tem rosto, mas que a voz revela ser tão eterna quanto a sua, quanto a nossa cidade.
É Fevereiro, sob a luz da lua, que nos parece sorrir, há mil olhares que se cruzam, há cumplicidades entregues a demorados abraços, há infindáveis histórias que se partilham em raros e muito intensos encontros, há beijos de paixão pela gente que se ama, há gritos, gargalhadas, o riso e o canto dos amigos, há a tolerância e o conforto de nunca se ser diferente e se poder assumir a verdade, há os brindes e a saúde celebrada em copos de vinho erguidos e entregues ao tilintar próprio de uma festa…
E acima, do primeiro andar e até ao céu, há roupa estendida por entre as sardinheiras que esperam a primavera, e sente-se gente por detrás das vidraças que o inverno mandou fechar.
É Lisboa na plenitude de uma noite que é só sua.
É o Bairro Alto, mágico rendilhado de vielas atapetadas a basalto, espaço com essência de vida, e império para todos os sentidos.
Fado, saudade e destino, roxo paramento de uma noite, abençoada quaresma que saboreamos sem receio.
Pela madrugada, ao primeiro raio que fizer despontar a aurora, no momento em que o eléctrico voltar a correr sobre os carris que rasgam a calçada, e na Ribeira, o cacau se alinhar a quente com o pão acabado de cozer no forno a lenha, haverá ressurreição.
Lisboa emergirá na sua mágica grandeza e será tudo aquilo que a fez nascer e a tornou maior: a luminosa e mais branca de todas as cidades do universo.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Meteoritos, asteróides, magia negra e coisas de Homens


Um asteróide que hoje entre o fim da tarde e o principio da noite passará muito próximo da Terra, um meteorito que caiu na Rússia, nos Montes Urais, ferindo centenas de pessoas, um raio que durante uma violenta trovoada atinge a cúpula da Basílica de São Pedro, no Vaticano, em Roma, horas depois do Papa Bento XVI ter anunciado uma quase inédita resignação, hóstias roubadas dos sacrários em igrejas da Diocese de Bragança para utilização em ritos algo estranhos...
Tivesse eu uma inclinação para interpretações metafísicas e hoje durante o meu vício diário de acompanhar o pequeno-almoço com as notícias da manhã e a revista de imprensa nacional, e rapidamente, quão Gonçalo Anes Bandarra do Século XXI, aqui estaria, à semelhança do sapateiro de Trancoso no Século XVI, a emitir as minhas profecias, reconhecendo que as bruxas reunidas algures no Nordeste Transmontano estariam alinhadas com os mais estranhos e ocultos poderes do universo, no patrocínio a uma tempestade cósmica com claros sinais de aproximação ao final dos tempos e ao termo deste mundo a que chamamos nosso.
Das profecias até um possível argumento cinematográfico disponibilizado ao Steven Spielberg, poderia ser um passo curto mas bastante rentável.
Fiquem descansados que não activarei qualquer inédita ou adormecida componente catastrofista do meu ser, e não o farei.
Sendo crente, jamais me recusei a ver Deus como uma espécie de “Adamastor” irado e a mandar raios e meteoritos sobre a humanidade, em jogos do bem contra o mal representado pela medonha figura de Lúcifer, disputas arbitradas por umas quaisquer bruxas de Bragança, visão deturpada e simplista de fenómenos atmosféricos e de natureza física que qualquer especialista é capaz de desmontar em segundos.
Muito pelo contrário, sempre achei que é o próprio Homem que encerra em si a maior grandeza de Deus, tendo a opção de a expressar pelo conjunto das suas opções e acções diárias.
Somos nós, diariamente, as mãos, os pés e as palavras de Deus.
E no contexto da minha revista de imprensa de hoje, entre a torrada com manteiga e o copo de leite, não faltaram também: um milhão de desempregados, um quarto das crianças Portuguesas em situação de pobreza, funcionários que “gerem a crise” e que ganham dezenas de milhares de Euros, Portugal na maior recessão desde 1975, um ex-Secretário de Estado do actual governo que sugere que incentivemos, em puro calão brejeiro, os funcionários do fisco à prática de relações anais quando alguma vez nos questionarem sobre facturas à porta dos estabelecimentos comerciais…
Muito mais apocalíptica é a minha avaliação sobre esta imbecilidade que nos “reina”, que se faz pagar por muito dinheiro e que não tem escrúpulos em ferir o tempo e matar a esperança de gerações inteiras, proporcionando-lhe um muito particular “fim do mundo”, leia-se, a amputação do seu legitimo futuro.
Estes sim são verdadeiros raios e coriscos sobre a humanidade. De mão humana e a exigir uma rápida intervenção da nossa parte.
Porque somos nós que agimos, porque não há destino e há simplesmente um futuro que seremos sempre nós a construir, mesmo longe e com pouca voz, como eu gostaria de ter feito coro na “Grândola, Vila Morena” cantada hoje no Parlamento.
A indignação, e sobretudo a acção, serão sempre as nossas reais provas de vida.
E a justiça, a paz, a liberdade e a preservação da dignidade da Pessoa, mandamentos da fé, são inequivocamente os maiores louvores à criação do Homem.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Amor


