quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Os Anjos acabam sempre por ir morar no Céu


Não me recordo exactamente da data mas sei que foi algures num final de tarde de Abril de 2005.
Eu estava a trabalhar num congresso no Porto e terei manifestado um entusiasmo tal pela presença da fadista Kátia Guerreiro na cerimónia de abertura do congresso, que uma colega que me acompanhava e que jamais tinha ouvido falar da fadista e muito menos alguma vez se tinha disposto a ouvir fado, por curiosidade, me acompanhou e sentou-se junto a mim na última fila da enorme sala já repleta de gente.
Acreditei que ela aguentaria o primeiro fado e de que ao segundo inventaria uma desculpa e sairia da sala.
Vi-a sorrir aos primeiros acordes da guitarra Portuguesa tocada pelo Paulo Valentim, e ao segundo fado…
“Prendo o mundo nos meus braços
Quando me abraças nos teus
E por momentos escassos
A terra dá-nos os céus.”
Não saiu. Segredou-me ao ouvido:
- Fantástico.
Deixámo-nos ficar na cumplicidade dos sorrisos, dos olhares e da comoção, no ambiente de silêncio que a alma nos impõe devotar ao fado.
“Pensa só no nosso amor,
Vem, dá-me a tua mão.
Sobe comigo a encosta,
Porque quando a gente gosta
Ninguém cala o coração.”
Partilhámos vivamente as palmas em cada pausa, naquele bater de palmas feito ao ritmo e ao jeito de quem não consegue calar o coração.
“Quando à noite desfolho e trinco as rosas
És tu a primavera que eu esperava”
E foi da primavera que falámos os dois à saída da sala após o último fado…
“Eu quero lançar raízes
E viver dias felizes
Na outra margem da vida.”
…Partilhando o gosto ou o destino dos que sabem que os dias felizes estão muitas vezes na outra margem da vida, naquele território onde vivem os apátridas de alma, aqueles que lutam mais, pelo facto de não terem uma vida fácil e previsível, mas que têm o raro privilégio de provar o inesquecível e viciante gosto da ousadia.
E por estes fados ao fim da tarde, se criou entre nós uma cumplicidade que foi alimentada a posteriori em inúmeras conversas e partilhas.
A inquietação de quem jamais se rende, de quem luta arduamente e de quem não abdica do seu direito a ser feliz.
Não me recordo exactamente da data mas sei que foi algures a meio da tarde de um dia de Maio de 2006.
Nem sequer me recordo do nome da aldeia entre a auto-estrada A1 e Cantanhede, onde à porta de uma pequena ermida me fui despedir da minha colega que partira subitamente, privando-me da sua companhia em tantos fados que ainda haveria para escutar nos finais de tarde das nossas cumplicidades.
Recordo-me de um sol radioso e de um intenso cheiro a flores do campo, naquele estranho momento em que os nossos olhares, mais do que tristeza, se revelavam estranhos e incrédulos pelo adeus tão inesperado a quem transpirava apenas vida.
E foi por certo por tanta vida, que o Céu veio pronto recrutar um Anjo feliz.
A partir desse dia, nas muitas vezes que, para norte ou para sul, passo na A1, na saída de Cantanhede, não resisto a calar a voz dos fadistas que me acompanham em grande parte das viagens, e rezo ao Céu e aos seus Anjos.
Hoje de manhã, de volta ao sul, foi mais uma vez assim.
E o campo, de um intenso tom verde salpicado pelo amarelo vivo das mimosas no auge da flor, pareceu sorrir-me.
Telegrama do Céu e dos seus Anjos?
Não sei.
Pouco importa.
Se tanto me apeteceu viver com garra e romper todas as margens.        

3 comentários:

  1. SEm palavras , lindo
    parabens
    Rui Pereira

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  2. Magnifico e muito marcante.
    Eu acredito que cada um tem o seu anjo eu tenho o meu bem lá no Céu.
    Chamo-lhe Anjo da Guarda quem me dera te-lo cá na Terra ao pé de mim.Infelizmente partiu há muitos anos.
    A vida é assim e temos de saber viver com estas mágoas que a vida nos trás.
    M. Pereira

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