sábado, 23 de fevereiro de 2013

Heranças

Por mais que o tempo voe e por mais vida que passe, guardarei para sempre em mim a esperança e a preserverança de uma sementeira de trigo que as chuvas de inverno fazem seara, e pelo pisar de um campo já ceifado, em horas de sol de estio, saberei que é calor, essa brasa que tem infinitos tons de amarelo e laranja num horizonte que parece não ter fim, e tem ares de fogo.
A frequência do meu coração vive ao ritmo da roupa, quase sempre branca, batida contra a pedra dos ribeiros, na arte das mãos mestras das minha avós, nessa magia de saber roubar ao campo, os aromas de poejo e esteva.
E de poejos, coentros, hortelã, alabaças, beldroegas, em sopas ou açordas, sempre com o pão amassado pela avó Natividade, se me fará sempre o paladar, ideal gosto e supremo prazer, regado a água das fontes bebida pela cortiça de um “coxo” recentemente roubado ao tronco de um imponente sobreiro.
E o vento? Eterno será para mim o voo a ritmos diferentes das azeitonas e das folhas das oliveiras, nesse lançar de mestre do avô Joaquim quando no meio do olival estender os panos para onde caiu o resultado da sua arte de varejar.
E as madrugadas serão essa hora de um tão cedo despertar que nos permita aproveitar o fresco, e fácil se nos torne apanhar os grãos.
No código genético se me gravou do campo esta herança, feita mais de suor do que de lágrimas, porque falando dos meus avós, é de heróis e bravos que vos falo.
E o meu orgulho tem expressão no compromisso de jamais trair tão nobre herança.
Hoje, o meu irmão foi receber o emblema de prata pelos vinte e cinco anos de sócio do Benfica.
Acompanhei-o de longe nesse momento e vivi com ele a alegria da conversa com o Paulo Madeira e da foto com o Carlos Mozer.
Senti que quando subiu ao palco, o fez também comigo, com o avô Xico, o avô Joaquim, o tio Zé Boquinhas, o tio Lucas e o tio Filipe, todos aqueles que ao ritmo dos golos do Águas, do Simões, do Eusébio, do Torres e do Nené, sempre contra a vontade do nosso pai, nos ensinaram a amar o Benfica…
…e a gravar o Benfica no nosso ADN.
Comovi-me ao trazer para este dia as memórias de todos eles na lembrança desta festa que me transportou para os meus dias mais felizes, os meus dias no campo.
Afinal foi no campo e entre as papoilas que todos eles nos ensinaram a amar as “papoilas”.
Bem hajam, eternamente. 

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