A saudade tem o teu nome, e pela força de te querer, resgato-te dos sonhos, e a lembranças, te faço presente em cada segundo do meu ser.
E doces são as memórias dos beijos, aqueles que jamais te dei e que a paixão inventou com gosto a urze e giesta, a campo, vivos sobressaltos, imparáveis impulsos semelhantes aos da água que pelas encostas escorre para nos vir alimentar as fontes.
Estendo as mãos buscando as tuas, gesto da alma, ansiado granito que pedra a pedra alimenta a fortaleza que o meu desejo impõe à vontade de te guardar em mim.
Por ti e para ti, sou guarda-mor dos abraços, castelão dos desejos na salvaguarda do prazer maior.
Anseio o infinito dos teus olhos entregues aos meus, nesse estranho cativeiro de ser teu, e só assim, me tornar herói e pássaro em pleno e doce voo da mais pura liberdade.
A liberdade nascida da suprema vontade de ser eu.
Brotam de mim palavras que não têm fim, nessa ansiada partilha que alimenta cumplicidades e cria indestrutíveis raízes. E o passado? Só o queremos como contraponto porque de presente e futuro se escreverá a nossa história.
O meu coração bate ao ritmo do teu respirar e há sempre poesia no ar quando te tenho aqui.
Vivo, e vivo é este destino de ser ter, perfeição nascida da entrega que faz nascer a festa, que tem uma imagem perfeita de brilho e cor, aroma de rosas, e um sentimento que mesmo nunca tendo a certeza, eu juraria ser amor.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Cinzas


Morreram as palavras, e jazem agora inertes no silêncio da laje arrefecida pela ausência.
Fogo apagado.
Restos, pó, memórias vulneráveis ao tempo.
Ao tempo, vento, sibilina e imparável brisa que insiste em apagar lembranças e abafar a ressonância, o eco do tanto dizer sem letras que o teu olhar gritou ao meu ao ritmo do intenso crepitar da lenha.
Sentado, e aquecido agora apenas pelos sonhos, olho o infinito sem vontade de ver, entregue que está o pensamento à empenhada e incessante luta de te guardar em mim.
A ressurreição da minha vontade no panteão das noites que já não trazem o acender nervoso dos cigarros que breves, fazes passar pelos teus lábios que esboçam mágicos sorrisos.
E das cinzas?
Quiçá um dia nasçam rosas, nesse canteiro tecido a granito e adornado a musgo e trevos, de onde se avistam castanheiros e carvalhos, árvores da primavera e de todo o ano, fiéis companheiras dos nossos tão desejados e perfeitos passeios pelo campo.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

