domingo, 24 de fevereiro de 2013

Transumância


Quando rumo ao sul deixamos a Estrela, cedo e aos primeiros passos do caminho, percebemos a sarracena pertinência de chamar Refúgio, Guardunha, ou para nós, Gardunha, à montanha que se impõe ao nosso olhar, gozo sublime e privilégio único do caminhante.
E se por estes dias de inverno, altiva, a Torre exibe a neve, deixai vir a primavera, e toda a encosta da Gardunha que a mira buscando o norte, sem rival, de branco se vestirá na imponência da flor dos imensos cerejais que Maio, o maduro Maio, pintará de um encarnado tom de fruto.
Busco Alpedrinha mas a surpresa revelada por cada curva do caminho, revelação feita de fontes, árvores e granito, justifica este impulso que me obriga a parar.
A água escorre encosta abaixo, sangue da montanha por veias e artérias feitas de pedra, terra, plantas, musgos, líquenes…, festa das infinitas cores do campo para as quais a palavra é impotente na hora de buscar definição.
E o som da água rima com o registo das lendas gravadas no granito e que nos oferecem uma milenar cumplicidade com os Homens de todos os tempos, os Homens desde sempre e justificadamente apaixonados pela Gardunha.
Ficamos a saber que um dia, a violenta morte dos pintos à mão dos seus filhos ainda crianças, provocou tal ira numa mãe que lhes lançou a maldição de todos virem a ser clérigos, maldição tão bem concretizada que um deles, de Alpedrinha, acabou cardeal, em Roma.
E de Mouras encantadas, de Nossa Senhora da Lapa ou da Serra, ou das celtas Dagda, Danu ou Epona, e de seres não identificados oriundos de outros mundos do nosso universo, a fé e a crença dos Homens aliadas à eternidade deste pedaço de paraíso, tudo permitirão transformar em lendas que justificam a história dos lugares que, estando o caminhante atento, ainda conservam em si esse som da gaita e do rufo certo dos tambores entregues à arte e à bravura dos eternos tocadores que já perderam a idade.
E na imponência granítica da encosta a sudeste, onde sopram ventos de Espanha, há Castelo Novo numa templária e imponente pose a defender a mais mágica das serras, heroína e mestra, peça única do património fantástico e mítico de Portugal.
Há carvalhos e giestas, alguns sobreiros, quando a Gardunha mira o sul, e de granito de faz o Castelo Velho e o Galo, que no Cabeço, altivo e nobre, mira Castelo Branco e as Terras do Tejo que a Gardunha abençoa com a gratidão da Ribeira, ou Rio Ocreza.
Pouco importa o estatuto quando a nobreza impera, e certa é esta herança recebida por alturas do Fratel, heranças da Gardunha entregues ao Tejo no seu percurso até à grandeza do Atlântico.
Na Gardunha, os pastores e os rebanhos sobem e descem a Serra em busca da fertilidade dos campos e ao ritmo das estações que o ano nos oferece. É a transumância.
Não sei se pastor serei, e tão pouco que rebanhos de sentimentos carrego Serra acima, caminhante solitário, nesta magia que o olhar me atrai e direcção escreve nos meus passos…
Transumância da alma.
Mas há uma paz doce que me invade e um confortável sentimento de pertença que me convida a entrar e a fazer de umas quaisquer paredes de granito, a minha casa, acendendo a lareira nas frias noites de inverno, para partilhar memórias e reconstruir a história.
Porque nós somos, e seremos sempre, pertença dos lugares que nos fazem felizes.

1 comentário:

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