sábado, 9 de fevereiro de 2013

É carnaval


Não seria necessário ter acordado hoje às seis horas e quatro minutos da manhã com um grupo de animados e bem bebidos foliões a improvisar canções brasileiras com sotaque alentejano, aqui por debaixo da minha janela no Terreiro do Paço, para saber que hoje é Carnaval.
Já ontem desci no elevador com um índio, tomei café na companhia de uma princesa de cabelo armado pela arte de combinar laca e ganchos, vi as fotos de um cowboy em grande estilo e cheguei a Vila Viçosa ao fim do dia e deparei-me com uma invasão de filhós e azevias, mais do que de Natal, uma marca de Carnaval aqui pelo Alentejo.
Confesso-vos que sempre me dei bem com o Carnaval, pois amante como era (e nem sei porque escrevo isto no passado!) da brincadeira e de “pregar” partidas, estes dias eram uma bênção que legitimava todos os meus disparates, por mais absurdos que pudessem ser.
Nunca fui muito adepto da previsível farinha que a grande maioria dos amigos e colegas usava e abusava à porta da escola, o que era um tormento para as raparigas que inventavam saídas alternativas do edifício para fugirem às papas que pela farinha e pela água se lhe colavam ao rosto, aos cabelos e ao fato. Um jogo do gato e do rato, e elas sempre a serem descobertas.
Recordo-me de um dia, uma mais esperta, resolveu levar a mãe, uma gorda com bem mais de cem quilos, para a proteger. Pois… mãe e filha acabaram no chão envoltas em farinha e regadas a água.
Eu era adepto de partidas mais subtis e com algum requinte. Com o Manuel e o Paulo Geadas como meus maiores cúmplices, o nosso ar de sonsos ajudava-nos sempre e credibilizava as mensagens que íamos passando.
De meninos tão bem comportados quem ousaria desconfiar…
Telefonemas anónimos, bombas de mau cheiro, acontecimentos inventados, azevias com recheio de algodão que convencíamos as mães a fritar com as restantes…
Apesar de o Manuel ter um andar demasiado característico e da minha cabeça ter um tamanho difícil de camuflar, com a ajuda de máscaras e sempre com fatos inventados a partir do canto mais antigo dos guarda-fatos que por essa altura os chineses ainda não tinham aberto lojas com adereços, conseguíamos sempre algum disfarce que nos permitisse assustar os parceiros. E incógnitos, que dava muito mais jeito, transformávamo-nos em verdadeiras Drag Queen’s mas numa versão muito rural.
Íamos aos bailes e às matines dançantes das sociedades recreativas, daqueles que as mães sentadas vigiavam as filhas durante a dança, supervisão que por estes dias se tornava muito pouco eficaz tal o elevado número de pessoas mascaradas, o que sempre possibilitava uns encostos e beijos mais ousados, raridade em tempos aparentemente de maior recato.
Quando se juntava mais gente, fazíamos assaltos às casas dos amigos que acabavam sempre com a malta a partilhar as filhós, as azevias, os nógados e os borrachos (nada de fazer maus juízos porque os borrachos são umas filhós muito especiais feitas com grande quantidade de aguardente e que são óptimas polvilhadas com muito açúcar e canela) que havia pelo domicílio.
Ficou célebre um assalto a minha casa num Carnaval em que eu estava a preparar um exame da Faculdade e, obsessivo com o estudo quiçá de alguma Farmacologia, me tinha recusado a participar na festa. Entraram todos de cara coberta e um a um, fui descobrindo todas as identidades, havendo uma, que eu juraria que era um, que eu não conseguia identificar.
Por me parecer um homem, achei que a forma mais fácil de o comprovar era agarrar-me aos seus seios de grandes dimensões e comprovar que eram falsos.
Pois…
Não eram falsos, eram verdadeiros.
E por detrás da máscara estava uma reputada senhora da sociedade Calipolense, de quem eu nem morto revelo o nome, e que por gostar da festa se tinha unido ao grupo.
Nestas coisas das brincadeiras, o mais atrevido, mais cedo ou mais tarde sempre acaba por ser vítima. Dizem que é a justiça divina que nunca tarda.
O certo é que nestas coisas da alegria e no pleno gozo da amizade, jamais há vítimas.
Há riso, gargalhadas soltas e festa, porque de tudo isso se alimenta a alma e assim se dá mais sentido à vida. 

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