O pecado do Entrudo


Eu, traidor das Finanças Públicas da nação Portuguesa me confesso: hoje, dia de Entrudo, não fui trabalhar.
E foi carregando a culpa, por via da consciência do impacto altamente negativo desta minha atitude sobre o Produto Interno Bruto, que me levantei e me dispus a enfrentar um dia que amanheceu demasiado cinzento.
Depois de ter dormido até mais tarde, num acto inaceitável de “rebeldia contributiva”, com um longo café na mão, ligo a televisão e apercebo-me de que todos os canais estão focados no Carnaval colocando imagens dos corsos que saíram e vão sair à rua por todo o país.
Salvo raríssimas excepções, visão do inferno mais dantesca que o dito do escritor Florentino.
Por mais que se esforcem em explicações, jamais conseguirei entender o que move as mulheres Portugueses a sacudirem as lusas celulites alimentadas a leitão, farinheira e pastéis de nata, ao som do samba, e com pele de galinha, debaixo desse “calor abrasador” proporcionado pelos oito graus centígrados da Mealhada ou os doze de Sesimbra.
- Alô, alô, minhas senhoras. No Brasil é verão e têm quarenta graus.
O ridículo destes “sambodromos” inventados entre as rotundas das nossas localidades só poderá ser equiparado ao despropósito e contra-natura de um possível Rancho Folclórico de São Luís do Maranhão a cantar e a dançar o “Malhão, Malhão”, ou um grupo de Esquimós, de braço dado à porta do Iglô, a cantar a “Menina estás à janela”.
E depois, em Sesimbra há escolas de samba com nomes como: Tripa Cagueira, Bota no Rego, Trepa no Coqueiro…
Por favor, tragam o Restaurador e o Petróleo Olex e apliquem-no sobre a cultura lusitana. Sem chauvinismo mas com orgulho pelas nossas tradições, restituam as nossas “cores” mais naturais.
Desligo o aparelho de televisão e resolvo ir fazer uma compras, apercebendo-me a determinada altura que estou a fazer slalom nos corredores do Centro Comercial por entre dezenas de crianças vestidas de princesas e fadas, que rodopiam desesperadamente sobre si procurando fazer um volumoso balão com as suas saias, esquecendo-se que as ditas, fabricadas com as “sedas” chinesas, jamais poderão responder ao seu desiderato por mais aceleração que imprimam ao seu rodopiar.
Fujo dali para fora em quase desespero gritando ao Gaspar que pode atentar-me com tudo mas eu jamais apresentarei a minha rendição e prometerei que nos dias "gordos" voltarei a “pecar”.
É cedo, o pecado está consumado, e já que está, que seja em plenitude e já agora sem samba e sem máscaras chinesas.
É terça-feira gorda, estou em Portugal, Cozido não vou comer porque quero guardar por mais tempo a memória do excelente que comi no domingo em casa da Mina e da Natália.
Auto-medico-me com um dos meus anti-depressivos favoritos: acelero para o Guincho, e fazendo as curvas do ponto mais ocidental do continente Europeu, ali entre o Abano, a Malveira da Serra e Colares, alimento-me do Atlântico que é só nosso, acabando o passeio em Sintra, na Casa do Preto, usando uma bica e uma queijada como ponto final para um parágrafo de excelência na história de um dia que por mais que os Decretos digam que não, será sempre “gordo”.
E lá chego então a casa muito mais animado, disposto até a enfrentar a quaresma que aí vem. Assim como assim, calvários, são coisas que por estes tempos nos são familiares. Excessivamente familiares.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Renúncia


Sendo católico, nunca nutri uma particular simpatia pelo Papa Bento XVI.
Para lá das grandes e objectivas divergências de opinião ao nível, sobretudo, da Doutrina Social da Igreja, reconheço que o seu todo germânico jamais facilitaria uma sucessão com pelo menos igual carisma, ao longo pontificado de João Paulo II, durante o qual, ele, o Cardeal Ratzinger, se foi afirmando como um pragmático pilar do conservadorismo e obstáculo à renovação da própria Igreja.
Recordo-me da tarde da sua eleição e de como saíram defraudadas as minhas expectativas, e de um grupo de amigos que me acompanhava, pois esperávamos que do conclave saísse fumo branco para um Papa com instintos renovadores mais activos.
O seu pontificado de quase oito anos confirmou mais teologia do que acção social e mais continuidade do que renovação, nunca ninguém deixando de considerar que nos encontrávamos num discreto e morno período de transição para um momento muito mais marcante que chegaria um dia pelas mãos de outro “intérprete”.
Recebi hoje com alguma surpresa a renúncia do Papa que quase à beira de cumprir 86 anos, afirmou: "após ter examinado perante Deus reiteradamente a minha consciência, cheguei à conclusão de que, pela idade avançada, já não tenho forças para exercer adequadamente o Ministério de Pedro”.
A renúncia de um Papa, apesar de possível pois está inscrita no Direito Canónico, muito poucas vezes se verificou anteriormente, a última das quais com Gregório XII, no inicio do Século XV.
E sem qualquer sombra de ironia, considero que o momento mais marcante do Pontificado de Bento XVI é mesmo o anúncio da sua resignação, que ocorrerá no último dia deste mês de Fevereiro.
Primeiro, porque como nunca antes, o Papa expressa superiormente uma dimensão humana, reconhecendo nas limitações impostas pela idade, a incapacidade para desempenhar com eficácia o “Ministério” para que tinha sido eleito pelo Conclave de 2005. Só os grandes Homens, superiores na sua dignidade, são capazes de reconhecer publicamente as suas incapacidades e limitações.
Segundo, porque considero que esta será uma lição que a Igreja deverá utilizar no futuro em múltiplos aspectos da sua existência, nomeadamente a da dimensão humana dos seus membros, vulneráveis e falíveis como os restantes mortais, mesmo aqueles que no cimo das hierarquias e por “intervenção do Espírito Santo” receberam Ministérios muito especiais.
Como Católico sempre acreditei que só uma Igreja ciente das suas claríssimas mas normais limitações, características das organizações compostas por Homens, será capaz de um dia aproximar Deus do próprio Homem.
Porque só a verdade e a lucidez alimentam a credibilidade.
Que se dobre a esquina e surja o tempo novo que há muito urge.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

