sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

A cruzada dos mestres da hipocrisia


Aproveitando o momento difícil que o país atravessa em termos económicos, algumas personalidades, entre as quais o Prof. César das Neves e o Dr. Bagão Félix, tomaram a iniciativa de uma petição que visa a revisão de leis como o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a interrupção voluntária da gravidez e o divórcio.
Afirmam os mentores desta iniciativa que a grave situação em que o país se encontra tem raízes na corrosão que estas leis provocaram no tecido social, nomeadamente na sua célula fundamental, a família.
Confesso-vos que reconheço uma pertinência nestas justificações semelhante à que admito existir entre os terramotos no Japão e o elevado número de pessoas que nesse pais decidiu começar a dançar flamenco. Zero.
Reconheço-lhes no entanto um elevado sentido de oportunidade, para que agora que a dança está desacertada, virem desta forma ridícula atribuir as culpas ao facto de o soalho estar ligeiramente inclinado, ilibando-se a si e aos seus amigos políticos e banqueiros que em sucessivas passagens pelo poder nos deixaram nesta situação, aproveitando de caminho para defenderem as suas causas de natureza radical que os transformou há muito numa espécie de "talibans" da moral e "Bin Laden's" da moral de sacristia, assumidos saudosistas das cruzadas medievais e do Santo Ofício.
A não ser que tenham os resultados de uma qualquer sondagem feita junto de pessoas sem-abrigo ou desempregadas, e que expresse a convicção de que o seu estado se deve a terem partilhado prédio com um casal de lésbicas, uma vizinha que abortou ou um homem divorciado.
 Abomino esta iniciativa, primeiro porque odeio sentir a poeira que nos atiram para os olhos e segundo porque a modernização das sociedades se faz no sentido da hipocrisia para a verdade e nunca em sentido inverso.
A família é de facto a célula da Sociedade mas a família será sempre um espaço de pessoas que se amam e que pela força do amor se dispõem a caminhar juntas pela vida.
Sendo um espaço de amor, tem de ser sobretudo um espaço de verdade, mais do que um contrato entre um homem e uma mulher com o objectivo único de preservar a espécie.
Depois, quer estes senhores aceitem ou não, há homens que amam homens e mulheres que amam mulheres, aos quais não é justo negar o direito à celebração do amor de viver juntos e partilhar as vidas num espaço que entre outras virtudes, poderá ser ideal para o crescimento e desenvolvimento de muitas crianças. A castração dos sentimentos é um preço demasiado elevado que ninguém merece ter de pagar à moral e aos “bons costumes”, num exercício de bem parecer.
Qual será então a sugestão que este grupo apresenta para os homossexuais? Aumentar os hospitais psiquiátricos? Colocar-lhes um triângulo cor-de-rosa na lapela e mandá-los apodrecer para as Berlengas? Ou aumentar exponencialmente a hipocrisia de casamentos fictícios em que os cônjuges em segredo dão as suas "escapadinhas" não deixando nunca de preservar a sua “boa” imagem pública?
E o aborto?
Eu também sou contra o aborto, acto que foi proibido em Portugal durante muitos anos mas que jamais deixou de ser praticado. Nos anos em que trabalhei numa farmácia, assisti ao drama de mulheres que por não terem o dinheiro das meninas ricas e de família que apanhavam os aviões para irem fazê-los no estrangeiro, se tinham colocado nas mãos das parteiras de vão de escada.
E quantas mulheres rejeitam procriar por não terem condições para criar os seus filhos, exploradas até a exaustão em empresas onde estes senhores da petição trabalham ou são consultores?
Esquecem-se estes signatários que o país real não é o dos meninos da Universidade Católica, a redoma de vidro onde estas excelências dão aulas, nem das famílias endinheiradas em que a mãe pode ficar em casa a criar dezenas de filhos porque há espaço e dinheiro na conta bancária para o fazer.
Provem-me que se o aborto voltar a ser ilegal, ele deixa de ser praticado.
E o divórcio?
São eternas as opções que tomamos na vida?
E se não forem? Anulamo-nos ou castramo-nos para suportar as aparências?
O que será mais digno, o preservar de uma mentira ou o assumir da verdade?
Eu tenho amigos divorciados e separados que falhram no seu casamento mas que são pessoas indiscutivelmente melhores que eu e com um quadro de valores de excelência de carácter. Qual o meu direito de os condenar ao inferno?
Estes senhores evocam a fé, e o mais incrível é que eu também acredito no Deus do Dr. Bagão Félix e do Prof. César das Neves, eu também professo a mesma fé Nesse Deus que um dia se fez Homem para falar de verdade, de vida e de amor.
O Jesus da minha fé jamais discriminou, pelo contrário, congregou.
O Jesus da minha fé exortou ao desprendimento dos bens materiais, combateu os poderosos e soube acolher a todos no seio da Sua família onde a senha não é a conta bancária, o berço ou a posição social, mas a simplicidade e a riqueza dos valores de carácter que existem no Homem.
O Jesus que desmascarou a hipocrisia dos Doutores da Lei e dos defensores da falsa moral.
Por isso meus senhores, chega de hipocrisia.
Se estes senhores sentem energia para mudar o mundo, assinem uma petição para exigir o fim do patrocínio do Estado aos grandes grupos económicos, facto que sim, verdadeiramente, mata a paz das famílias.
Façam uma petição pela justiça e pela condenação de quem faz mau uso dos dinheiros públicos, pão roubado à boca dos cidadãos.
Façam uma petição sobre a necessidade de preservar a dignidade dos seniores atacados e espoliados nas suas reformas de miséria.
Isso sim é a raiz do nosso problema. Isso sim é combater o cancro sem ser apenas e só com o placebo dos seus interesses.
Haja pudor e bom senso. Que morra de vez a hipocrisia.

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