quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

2010

Descascadas e saboreadas todas as laranjas da colheita de 2010, partilho convosco, aquelas que a memória guardou:

LARANJA DOCE – O Resgate dos Mineiros Chilenos
Para mim, um momento maior. Perante o infortúnio, a humanidade reuniu talento e meios para fazer o que de mais nobre sempre lhe cumprirá fazer: dar ou acrescentar vida.

LARANJA AMARGA – Crise Financeira
A dívida externa, o desemprego, o caos dos mercados, ou pura e simplesmente, a queda das máscaras de quem sempre nos (des)governou na base da ilusão. E seremos sempre os mesmos a pagar por estes PECados, a provar o amargo. Um protagonista: José Sócrates. Porque o seu a seu dono.

LARANJA SUMARENTA – Manuel de Oliveira
102 Anos a jorrar o sumo da criatividade e do talento, com uma lucidez que a todos faz espantar.

LARANJA MECÂNICA – José Mourinho
Excelência na gestão dos Recursos Humanos, índices de motivação elevadíssimos, rigor técnico e táctico, como segredo para as vitórias em todas as provas em que participou com o Inter de Milão. Não restam dúvidas que é mesmo especial.

SUMO GASEIFICADO DE LARANJA – Benfica / Campeão Nacional.
Foi bonita a festa mas alguém se esqueceu da garrafa aberta e o gás… foi todo embora.

SUMO NATURAL DE LARANJA – Fundação Champalimaud
Investigação científica e médica num centro inovador implantado à beira Tejo. Oxalá as Tágides, as ninfas que inspiraram Camões, possam dar inspiração para muitos e bons proveitos.

LARANJA VERDE – Papa Bento XVI
Aguardemos que amadureça mas para já há sinais verdes de esperança. O pedido de desculpas pelos crimes de pedofilia, o assumir da possibilidade do uso do preservativo, parecem indicar que ao contrário do que aconteceu com Galileu, não será preciso esperar séculos para a Igreja emendar os seus erros. A rever na colheita de 2011.

LARANJA PÔDRE – Escutas Telefónicas / WikiLeaks
Vale tudo e tudo se escuta e divulga. A justiça dos tribunais deu lugar à justiça dos “Media”.
O mundo chafurda na lama das suas imensas faces ocultas.

LARANJA CALIPOLENSE – 500 Anos da Santa Casa da Misericórdia de Vila Viçosa
É uma instituição fundamental na vida de Vila Viçosa. A minha homenagem assente nas gratíssimas memórias de um jardim de infância que frequentei quando o estado ainda não reconhecia a importância do pré-escolar, e também no modo exemplar e pleno de profissionalismo e carinho com que vi tratar alguns familiares meus no Lar para idosos que mantém na nossa terra. O irmão Francisco Caeiro continuará orgulhosamente a ser um dos da Casa.

COMPOTA DE LARANJA - 2010 deixará para sempre a saudade de José Saramago, o primeiro Nobel da Literatura em Português, do violoncelista dos Madredeus, Francisco Ribeiro, Mariana Rey Monteiro, a princesa herdeira do Teatro Português, e António Feio, rei supremo na arte de provocar gargalhadas, até quando as conversas eram uma treta.

E despeço-me ao som de Pedro Abrunhosa e de “Fazer o que ainda não foi feito”. É para mim a melhor canção nacional de 2010 e simultaneamente, um bom mote e um excelente propósito para um grande 2011.