É carnaval


Não seria necessário ter acordado hoje às seis horas e quatro minutos da manhã com um grupo de animados e bem bebidos foliões a improvisar canções brasileiras com sotaque alentejano, aqui por debaixo da minha janela no Terreiro do Paço, para saber que hoje é Carnaval.
Já ontem desci no elevador com um índio, tomei café na companhia de uma princesa de cabelo armado pela arte de combinar laca e ganchos, vi as fotos de um cowboy em grande estilo e cheguei a Vila Viçosa ao fim do dia e deparei-me com uma invasão de filhós e azevias, mais do que de Natal, uma marca de Carnaval aqui pelo Alentejo.
Confesso-vos que sempre me dei bem com o Carnaval, pois amante como era (e nem sei porque escrevo isto no passado!) da brincadeira e de “pregar” partidas, estes dias eram uma bênção que legitimava todos os meus disparates, por mais absurdos que pudessem ser.
Nunca fui muito adepto da previsível farinha que a grande maioria dos amigos e colegas usava e abusava à porta da escola, o que era um tormento para as raparigas que inventavam saídas alternativas do edifício para fugirem às papas que pela farinha e pela água se lhe colavam ao rosto, aos cabelos e ao fato. Um jogo do gato e do rato, e elas sempre a serem descobertas.
Recordo-me de um dia, uma mais esperta, resolveu levar a mãe, uma gorda com bem mais de cem quilos, para a proteger. Pois… mãe e filha acabaram no chão envoltas em farinha e regadas a água.
Eu era adepto de partidas mais subtis e com algum requinte. Com o Manuel e o Paulo Geadas como meus maiores cúmplices, o nosso ar de sonsos ajudava-nos sempre e credibilizava as mensagens que íamos passando.
De meninos tão bem comportados quem ousaria desconfiar…
Telefonemas anónimos, bombas de mau cheiro, acontecimentos inventados, azevias com recheio de algodão que convencíamos as mães a fritar com as restantes…
Apesar de o Manuel ter um andar demasiado característico e da minha cabeça ter um tamanho difícil de camuflar, com a ajuda de máscaras e sempre com fatos inventados a partir do canto mais antigo dos guarda-fatos que por essa altura os chineses ainda não tinham aberto lojas com adereços, conseguíamos sempre algum disfarce que nos permitisse assustar os parceiros. E incógnitos, que dava muito mais jeito, transformávamo-nos em verdadeiras Drag Queen’s mas numa versão muito rural.
Íamos aos bailes e às matines dançantes das sociedades recreativas, daqueles que as mães sentadas vigiavam as filhas durante a dança, supervisão que por estes dias se tornava muito pouco eficaz tal o elevado número de pessoas mascaradas, o que sempre possibilitava uns encostos e beijos mais ousados, raridade em tempos aparentemente de maior recato.
Quando se juntava mais gente, fazíamos assaltos às casas dos amigos que acabavam sempre com a malta a partilhar as filhós, as azevias, os nógados e os borrachos (nada de fazer maus juízos porque os borrachos são umas filhós muito especiais feitas com grande quantidade de aguardente e que são óptimas polvilhadas com muito açúcar e canela) que havia pelo domicílio.
Ficou célebre um assalto a minha casa num Carnaval em que eu estava a preparar um exame da Faculdade e, obsessivo com o estudo quiçá de alguma Farmacologia, me tinha recusado a participar na festa. Entraram todos de cara coberta e um a um, fui descobrindo todas as identidades, havendo uma, que eu juraria que era um, que eu não conseguia identificar.
Por me parecer um homem, achei que a forma mais fácil de o comprovar era agarrar-me aos seus seios de grandes dimensões e comprovar que eram falsos.
Pois…
Não eram falsos, eram verdadeiros.
E por detrás da máscara estava uma reputada senhora da sociedade Calipolense, de quem eu nem morto revelo o nome, e que por gostar da festa se tinha unido ao grupo.
Nestas coisas das brincadeiras, o mais atrevido, mais cedo ou mais tarde sempre acaba por ser vítima. Dizem que é a justiça divina que nunca tarda.
O certo é que nestas coisas da alegria e no pleno gozo da amizade, jamais há vítimas.
Há riso, gargalhadas soltas e festa, porque de tudo isso se alimenta a alma e assim se dá mais sentido à vida. 

