sábado, 16 de fevereiro de 2013

Quando a lua sorri…


Por sob o intenso luar, há uma especial nobreza que se prova quando os olhos se entregam ao casario do Camões, ali ao redor da praça do Poeta, onde o quiosque iluminado nos chama ao calor de uma ginjinha, com ou sem elas, porque nobre, mas sempre com marca de povo, é esta Lisboa tornada eterna pelo querer do coração de quem a vive.
E em Lisboa impõe-se o Tejo, que no passo de quem deixa o Chiado, se revela ao fundo da Rua do Alecrim. E, porque a noite lhe roubou o brilho azul, pressente-se o rio apenas pela dolência da luz móvel de um cacilheiro que busca o sul.
No campanário do Loreto, um sino assinala as horas, repica a fé e marca o compasso de uma multidão que não resiste e se entrega à inevitável sina de Lisboa: o fado e a viela.
Soam os acordes da guitarra que pronto arrancam da alma a voz, e é de destino, o canto em tom sofrido de uma mulher que para nós passantes, não tem rosto, mas que a voz revela ser tão eterna quanto a sua, quanto a nossa cidade.
É Fevereiro, sob a luz da lua, que nos parece sorrir, há mil olhares que se cruzam, há cumplicidades entregues a demorados abraços, há infindáveis histórias que se partilham em raros e muito intensos encontros, há beijos de paixão pela gente que se ama, há gritos, gargalhadas, o riso e o canto dos amigos, há a tolerância e o conforto de nunca se ser diferente e se poder assumir a verdade, há os brindes e a saúde celebrada em copos de vinho erguidos e entregues ao tilintar próprio de uma festa…
E acima, do primeiro andar e até ao céu, há roupa estendida por entre as sardinheiras que esperam a primavera, e sente-se gente por detrás das vidraças que o inverno mandou fechar.
É Lisboa na plenitude de uma noite que é só sua.
É o Bairro Alto, mágico rendilhado de vielas atapetadas a basalto, espaço com essência de vida, e império para todos os sentidos.
Fado, saudade e destino, roxo paramento de uma noite, abençoada quaresma que saboreamos sem receio.
Pela madrugada, ao primeiro raio que fizer despontar a aurora, no momento em que o eléctrico voltar a correr sobre os carris que rasgam a calçada, e na Ribeira, o cacau se alinhar a quente com o pão acabado de cozer no forno a lenha, haverá ressurreição.
Lisboa emergirá na sua mágica grandeza e será tudo aquilo que a fez nascer e a tornou maior: a luminosa e mais branca de todas as cidades do universo.

1 comentário:

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