domingo, 26 de dezembro de 2010

D. Catarina

É a mãe do meu melhor amigo e conheço-a desde sempre.
Vivia numa casa muito central na Praça da República, em Vila Viçosa, uma casa em que a porta só se fechava à hora de ir deitar. Empurrávamos a porta, chamávamos e entrávamos directamente para a cozinha que era o local onde quase sempre a encontrávamos a fazer as melhores empadas e os melhores bolos secos (as broas alentejanas) que já comi e que, estou certo, nunca mais comerei igualmente boas.
Vendia-as para fora e não chegavam para as encomendas, ou então vendia-as no café do marido, o Sr. Julião, que ficava mesmo ao virar da esquina.
Esta casa de porta aberta era no entanto, e sobretudo, um entreposto de afectos onde ninguém passava sem resistir à tentação de entrar. Era um dos meus locais preferidos para brincar.
Na casa havia um sótão onde sobejava espaço para dar asas à criatividade infantil, terreno ideal para todas as brincadeiras.
E a meio da tarde havia o sempre momento especial do lanche. Comíamos os bolos, as torradas fantásticas e um inesquecível Sumol que vinha directamente do café do Sr. Julião.
Era este o menu ideal de tantas e tantas tardes longas de verão.
Mestra de afectos, a D. Catarina tinha gestos que jamais esquecerei. Recordo-me de em 1981, na altura em que o filho, o Manuel, fazia a festa dos 15 anos e eu me encontrava hospitalizado em Évora devido a uma peritonite, me ter preparado umas dezenas de queques e bolos de arroz, os únicos que a minha dieta permitia, para que apesar de longe, eu pudesse partilhar da festa de aniversário do meu amigo. Fui o rei na enfermaria porque os ditos bolos eram tantos que quase davam para o hospital inteiro.
Também não raras vezes, encontrando-me eu a estudar em Lisboa, me preparava um kit de empadas para eu levar e que tinham sempre para mim, o sabor do melhor manjar, ou não fosse eu um “escravo” das cantinas universitárias.
No dia 24 de Dezembro passado acompanhei o Manuel ao Lar onde a sua doença exige que se encontre para a resgatarmos para um Natal em família.
Vinha feliz, vínhamos felizes, e foi curioso estarmos ali os três, as mesmas três pessoas que tantas tardes passaram juntas. Só que os papéis estavam agora invertidos: a cuidadora de antes é agora o alvo dos nossos cuidados, cumprindo-se assim o ciclo normal da vida.
E hoje, no dia em que se comemora a família, lembrei-me dela e deste momento que vivemos juntos, deste terno momento de família que mais uma vez partilharam comigo.
O amor que o meu amigo dedica à mãe e os cuidados maiores com que a trata, os quais eu pude observar naquele momento, são para mim a prova de que a família é, poderá e deverá sempre ser, uma escola de amor, onde se cultivam e alimentam todos os afectos. É o espaço onde todos vivemos para todos e por todos, porque o todo está sempre acima de nós próprios.
E eu senti-me imensamente feliz por poder estar ali com eles.
Com muito pouco para oferecer, limitei-me a dar um pouco de alegria ao momento, provocando alguns sorrisos à D. Catarina, sentindo-me impotente para dar mais do que estes sorrisos, migalhas tão insignificantes perante o tanto que ela ao longo de tanto tempo me ofereceu.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

É Natal!

Hoje é Natal.

Hoje é Natal e eu sei que voltarei sempre aqui para celebrar a vida, na festa da consoada com os que são e fazem a minha vida, os presentes, os ausentes e aqueles que tendo partido, o meu amor tornará eternos na minha memória.

Hoje é Natal e jamais deixarei de vir aqui aquecer-me na fogueira desta esperança renovada de um ano que se entrega a outro feito de expectativas e sonhos.

Hoje é Natal e preciso deste encontro comigo para que no presépio dos meus dias possa emergir a estrela que por cima das minhas riquezas e misérias, por cima da minha verdade, do nada me faça ver um caminho, o caminho.

Hoje é Natal. É vida. É dor feita alegria, tormenta tornada bonança, esperança arrancada ao desespero, é justiça, paz e tudo o que vale a pena.