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

A cruzada dos mestres da hipocrisia


Aproveitando o momento difícil que o país atravessa em termos económicos, algumas personalidades, entre as quais o Prof. César das Neves e o Dr. Bagão Félix, tomaram a iniciativa de uma petição que visa a revisão de leis como o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a interrupção voluntária da gravidez e o divórcio.
Afirmam os mentores desta iniciativa que a grave situação em que o país se encontra tem raízes na corrosão que estas leis provocaram no tecido social, nomeadamente na sua célula fundamental, a família.
Confesso-vos que reconheço uma pertinência nestas justificações semelhante à que admito existir entre os terramotos no Japão e o elevado número de pessoas que nesse pais decidiu começar a dançar flamenco. Zero.
Reconheço-lhes no entanto um elevado sentido de oportunidade, para que agora que a dança está desacertada, virem desta forma ridícula atribuir as culpas ao facto de o soalho estar ligeiramente inclinado, ilibando-se a si e aos seus amigos políticos e banqueiros que em sucessivas passagens pelo poder nos deixaram nesta situação, aproveitando de caminho para defenderem as suas causas de natureza radical que os transformou há muito numa espécie de "talibans" da moral e "Bin Laden's" da moral de sacristia, assumidos saudosistas das cruzadas medievais e do Santo Ofício.
A não ser que tenham os resultados de uma qualquer sondagem feita junto de pessoas sem-abrigo ou desempregadas, e que expresse a convicção de que o seu estado se deve a terem partilhado prédio com um casal de lésbicas, uma vizinha que abortou ou um homem divorciado.
 Abomino esta iniciativa, primeiro porque odeio sentir a poeira que nos atiram para os olhos e segundo porque a modernização das sociedades se faz no sentido da hipocrisia para a verdade e nunca em sentido inverso.
A família é de facto a célula da Sociedade mas a família será sempre um espaço de pessoas que se amam e que pela força do amor se dispõem a caminhar juntas pela vida.
Sendo um espaço de amor, tem de ser sobretudo um espaço de verdade, mais do que um contrato entre um homem e uma mulher com o objectivo único de preservar a espécie.
Depois, quer estes senhores aceitem ou não, há homens que amam homens e mulheres que amam mulheres, aos quais não é justo negar o direito à celebração do amor de viver juntos e partilhar as vidas num espaço que entre outras virtudes, poderá ser ideal para o crescimento e desenvolvimento de muitas crianças. A castração dos sentimentos é um preço demasiado elevado que ninguém merece ter de pagar à moral e aos “bons costumes”, num exercício de bem parecer.
Qual será então a sugestão que este grupo apresenta para os homossexuais? Aumentar os hospitais psiquiátricos? Colocar-lhes um triângulo cor-de-rosa na lapela e mandá-los apodrecer para as Berlengas? Ou aumentar exponencialmente a hipocrisia de casamentos fictícios em que os cônjuges em segredo dão as suas "escapadinhas" não deixando nunca de preservar a sua “boa” imagem pública?
E o aborto?
Eu também sou contra o aborto, acto que foi proibido em Portugal durante muitos anos mas que jamais deixou de ser praticado. Nos anos em que trabalhei numa farmácia, assisti ao drama de mulheres que por não terem o dinheiro das meninas ricas e de família que apanhavam os aviões para irem fazê-los no estrangeiro, se tinham colocado nas mãos das parteiras de vão de escada.
E quantas mulheres rejeitam procriar por não terem condições para criar os seus filhos, exploradas até a exaustão em empresas onde estes senhores da petição trabalham ou são consultores?
Esquecem-se estes signatários que o país real não é o dos meninos da Universidade Católica, a redoma de vidro onde estas excelências dão aulas, nem das famílias endinheiradas em que a mãe pode ficar em casa a criar dezenas de filhos porque há espaço e dinheiro na conta bancária para o fazer.
Provem-me que se o aborto voltar a ser ilegal, ele deixa de ser praticado.
E o divórcio?
São eternas as opções que tomamos na vida?
E se não forem? Anulamo-nos ou castramo-nos para suportar as aparências?
O que será mais digno, o preservar de uma mentira ou o assumir da verdade?
Eu tenho amigos divorciados e separados que falhram no seu casamento mas que são pessoas indiscutivelmente melhores que eu e com um quadro de valores de excelência de carácter. Qual o meu direito de os condenar ao inferno?
Estes senhores evocam a fé, e o mais incrível é que eu também acredito no Deus do Dr. Bagão Félix e do Prof. César das Neves, eu também professo a mesma fé Nesse Deus que um dia se fez Homem para falar de verdade, de vida e de amor.
O Jesus da minha fé jamais discriminou, pelo contrário, congregou.
O Jesus da minha fé exortou ao desprendimento dos bens materiais, combateu os poderosos e soube acolher a todos no seio da Sua família onde a senha não é a conta bancária, o berço ou a posição social, mas a simplicidade e a riqueza dos valores de carácter que existem no Homem.
O Jesus que desmascarou a hipocrisia dos Doutores da Lei e dos defensores da falsa moral.
Por isso meus senhores, chega de hipocrisia.
Se estes senhores sentem energia para mudar o mundo, assinem uma petição para exigir o fim do patrocínio do Estado aos grandes grupos económicos, facto que sim, verdadeiramente, mata a paz das famílias.
Façam uma petição pela justiça e pela condenação de quem faz mau uso dos dinheiros públicos, pão roubado à boca dos cidadãos.
Façam uma petição sobre a necessidade de preservar a dignidade dos seniores atacados e espoliados nas suas reformas de miséria.
Isso sim é a raiz do nosso problema. Isso sim é combater o cancro sem ser apenas e só com o placebo dos seus interesses.
Haja pudor e bom senso. Que morra de vez a hipocrisia.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Os patrocínios


