sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Fevereiro


A memória fala-me do amarelo das mimosas nas orlas do caminho, e dos tufos de azedas salpicando a imensidão de verde da planície, disponíveis, sempre, para nos oferecer aquele gosto ácido semelhante a vinagre, quando não resistimos e as pomos na boca, saboreando desde logo e antes de mais, o privilégio das geadas, o fresco sabor das madrugadas no campo.
É Fevereiro, o penúltimo degrau no acesso à primavera que já sabemos não tardar no calendário, porque curto é o passo daqui até aos dias do toque feliz dos sinos a anunciar ressurreição.
Mas mais do que o calendário, manda o povo e a magna sabedoria dos simples. E só amanhã, da primavera, a distância se saberá, quando pelo sol, pela chuva e pela fé na Senhora das Candeias, acreditarmos que “se Ela rir, o inverno estará para vir, e se Ela chorar, o inverno já está a passar”.
É Fevereiro, imposição do tempo no acerto dos anos, que através de um mês assim, breve, nos recorda a urgência de cumprir os sonhos, de viver.
Porque, adiar é sempre matar definitivamente o tempo.
Um beijo morre no exacto momento em que se adia, nesse qualquer segundo único que o ciclo do tempo jamais fará com que regresse a nós.
E num segundo apenas, no tempo de um sim ou de um não, se pode ganhar a vida toda.
Um velho amigo de há muito, mestre na arte de desfrutar os melhores e mais apurados prazeres da vida, prova todos os anos a si mesmo que a sua vontade lhe comanda a vida, suspendendo por um mês a ingestão de qualquer etílica bebida, tendo escolhido para tal, Fevereiro, maldizendo os anos bissextos que sempre lhe trazem mais um dia para impor a força da vontade.
Vontade, a concretizada acção imposta pela verdade que habita a alma dos coerentes, dos ousados desmascarados no eterno baile de Carnaval, do correcto e do social, que num ano não se resume apenas a quatro fugazes dias deste mês mais curto.
A força da vontade, a inspiração da verdade, a urgência e a intensidade dos dias, ou as coordenadas para viver Fevereiro, como qualquer mês, e chegar desde aqui, em grande, até à primavera.

1 comentário:

  1. Na Primavera até a cadeira olha pela janela
    Rui Pereira

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