Hoje é Natal e eu acredito que em mim como em Belém, nasceu e nascerá sempre Jesus.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Vinte anos



Chegaram hoje ao meu e-mail como presente de Natal e são as fotos de um jantar de curso realizado em Junho deste ano e destinado a celebrar os vinte anos da licenciatura em Ciências Farmacêuticas na Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa.
Por iniciativa de dois colegas que estão actualmente ligados à Faculdade como professores e através da montagem de uma rede de contactos via Internet, conseguimos juntar cerca de 70% dos colegas.
E foi emocionante.
Eu nunca mais tinha voltado á Faculdade e foi feliz a ideia de marcar este reencontro para o espaço onde nos tínhamos conhecido e onde durante cinco anos partilhámos uma infinidade de emoções. Voltámos aos nossos lugares no velho anfiteatro e ainda conseguimos estabelecer a planta com os locais onde preferencialmente nos sentávamos. E quanto mundo se nos abriu daqueles lugares.
Mas foi sobretudo muito bom rever as pessoas, os amigos que não via há vinte anos e que, confesso que em alguns casos, se os encontrasse noutro contexto, dificilmente os identificaria.
Não é que não estejamos todos melhores. É um facto que sim.
Elas estão todas mais louras, evitando por magia os cabelos brancos que nós homens não temos arte ou ousadia para disfarçar e que compõem o peso e o nosso novo volume, que na grande maioria dos casos duplicou.
A nós resta-nos pois o charme de quarentões (desculpem mas é a minha auto-estima a manifestar-se).
Foi uma noite de conversas e em que nos faltou o tempo para dizer em horas tudo aquilo que tínhamos vivido nos vinte anos em que andámos por caminhos tão diferentes.
Foi uma noite de encontros em que foi bom revê-los a todos, mas foi fantástico reavivar a memória dos meus tímidos 18 anos, das angústias e dos medos da minha chegada à cidade grande, tendo bem viva esta percepção de como a vida nos vai moldando passo a passo. Hoje é tudo tão diferente.
Mas confesso-vos que o que mais me impressionou foi o facto de a todos nos parecer quase impossível terem passado tantos anos. Quase como: “vou até ali viver vinte anos e já volto”.
Penso que isso aconteceu porque apesar do tempo e da distância, a vida preserva sempre o que é importante e nós somos todos importantes, somos todos pedaços da história uns dos outros, que nunca nada nem ninguém conseguirá apagar.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Geração “nem, nem…”

Um estudo publicado esta semana refere ser já superior a 300 mil, o número de jovens que em Portugal NEM estuda, NEM trabalha, o que levou já à sua designação como “Geração nem, nem”.
São números deveras preocupantes e com a agravante de terem aumentado muito num passado mais recente. Vai assim muito composto o pelotão dos jovens que relativamente ao futuro, a única atitude que lhes apraz ter é encolher os ombros.
Sabemos que desta inércia até à marginalidade e ao recurso a meios ilícitos de financiamento, é um passo muito curto e, talvez não seja por acaso, olharmos para o lado e vermos como a criminalidade aumenta por todo o país, não poupando já qualquer região. E já não adianta tentar tapar o sol com a peneira, atribuindo as responsabilidades deste aumento da criminalidade aos imigrantes que chegaram ao nosso país, este é um problema mais profundo e com raízes na nossa própria sociedade.
E quando tento perceber como é possível que um tão grande número de gente se disponha a este estatuto de “nem ofício” chego à conclusão de que só pode ser porque não lhes falta o “benefício”.
Os tempos do “nem ofício, nem benefício” já eram, e hoje o lema é outro: “há sempre um subsídio que espera por si”.
Em minha opinião, é o estado que patrocina esta situação não exigindo a todos os cidadãos o cumprimento dos deveres que sempre devem acompanhar os direitos.
Para uns o estado é padrasto mas para outros é um pai demasiado brando e excessivamente benevolente.
Incluo-me no grupo dos que cedo procurámos sustentar a nossa existência através do trabalho, orgulhando-nos de o fazermos cumprindo simultaneamente as nossas obrigações para com o estado através do pagamento dos impostos de forma rigorosa. E o estado tem-nos sempre respondido com a ingratidão de um padrasto.
Somos os professores que têm sido ofendidos na sua dignidade para justificar as incompetências de um sistema de educação gerado pelo próprio estado, somos a gente do interior que para se deslocar dentro dos seus próprios concelhos tem de pagar umas portagens ridículas, somos os pagadores de um serviço nacional de saúde que nos maltrata como utentes, somos os que suportamos os aumentos do IVA, do IRS, os que pagamos as taxas moderadoras, somos as vítimas dos PEC’s com independência de serem 1,2 ou 3, somos os que temos a perspectiva de uma reforma tão ínfima que nos deixe à mercê de qualquer Santa Casa da Misericórdia, somos os que pagamos os submarinos, os carros blindados e as cimeiras da NATO, somos os que financiamos os partidos e suportamos as campanhas eleitorais, somos os que pagamos as rotundas e suportamos o descontrolo financeiro das Câmaras Municipais, somos os que suportamos as obras nos estádios de futebol, e, pasme-se, soubemos esta semana, somos aqueles que o estado até quer ver despedir com mais facilidade.
E ao nosso lado estão os outros, os “nem nem” equilibrando com os seus benefícios os pratos de uma balança que mesmo com os nossos sacrifícios, não aguenta e está cada vez mais tombada e à mercê de todos, dos mercados, da Sra. Merkle ou do Sr. Sarkozi.
Para além da indignação, acho que todos sentimos que é hora de exigirmos uma nova postura e exigirmos um estado que premeie o trabalho e o bom exercício da cidadania.
Com os intérpretes actuais parece-me difícil porque o seu problema é exactamente não terem inscrito no seu código genético: exigência, trabalho e sentido de cidadania.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Compras, livros e dias felizes.