Uma amiga que comercializa em Portugal várias marcas da área do grande consumo, foi recentemente abordada pela responsável de um blog, para que lhe oferecesse um conjunto de produtos em estilo presente de aniversário, que ela se encarregaria ao longo do ano, de publicitar os referidos produtos e sugerir a sua compra.
Partilhou comigo esta história, sugerindo-me em jeito de brincadeira, que eu apresentasse o POMAR à Ferrari, porque poderia “cair” qualquer coisa no sapatinho.
A Pepa Xavier e a sua famosíssima carteira Channel que desejou para 2013 numa campanha de marketing viral da Samsung, juntamente com mais tempo para estar com o “namoraaado”, deve estar a ser muito bem paga pela marca de luxo que possivelmente até já lhe ofereceu a dita carteira preta, uma daquelas que segundo ela, “dão com tudo”.
Quase ao mesmo tempo, uma colega lembrou-se de me abordar questionando-me se as pessoas de quem eu falo e elogio neste blog, são assim tão fantásticas como eu digo que são, pergunta que confesso, me deixou assim a meio entre o irritado e o triste.
Juntei então estas duas histórias que têm raízes numa realidade muito presente e assumida nas nossas vidas: nem sempre vemos o que é.
De facto, o que nos é dado ver, é na grande maioria das vezes uma visão destorcida e muito bem patrocinada da própria verdade, que dá assim origem a uma outra, de natureza virtual mas pública, alimentada pelos reconhecidos fazedores de opinião.
Assumido este jogo em que todos participamos ao consumir Telejornais, Telenovelas, Programas de Comentários, Blogues, etc., torna-se legítimo que questionemos tudo e todos, porque atrás do “manto diáfano da fantasia”, na maior parte dos casos há mesmo muita “porcaria”.
É que nem o manto feito das palavras de um Primeiro-Ministro consegue esconder o BPN que está tatuado no curriculum de alguns Secretários de Estado.
Porque é claro que neste jogo de ilusões, a palavra, vale zero, apesar de ter o custo de muitos milhões.
Mas voltando aos meus patrocínios, desiluda-se quem pense que eu tenho a conta bancária repleta de dinheiro vindo do Turismo do Alentejo, da Câmara de Lisboa, ou das contas privadas dos meus amigos, para já não falar de outras pessoas, regiões, cidades, artistas e instituições que eu tenho elogiado neste POMAR DAS LARANJEIRAS.
O único conflito de interesse que terei de assumir relativamente à família e amigos de quem aqui tenho falado, é o amor e a amizade que me têm dedicado ao longo destes quarenta e seis anos de vida.
De resto, e sem segredos, o que faço aqui é simplesmente olhar para aquilo que mais valorizo e que é sempre o lado positivo das pessoas e da própria vida, não colocando jamais travão à expressão de sentimentos como o amor e amizade, aqueles que nós tantas vezes, por pudor, guardamos só para nós.
Faço-o também, mas não digam a ninguém porque isso sim é segredo, porque em tudo o que nos une e nas diferenças que me marcam, adoro a vida que tenho e não resistiria nunca a deixar de partilhá-la convosco. Se não o fizesse estaria a tirar-lhe sentido.
Portanto e para terminar, espero por vós aqui, sempre, para festejarmos a vida, apenas e só com o patrocínio da mais pura amizade.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Zé Artur

Recordo-me deste dia há 42 anos.
Eu estava a cinco meses de cumprir 5 anos de idade.
O berço de madeira que viu renovada a sua pintura em tons de amarelo e que recebeu novos bonecos decalcáveis, tinha sido colocado ao lado da cama dos nossos pais, havia grande agitação, alegria e um incessante esforço para me retirarem do centro de operações, o que me causava alguns transtorno pois esta minha crónica “curiosidade” já vem de muito longe.
Depois, finalmente, apresentaram-nos e achei estranho, seres tu, em vez da tal mana, a “Maria Bonita” que se chamaria Elisa, que, muito antes da Era das Ecografias, andaram meses a dizer-me que iria ter.
Não terei entendido então, mas hoje sei que terias mesmo de ser tu quando passámos a ser quatro à mesa e em tudo, porque sem ti, a minha vida jamais teria este toque de perfeição que Deus lhe tem oferecido, e pela qual serei sempre o mais grato dos Homens.
Quando brincávamos aos índios colocando os lençóis presos nos ferros da cama, quando para a procissão te vestiram de Anjinho e a mim de Santo António, e tu te entretiveste todo o caminho a rasgar as imagens de santos que estavam guardados no livro que o meu “personagem” exigia, quando falávamos até às duas da manhã, deitados nas nossas camas iguais e paralelas, às vezes ao som de um ou outro single que o resto da mesada tinha dado para comprar em Lisboa, quando “metemos” a avó Dade e a tia Quina no carro para nos juntarmos à caravana que celebrava os 6-3 do nosso Benfica em Alvalade, quando vivemos juntos e eu cozinhava e tu lavavas a louça…
Apenas exteriorizávamos em breves e banais gestos de elevadíssima cumplicidade, o amor indestrutível que nos unirá sempre, siameses de coração mas com individualidades muito próprias que o respeito e o próprio amor jamais afastarão.
E depois, tendo-te por perto e podendo partilhar tudo, até as coisas mais complicadas ficam a parecer demasiado simples. É o conforto das verdadeiras cumplicidades, as naturais, as oferecidas pelo coração.
Esse amor inspirado na “casa” que os nossos pais nos ofereceram para crescer e onde tantos, tantas vezes, chegaram com a sua simplicidade, para nos ensinarem a ser maiores, motivando-nos a rasgar o testamento tão pouco ambicioso e banal que a vida parecia ter destinado para nós.
E por ti e pelos frutos desse mesmo amor, agora somos sete, e corre sangue novo, à mesa e em tudo, no tudo das nossas vidas.
Vidas inseparáveis.
Mano, parabéns.