O Natal, por mais crise que se sinta, é também, inevitavelmente tempo de compras, e para mim, é o momento de cumprir este exercício fantástico que é descobrir aquilo que dentro das minhas posses, consiga expressar a quem gosto, todos os meus melhores e maiores sentimentos.
Com efeito surpresa, um cocktail de “pensei em ti”, “gosto muito de ti” e “não te dispenso no novo ano que vai entrar”.
O sítio onde mais gosto de fazer estas pesquisas, confesso-vos, é nas livrarias, pelas melhores razões do mundo e mais uma, o vício que me ficou da infância e juventude.
Passo a explicar.
Quis um dos acasos mais felizes da minha vida que a minha tia avó Maria Teodora, uma das heroínas da minha história, fosse empregada de limpeza na única livraria que existia em Vila Viçosa e me tivesse levado muitas vezes com ela para o trabalho, o que fez com que eu tivesse desenvolvido uma relação de profunda amizade com a proprietária da Livraria Escolar, a D. Joana Ruivo, outra das grandes heroínas da minha história.
E assim apoiado por estas duas mulheres que me ofereceram muito do que sou, comecei a ter o privilégio do convívio diário com os livros. A livraria começou a ser a minha segunda casa, o sítio para passar os meus tempos livres e as minhas férias.
A Vila Viçosa dos anos setenta não oferecia muitas ligações ao mundo mas a sorte ofereceu-me esta casa cheia de janelas com vistas rasgadas para os horizontes mais fantásticos.
E eu aproveitei esta oportunidade, sobretudo nas muitas ocasiões em que lia os livros que a bolsa de outra forma não me permitiria adquirir, não os abrindo demasiado para não deteriorar as lombadas, folheando-os com cuidado para não estragar e amarrotar as folhas e fixando a página onde a leitura tinha terminado, para poder continuar a leitura na vez seguinte.
Quantos livros, quantos heróis, quantas viagens, milhões de sonhos…
Como para além de mestres de vida, os livros também são agregadores de gente e inspiradores de conversas, de debate e troca de ideias, a quantas tertúlias fantásticas pude assistir, e o tanto que pude aprender ouvindo gente interessante a discutir o mundo numa altura de estações quentes por força da primavera memorável de 1974.
Compreenderão portanto o meu vício por livrarias e sobretudo este “síndrome de abstinência” que quase me impele a galgar para o outro lado do balcão, sempre pior nesta altura em que me recordo da fase em que já estudante em Lisboa, sempre voltava à Livraria todos os Natais, para aconselhar, falar, discutir e vender livros.
E tudo isto pela saudade.
A saudade das pessoas e sobretudo destas duas mulheres fantásticas de quem já falei e que sendo solteiras e sem quaisquer filhos, foram minhas mães porque em mim plantaram e fizeram crescer vida.
A saudade de um lugar que deixou de ser livraria para passar a ser salão de cabeleireiro, cumprindo assim a sina deste tempo em que os aspectos exteriores contam sempre mais do que o conteúdo.
As saudades de um tempo simples, moldado por gente simples, mas um tempo imensamente feliz, um tempo a que sempre chamarei “o meu tempo”.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

O dia de Nossa Senhora

8 de Dezembro, com independência do ano, é e será sempre o dia maior de Vila Viçosa. Será sempre designado, conhecido e vivido por todos os calipolenses como “O dia de Nossa Senhora”.
Foi no Século XIV que o agora São Nuno de Santa Maria, então o guerreiro e patriota exemplar D. Nuno Álvares Pereira, fundou a Igreja de Nossa Senhora da Conceição, no Castelo de Vila Viçosa.
Mais tarde, em 1646, um dos meus conterrâneos mais ilustres, D. João IV, coroado rei de Portugal seis anos antes, entregou a coroa que era símbolo da sua realeza, à Senhora da Conceição, fazendo com que mais nenhum monarca português a usasse na cabeça, e nomeando Nossa Senhora rainha e padroeira de Portugal.
A história mais uma vez e sempre a ser a raiz deste orgulho de ser Calipolense, tendo o privilégio único de sermos da terra da Padroeira de Portugal.
Quiseram as circunstâncias da vida que hoje, ao contrário do que acontece na maioria de todos os anos, eu passasse este dia longe de Vila Viçosa, alimentando-o das muitas e grandes memórias que guardo do passado.
E a primeira imagem que me ocorre é sempre a de uma igreja, que para além dos muitos forasteiros, se enche sobretudo com todos os Calipolenses, que ao longo do dia entram para rezar ou apenas para marcar presença. A Senhora da Conceição é sem dúvida o elemento comum mais relevante, o elo mais forte que une todos os Calipolenses, com independência de todas as características e critérios que usemos para identificar pessoas e grupos.
A igreja de Nossa Senhora da Conceição é o lugar onde todos, todo o ano mas sobretudo a 8 de Dezembro, sentimos como a nossa casa, o sítio de onde nunca poderemos nem queremos sair.
E depois há as memórias de âmbito mais pessoal, e talvez a mais forte seja a imagem da minha avó Natividade perante a inevitabilidade de ter de deixar Vila Viçosa no dia seguinte de madrugada e tendo tomado conhecimento desse facto apenas na véspera à noite, se recusar a deixar a nossa terra sem se ir despedir de Nossa Senhora, tendo-me levado como companhia até à porta da igreja então fechada, onde se ajoelhou e rezou a sua despedida.
Jamais se apagará da minha memória esta imagem de mim menino a ser testemunha de um acto de profunda fé, e sempre me acudirá como lembrança nas muitas vezes em que apesar das minhas curtas estadias em Vila Viçosa, sempre reservo um tempo para atravessar as portas do castelo e encontrar-me com Nossa Senhora, jurando-vos aqui que são verdadeiros momentos em que me encontro comigo mesmo e de onde saio sentindo-me melhor pessoa, ou pelo menos com vontade de o ser.Hoje, com a distância, pela cabeça desfilam as memórias, o coração bate ao ritmo da saudade e deste amor maior à Senhora da Conceição que os lábios inevitavelmente expressam: Ave Maria…

Contra-Informação

Ao fim de mais de uma década de presença nas nossas vidas, a RTP resolveu suspender o programa “Contra-Informação”.
Ao longo dos anos sempre me assumi como um entusiasta deste programa, apreciando, para além obviamente da componente caricatural dos bonecos, o facto de quase ao mesmo tempo da notícia, os seus autores conseguirem brincar, ter uma visão humorística de bom gosto, relativamente a todos os acontecimentos, positivos ou negativos, que se iam sucedendo em Portugal ou no mundo.
Por isso vou ter saudades e por isso tenho dificuldade em entender esta decisão, numa altura em que necessitamos todos de uma injecção de boa disposição, numa fase em que ansiamos todos pelo exorcizar de tantas desgraças com que diariamente nos deparamos.
Bem sei que não devia estranhar pois já sei que estes são tempos de informação a favor, tempos em que os políticos reagem muito mal à informação quando ela é do contra, e nem que seja apenas e só para divertir.
E pronto, lá voltaremos nós aquela velha e irritante máxima nacional de “muito riso, pouco siso” e a termos como companhia nos nossos serões televisivos mais uma telenovela de pobres e ricos ou de maus e bons, representada pelos modelos-actores que me fazem lembrar os teatrinhos do meu tempo de catequese, ou então algum concurso a puxar à cultura geral apresentado por algum acéfalo ou alguma galinha, que não fora por um auricular que lhe vomita as perguntas no eco do crânio, e seriam eles próprios a prova da ausência de qualquer cultura.
É esta a regra dos políticos e é esta sobretudo a lei do mercado dos detergentes, refrigerantes e demais produtos de grande consumo, que com os seus investimentos em publicidade conseguem moldar a programação das televisões. E se isto se entende nos canais privados, no canal público é inadmissível.Da minha parte continuarei a ter um livro ou um DVD sempre à mão para o momento em que a televisão me convidar apenas a desligar. Continuarei no fundo a ser do… contra.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

União Ibérica?

370 anos e um dia depois do 1º de Dezembro mais famoso da nossa história, a FIFA, o organismo que rege o futebol a nível mundial, votou contra a união ibérica, feita na perspectiva de trazer para a “jangada de pedra”, o campeonato das nações, a prova maior do futebol mundial.
Quão conjurados, os senhores da FIFA atiraram pela janela os sonhos dos Vasconcelos do século XXI, que hoje têm nomes como Madaíl ou Sócrates, escolhendo a longínqua Rússia onde hoje proliferam milhões e milionários sempre empenhados em “investir” nesta arte do pontapé na bola.
Apesar de não me ser indiferente a perspectiva de uma meia-final de um campeonato do mundo na minha “catedral”, manda o bom senso que me congratule com esta decisão, considerando até ser ultrajante, esta intenção demonstrada pelo estado, de investir milhões numa prova futebolística, quando tantos milhões faltam para equilibrar as nossas contas e quando a milhões de portugueses são pedidos sacrifícios com real impacto na sua qualidade de vida.
O Euro 2004 aconteceu há muito pouco tempo e temos portanto bem presente que apesar dos dias felizes que então vivemos e que quase colocaram no topo a nossa auto-estima como nação, acarretou o pagamento de uma factura demasiado alta, incompreensivelmente alta.
É inadmissível que um país que tem hospitais e centros de saúde em instalações miseráveis e a prestar serviços miseráveis, tenha gasto milhões a construir estádios fabulosos para acolher dois ou três jogos em 2004, estando agora vazios e sem utilização, implicando em alguns casos um acréscimo de custos para as autarquias que estudam até a possibilidade de proceder à sua implosão, como é o caso de Aveiro.
Mas como continuamos a não aprender com os erros, o Sr. Sócrates e o Sr. Zapatero, esquecendo a sua actual cotação na bolsa de líderes mundiais, que as agências de rating puxaram para baixo na inversa proporção das taxas de juro da divida pública, foram bater à porta de um banquete de onde foram corridos como andrajosos mendigos a tentar entrar na festa de um qualquer palácio real.
E assim saíram pelo tapete vermelho por onde mais tarde entrou o Sr. Putin em gesto de agradecimento à FIFA, por certo comentando um para o outro:
- Teria sido porreiro, pá!